Candor Lunar - Livro 2
38 Capítulo 37 -O Guerreiro-deus e a Dama das Sombras
Notas iniciais
Primeiramente um pedido de desculpas. Este capítulo ficou imenso, eu perdi dez dias tentando reduzi-lo, pensei em parti-lo em dois, mas achei que ficaria estranho... então não teve jeito, ficou grande pra caramba mesmo.
Para aqueles que curtem mega capítulos... aproveitem! kkkkk
Mas pelo menos vai ser legal saber um pouco mais sobre a história de Arian e Bianca.... o nosso mais recente casal 20.
E desta vez precisarei da ajuda dos Leitores. Alguém aí pode me dar uma ideia de alguma atriz para interpretar Renesmee em Candor Lunar? eu preciso fazer a próxima capa e não sei quem usar, estou inclinado a uma sugestão para usar Marina Ruy Barbosa ou Alexandra Daddario... então se alguém aí quiser dar alguma sugestão, aceito palpites, srsrsr
E aproveito para agradecer a recomendação da fic pela J mary hochscheidt... em Candor 1 e 2, valeu mesmo, de coração.
Boa leitura a todos.
Ang.
A dama percorreu o tabuleiro na diagonal até destruir a torre no canto contrário, a peça de madeira tombou sob um som agourento e o rei perdeu sua única guarda que o impedia de também tombar.
– Xeque-mate – disse Agostino dando ao companheiro um sorriso meio torto.
– Maldição... não me lembrei desta maldita rainha – respondeu Enzo mau humorado.
– É o que sempre lhe digo: cuidado com a rainha, sempre tome cuidado com a rainha, o rei fica lá, imóvel, atrás de todas as peças, defensivo e temeroso. Mas a rainha não. A rainha pode caminhar para todos os lados, o tabuleiro é pequeno para ela... na maioria das vezes quem arma todas as jogadas é a rainha e o rei fica só esperando pra ver o que acontece. A Rainha sempre é a mais perigosa.
– Vamos mais uma, melhor de três – resmungou Enzo.
Enquanto arrumavam as peças em seus lugares, dispondo-as na eterna ordem do jogo de xadrez, Agostino deu uma olhada para o alto da colina onde o castelo de Volterra se erguia imponente vigiando a cidade de cima.
– O que você acha que aconteceu lá? – perguntou ele.
– Coisa alguma, é um castelo velho, deve ter ruído com o tremor – respondeu Enzo despreocupado.
– Coisa nenhuma, aquele castelo é mais bem cuidado que muita casa por aqui... o prefeito andou mandando a polícia até lá, dizem que os investigadores chegaram ao portão e de lá não conseguiram passar, voltaram com o rabo entre as pernas.
– Que investigadores? – quis saber Enzo.
– Badin e Emiliano.
– Ah, a dupla dinâmica? Os queridinhos do prefeito, sempre eles cuidam dos assuntos sombrios da Prefeitura. Devem ter ido lá e encontrado o que não queriam.
– Meu avô contava que os senhores do castelo nunca mudaram e antes de meu pai morrer ele os viu passeando pelas ruas, dizia que deste o tempo em que era criança a cara deles continuava do mesmo jeito. Não envelhecem.
– Bobagem.
– De jeito nenhum! – reinou Agostino – Eu os vi também quando era pequeno e tornei a vê-los na Festa da Praça de São Clemente e eles estavam do mesmo jeito assim como dizia meu avô e meu pai, eles não morrem se quer saber. E digo mais, muita gente nova aqui não percebe isso porque não é da geração deles, mas eu sei o que falo: estes Senhores do Castelo não morrem.
– Isso e os rumores de que são vampiros – debochou Enzo – Tanto você quanto eu estamos velhos demais para acreditar em histórias da carochinha.
– É... mais alguma coisa aconteceu naquele lugar... está quieto demais.
– Olha, aquele terremoto de ontem que destruiu alguns telhados também abalou o castelo, é um lugar velho demais e não conseguiu se segurar... e pronto.
– E por que não vemos ninguém subindo lá para consertar o estrago?
– Vai ver gostaram de ter uma torre a menos e menos vidraças para limpar.
