Candor Lunar - Livro 2
19 Capítulo 18 – O juramento no Jardim das Cerejeiras
Notas iniciais
Deus fez a segunda-feira, satanás o horário de verão! #Puuuutz!! :(
Alice encarou com horror a criatura.
De proporções bovinas, alta como um homem e forte como um urso, a criatura erguia-se de forma assustadora diante o olhar de todos no salão; um monstro saído de algum filme de terror fictício, algo horrendo e hediondo.
O pelo era denso de um tom castanho escuro, as poderosas garras de prata foram afiadas até se tornarem adagas ainda mais cortantes e perigosas que antes, os olhos queimavam numa raiva rubra, mas não era isso que tornava o lobo assustador... fora o que os Volturi fizeram a ele. Sobre o corpo do gigante havia uma couraça de aço forjada especialmente para moldar-se ao seu corpo, um aço escuro e esmaltado que tomava todo o torso do animal cobrindo-o com uma armadura de guerra, uma cota de malha de elos trançados e forjados caia-lhe pelas possantes pernas como grevas de batalhas.
Sob a cabeça descomunal, um elmo hediondo cobria o rosto natural do lobo, sobre as mandíbulas havia uma mandíbula de aço negra que imitava dentes afiados e escuros e quando a criatura abria a boca, uma fileira de aguçados dentes naturais juntava-se à primeira fileira de presas dando ao monstro a impressão de possuir um milhar de adagas afiadas nas mandíbulas possantes.
O elmo imitava uma cabeça de monstro e apenas os olhos amarelos e vívidos da criatura podiam ser vistos, o resto era apenas um lobo gigante envergando uma armadura espantosa de batalha. O grande “V” dos Volturi estampava o aço escuro no peito... era um monstro saído de pesadelos, um ser assustador e se Alice pudesse chorar já teria feito no momento em que olhou para o Lobo ou quando o olhar assustado de Bella encontrou o seu.
“Meu Deus, Quil”- pensou Alice consigo mesma – “O que eu fiz a você?”
- Contemplem, meus queridos – disse Aro num tom triunfante – Nosso mais fiel guardião, este é Quil Ateara, descendente de lobos guerreiros da nação Quileute da América. Ele resolveu ver a luz da sabedoria e unir-se a nós... antes um traidor, agora um servo desta corte. Nosso cão de guarda.
Quil rugiu ao ouvir o termo cão, mas os Volturi se deliciaram pensando que este gesto representava um assentimento do lobo, Quil permaneceu no salão
enquanto Lordes Vampiros de cidade vizinhas se aproximavam dele para inspecionar a fantástica criatura que os Três Reis haviam descoberto além dos mares; vampiras altivas com olhar arrogante tocavam na pesada armadura e uma delas até mesmo obrigou Quil a erguer a cabeça para avaliar suas afiadas fileiras de presas. Para um lobo de La Push era uma provação imensurável, mas Quil não reclamou por nem um momento sequer... ele sabia que fazia isso para aumentar as chances de Bella, Nessie e Alice.
- Estes vampiros são todos Volturi? – perguntou Alice a Bella assim que as duas se retiraram para um canto.
- Sim, são a Corte.
Bella voltara a falar normalmente com Alice há alguns dias, a mágoa por ter descoberto os segredos obscuros dos Cullen havia se acentuado em seu coração, ela mantinha uma distância levemente gelada de Alice como que para dizer que ainda estava ressentida, mas ao menos já desfizera a cara emburrada.
Alice contemplava o salão com espanto, mesmo não apreciando a cena, não podia negar que se tratava de um encontro impressionante. O sol entrava sonolento pelos poços de luz vindo de muitos metros acima, a tarde já se espreguiçava sobre o mundo e a luminosidade fazia a pele dos vampiros presentes refulgirem como milhares de estrelas cintilantes. Parecia um salão de constelações estelares.
Havia vampiros de todos os tipos, jovens e velhos, elegantes e maltrapilhos, belos e menos belos... mulheres, homens e adolescentes e, com um leve desconforto, Alice percebeu que alguns vampiros eram pouca coisa além de crianças, como Jane, com idades próximas aos treze anos.
- Cada um deles defende um distrito territorial – explicou Bella – Cuidam do território para os Volturi, estão espalhados por toda a Europa... são eles que Caius visita eventualmente com a comitiva da qual Renesmee faz parte. Eles são responsáveis por levar a Justiça dos Três Reis a vampiros que não seguem as leis de Volterra. São como... xerifes, penso eu.
- Aro lhe contou isso?
- Sim.
- E o que haverá em seguida?
- O Banquete – respondeu Bella num tom sombrio.
