Candor Lunar - Livro 2
47 Capítulo 44 - A Vingança do Terceiro
Notas iniciais
Os Três estavam ali, onipotentes.
Apenas sua visão serviu para colocar um dedo gelado de receio em cada um dos Cullen e de seus aliados, em pé, calados, altivos, com uma máscara de indiferente fúria no rosto e cercados por sua guarda principal, o Reis exalavam uma complexa aura de poder e terror.
O Salão dos Reis era um local amplo, facilmente trezentos metros quadrados de espaço vazio dedicado a eles, colunas de rocha erguiam-se por todos os lados e o tablado dos tronos ficava numa área mais elevada e acessível através de um lance de pelo menos vinte degraus. Atrás dos tronos, cobrindo toda a extensão da parede, havia uma imensa parede de vidro erguendo-se do chão ao teto como olhos escancarados, da parede translúcida podia-se admirar o penhasco que desabava quatrocentos metros abaixo no rochedo escarpado e pontiagudo onde as ondas do mar golpeavam incessantemente a rocha escura.
Surgiu uma tensão crepitante no salão quando os dois grupos de opositores se encararam, como se aqueles olhares oblíquos soltassem faíscas de eletricidade sempre que se encontravam. E havia raiva ali, uma raiva hora melancólica, hora irracional; uma ira que simplesmente não seria dissipada com palavras, desta vez não haveria falatório e a retórica dos Três seria insuficiente para frear a sede de vingança dos invasores.
Os Reis leram esta certeza no olhar sombrio de Edward Cullen que encabeçava o grupo todo.
E leram também a imensa desvantagem em que estavam.
A Guarda Principal dos Volturi, outrora cheia de arrogância e prestígio, estava esfacelada, Alec e Demetri haviam sido destruídos, restando apenas Felix com sua enorme força e Jane com o poder de ataque à distância. Chelsea não servia muito para lutas e tampouco Renata, Corin, o aio de Athenodora, era menos que qualquer ajuda e que só servia para fazer os outros felizes; o restante da guarda era um ajuntamento de oficias sem qualquer poder realmente efetivo numa batalha.
Os Reis analisaram seus oponentes sabendo que estavam em desvantagem, apesar de apenas um dos lobos estar presente, somente aquela criatura abissal encouraçada em ferro e aço seria suficiente para varrer os guardas mais fracos; sem contar com o dom de Jasper e com a capacidade de conhecimento em batalha de Matheu, Vrau Urban, Dean Portman e Garret. E o problema maior ainda era a raiva que Edward Cullen fazia questão de emanar para todos os lados.
Mas a maior de todas as ruínas ainda não havia chegado.
– Então, tiveram a ousadia de nos desafiar? – perguntou Aro numa voz mordaz.
– Tivemos a ousadia de destruí-los – atirou Edward com raiva.
– Como se isso fosse uma tarefa fácil – Caius riu um riso diabólico – Vocês cairão todos antes de Arian chegar aqui. Isso eu lhes garanto.
– Palavras sem fim – Edward retorquiu e a calma fria de sua voz fez com que os olhos dos reis se estreitassem – O tempo das suas palavras terminou, Caius. Não viemos aqui para ficar trocando palavras ou para cair em sua retórica, não, agora já é tarde demais.
– Você sempre foi um petulante, Edward Cullen...
– Basta – Edward voltou-se para os seus amigos – Vamos destruí-los!
Não foi preciso tempo algum para que os companheiros de Edward respondessem ao chamado, todos, de uma só vez, atiraram-se contra a Guarda Volturi, minguada e desacreditada, e a última defesa de Três reis encurralados. E esta sintonia perfeita surpreendeu a Guarda acostumada à lentidão dos diálogos dos reis, nunca antes poderiam conceber que um bando de inimigos atirar-se-ia furiosa e destemidamente contra as suas fileiras; geralmente todos ficavam com medo. Mas medo era algo que os intrusos de Edward não tinham.
Afinal, por que haviam de temer os Volturi?
Mesmo com a ausência de Jacob e Seth, Quil era capaz de lidar sozinho com o pelo menos três inimigos de cada vez; Garret e Vrau Urban tinham anos de experiência; Jasper tinha seu dom, assim como Edward. Carlisle também já vira muita coisa do mundo e sabia como se defender apesar de seu pacifismo nato. Bella estava ferida, mas Giordano, Seline e Margot não permitiriam que nada acontecesse a ela. Didi era psicótico o suficiente para conseguir alguma vantagem e Dean Portman não podia de forma alguma ser subestimado. Miguel, apesar de não ser um lutador exímio, tinha seu dom de camuflagem para se valer sobre os oponentes... no fim das contas, os Volturi sabiam que estavam em clara desvantagem.
Felix urrou na direção de Edward como um louco enraivecido, cometendo um erro primário: anteriormente o gigante Volturi fora auxiliado por dois Mercadores da Morte, mas agora a audácia de Edward fez com que ele simplesmente se esquecesse de que lutar contra um leitor de mentes era uma coisa bastante complicada de se fazer sozinho.
Edward nem pensou em recuar, Felix despejou sobre ele ataques seguidos a uma velocidade alucinante numa tentativa de sobrecarregar o poder de Edward, mas era praticamente inútil, Edward era naturalmente muito mais veloz que o gigante, seu poder apenas complementava a esquiva certeira de Edward... e quando Felix erroneamente abriu a guarda, Edward atacou-o sem qualquer piedade. Felix cambaleou para trás, mas era forte demais e logo colocou-se novamente em defesa aparando os golpes que Edward lhe lançava.
O poder de Jane tornou-se inútil. No momento em que todos se moveram ela atirou contra Edward seu dom de causar aflição, mas ela ferveu em fúria quando percebeu que seu poder fora inutilizado, Edward continuava a lutar sem nada atingi-lo. Jane mirou outros alvos, mas o resultado era sempre o mesmo, por mais que ela forçasse não conseguia atingir ninguém e a compreensão do fato só veio quando ela correu os olhos por Bella que lhe lançou um sorriso maldoso nos lábios. Bella havia empacotado a todos com seu escudo mental... a maldição de Jane não seria capaz de feri-los de modo algum.
Os guardas rasos foram destruídos sem muitos contratempos, quase nenhum deles era capaz de resistir ao corpo couraçado de Quil ou à fúria dos amargurados vampiros que haviam vindo até ali apenas para se vingar. Giordano, Seline e Margot não permitiam que inimigo algum chegasse perto de Bella, sempre que algum guarda atirava-se para perto dela era rechaçado com violência.