– Diga o que quiser – teimou Agostino – Eu ainda acho aquele lugar pavoroso.
– É por isso que ninguém vai lá, agora comece logo... vou destruir a sua Rainha por primeiro.
– Duvido muito – riu Agostino – A Rainha é sempre mais forte que o rei, lembre-se disso... reis caem e se erguem, mas ninguém consegue derrubar uma rainha.
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Kaori caminhava ao lado de Carlisle através dos corredores dispersos, o patriarca Cullen não parecia preocupado com a possível presença de guardas ainda soltos pelo palácio, mas depois da demonstração de poder de Arian, seria mesmo improvável que qualquer um deles ainda zanzasse por ali.
Carlisle tinha um semblante distante, se não perdido. Acho que recebera golpes demais nos últimos dias, primeiro Edward liberta Arian e agora Jasper decide dar a vida eterna a uma suicida, ele provavelmente não conseguia ficar satisfeito ou compreender tudo o que acontecera. Kaori, particularmente, não gostava de Arian – em parte por ter matado Alec sem pestanejar – mas se perguntava se teriam conseguido tomar Volterra sem ele.
– O que faremos agora? – perguntou ela.
– Não faço a menor ideia – respondeu Carlisle distante – Provavelmente conversar com Arian e ver o que ele tem a nos oferecer, a não ser que Edward já tenha feito algum acordo.
– Não houve acordos, Edward apenas adiantou que o libertou para ajudar na queda dos reis.
– De uma forma ou de outra isso terminará de um modo trágico – aborreceu-se Carlisle.
– A queda dos Três não seria algo bom?
– Kaori, este nosso mundo não funciona sem um governo, quem tomará o lugar de Aro, Caius e Marcus? Certamente que não Arian, ele não é feito da matéria de que os reis são constituídos.
– E se ele quiser ser rei? – perguntou ela indagante.
– Que os céus nos protejam – respondeu Carlisle sombrio.
Antes de alcançarem o Salão, porém, encontraram Jacob Black em sua forma humana, trajando as roupas escuras da guarda de Volterra que havia pertencido, muito provavelmente, a um guarda muito menor que Jake, pois as mangas da blusa e as barras das calças estavam muito curtas deixando-o com um aspecto bastante encolhido.
– Vai aonde, Jake? – indagou Kaori.
– Até lá fora, além da muralha, tenho que encontrar algum telefone e saber como estão as coisas na Reserva. Agora que tudo se acalmou um pouco terei tempo de ligar para o meu pai.
– Me faz um favor, Jacob – pediu Carlisle – Entre em contrato com Esme por mim, diga-lhe que tudo está bem e que logo eu darei notícias.
– Pode deixar – respondeu o lobo seguindo seu caminho.
– Ele não está nada bem – afirmou Kaori – Parece estar ainda mais furioso que antes.
– Não o culpo – respondeu Carlisle – Ele esperava que Nessie estivesse aqui, mas tudo o que encontrou foi fogo e morte.
Quando entraram no salão muitos rostos voltaram-se para eles, todos sombrios e taciturnos.
– Como está a menina? – perguntou Edward e Carlisle o olhou com olhos acusadores.
– Morrendo. Mas Jasper lhe dará a vida eterna... ele não pretende permitir que ela morra em paz.
Edward não respondeu, nem teria direito, limitou-se a balançar a cabeça mostrando que compreendeu o que Carlisle dissera, fora ele quem permitira que Jasper se largasse noite adentro para encontrar um humano para servir de meios para a quebra dos encantamentos das catacumbas. Mais um peso, mais um pecado, pensou Edward consigo mesmo. Tantas foram as regras que quebrara para estar ali naquele momento, um homem fora morto, um criança estava morrendo... e um vampiro-deus estava solto. Até onde mais seria necessário descer para salvar Bella e Nessie? Quantos pecados mais teriam de ser cometidos?
– Muito bem, qual é o próximo passo? – perguntou Garret e a atenção voltou-se imediatamente para Arian.