- Meu Deus – suspirou Alice.
- Eu não ficarei para ver, é claro. Ao menos isso Aro me permitiu apesar de que serei obrigada a permanecer aqui por mais tempo como convidada de honra; e amanhã durante todo o dia terei que fazer companhia aos Lordes num passeio pelos campos da Toscana. Eu não estarei aqui quando Renesmee chegar amanhã cedo, por favor, tome conta dela por mim.
- Talvez elas cheguem ainda esta noite.
- Acho que não, para ser franca, até prefiro assim. Ao menos Renesmee será preservada de toda a hedionda orgia de sangue que acontecerá daqui a pouco, você sabia que há uma maneira de deixar os vampiros bêbados?
- Sério? – perguntou Alice surpresa.
- É bem simples na verdade, basta beber o sangue de um humano completamente alcoolizado e você se sentirá tonto... um absurdo. Ainda bem que os animais que nos alimentam não ingerem bebidas alcoólicas, não é mesmo?
- Tenho pena deles, preferia caçá-los na natureza ao em vez de abatê-los num celeiro como se não fossem nada.
- Eu também, Lice. Mas agradeça por não nos obrigarem a beber sangue humano pelo menos.
A festa era uma homenagem dos Volturi aos seus súditos mais fiéis, ali reuniam-se grandes Senhores e Senhoras do mundo vampiro, muitos eram antigos como os Volturi e outros simplesmente foram transformados por possuírem algo de interessante: fortunas, influências ou poder. Ali estava a Corte Volturi, afinal, um reino é obrigado a possuir súditos e Alice percebia agora o tamanho da real influência que os Volturi possuíam no mundo; estranhamente, se perguntou quem seria o Lorde Vampiro na América... por que, provavelmente, teria sido um vampiro que conhecera-os e que trabalhara para os Volturi durante todo o tempo. Mas Alice vasculhou quase todos os rostos e não reconheceu nenhum vampiro que algum dia tenha visto nas proximidades de Forks.
Os vampiros conversavam animados, homens e mulheres trocavam gracejos luxuriosos enquanto os Três permaneciam em seus tronos admirando seus servos com
um olhar prepotente e consideravelmente satisfeito. Alice vestia suas roupas escuras e fetichistas com a saia curta e plissada revoando levemente com a pouca brisa que soprava ali vinda dos poços de luz; Bella, por sua vez, usava um vestido longo e rodado de cor clara que realçava seus olhos dourados e o brilho castanho dos cabelos.
Mas toda aquela pompa, todo aquele oceano de rostos de olhos rubros, estava deixando Alice levemente claustrofóbica; por mais que ela se esforçasse para permanecer ao lado de Bella, sua ansiedade crescia gradualmente. Muitos vampiros ali as encaravam com interesse em seus olhos dourados, Alice sentia a cobiça naqueles olhares, por algum motivo elas pareciam algum prêmio que os Volturi conquistaram... eram a prova de que mais um obstáculo fora superado.
- Bell – disse ela num sussurro – Você ficaria chateada se eu subisse para o meu quarto? Este lugar está realmente me dando náuseas.
- Pode ir, eu ficarei bem – respondeu Bella com um sorriso – Também não pretendo me demorar muito, afinal, eu não vou ficar para ver a carnificina que se iniciará ao cair da noite.
- Está bem.
Alice deixou um beijo no rosto de Bella e saltitou com sua habitual leveza para frente dos tronos onde Quil se encontrava sentado como um imenso lobo de guarda, ele acompanhou sua aproximação com os olhos brilhantes e baixou a imensa cabeça coroada em aço para permitir que Alice o abraçasse.
- Tudo vai ficar bem, Quil – disse ela o mais baixo que pode, afinal, poucos metros acima, estavam os três reis Volturi, mas Alice não se deu ao trabalho de olhá-los para ver se eles prestavam atenção a ela.
Quil ganiu baixinho para dizer que entendia, mas que estava miseravelmente infeliz com a situação; ali, o poderoso lobo, outrora integrante do bando do bravo Sam Uley, não era mais do que um mero serviçal dos mesmos reis vampiros que ordenaram a morte de seus irmãos. Cercado por frios, o lobo quente estava fora de seu habitat natural, longe de tudo o que considerava um lar.
Alice afastou-se com um farfalhar elegante, dançando por entre os Lordes e Condessas que a cercavam como uma maré luxuriosa, ela sentia seus desejos por seu corpo, por seus lábios; ali, Alice percebeu o quanto os vampiros poderiam ser estranhos e infinitamente distantes da humanidade. Eram criaturas movidas pelo
desejo e pelo poder... mesquinhos a qualquer outro sentimento, um calafrio percorreu o corpo da vidente quando aqueles olhos vermelhos e ávidos deslizaram por seu corpo e se arrependeu momentaneamente de estar usando aquela maldita saia tão curta.