A falta de Demetri e Alec era visível. A guarda estava bastante desestruturada sem eles, tirando que alguns já haviam sido mortos nos pátios, a única força ainda ativa era Felix, mas os Cullen não estavam para brincadeira, não desta vez, quando a luta entre o Edward e o gigante se estendeu, Garret e Vrau Urban atiraram-se para terminar de uma vez com aquela defesa Volturi. Com três oponentes atacando-o de uma só vez, Felix, o membro mais forte da Guarda, foi obrigado a recuar para junto de Jane aos pés da escadaria de acesso ao tablado dos tronos.
O ataque dos Cullen silenciou por um segundo... apenas o suficiente para que os Três estivessem cientes de que estavam derrotados. Mas a fúria no rosto de Aro e de Caius contrastava completamente do sorriso divertido e praticamente louco que se pendurava nos lábios de Marcus.
Atrás deles restava apenas Renata e Chelsea, Renesmee olhava para o grupo com um olhar levemente atordoado, mas uma ruga de estranheza espreitava sua face, como se ela estivesse tentando se recordar de algo, sem sucesso.
Com Athenodora atrás de si, Caius de um passo firme para frente, olhava com descrença para os parcos guardas que restavam de sua preciosa Guarda.
– Eu sugiro que vocês todos não deem um passo a mais – ordenou ele numa voz venenosa.
– Ou o quê? — Jasper retorquiu num tom perigoso.
– Vocês tem noção do que fizeram? — Aro soou contrariado, aflito e irado – O governo dos vampiros é algo tênue e frágil, nos enfrentando vocês abalam o sistema que funciona há séculos...
– Um sistema tirânico, um sistema que amedrontava os vampiros, no fim vocês apenas fizeram mal ao nosso povo – atirou Edward.
– Nosso povo? — Caius olhou-o com nojo – Nosso povo? Agora é o povo de todos? Quando é que vocês, os Cullen, fizeram alguma coisa pelo nosso povo? Vivem entre os humanos pensando que eram superiores a todos nós por não beber sangue humano, vocês com seus olhos dourados vivendo isolados como se fossem pessoas comuns? Nós Volturi, sintetizamos o sangue humano, criamos os Bancos de Sangue para diminuir a matança de humanos neste século onde podemos ser descobertos facilmente... fomos nós que lutamos nos primórdios do mundo para que os vampiros não destruíssem este mundo esquecido por deus, então não me venha com esta bravata inocente seu fedelho de merda.
– Nós desejávamos apenas a paz – Carlisle falou numa voz serena, mas triste; ele abriu os braços dando um passo em frente – Jamais tivemos a intenção de algum dia desafiar a soberania dos Volturi, de algum dia nos indispor com vocês, meus antigos amigos. Mas Caius, a ambição de vocês três ultrapassou limites, Volterra não mais significava o centro do poder vampiro, mas uma casa de medo onde todos não viam uma ordem, mas um ponto negro de temeridade. Não fomos nós que provocamos esta guerra.
– E você acha que suas ações pacifistas não teriam nenhum impacto em nosso mundo, Carlisle? — Aro olhava-o com desdém – É ingênuo demais, meu antigo amigo. Vocês estavam vivendo em uma sociedade que não era de vocês, expondo-se, colocando-se à luz e correndo o risco de que os humanos descobrissem a sua identidade; e se isso ocorresse, o que fariam? Casariam com cada um que soubesse a verdade sobre vocês? E sobre outros perigos? Esta criança aqui – e neste momento Aro apontou para Renesmee ao seu lado – Estava prestes a se unir a um Lobo de La Push, uma entidade mágica, o que poderia surgir desta união? Que nova raça desabrocharia para além de nosso controle? Você não entende de magia, Carlisle, eu sim. Eu vi a magia nascer nos anos escuros deste mundo. Charlotte, filha de Salesiana e Forge, esteve com vocês nesta viagem e creio que é a ela que devemos creditar o fato de Arian estar livre... mas você viu o que a magia é capaz de fazer, não sabemos o potencial destrutivo dela, a magia é tão perigosa para nós quanto para os humanos, é tão estranha para nós, vampiros, seres sobrenaturais, quanto para os homens mortais. Você – Aro apontou para Edward – Você libertou dois males sobre este mundo, Edward Cullen, Arian e Charlotte. Sem contar que se estão vivos ainda é porque também libertaram Bianca, a única capaz de conter a ira de Arian, e se Bianca está livre então este mundo realmente terminará em chama e sangue.
– Esta conversa nunca terá fim – Garret interveio abruptamente – É sempre a mesma ladainha. Os Volturi fazem o que fazem por um motivo, os Volturi usam de métodos pouco ortodoxos por uma causa nobre, os Volturi tem a preocupação com o mundo dos vampiros e mesmo seus atos hediondos são nobres, pois visam o bem de todo o mundo dos homens. É como Edward disse: o tempo de vocês terminou, não cairemos mais neste falatório sem fim.
– Oh, não? — Caius olhou-os como um adulto encara uma criança birrenta – Então venham, não sejam acanhados, derrotem-nos, derrubem-nos... destruam-nos. E então vocês se sentarão nos Tronos de Volterra, Edward ou Carlisle? Ou melhor, Arian se sentará?
Um silêncio pesado caiu por alguns segundos no salão, Carlisle e Edward entreolharam-se por uma fração de segundos, mas foi o bastante para que um sorriso de compreensão preenchesse o rosto de Caius.
– Então, quem será rei?
– Não haverá rei algum – disse Edward por fim – Os vampiros serão um povo livre.
– Vocês vêm todos até aqui com seus olhares superiores julgando-nos... quando na verdade o que propões é a anarquia de um modo que equilibra-se no gume de uma espada – a voz der Aro era firme, porém meditativa – Acusam-nos de tiranos, mas apesar de toda a sua suposta nobreza o fim do mundo será culpa dos Cullen. Os vampiros precisam de uma liderança ou irão desembestar um banho de sangue a nível global.
– Você não pode saber isso, Aro – disse Edward – Nunca antes os vampiros foram livres, ou pelo menos não livres desde que os Volturi existem. Vocês nos olham com olhar superior, não nós a vocês. Pensam que sabem tudo, que sabem mais que todos nós.
– E, de fato, sabemos.
– Mas não tudo... os culpados são vocês, não nós.
– MALDITOS TOLOS PREPOTENTES – explodiu Caius de repente.
– MALDITOS VOCÊS, VELHACOS E TIRANOS, QUE LANÇARAM NOSSA RAÇA NO MEIO DO LODO DE SANGUE E TERROR QUE IMPUSERAM ATRAVÉS DOS SÉCULOS – bradou Edward furioso sendo segurado à força por Carlisle – A CULPA É DE VOCÊS. DE VOCÊS.