O gigante desvencilhou-se dos braços de Bianca e subiu no tablado acima dos degraus, todos olharam num misto de apreensão e expectativa enquanto ele se dirigia até o trono de Aro, por um segundo fugaz, Edward imaginou que ele se sentaria no lugar do pai e tomaria para si o poder dos Volturi, mas Arian não fez isso. O guerreiro-deus mirou com um olhar de desmazelo para o trono e deu-lhe um pontapé preguiçoso, o trono, ornado e enegrecido pelo fogo, tombou de lado num gesto que apesar de simples demonstrava que Aro já não estava mais no poder.
Em seguida Arian sorriu e sentou-se nos primeiros degraus do tablado ignorando completamente os dois outros tronos, aquilo mostrava claramente que ele não tinha qualquer interesse em reinar sobre os vampiros. Bianca fez rolar os olhos numa insatisfação clara.
– Edward Cullen – chamou Arian com sua voz de trovão – Conta-me tua história. Toda ela. Depois disto decidiremos nosso caminho.
– Eu fui criado por Carlisle... há mais de um século – começou Edward e todos os presentes voltaram sua atenção para ele.
A história foi longa, Arian era um bom ouvinte e sempre balançava a cabeça encorajando Edward a prosseguir. Ele contou de sua vida desde que fora criado até o momento em que Carlisle entrara no Salão dos Tronos com a notícia de que Giuliana estava morrendo, Arian o olhara com interesse quando ele narrou a história de Renesmee e toda a confusão com os Volturi na primeira vez que se enfrentaram. O sol já estava a pino quando ele terminou, o salão morreu num silêncio profundo que durou vários minutos enquanto todos digeriam a história que haviam vivido, o próprio castelo parecia morto agora que Arian havia escorraçado praticamente toda a guarda.
– Contaste uma história muito longa, Edward Cullen – disse Arian finalmente – Creio haver algum motivo por trás das intenções de Aro, Caius e Marcus, mas que motivo e para que propósito não faço ideia. Mas libertaste-me e à minha rainha, tua vingança é a minha, iremos até o Pináculo da Luz a fim de libertar sua esposa e filha e depois disso o mundo estará livre dos Volturi.
– E quem no Trono de Volterra se sentará, Arian? – perguntou Carlisle de forma inquisitiva.
– Não haverá trono, Carlisle Cullen – estrondou Arian – Os vampiros estarão livres da tirania, livres dos ditames e dos adágios egoístas dos Três.
– Não sei se isso será possível... – começou Carlisle, mas passos apressados no corredor chamou a atenção dos que estavam no salão.
Jacob Black entrou no recinto com uma expressão de morte no rosto, estava lívido de raiva, caminhou irresoluto em direção à Seth e Charlotte e ignorando completamente o amigo, agarrou a bruxa pelas vestes e encarou-a furioso.
– O que você fez? – gritou Jacob, Seth agarrou as mãos de Jake e afastou-o de Charlotte com um safanão.
– Qual é? Tá doido? – gritou ele indignado.
– O que foi que você e sua mãe fizeram com o tempo? – perguntou ele não dando atenção à Seth.
– O tempo? – Charlotte não compreendeu.
– Sim, dias, meses, anos... o que foi que você e sua mãe fizeram? – tornou a perguntar o lobo, cada vez mais furioso.
Todos olhavam de Jacob para Charlotte sem compreender, uma vez mais um silêncio incômodo invadiu o salão, Arian apenas encarava a cena com desinteresse, aquilo não fazia parte de seus problemas. A bruxa franziu o cenho para Jacob sentindo todos os olhos fixos nela, a princípio ela apenas limitou-se a ficar furiosa com aquela intempestiva investida de Jacob, mas então, de repente, seu rosto assumiu uma expressão de clareza como se ela finalmente tivesse entendido do que se tratava.
– Pelos céus... – sussurrou ela temerosa.
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O estertor de Giuliana repercutiu pelo quarto num som agourento e arrepiante. A vida escoou de seu frágil corpo, um receptáculo carnal que já não suportava manter-se vivo no mundo, padecendo rápida e inexoravelmente, definhando, findando. Jasper viu o brilho dos olhos, uma centelha da vida, apagando-se. O peito da menina parou de se mover e o coração, num som lento, arrítmico e agonizante, diminuiu sua batida repetitiva até tornar-se silencioso... um músculo inútil num corpo morto.