Por sorte ela chegou às portas duplas e pesadas que lhe salvaria do martírio, abriu-as com força e saiu para o corredor frio, um segundo depois encontrou Matheu, parado, olhando-a com surpresa.
- O baile não lhe agradou, senhora? – perguntou ele naquele sotaque sedutor que misturava o italiano arcaico com uma cadencia atual da língua.
- Nem um pouco, prefiro me esconder no meu quarto.
Matheu a seguiu em silêncio através dos corredores ecoantes e dos degraus salientes da torre, Alice sentia sua presença como um vento cálido de verão, a armadura dourada do guarda-cavaleiro tilintava e o som de seu manto alvo flutuando pelo ar indicava que ele sempre a acompanhava de muito perto. Na porta de seu quarto, Matheu parou e posicionou-se silenciosamente como sempre fizera desde que Alice fora trazida para a torre; ela lhe desejou uma boa noite e fechou a porta atrás de si.
Chateada consigo mesma pelo seu plano estar dando tão errado, Alice atirou-se sobre a cama e ficou ali olhando para o teto ilustrado de Botticelli enquanto pensava em Jasper e no quanto ele lhe fazia falta. Alice pensara que uma aproximação aos Volturi poderia lhes render a oportunidade de fugir quando a guarda estivesse baixa, mas agora ela sabia que isto nunca aconteceria, ao menos não tão cedo; os Volturi caiam sobre eles como uma chuva pegajosa e só abrandariam a guarda depois de décadas ou séculos de serviços.
Não tardou para o anoitecer encontrá-la em sua cama, as estrelas faiscavam como joias prateadas pelo firmamento escuro e Alice tinha a impressão que elas também eram prisioneiras da noite, eternamente imóveis num céu estático e indissolúvel. Sem querer, seus dedos tocaram o livro que estava lendo, uma obra clássica de Vitor Hugo, ela então se levantou delicadamente e foi até a varanda apoiando-se na bancada de mármore branco. Abriu o livro e leu meia página até encontrar uma frase que lhe marcou: uma vez que o meu coração está morto, vivi mais que o suficiente.
Sentindo o frio ar da noite, Alice repassou mentalmente a frase. Ela morrera a mais de um século, mas continuava a sentir-se viva mesmo que seu coração não mais batesse; entretanto, ela pensou no coração afetivo. O coração que batia apesar de morto, batia por Carlisle e Esme, Emett e Rosalie... o coração que batia por Edward, Jacob, Seth... e, principalmente, por Jasper. Este coração estava morto, afinal, todos haviam morrido e seguindo este pensamento, Alice já havia vivido demais.
Então, talvez, a única liberdade que lhes restava era a morte. Ela não pretendia ser escrava dos Volturi, mas Alice sabia que este pensamento era hipócrita, ela temia a morte e temia mais ainda as catacumbas de Volterra. Tinha certeza de que se Aro descobrisse suas traições, ele não a mataria, ao em vez disso atiraria ela, Bella, Nessie e Quil em uma cela enfeitiçada para todo o sempre. Este pensamento a fez ter calafrios.
E bruscamente, ergueu-se da sacada e acabou distraidamente deixando o livro despencar de suas mãos quando a capa dura bateu de encontro ao mármore frio da sacada; Alice deu um pulo de susto.
- Não! – ela exclamou alto.
Mas antes mesmo de ela ver o livro tocar o solo, um vento soprou e agitou sua saia e seus cabelos, ao girar para o lado, Matheu estava parado olhando-a com atenção.
- Senhora Cullen – disse ele – O que houve?
- Matheu – Alice falou surpresa afastando-se do guarda – Nada, eu derrubei o meu livro, só isso, me desculpe por assustá-lo.
Matheu olhou para baixo em direção ao pátio até avistar o livro, num segundo ele desapareceu movendo-se na forma de um vento veloz e no outro já estava novamente na frente de Alice. A vampira se surpreendeu com aquilo, mas lembrou-se do que Carlisle lhe dissera uma vez sobre como vampiros mais velhos são poderosos; “quanto mais velho o vampiro”, disse-lhe Carlisle, “mais poderoso, veloz e habilidoso ele se torna”.
- Aqui está, senhora – disse-lhe Matheu lhe estendendo o livro.