Bella jamais vira seu marido tão irado em toda sua vida, somente agora percebia o quanto tudo aquilo havia o afetado. Ela mesma se sentia horrivelmente apreensiva por Renesmee ainda estar em posse dos reis, mas o comportamento visceral de Edward não demonstrava nada além de raiva e propósitos de dano ao mundo dos vampiros. Bella não gostava de admitir para si mesma e provavelmente nem seria capaz de comentar aquilo em voz alta naquele momento, mas ela presenciara durante dois anos a vida de reinado dos Volturi e conhecia todos os esforços dos Três em diminuir o impacto do sobrenatural sobre o mundo dos homens. A cruzada de Edward e dos outros ameaçava lançar os vampiros num mundo sem leis, sem ordem. E não havia nada que ela pudesse fazer.
O ódio tomava conta de todos.
Mas então outro som, aos poucos, se sobrepôs ao ódio e a discussão que se tornava cada vez mais acalorada, no início Bella pensou que era coisa de sua imaginação, pensou ter se enganado, mas o som tornou-se cada vez mais alto até se tornar claro como cristal. Uma gargalhada histérica que beirava a sandice. A princípio era um risinho cômico como o de uma criança malvada observando um circo de horrores, mas agora aquela gargalhada desenfreada tomou força, encontrou fôlego e passou a ecoar e reverberar pelo salão dos tronos com força suficiente para calar a discussão que se agitava feito uma tormenta.
Quando todos se calaram, um a um os rostos constrangidos e surpresos se viraram para o tablado dos reis... encarando o autor da gargalhada desvairada.
O terceiro rei estava mais afastado dos outros, ao fundo do tablado, quase encostado na parede de vidro, observava a todos com um olhar arregalado e rubro, cheio de malícia; aquele olhar era semelhante a de uma serpente olhando para uma presa e prestes a dar o bote; e sua gargalhada fez com que um arrepio percorresse o corpo de Bella. Havia algo errado ali, tremendamente errado, e estava para se revelar. Quando Marcus finalmente cessou de rir, ele simplesmente ficou lá encarando a todos como se nada tivesse acontecido.
– Marcus – chamou Aro mal humorado– O que se passa?
– Sou eu... eu sou o culpado – respondeu Marcus em alto e bom som, com uma voz forte e clara e muito diferente de seu tom apático. Este comportamento chamou atenção dos irmãos e de todos ali acostumados ao comportamento eternamente apático do Terceiro. Marcus virou-se para Edward Cullen e abriu os braços num movimento de entrega – Não são os Volturi, meu caro menino, culpados pelas suas perdas e pela sua dor, sou eu, eu sou o culpado de tudo.
– Marcus, esta é uma conversa sem sentido – atalhou Caius se zangando.
– Oh, não, meu irmão, não é de modo algum sem sentido – respondeu Marcus e havia agora um olhar perigoso em seu rosto, ele caminhou até a beirada do tablado e olhou para os irmãos – Estamos exatamente onde deveríamos estar, aliás, ouso dizer que nem mesmo em meus mais delirantes sonhos eu imaginei que o meu plano daria tão infalivelmente... certo.
– Acho que tenho que exigir uma explicação, Marcus – pediu Aro, a voz fria feito aço.
– Claro, claro – a voz do Terceiro era falsamente calma, falsamente doce – Eu vou explicar para vocês, só estou feliz que tenhamos um público assim tão interessante nos olhando, não é? Quem diria? Melhor do que eu esperava. Isto aqui, meus irmãos – Marcus abriu os braços para insinuar todo o salão, todas as mortes ali presentes, assim como toda a destruição perpetrada através do Pináculo da Luz – Isso aqui é a minha vingança contra vocês. É a minha vingança contra os Volturi.
Houve silêncio, mas então Garret falou de forma feroz, apesar de que sua voz soou um pouco incerta.
– É apenas mais um subterfúgio para que eles nos atrasem!
– Não, não é – Marcus respondeu sério – Vocês estão aqui, todos vocês, graças a mim. Vocês são os meus arautos, os arautos do fim. Estão aqui para fazer a minha vontade, aquilo que planejei por séculos. Mil anos! Esperei por este momento por mais de mil anos.
– Marcus, mas que malditas palavras está cuspindo desta boca? — berrou Caius indignado – Estamos à beira de uma crise e você fica falando asneiras! É melhor voltar a cair em sua apatia de sempre e deixar de nos atrapalhar.
– Infelizmente a minha aparente apatia não voltará meu irmão. Eu estou aqui agora para findar de uma vez por todas com tudo, esta é a hora mais negra para os Volturi. Esta é a hora de Marcus. E o sangue da casa de Volterra correra negro e grosso como rios de piche.
– Marcus – a voz de Carlisle era calma – Por favor, queira nos explicar o que está acontecendo. Você esperou mil anos para quê? O que é tudo isso, o que representa tudo isso?
Uma vez mais o Terceiro olhou para todos, e um sentimento de antecipação como se uma grande revelação estivesse para acontecer tomou conta de cada indivíduo naquele salão. Ante aquele olhar Bella sentiu novamente um frio descer-lhe pela espinha.
– Eu amei uma mulher mais que tudo – começou Marcus, de repente seus olhos se focaram num ponto inexato no espaço vazio e sua voz soava como se ecoasse de um passado distante – Didyme. Não foi apenas o dom dela, muitos julgam que foi a ausência de seu poder de gerar a felicidade que me tornou apático, mas esta informação é inexata... minha apatia era uma máscara. Cada rei tem a sua. A minha máscara ocultava o que estava por baixo, no núcleo, no meu cerne, ocultava o ódio violento e cataclísmico que eu nutria pelos meus irmãos. Didyme era irmã de Aro, mas isso não impediu que Aro a assassinasse.
Houve um suspiro de surpresa. A face de Caius escureceu de ódio, e Aro claramente encarava Marcus temendo virar o rosto e encontrar os olhos de Bella, pois ela agora o olhava com uma expressão que mesclava mágoa, terror e tristeza para com aquele que quase se tornara seu marido. Poderia realmente ter Aro assassinado a própria irmã, esposa de um irmão escolhido? Mas a resposta à indagação muda de Bella não tardou.