Segundos passaram enquanto o veneno do vampiro corria por veias e artérias, locomovendo-se sozinho sem o auxílio do pulso cardíaco, matando e transformando as células do sangue em algo diferente, algo sobrenatural capaz de animar um corpo inanimado. A coluna de Giuliana remendava-se sozinha, unidos ossos e cartilagem e solidificando a medula; músculos rasgados tornavam-se novamente unos, moldando-se numa substância sólida e praticamente indestrutível.
– Levará alguns dias – disse Alice.
– E não temos dias, não sei como poderei deixá-la aqui sozinha enquanto vamos para o sul resgatar Bella, Nessie e Quil.
– O palácio ainda está recheado de guardas escondidos por aí, deixá-la aqui será perigoso.
– Talvez haja uma solução – disse Jasper depois de pensar por alguns minutos – Preciso falar com Charlotte.
– Ela realmente é uma feiticeira? – quis saber Alice.
– Você precisava ver o Pântano enfeitiçado onde elas moravam, levamos mais de quinze dias para encontrá-lo.
– Bastante tempo... tempo demais.
– Eu estou aqui agora Alice – disse Jasper aproximando-se dela e pousando um beijo em seus lábios, mas Alice tinha uma expressão magoada no rosto e afastou-se dele com delicadeza.
– Jass, aconteceu muitas coisas enquanto estivemos em Volterra... tantas e tantas coisas. Eu estive sozinha, não sabia o que fazer – começou Alice sentindo o impulso de contar a Jasper sobre Matheu – Eu e Bella inventamos um plano estapafúrdio para tentar fugir daqui e voltar para casa, mas Aro simplesmente desejou Bella para ele e tudo ruiu; no fim eu fui aprisionada nas catacumbas e Bella será Rainha. Renesmee e Quil sofreram tanto quanto nós... acreditávamos que haviam morrido, todos vocês, e que estávamos por conta própria. No fim perdemos todas as esperanças... no fim tivemos de nos tornar Volturi para sobreviver, para livrar Renesmee da loucura de Jane, eu tive que beber sangue humano, Jass... eu matei um menino... matei um menino.
Alice desesperava-se para Jasper e ele a abraçou com força, o corpo de Alice tremia de raiva, de medo, de mágoa... nada do que ele dissesse faria com que se sentisse melhor.
– Vocês demoraram demais, Jass...
– Mas Alice, foi pouco mais de dois meses... como tudo isso poderia ter acontecido em tão pouco tempo? Sei que Volterra pode ser terrível e enlouquecer qualquer um, mas nós viemos o mais rápido que pudemos.
– Dois meses? – Alice disse olhando Jasper com estranheza – Jasper, vocês demoraram quase dois anos!
– O quê?
– Passaram-se meses e meses, não acreditamos a princípio quando nos contaram que haviam morrido, mas Jass... depois de um ano nós perdemos as esperanças, começamos a sentir que estávamos por conta própria e que tínhamos que nos virar sozinhas. Não havia mais escolha, nem saída, nem nada. Este é o vigésimo segundo mês em que vivemos em Volterra... o décimo terceiro desde que Bella e eu juramos lealdade aos Volturi.
– Não pode ser... como poderia? – começou Jasper olhando para Alice com horror, mas depois de alguns momentos ele percebeu o que havia acontecido – O Pântano, só pode ter sido o Pântano.
– Jasper... o que...? – começou Alice, mas Jasper agarrou-a pelo braço puxando-a para fora do quarto. Literalmente voaram pelas escadarias de pedra, passaram pelos corredores até o hall de entrada que ecoava solitário e destruído. Jasper tomou o caminho para o Salão dos Tronos e quando lá chegaram encontraram gritos e um Jacob Black furioso berrando com Charlotte.
– Então vocês também acabaram de descobrir? – perguntou Jass olhando para todos e depois para a bruxa.
– Dois anos – enfurecia-se Jacob – Nós levamos dois anos para chegar até aqui, você consegue acreditar nisso?