- Ah, obrigada Matheu... não precisava ter se incomodado – respondeu Alice e sentiu um leve arrepio quando suas delicadas mãos tocaram nas grandes mãos do guarda.
Alice não conseguiu evitar encarar Matheu, era um vampiro alto e fora transformado na precoce idade de vinte anos; sustentava ombros largos e seu rosto poderia rivalizar facilmente com alguma escultura de um deus grego, tinhas os maxilares fortes e o rosto reto e austero. O cabelo era comprido e caia numa cascata negra até o meio das costas, cobrindo o manto alvo como um arranjo negro sobre a claridade do tecido.
Mas os olhos eram rubros, ígneos, brilhantes... e por mais que Alice lutasse contra, ela não conseguia ver a maldade dos Volturi neles, eram olhos profundos e antigos, mas imaculados.
- Seus olhos eram azuis antes de você se tornar vampiro? – Alice perguntou numa voz que não passava de um farfalhar.
- Eram. Como adivinhou? – surpreendeu-se Matheu.
- Suas íris são mais claras que a de vampiros que possuíam olhos escuros, o vermelho é menos vívido e mais desbotado, contra a luz parece mais num tom púrpura e lilás. É comum em vampiros que tiveram olhos claros...
- Os seus também eram claros?
- Não – respondeu Alice sorrindo ao se lembrar da cor castanha dos olhos humanos que tivera – Eram escuros.
- Isso é estranho – disse Matheu – Pois o dourado de seus olhos é tão esfuziantemente brilhante que eu jurava que possuíra olhos claros, mas, obviamente, deveria ser linda com um tom escuro também. Desconfio que não fosse capaz de ficar menos bela com qualquer cor que seus olhos tivessem... Alice.
- Matheu... – começou Alice desconfortável pela proximidade do guarda-cavaleiro, mas ele a interrompeu delicadamente ao posar sua mão sobre as dela.
- Eu vou me retirar, minha senhora – disse ele gentilmente – Conheço a dor que habita seu coração, sei que é uma mulher casada e, principalmente, uma princesa. Estarei lá fora caso precise de algo.
O cavaleiro afastou-se e fechou a porta ao deixar o quarto, Alice suspirou quando percebeu aterrorizada que sentia a falta da presença tranquila de Matheu; ela sentiu quando seu peito se comprimiu e um soluço se instalou em sua garganta mesmo que lágrima alguma lhe tenha chegado aos olhos. Sem pensar em nada, atirou-
se violentamente sobre a cama e enterrou o rosto nos travesseiros para evitar que mais alguém naquele maldito castelo de vampiros a ouvisse soluçar seu choro seco.
Ela estava perdida. Seu plano não dava frutos e Bella estava sendo inexoravelmente arrastada para o mundo sombrio de Aro Volturi, sentia seu coração arder pela falta de Jasper e ao mesmo tempo o odiava. Odiava-o por ter sido o vampiro mais bravo que conhecera e que jamais perdera uma luta, mas, infelizmente, justamente a mais importante Jasper perdera: a luta por Alice. Agora Jasper estava morto e ela não contava mais com a sua proteção e seu amor... era uma vampira sozinha e sentia seu coração estranho. Estranho por carência e solidão.
Alice enterrou ainda mais o rosto nos travesseiros e reprimiu com toda a sua vontade o desejo de abrir a porta apenas para poder sentir a presença de Matheu ao seu lado.
- Ele é um Volturi – disse para si mesma – Um Volturi.
Mas, ao dizer isso, uma vozinha maligna ecoou em sua mente: Sim querida, ele é. Mas do jeito que as coisas vão... em que você se tornará também?
A manhã chegou resplandecente. Um céu índigo clareava-se no horizonte e um vento cálido soprava as cortinas de seda branca nas janelas... Alice encarou tudo isso de péssimo humor, parecia que os céus estavam debochando de sua miséria. Ela decidiu não sair do quarto, permaneceria o dia todo atirada na cama, não queria ver nada, não queria ver ninguém... principalmente Matheu.
Bella estaria fora aquele dia, chegaria do passeio pelas terras lindas da Toscana apenas ao cair da noite, assim sendo, Alice não via motivo algum para fazer o que quer que fosse. Olhou com preguiça para o livro que descansava sobre a cabeceira da cama, estava levemente desalinhado e sujo devido à queda da sacada, mas ainda assim inteiro. Só de pensar nas palavras em italiano do livro, uma angustia tomou conta de Alice, ultimamente, qualquer coisa com o leve teor italiano já lhe era motivo para uma leve ira instantânea.