– Didyme e eu estávamos felizes, bastávamos a nós mesmos – prosseguiu Marcus – Mas esta felicidade ia contra os planos de grandeza de Aro e Caius, Volterra tinha de ser governada por Três e a minha presença já se fazia necessária e era insubstituível. Afinal, que pensariam os vassalos dos Volturi se um dos reis decidisse deixar seu castelo simplesmente? Não. Minha presença deveria ser assegurada e o único meio de fazer isso era destruir a minha felicidade... e minha felicidade era Didyme. Mas havia um erro, vocês – ele apontou para Caius e depois, lentamente para Aro – Vocês pensaram que eu estava ignorante dos seus planos, pensaram que foram capazes de esconder de mim este traiçoeiro e hediondo crime... mas estavam errados, ou soube de tudo. Eu soube que foram vocês que armaram para que a minha querida Didyme fosse assassinada por aqueles vampiros nômades enquanto passeava pelos campos da Toscana.
– E eu, então, decidi elaborar a minha vingança – Marcus continuou ante os irmãos abismados – Mas não qualquer vingança, muitas vezes pensei em matá-los, meus irmãos, esmigalhá-los com minhas próprias mãos, mas isso seria bom demais para vocês dois. Eu tinha que fazer algo mais, eu tinha que desacreditá-los, tinha que destruir e sepultar todo o trabalho que tiverem durante séculos. Eu tinha que destruir Volterra.
– Isso é sandice! — bradou Caius – Você está fora de si.
– NÃO! — Marcus gritou contra o irmão – Não é sandice, é retribuição. Eu trilho este caminho há muitos e muitos anos, Caius. Tudo calculado para culminar aqui, nem tudo saiu como eu planejava, mas terminou melhor.
– Marcus – chamou Aro com uma voz culpada – Desde quando planeja tudo isso? Desde quando começou a planejar a nossa ruína?
– Ah, isso é o meu segundo fôlego, Aro. O primeiro foi capitulado, você e Caius conseguiram sustar os meus planos iniciais. Quando percebi que o poderoso Arian estava cansando de apenas guerrear eu comecei a agir, vi nele a oportunidade de destruir vocês dois e Volterra ao mesmo tempo. Arian não tinha interesses reais, não queria ser rei, pensava apenas em guerrear e guerrear, quando percebi a aproximação do príncipe e da rainha eu soube o que tinha de fazer. Envenenei furtivamente a mente de Bianca contra o seu velho rei Aro, e instiguei-a a começar a voltar seus olhos ambiciosos e jovens para alguém muito mais poderoso: Arian. E minha insistente orientação deu certo, quem diria! Bianca e Arian se apaixonaram, e este amor surgiu principalmente depois do golpe que você organizou Aro, aquele que enviou Bianca como uma isca viva!
– Fernanda Clermont – o nome saiu da boca de Aro como um murmúrio quando a lembrança lhe clareou a memória – A revolta de Fernanda Clermont. Eu me lembro de você ter sussurrado em meus ouvidos, Marcus, lembro-me de você ter dado a ideia para fazer de Bianca a isca e de enviar Arian para protegê-la. Agora está claro, você tinha a intenção desde o princípio de fazer Arian se revoltar contra a revelação de que eu o usei para forçar o plano a dar certo enquanto nossas forças iam até a França para destruir Fernanda. Você... planejou tudo isso?
– Eu conhecia o ímpeto de honra de Arian – Marcus respondeu – Sabia que ele se sentiria traído por ter sido usado... e por você ter colocado Bianca, sua própria Rainha, em risco apenas para que um plano desse certo. E você caiu feito um pato, Aro, acreditou em mim, na minha voz mansa e apática, na minha estratégia que no fim se mostrou infalível. Eu acreditava que ali começaria a revolta de Arian contra vocês, mas meus subterfúgios surtiram mais efeito do que eu poderia calcular a principio... Arian e Bianca se apaixonaram. Por que algo melhor que isso? Um príncipe apaixonado por sua rainha, Arian teria que derrubá-lo para poder levar adiante sua paixão com Bianca. Era perfeito.
– Mas meu plano ameaçava ser frustrado – continuou Marcus, franzindo a testa – Arian não tinha interesse algum em governar. Aliás, muito pelo contrário, ele já estava praticamente convencendo Bianca a partir de Volterra para serem livres e isso não me ajudaria em nada, pois eu contava com o guerreiro-deus justamente para destruí-los. Então envenenei aos poucos a mente de Alec, ele que tinha uma mente ambiciosa começou a ver a amizade de Arian como um empecilho para sua própria subida ao poder, Alec aspirava ser mais importante do que era e quando eu lhe convenci de que Arian destruiria Volterra ele simplesmente caiu em minha teia. Alec não queria o fim de sua vida pomposa, ele gostava de aproveitar a posição que tinha em Volterra que estava se tornando o centro do poder dos vampiros... quando ele finalmente se decidiu, Alec foi direto a você para contar o que eu plantei em sua mente.
– Que Arian não apenas queria roubar Bianca, mas usurpar o trono – a voz de Aro soou distante e descrente – Então foi por causa das suas tramoias que eu permiti que meu filho ficasse durante quase mil anos preso?
– Arian ainda pretendia roubar sua rainha.
– EU NÃO APRISIONARIA MEU PRÓPRIO FILHO POR CAUSA DE UMA RAINHA! — esbravejou Aro, furioso – POR CAUSA DE BIANCA! Arian foi preso porque acreditávamos que ele queria tomar o trono, queria governar sozinho e ele não estava pronto para isso. Arian não tinha a consciência de um rei, mas de um guerreiro... ele não podia governar naquele momento e foi por isso que decidimos mantê-lo aprisionado, para não comprometer tudo o que Volterra estava se tornando, não comprometer o mundo dos vampiros.
– Mas caiu-me como uma luva – o sorriso nos lábios de Marcus era cruel – Infelizmente meu plano foi solapado por Forge. Eu nunca imaginei que aquele feiticeiro conseguiria aprisionar Arian desta forma, os Mercadores da Morte agiram rápido e conseguiram manter Arian ocupado, mas eu também não previ que o amor dele por Bianca seria maior que sua fúria, quando a Rainha caiu nas nossas mãos e Arian desistiu de lutar vi meu plano tão meticulosamente pensado cair por terra. Arian, temendo pela vida da amada, deixou-se ser aprisionado por Forge e depois, para minha surpresa, você, Aro, matou Forge depois que ele lhe revelou, e somente a você, o segredo por trás das celas das catacumbas.
Caius estava igualmente horrorizado como Aro, ele tentou balbuciar algumas palavras, mas elas saíram totalmente desconexas, Athenodora, atrás dele, olhava com espanto para Marcus e todos os outros assistiam hipnotizados as revelações que o Terceiro agora pronunciava.
– Você teve sua chance, traidor – disse Caius – Mas seus planos morreram com a prisão de Arian, o que isso tem a ver com todo o resto? O que mais você aprontou, Marcus?
– Traidor? — a voz de Marcus era perigosa – Vocês tramam a morte da minha esposa, irmã de Aro, e o traidor sou eu, Caius? Depois que Arian foi aprisionado eu fiquei sem alternativas, minha intenção era libertá-lo, é claro, mas como eu poderia fazer isso se o único que sabia a palavra certa para o encantamento era Aro? Eu demorei demais para agir, pelos próximos dez anos fiquei tentando convencer Aro que nós três deveríamos saber como liberar e ativar os encantamentos de Volterra, mas Aro sempre se mostrou irredutível e jamais revelou o segredo que só ele dispunha e que se perdeu com Forge. Então fui atrás de um vampiro mais velho, mais velho e mais determinado a também acabar com os Volturi, levou muito tempo, quase trezentos anos, mas finalmente eu consegui encontrar Erestor. Junto dele eu idealizei uma sociedade secreta com o intuito de destruir os Volturi. Uma sociedade chamada Confraria do Sangue.
– Você idealizou a Confraria? — a voz de Aro soou mais uma vez atônita – Os malditos que viviam sabotando nossos planos por séculos.
– Eu e Madalene – riu Marcus – Por que acha que a Confraria dispunha de tantos dados precisos sobre os Volturi? Madalene jamais perdoou Caius por matar o marido dela, eu e ela tínhamos interesses em comum, e junto de Erestor finalmente formamos a sociedade que tinha interesse capital em acabar com o poder de Volterra. Implantamos vários espiões em muitos pontos de Volterra para colher e levar informações, o melhor de todos está aqui, lutando ao lado de nossos convidados, não é mesmo... Dean Portman?
Como se tivessem ensaiado uma apresentação, todos os rostos viraram-se para o bonito vampiro que abria um sorriso caloroso no rosto. Mas a revelação não abalou Dean que apenas deu de ombros, dizendo:
– Culpado. O que eu posso fazer? Madalene era minha mestra e eu nunca gostei dos Volturi, me pareceu uma coisa excitante para se fazer.
– A Confraria passou mais de meio milênio tentando encontrar as bruxas Salesiana e Charlotte, afinal de contas, elas poderiam saber abrir as celas e com isso eu poderia libertar Arian para que ele tivesse sua vingança – continuou Marcus – Mas apesar de todos os esforços, nunca encontramos pistas das duas. Nem mesmo Madalene ou Erestor sabiam de seu paradeiro.
Ao mencionar isso Carlisle e Edward se entreolharam rapidamente, que Marcus fosse o verdadeiro fundador da Confraria do Sangue, tudo bem, assim como que ele tivesse seus aliados mesmo dentre os Lordes Volturi, mas a questão que causou estranheza entre pai e filho era outra: se fora justamente Erestor que lhes indicara o caminho para encontrar as bruxas, por que ele não havia revelado estava informação a Marcus que era um aliado?
Mesmo dentro das revelações dos Volturi havia segredos... segredos dentro de segredos.
Alheio a tudo isso, Marcus prosseguiu:
– Por anos minhas intenções ficaram estagnadas, assim como vários segredos que Aro guardava apenas para si. Segredos envolvendo seu cofre pessoal cujo paradeiro ele apenas compartilhara com Arian, seu filho. Há muitas riquezas dentro do cofre de Aro, o lugar que ele chama de Cofre dos Segredos, e um em particular que eu tanto ansiava para colocar os olhos: o Livro Vermelho. Um Livro deixado por ninguém menos que Nínive, a Mais Velha; um artefato histórico sobrevivente do Mar Morto que contém o conhecimento de Eras e que se supõe conter a profecia do fim do Mundo. Este Livro é o objeto de maior valor no mundo, mais cobiçado por todos e eu desejava conhecer os segredos que apenas Aro conhece... e que jamais compartilhou com ninguém.
Neste momento Bella olhou para Aro e sentiu aquilo que já sabia há tempos, que o peso do mundo dos vampiros parecia recair sobre os ombros do Grande Rei. Ela já ouvira falar do Livro Vermelho, mas até então não sabia que o objeto era tão poderoso e que o único que conhecia seu conteúdo era Aro. Com isso em mente Bella achou que Aro parecia ainda mais antigo, ainda mais cansado do que antes, afinal, era ele quem suportava o peso de todos os segredos.
E então, como um flash de memória, ela lembrou-se de uma noite nos jardins de Volterra quando Aro viera atrás dela num momento de desespero depois de ela ter matado um jovem transgressor e sugado o seu sangue. Bella lembrou-se do medo e do temor nos olhos do rei, de seu delírio, ela lembrou-se de suas palavras assustadas: Não há como viver em paz lá fora... você não entende. Não há como, com a onda que está por vir não haveria paz, uma onda que inundará o mundo todo em sangue e devastação.
As palavras de Aro a haviam deixado assustada... e somente agora ela compreendeu que o rei estava recitando o que lera no Livro Vermelho, o Rei sabia de algo terrível que estava para acontecer, algo que provavelmente alteraria tanto o mundo dos homens, quanto dos vampiros.
– Mas houve uma virada na maré – disse Marcus – Um dia um jovem vampiro veio até nós pedindo para morrer, um jovem que havia se apaixonado por uma humana e todas as oportunidades se escancararam à minha frente, aumentando exponencialmente, principalmente depois que, milagrosamente, este vampiro casou-se e teve uma filha biológica com a humana. Quando a investigação teve de ser deflagrada, quando fomos à América para punir esta família eu vi lobos gigantes e um pequeno exército de vampiros nos aguardando e tive o anseio de sorrir... finalmente alguém havia se erguido para nos enfrentar. As coisas saíram muito pouco do seu eixo já que o primeiro encontro com os Cullen correu tranquilamente, mas ali havia o germe para uma nova ameaça, sim, ali havia uma imensa oportunidade que eu decidi não deixar escapar.
– Nos anos vindouros eu refortaleci meus Mercadores da Morte, destruídos no teatro da tentativa de deter Arian tanto tempo atrás – Marcus agora passeava pelo tablado alto indo postar-se perto dos candelabros cujas velas vermelhas emitiam um brilho rubro e bruxuleante. Ele ficou olhando para o fogo com uma expressão distante – Ao mesmo tempo minei a mente de Caius sempre recordando-o da ameaça que agora os Cullen representavam para nós, ainda assim levou quase uma década para que alguma coisa a mais surgisse. Quando espiões nos trouxeram a informação que a menina híbrida Renesmee estava predestinada a casar-se com Jacob Black, um dos lobos de La Push, eu vi, finalmente, a oportunidade que faltava. Convenci Caius a convencer Aro de que nosso momento havia chegado e que tínhamos que atacar... e assim o fizemos.