Assim, deixou-se permanecer em silêncio, perdida em seus pensamentos e remoendo suas dores e anseios, olhou para o teto e passou a esquadrinhar a genial obra do afresco que Botticelli pintara no teto de seu quarto. Havia um campo verde onde ninfas e anjos rechonchudos brincavam alegres, faunos tocavam suas liras,
nuvens brancas se afofavam pelo céu estático da pintura. De certa forma, admirar aquilo deu-lhe certa tranquilidade... ao menos até ouvir a porta se abrir num golpe violento.
Alice malmente teve tempo de sentar na cama quando Renesmee se atirou em seus braços, a vampira envolveu a menina num abraço forte sentindo seu soluçar desesperado, ela olhou a tempo de ver Matheu lhe lançar um olhar sombrio e fechar a porta para deixá-las sozinhas.
- Renesmee, o que foi que houve? – perguntou Alice assustada.
- Tia – começou a menina encarando a vampira, seus olhos estavam vermelhos e as lágrimas escorriam por seu rosto como cascatas irrepresáveis – Onde está minha mãe?
- Ela saiu, foi obrigada a acompanhar Caius e Aro num passeio estúpido para a Corte de Vampiros, mas Nessie, meu amor, o que foi que te deixou assim?
E Renesmee contou. E à medida que Alice ouvia seus olhos se estreitavam. A vampira levantou da cama quando a menina, em lágrimas, acabara de narrar o fato; Alice movia-se rapidamente de um lado para o outro do quarto arqueando as mãos e respirando ruidosamente. A fúria estava estampada em seu rosto lindo e jovem.
- Eu vou matá-la – sentenciou Alice – Vou desmembrá-la e queimá-la numa fogueira que durará semanas... não restará nem cinzas daquela maldita.
Mas um segundo depois, Alice percebeu o estado deplorável que Renesmee se encontrava e se dirigiu até sobrinha colhendo-a em seus braços e a aninhando no colo como um pequeno filhote de gato perdido; Nessie demorou mais alguns longos minutos até parar de soluçar.
- Eu não sei o que fazer, tia – disse ela – Não sei como vou fazer para escapar dela estando enfeitiçada pelo dom de Chelsea, não vou conseguir me esquivar. Quando estou dominada não tenho controle sobre minhas ações, não sou capaz de me defender... o que vou fazer? Como vou me proteger de Jane?
- Nós encontraremos um jeito, criança – respondeu Alice num tom monocórdio.
- Eu queria tanto que Jacob estivesse aqui comigo, e meu pai também.
- Eu também querida... eu também.
Alice suspirou baixinho enquanto embalava Nessie, ela sentia-se amortecida pelo que acabara de ouvir. Jane havia estuprado sua sobrinha, havia abusado dela mesmo sabendo que Renesmee não podia se defender, e ela continuaria a fazer isso... Jane não tinha quaisquer escrúpulos.
Com isso, um fato assaltou a mente de Alice, só havia uma coisa que ela poderia fazer para impedir que Renesmee voltasse a ser molestada; e a vampira percebeu que o destino a empurrava para isso de forma inexorável assim como Bella era empurrada para Aro. Parecia que o grande plano de Alice, a ideia de conseguir uma brecha através de uma falsa lealdade aos Volturi estava indo por água abaixo... com Nessie presa a Chelsea, só restava uma alternativa para proteger a menina.
Alice obrigou a sobrinha tomar um banho para lavar a nojeira de Jane do corpo e esperou quase quatro horas para que Renesmee adormecesse, ela deslizou delicadamente o corpo da menina para a cama cobrindo-a em seguida, Nessie parecia um anjo adormecido e esta visão apenas aumentou o ódio de Alice. Em seguida ela foi até o banheiro, retocou a maquiagem com um tom carregado e sombrio e deslizou pelo quarto afora.
Matheu a encarou com cuidado.
- Senhora Cullen?
- Onde está Jane? – disparou Alice sem pestanejar.
- Ela uniu-se à comitiva de Mestre Aro, deve retornar com ele ao anoitecer.
- Algum dos Reis está na cidadela?
- Mestre Marcus – disse Matheus estranhando a pergunta – Está nos Jardins, ele não aprecia os passeios com os Lordes.
- Leve-me até ele.
- Alice... – começou Matheu, mas a vampira o interrompeu impaciente.
- Leve-me até Marcus – repetiu ela num tom que não admitiria recusa.
Os Jardins de Volterra costumavam se espalhar por uma longa área nos fundos do palácio, muito além da fonte que Alice visitara um tempo atrás ficava aquilo que era chamado de O Jardim das Cerejeiras. Segundo Matheu, fora um presente de aniversário que Marcus dera a sua falecida esposa, Didyme. Era um campo aberto de grama verde aparada, cercado por canteiros de lírios e arruda; ali cresciam enfileiradas
altas árvores de cerejeira com sua fragrância doce e suas folhas rosadas; os troncos eram esguios e escuros e erguiam-se como uma floresta de algodão-doce.
Alice ficou impressionada pela beleza do lugar, era um local de sonhos, como se ela estivesse caminhando no céu onde tudo se resumia àquelas árvores lindas e delicadas com sua coloração vívida e marcante. Mas, entretanto, assim que cruzou um portal alto de pedra escura, seu alívio desapareceu por completo... ali, ao fundo, de encontro a um pequeno chafariz, encontrava-se Marcus. Estava imóvel, sentado nos degraus de pedra do que outrora parecera um altar para orações... esculturas de santos sem rostos jaziam gastos e silenciosos ao redor do vampiro.
Matheu parou junto dos outros dois guardas que esperavam o seu senhor, fez-lhes um comprimento rápido dizendo:
- A Senhora Cullen está aqui para falar com Mestre Marcus.
- Se Mestre Marcus estiver disposto a lhe dar atenção... – sorriu maldosamente um dos guardas saindo do caminho para permitir que Alice seguisse a diante.
Matheu não a acompanhou.
Alice caminhou sorrateiramente até o Rei, mas Marcus não fez qualquer menção de ter percebido sua presença, o vampiro parecia estar num sono cerrado, com os olhos fechados. A vampira notou o tom de pele claro do Rei, parecia que uma camada fina de mármore recobria sua tez clara como a neve, olhando assim, Marcus parecia-lhe apenas um velho ancião preso num corpo jovem. Seu rosto não tinha rugas, nem qualquer marca de tempo, entretanto, ela sabia o quão antigo ele era; não era um rosto belo como o de Aro ou Caius, era anguloso e seus olhos eram cavernosos. Os cabelos caiam-lhe compridos e negros sobre os ombros.
Talvez tenha se passado apenas poucos minutos, talvez horas... Alice não soube dizer ao certo, ela aguardou pacientemente até que, finalmente, mesmo sem abrir os olhos, Marcus se dirigiu a ela dizendo:
- O que deseja... minha criança Cullen? – sua voz era lenta, pesarosa, como se pronunciá-las exigisse um esforço tremendo do vampiro; palavras pausadas, cuidadosas e estranhas.
- Você é o Rei presente em Volterra – disse Alice – Então é o único que pode me aceitar agora que decidi fazer parte de sua família.
Marcus não respondeu, mas vagarosamente abriu os olhos para encarar Alice; eram olhos vermelhos, brilhantes, perigosos, tinham uma cadencia diferente da dos irmãos. Aro tinha um olhar rápido e esperto e Caius sustentava nos olhos a malicia e a luxúria, mas Marcus não. Era impossível discernir o que aquele olhar significava; encarar os olhos de Marcus era o mesmo que encarar um abismo profundo e escuro, por mais que se esforce é impossível perceber seu fundo.
O vampiro ergueu a mão com cuidado e fez um gesto para que Alice se aproximasse e assim que ela o fez ele falou baixinho:
- Ajoelhe-se.
E ela o fez.
- Somos velhos – começou Marcus com sua voz rouca que soava pouco mais forte do que o formar do orvalho na grama – Os Volturi são velhos, mas não tão velhos quanto alguns... ainda assim, não somos tolos; por isso, criança, se jurar lealdade a nós será uma de nós até o fim dos tempos. Não adianta jurar falsamente, nem jurar com leviandade, no momento em que o nome Volturi fizer parte de vós, será eternamente filha desta cidadela e tua alma se modificará e será capaz de ver o mundo através dos olhos de uma vampira... e não de uma humana. Eu sinto a lealdade das pessoas, sinto seus laço, é o meu dom... e percebo que você tem urgência a se unir a nós.
Alice sentiu uma mão gelada comprimir seu peito, aquelas palavras eram muito mais do que palavras, eram um aviso. Marcus a estava avisando que por mais que ela jurasse futilmente, seria uma Volturi. Por um segundo, apenas isso, Alice sentiu-se impelida a voltar atrás... mas lembrou-se de Renesmee.
A única forma de mantê-la a salva de Jane era poder ficar perto dela, e a única forma de ficar perto de Nessie era estar livre para acompanhá-la e só adquiriria isto sendo uma Volturi.
- Volturis não se alimentam de animais – disse Marcus num tom monocórdio – Volturis não amam humanos e nem participam de sua sociedade a não ser quando necessário para os próprios interesses. Volturis são a realeza, Senhores de Vampiros, somos nós que regemos os de nossa raça, os que criam as leis e sentenciam os ultrajantes. Nós somos o divisor de águas, nós mantemos nosso mundo oculto do dos humanos... somos Volturi, e governamos. Você entende?