– Obviamente os Cullen não teriam chance contra a minha nova horda de Mercadores, mas eu deixei especificadamente claro as minhas ordens a Flávius Aurélius: alguns Cullens e alguns lobos deveriam sobreviver para fomentar uma vingança. No último instante da batalha, Flávius Aurélius, sobre minha orientação prévia, foi até Carlisle para revelar o paradeiro de Erestor... e Calisle não me decepcionou, ele recordou-se das antigas histórias de Volterra.
– Então foi por isso que deixou Carlisle vivo – disse Caius – Na época não compreendi, mas agora tudo fica claro, você queria dar-lhe uma esperança, uma brecha para chegar até aqui.
– De fato – riu Marcus – Mas a coisa saiu melhor do que eu esperava, na verdade eu contava que os Cullen encontrassem Erestor e ficassem sabendo da Confraria do Sangue e com isso formassem uma verdadeira aliança revolucionária contra Volterra. Mas como eu poderia imaginar que Erestor teria segredos até de mim mesmo? Sobre que motivos, eu não sei, mas ele tinha o conhecimento do paradeiro de Salesiana e sua filha e ao invés de contar aos Cullen sobre a Confraria, enviou-os diretamente ao encontro das bruxas... as únicas capazes de abrirem as portas das celas. E por um milagre inesperado... Charlotte, umas das bruxas, resolveu auxiliá-los! Floresceu, contra todas as chances, uma oportunidade para que Arian fosse libertado!
– Foi por isso que não nos permitiu matar Alice quando descobrimos o plano dela de escapar, não é? — a voz de Aro parecia ecoar de outro mundo – Com Alice nas catacumbas haveria uma real vontade para que os Cullen fossem até lá para libertá-la e, com sorte, topar com Arian.
– Ah, isso foi uma ideia minha, realmente – Marcus voltou-se para o irmão – Mas não foi preciso, no fim das contas. Vocês se recordam de quem fora a ideia para eliminar Alec? Minha. Vrau Urban já estava de olho no caminho dos Cullen através da Itália e eu convenci você Aro a enviar Alec para o norte para que os Mercenários o liquidassem lá mesmo, mas obviamente, o lugar escolhido era próximo ao que os Cullen traçavam cuidadosamente para chegar até Volterra... eu tinha certeza de que eles não permitiram que um grupo matasse Alec, a curiosidade deles falaria mais alto... e uma vez mais a sorte piscou para mim e tudo correu como eu queria. No fim, grato por terem salvado sua vida, Alec acabou revelando o que Edward queria saber... e sua sede de vingança contra os Volturi era tão grande que ele já havia planejado libertar Arian antes mesmo de chegar aqui. No fim a sua ideia, Edward, foi igual a minha... libertando o deus, os Volturi pagariam. E depois de tantos séculos eu terei minha vingança, contra todas as chances tudo saiu exatamente como eu queria... e aqui estamos todos nós.
– Você nos usou – Edward disse num tom de descrença, seu rosto estava coberto por uma máscara de revolta – Nos usou como massa de manobra para o seu plano de vingança desde o começo! Seu louco maldito... dezenas de vidas inocentes foram ceifadas por causa deste seu plano paranoico. Você destruiu famílias, contaminou a mente de inocentes... você foi longe demais, Marcus, longe demais em sua loucura!
Mas o riso de Marcus, agora totalmente desvairado, ecoou pelo salão. O Terceiro tinha nos olhos a loucura.
– Usei-os sim, Edward Cullen e usaria novamente se fosse preciso. Eu sacrifiquei não dezenas, mas milhares de vidas se contar com os meus Mercadores. Mas a sorte me favoreceu mais que meus planos.
– Se você sabia que Erestor havia ocultado informações sobre as bruxas, por que não foi até ele cobrar explicações? — Dean perguntou olhando para o mestre com dúvida no olhar.
– Quando os Cullen desapareceram da face da terra depois de chegarem à Escócia eu entendi que eles haviam encontrado as feiticeiras – disse Marcus num tom monocórdio – Eu soube então que Erestor escondia coisas de mim, mas decidi esperar para ver o que aconteceria, durante um tempo eu pensei que todos eles haviam se perdido, mas felizmente eu tenho uma percepção muito boa, Forge me ensinara há muito tempo que a magia é inexata e não pode ser mensurada da forma como que os homens estão habituados a calcular os fenômenos deste mundo. Então aguardei. O que seriam dois ou vinte anos para mim que já aguardou quase um milênio para ter minha vingança? Mas eu não iria ficar parado, redobrei a atenção sobre Erestor e sobre seu círculo interno dentro da Confraria do Sangue, um Círculo que tinha suas próprias intenções e seus próprios planos. E agora, apesar de todos os imprevistos e de todas as reviravoltas... minha vingança está para ser concluída.
– Você não percebe o que fez, seu louco mesquinho? — Caius falou, uma fúria mal contida ameaçava extravasar pelos poros – Sem nós para governar quem irá cuidar das leis de nosso povo? Os Volturi são a fundação, a pedra angular da ordem deste mundo!
– Os Volturi terão prosseguimento, Caius – e agora Marcus encarou o irmão com asco, como alguém que olha para uma coisa repugnante se contorcendo próximo aos pés – Ainda há os Lordes que de vassalos provavelmente se transformarão em senhores... e haverá Arian.
– Arian jamais teve intenção de reinar – a voz de Aro soou magoada – E agora sabemos disso mais do que nunca... tudo não passou de um engodo seu, Marcus. Mas você tem razão, você destruirá apenas a nós três, o legado dos Volturi, porém, persistirá.
E dito isso Aro olhou para Bella com atenção e profundidade e a vampira sentiu um frio percorrer a espinha.
– Que seja! — Caius disse num agitar de mãos, como se estivesse entediado, depois encarou Marcus e seu sorriso maldoso era apenas um talho em seu rosto – Excelente. Você é o mentor de tudo isso, Marcus, imaginou uma vingança, criou a Confraria do Sangue, teve a lealdade de Flávius Aurélius e os Mercadores da Morte, foi responsável pelo aprisionamento de Arian e pela destruição dos Cullen... fez tudo isso de modo sutil, refinado e estrategicamente perfeito. Além de ter tido uma sorte absurda diga-se de passagem, pois tudo isso poderia ter saído dos eixos em muitos momentos. Mas e agora, seu grande e inimaginável tolo, o que fará? Vai morrer conosco quando Arian chegar. Foi isso que você previu em seus miraculosos planos? O de morrer ao nosso lado. MAS QUE BELA MERDA DE FINAL SERÁ ESTE SEU... E TUDO POR CAUSA DE UMA MULHER. UMA MULHER!