Alice engoliu em seco. “Volturis não se alimentem de animais”.
- Eu entendo – respondeu ela num sussurro.
- O que você viveu antes não importa mais – continuou Marcus – Quem você conheceu ou quem amou não importa mais, tudo o que resta de agora em diante é a vida que doará aos Volturi e à causa.
- Eu entendo – repetiu Alice.
- Eu sou Marcus Melchiorre Volturi e aceito-a como parte desta Corte, serei seu Mestre e seu Juiz e se ousar trair a mim ou meus irmãos ou à Ordem dos Vampiros e suas leis... irei pessoalmente sentenciá-la a morte. Juraste lealdade diretamente a um rei e assim torna-se minha filha e minha principal serva. Outrora fora Alice Cullen... erga-se agora como Alice Volturi.
E Alice o fez, e ao fazê-lo sentiu como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros; acabara de jurar lealdade a Marcus Volturi, o mesmo Rei que junto dos irmãos fora o responsável pela morte de sua família. O plano falhara, o cerco se fechara... e Alice repetia para seu próprio coração que não tivera escolha.
Marcus levantou a mão e um segundo depois os dois guardas e Matheu estavam ao seu lado.
- Ajoelhem-se, meus vassalos – disse Marcus para espanto de Alice – Ajoelhem-se diante de minha nova filha e serva, está é Alice Volturi... Princesa de Volterra.
Alice observou os guardas caírem de joelhos a sua frente, Matheu seguiu-os, não sem antes lhe lançar um olhar estranho... como se ele estivesse profundamente triste pelo ocorrido. Em seguida, Marcus os dispensou com um aceno dizendo que não precisava mais deles, Alice faria sua guarda enquanto ele meditava.
A vidente não pôde negar, agora não tinha mais alternativa. Mas desejou poder voltar ao quarto antes de Renesmee despertar... e ali, no Jardim das Cerejeiras onde fizera seu juramento, Marcus fechou os olhos novamente e pareceu se eximir de qualquer outra coisa que o cercasse.
Entretanto, Alice notou nos lábios do velho vampiro um sorriso estranho. Não era um sorriso de triunfo por ela ter jurado lealdade a ele, não, era um sorriso mais premeditado, algo que parecia dizer respeito apenas a Marcus; era como se o Rei estivesse contente com alguma coisa... como se algo tivesse saído exatamente como ele havia planejado.
Marcus permaneceu durante horas em seu sono estático. Somente quando a noite caiu retornou para o Salão dos Tronos a fim de aguardar a chegada dos irmãos e uma vez lá, dispensou Alice com um aceno de mão. A vampira correu pelos corredores até chegar ao seu quarto, estranhou de imediato a ausência de Matheu em sua porta e entrou sorrateiramente apenas para constatar que Renesmee ainda dormia profundamente.
A vampira afagou levemente os cabelos da sobrinha e só então percebeu o motivo da ausência de Matheu: agora era uma Princesa de Volterra e poderia ir e vir para onde quisesse. Com este pensamento em mente, Alice deixou Nessie na cama e desceu para os corredores vazios a fim de testar sua teoria.
Ela caminhou livremente pelos salões e bibliotecas, salas de jantar nunca utilizadas, salas de banhos, quartos e aposentos sem fim... e por onde passava, os vampiros faziam-lhe reverência. A princípio Alice não compreendia o porquê, somente depois de alguns dias iria descobrir que raros eram os que juravam lealdade diretamente a um Rei e quando o faziam eram considerados filhos. Sem querer, Alice fizera exatamente isso e para sua sorte (ou azar) Marcus, um dos Três, aceitara-a como filha e como serva... por isso Alice tornara-se uma princesa.
Depois de algum tempo, desceu aos pátios e notou a agitação da chegada dos Lordes que haviam saído cedo para aproveitar a beleza da Toscana italiana. Chegaram em carros luxuosos e ostentativos e somente depois que a confusão inicial de vampiros se desfez um pouco é que Alice enxergou Bella cruzando o pátio. Ela correu ao encontro da irmã que a recebeu num abraço apertado.
- Alice – suspirou Bella – Estou exausta como nunca imaginei poder ficar, passar o dia todo na companhia destes Lordes foi algo que testou minha paciência... você ficaria espantada. Lice... são todos Volturi, a forma de pensar, de agir, de se portar. Eles realmente seguem à risca as leis impostas por Aro, Caius e Marcus. Apesar de tudo, não deixa de ser algo impressionante. Eu nunca poderia pensar que existia uma ordem estabelecida desta forma, é literalmente um governo de vampiros... há até uma legislação. Você sabia?