– Você teria conseguido viver sem Athenodora por todos esses anos? — perguntou o Terceiro apontando um dedo curvo para a cunhada.
Caius não respondeu.
Marcus sorriu para os irmãos, sorriu para a multidão ali no salão que agora olhava para ele com expressões sombrias e acusatórias. Sim. Fora ele quem causara tudo aquilo, ele quem descartara milhares de soldados imortais, ele quem permitira que Flávius Aurélius, seu servo mais antigo, simplesmente morresse nas mãos de Arian. Devido a ele centenas de vidas haviam se perdido ou foram alteradas para sempre. Centenas de corações quebrados... esperanças perdidas.
Mas Marcus apenas sorriu, um riso frio e sem qualquer vestígio de culpa. Era um sorriso de refinado triunfo. Ele agarrou o castiçal onde doze velas rubras ardiam e caminhou tranquilamente até a beirada do tablado, para o lado direito onde a extensa parede de pedra era ornada com tapeçarias sem fim, velhas e puídas pelo tempo.
– O que eu farei agora, Caius? — a voz dele era firme e havia desafio em seu rosto, seus olhos rubros ardiam numa chama luminosa de loucura. Ele não parecia nem de perto aquele rei apático e servil de antes – Eu deixarei você e Aro para ver o mundo de vocês ser consumido em chamas.
E com isso o Terceiro atirou o castiçal contra as tapeçarias, imediatamente labaredas amarelas e vermelhas ganharam vida faiscando suas chamas suculentas por todos os lados, o fogo, alimentado por aquelas tapeçarias velhas, correu para as cortinas e para as colunas de pedra revestida com madeira nobre, o chão afogueou-se quando os tapetes queimaram e os móveis antigos e elegantes foram consumidos pelo fogo ávido que tomou conta de toda parte leste do salão.
O Terceiro caminhou lentamente para as chamas que cresciam do chão ao teto e ele gargalhava enquanto fazia isso... no limiar da coluna de fogo ele parou e olhou para todos, correu os olhos pelo salão para que cada um dos vampiros ali o admirasse em seu derradeiro ato.
– Eu os amaldiçoo – a voz de Marcus era desvairada – Eu, Marcus Melquiorre Volturi, os amaldiçoo ao mundo que está por vir... um mundo de loucura.
E sem qualquer outra palavra, sem um piscar de olhos... Marcus entrou caminhando nas chamas e seu corpo instantaneamente queimou. Não houve grito, nem qualquer som além do das roupas sendo consumidas; o rosto do rei ainda tinha um sorriso diabólico nos lábios enquanto as chamas o desintegravam lentamente.
E assim morreu Marcus Volturi. O inventor de todos os males. Aquele que planejou meticulosamente a desgraça de tantas pessoas. Morreu por escolha própria, pois sua vingança, enfim, havia sido alcançada.
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Enquanto as cinzas de Marcus estalavam em meio ao fogo que continuava vivo e bem alimentado pelas coisas velhas do salão, não houve movimento algum de ambos os lados, todos estavam completamente estupefatos com as revelações de Marcus, o grande mentor de todas as desgraças que acometeu tantos destinos em comum. Aro parecia finalmente ter sido derrotado, seu rosto antes enérgico e complacente agora não envergava nada além de um cansaço que parecia durar milhares de anos.
Mas aos poucos todos foram despertando daquela melancolia, Edward olhou para os reis e deu um passo a frente, mas era como se a raiva houvesse se dissipado dele, como se o cansaço que atingira Aro tivesse se espalhado por todo o salão como uma névoa tirando as forças de todos. Edward apontou para Chelsea com um dedo em riste e falou numa voz firme:
– Solte minha filha, estamos partindo.
– Partindo? — o tom venenoso de Caius soou alto no silêncio do salão – Partindo? Você acha que mesmo depois da revelação daquele impostor do Marcus nós vamos permitir que vocês partam? É tarde demais para isso, Edward Cullen, se nós vamos tombar... então vocês tombarão conosco.
– Caius – chamou Carlisle – Há uma última chance de pararmos com o que Marcus começou. Podemos esperar que Arian chegue até aqui, somos todos testemunhas dos planos e das metas vingativas de Marcus, talvez aja luz entre vocês e Arian, talvez ainda aja uma esperança de salvarmos um pouco do que foi destruído... talvez ainda possamos coexistir.
– Coexistir? — a palavra saiu da boca de Caius como um xingamento – Coexistir? Estamos ligados pelas tragédias, Carlisle, maldita foi a hora em que você se enfiou em nosso caminho com toda a sua devassa família sugadores de animais.
– Tudo foi uma combinação de acontecimentos desastrosos e dirigidos de alguma forma pelo gênio vingativo de Marcus. Nós não queremos mais lutar... acho que todos se cansaram disso.
– Agora é tarde demais – Caius deu um passo para a frente e agarrou o maciço trono de Aro, ergueu com facilidade e atirou o móvel com toda a força contra a parede de vidro no fundo do tablado. A parede estilhaçou-se com o choque e milhares de cacos foram atirados no ar pela rajada súbita de vento que invadiu o salão.
O cheiro do ar marinho e o som das ondas estridentes lá abaixo nos rochedos encheu o ouvido de todos, Caius, enlouquecido de raiva, foi até Chelsea dando-lhe um safanão e pegando Renesmee nos braços. Edward deu um passo para frente, mas Caius fez um sinal claro de que se ele se aproximasse atiraria Nessie pela janela lá para baixo, no abismo de rochas.
– Desative seu dom, Chelsea – ordenou Caius – Eu quero que esta menina veja o próprio fim.
Quando os olhos de Renesmee piscaram e clarearam, ela assustou-se ao perceber os braços de Caius enlaçados em sua garganta, segurando-a com firmeza, logo a menina olhou ao redor e seus olhos fixaram-se na mãe, pedantes e alertas, mas um segundo depois Renesmee finalmente focalizou em Edward.
A boca dela abriu-se numa surpresa muda e automaticamente lágrimas brotaram de seus olhos correndo por seu rosto delicado. Os cabelos esvoaçavam ao vento e o frio fez com que ela se arrepiasse, mas nada disso lhe passou percebido.
– Pai – ela chamou com esperança e desespero – PAI!
Mas antes que Carlisle ou Edward dessem um passo, Caius riu de um jeito meio histérico.
– O fim de nosso mundo foi causado por você, Edward Cullen, no momento em que libertou Arian. Então nada mais justo do que eu destruir um pouco do seu mundo também.
E com a mesma força com que jogara o trono de Aro, Caius agitou os braços num movimento fluído e veloz atirando Renesmee através da parede de vidro estilhaçada para o abismo letal, lá muito abaixo, no mar.
Neste momento tudo pareceu desacelerar.
Bella ouviu Athenodora gritar, assim como ouviu sua própria voz gritando e a voz de todos os outros companheiros. Bella sabia que o Pináculo estava há mais de quatrocentos metros acima dos rochedos e que rochas afiadas e cortantes, escarpadas e serrilhadas, aguardavam a filha. Sem contar com a agitação do mar turbilhonante que açoitava o rochedo de aço século após século. Mesmo sendo metade vampira, Bella sabia que a filha não resistiria ao impacto que muito provavelmente seria capaz de matar até mesmo um vampiro puro. Não havia nada que impedisse Nessie de se espatifar contra as rochas.
Edward sentiu como se suas pernas se tornassem geleia, no momento em que reencontrou a filha ela seria lhe tirada de forma irreversível. Mas antes mesmo de conseguir dar um passo, antes mesmo de ser capaz de mover um músculo sequer, um vulto passou por ele numa velocidade impressionante. A armadura da Guarda Volturi tilintava com a correria do homem, o manto negro afunilava-se às costas enquanto ele subia as escadarias num pulo só e somente no último instante, no instante em que o guarda atirou fora o elmo foi que Edward reconheceu quem era. Reconheceria-o em qualquer lugar.
Jacob Black.
– JACOB! — berrou Edward quando percebeu o que o amigo pretendia fazer. Ele iria se atirar no nada atrás de Renesmee.
E mesmo sabendo a loucura que Jacob faria, Edward sentiu-se aliviado, aliviado porque ele sabia que o lobo jamais deixaria que qualquer coisa de ruim acontecesse com a filha, mas no mesmo momento, lembrou-se de uma coisa fundamental: por mais poderosos que fossem, até onde Edward tinha conhecimento, os Lobos de La Push não sabiam voar.
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Jacob Black vinha se escorando pelas escadas, o rosto derramando o que pareciam ser litros de suor. É realmente irônico, pensou o líder dos Lobos, Se não morrer abatido por algum inimigo, morrerei desidratado. A armadura pesava e o elmo dificultava a visão, mas ele continuou subindo, incansavelmente, degrau por degrau.
Por onde passava via restos de vampiros mortos, a maioria decapitado, mas também muitos membros espalhados por todos os lados, e havia sangue também, provavelmente alguns dos guardas estavam se embriagando com o sangue da festa que era servido em taças e ainda havia sangue em seus corpos quando foram destruídos. Jake nem quis calcular quantas pessoas morreram para servir de alimento para o casamento de Aro, mas naquele momento ele não tinha como saber que todo o sangue era oriundo do Banco de Sangue dos Volturi.
Quase rastejando ele finalmente chegou ao último patamar do Pináculo da Luz, a torre imensa na parte de trás do castelo que servia de Salão para os Reis. O corredor estava escuro e silencioso e mesmo Jacob se assombrou com o que encontrou lá... um cemitério de vampiros mortos e retorcidos como se um rolo compressor tivesse passado por cima deles. Mesmo na forma humana os sentidos dele eram apurados e ele farejou o ar com uma estranha impressão. Magia, compreendeu Jacob, havia magia no ar.
Aquilo era obra de Charlotte.
Jacob tinha consciência de que não seria capaz de lutar contra ninguém nas condições que estava, mas também não permitira que Renesmee ficasse muito mais tempo nas mãos dos Volturi, entretanto sua marcha foi interrompida quando, ao passar por uma porta aberta, avistou Charlotte sentada no chão... com um desacordado Seth em seus braços.
– Ele está...? — Jake perguntou da porta, sua voz falhando miseravelmente devido ao medo.
Charlotte se sobressaltou ao vê-lo, mas o sorriso brotou em seus lábios.
– Está descansando – disse ela – Foi ferido gravemente há pouco, mas está se recuperando, me deu um susto... Seth é forte, ele sobreviverá.
– E os outros?
– No Salão dos Tronos lá à frente – ela apontou com a cabeça – Eu estava ouvindo a pouco, parece que Marcus traiu os outros de alguma forma, mas eu não consegui compreender tudo, mas acho que algo muito grave aconteceu, eu sinto cheiro de fogo e já houve várias mortes lá dentro.
– Eu vou até lá.
– Jacob, você não está em condições de lutar.
– Também não estou em condições de ficar apenas olhando – respondeu Jake irresoluto – Cuide dele, Charlotte, este garoto é o melhor de nós.
Com um aceno ela lhe desejou boa sorte e Jacob partiu cambaleante em direção às portas do salão que estavam abertas e tortas. Quando chegou perto foi capaz de ouvir uma voz que reconheceria mesmo em meio a uma guerra, era Nessie... e ela chamava por Edward, mas logo em seguida a voz odiosa de Caius se sobrepôs ao chamado dela.
– O fim de nosso mundo foi causado por você, Edward Cullen, no momento em que libertou Arian. Então nada mais justo do que eu destruir um pouco do seu mundo também.
E no instante em que Jacob atingiu a soleira da porta ele viu o movimento dos braços de Caius, viu em seus olhos rubros o que ele planejava fazer... e disparou. Suas pernas cansadas ganharam um vigor súbito, os membros entorpecidos pelo veneno do vampiro voltaram a pulsar em energia e sua visão entrou em foco enquanto ele ganhava velocidade, cruzando o salão e subindo pelo tablado. Em sua mente não havia qualquer pensamento a não ser o de Renesmee caindo pelo abismo, era sua função protegê-la e agora que a havia encontrado não deixaria que ela se perdesse.
Atrás de si ele ouviu Edward gritando o seu nome, mas nem ao menos perdeu tempo se virando para olhá-lo, tinha certeza que Edward sabia o que ele pretendia fazer.
Num movimento fluído ele atirou-se pela parede estilhaçada que se abria para o céu azul e para o mar faiscante, o que viu foi o abismo de rochedos lá muito abaixo onde as ondas batiam contra as rochas distantes e entre ele e o abismo sem fim, despencando a toda velocidade... estava Renesmee. Os olhos da noiva estavam abertos de susto e terror, mas no instante em que ela o reconheceu uma expressão de espanto e alívio cruzou seu rosto.
E mesmo caindo ela soube que Jacob Black estava ali por ela... que ele viera por ela e que não a havia abandonado.
E quase no último faiscar de sol daquela tarde sangrenta, Renesmee Cullen e Jacob Black mergulharam juntos para o abismo rochoso...
… rumo à perdição.
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