- Na verdade não, mas eu imaginei que existiria – respondeu Alice – E apesar de você estar cansada irmãzinha, eu receio que tenha de te contar algumas coisas que...
Mas Alice não terminou de falar, subitamente, surgiu ao seu lado um mensageiro dos Reis, um menino jovem e belo, vestido em veludo negro, fez-lhe uma reverência exagerada e falou com uma voz esganiçada, mas educada.
- Minha Princesa – começou ele – Mestre Marcus exige vossa presença no Salão dos Tronos, ele pede que a senhora permaneça ao seu lado para a despedida dos Lordes.
- Ah, obrigada – respondeu Alice sem jeito.
- “Minha princesa?” – repetiu Bella sem entender assim que o mensageiro partiu.
- Jurei lealdade a Marcus Volturi nesta mesma tarde – disparou Alice sem pestanejar.
Como esperado, Bella afastou-se dois passos para longe de Alice, sua face assumiu aquela conhecida expressão de desentendimento que Alice conhecia e amava... Bella tentou balbuciar algumas palavras, mas elas saíram desconexas e ininteligíveis. Era como se tivesse sido traída e Alice apressou-se em agarrar-lhe as mãos e puxá-la para um canto mais remoto do pátio sobre a proteção dos pilares escuros de mármore.
- Eu não tive escolha – começou Alice.
- Eu realmente espero que não – descabelou-se Bella.
- Bell, eu preciso lhe contar uma coisa... mas você não vai gostar.
À medida que Alice narrava os acontecimentos que Nessie lhe contara, o rosto de Bella tornava-se sombrio... como se uma máscara de horror, ódio e desespero lhe cobrisse o rosto emoldurado. Ela travou os maxilares e as mãos fecharam-se em punho cerrado ao lado do corpo; no momento em que a irmã terminou de falar, Bella permaneceu quieta por um tempo... tanto tempo que Alice se perguntou se ela não havia entrado em coma de tanta raiva.
- E por isso fui obrigada a jurar lealdade a eles, Bella... foi a única forma que encontrei de poder ficar ao lado de Nessie e livrá-la de Jane. Agora me pergunto se foi realmente uma boa ideia.
Bella, então, desviou os olhos dos de Alice e encarou a porta de carvalho do hall de entrada, quando ela se moveu, foi com tamanha velocidade que Alice mal teve tempo de acompanhar seus movimentos. Como um vento furioso, Bella se precipitou pela porta do castelo adentro e desceu as escadas até o Salão do Trono não parando para prestar atenção a qualquer coisa que a cercasse.
Alice a seguiu de perto, mas não foi capaz de segurá-la nem mesmo quando Bella chocou-se com violência contra as portas duplas do Salão, as portas pesadas de carvalho desprenderam-se dos encaixes e desabaram no chão com um estrondo semelhante ao de um trovão desgovernado pelos céus. O eco chamou a atenção das dezenas de vampiros ali reunidos.
Mas Bella não se deteve aí.
Como um furacão de ódio, atirou-se pelo salão, através dos Lordes e Condessas, até encontrar Jane na frente da escadaria de acesso aos três tronos, uma vez ali, Bella aproveitou seu impulso e atingiu com um murro descomunal o nariz de Jane. Houve o som grotesco de algo se quebrando e a pequena vampira foi atirada pelos ares, cruzou voando os tronos, sobre a cabeça de Caius, e se chocou com violência contra a parede no fundo do salão.
Quando levantou cambaleante, todos puderam admirar o rosto de Jane quebrado como uma placa de mármore estilhaçada... o nariz estava esmigalhado e os olhos da pequena vampira lutavam para focalizar o que acontecera.
Mas antes de qualquer coisa, antes que Alice ou Felix pudessem chegar perto de Bella, a voz irada de Caius se fez presente sobre o murmúrio geral que tomava o salão.
- Perdeu completamente o juízo, menina? – cuspiu Caius – Explique-se imediatamente, o que significa isto?
Mas Bella não respondeu, simplesmente caminhou até o trono de Aro e caiu de joelhos em frente ao vampiro, em seguida, pegou-lhe a mão direita e beijou-a como um fiel beija a mão de um Rei.
- Significa... Caius – disse Bella num tom arisco – Que estou aqui para jurar minha lealdade aos Volturi.
Notas finais
E aê? Digam suas impressões.
Bjks e até semana que vem.
Diê Kellner.
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