– O Pântano – repetiu Jasper.
– O tempo lá passa mais lentamente do que aqui fora – começou Garret – Parece que era um efeito para não permitir que Charlotte e Salesiana se estafassem da vida eterna.
– O Pântano é um mundo paralelo – disse Charlotte visivelmente constrangida – É como se esta realidade em que vivemos, o mundo real, recebesse uma fissura e o Pântano fosse enfiado nesta brecha. Lá o tempo passa muito mais lentamente do que aqui fora...
– Em que proporção? – perguntou Jasper sentindo um calafrio percorrer-lhe o corpo.
– Eu não sei ao certo, depende muito, mas acho que uma hora no Pântano equivale a pouco menos de dois meses no mundo real.
– Dois meses?! Se ficamos lá pouco mais de nove horas...
– Exato – disse Carlisle – Aqui fora equivaleu a algo perto de vinte meses.
– Como é possível? – perguntou Edward que parecia a ponto de desmaiar.
– Eu já lhes disse, é uma questão de espaço-tempo – Charlotte falou – O tempo no Pântano é diferente do do mundo real, desta dimensão, desta realidade ou do que quer que vocês a chamem. Mas varia muito, em alguns períodos equivale a um ano, outros a meses e outros apenas a dias... nós não controlamos a força do mundo ou os mistérios do universo, apenas tentamos manipular os elementos. A criação do Pântano por si só já é proibida, nunca devíamos nos meter com poderes que não conseguimos compreender, mas foi a melhor solução que eu e minha mãe encontramos para poder fugir da sina que nos perseguia... escapar da cólera dos Três.
– E por que, em nome de todos os diabos do inferno, não nos contou isso antes? – perguntou Edward também lívido de raiva.
– Vocês chegam me pedindo para acompanhá-los para a morte, como poderia supor que eu me lembraria de um detalhe que para mim não tinha qualquer importância quanto o tempo entre as duas realidades? Eu estava a mil anos morando naquele Pântano, Edward, que para ser franca era pouca coisa melhor do que a prisão onde Arian estava... acha realmente que eu atentaria para um detalhe que para mim era tão corriqueiro?
– Foi por isso que pegamos as estações de chuva na Europa – disse Jasper – Achávamos que estávamos na mesma época, e de fato estávamos, mas com dois anos de atraso.
– Como eu disse – sussurrou Alice numa voz morta – Vocês demoraram demais.
Parecia que em Volterra a pior das maldições impostas era o silêncio, uma vez mais o silêncio cobriu todos com um manto de imobilidade, Jacob mantinha no rosto uma expressão que mesclava raiva e desalento e parecia que todos também estavam sentindo-se da mesma forma.
Matheu encarou Alice que sustentou seu olhar por um segundo, um entendimento de realidade se instalando entre os dois, mas quase que imediatamente a vampira virou o rosto e olhou para o lado. Jasper tentava digerir tudo o que acontecera, cada passo dado, cada centímetro percorrido desde que deixaram Forks e considerou realmente uma falta de sorte tremenda a parada no Pântano.
Edward parecia mortalmente atingido. Seu rosto era uma máscara de catatonia, a imobilidade de seus gestos demonstrava que a força o havia abandonado... depois de ter sido sepultado em um rio, encontrar um eremita em um vulcão na América Central, correr até o interior da Escócia, cruzar meia Europa correndo perigos sempre presentes, libertar um ser poderoso que é temido por todo o mundo, o que ele conseguiu além de ter deixado sua esposa e sua filha a mercê dos Volturi por dois anos?
Foi a pior notícia desde que soubera que Aro Volturi havia ousado pensar em desposar sua esposa, Edward imaginara que com Arian seria uma questão de tempo para destruir os Três e salvar sua esposa e sua filha, agora, entretanto, o sentimento de impotência era avassalador. Para o grupo de viajantes, os companheiros de demanda, pouco menos de dois meses havia se passado, mas para Bella e Renesmee... dois longos anos.
Meu deus, pensou Edward, o que isso fez a elas?
E como poderia o bravo vampiro saber que estragos haviam sido causados na alma e no coração de sua Bella e de sua Renesmee? Como poderia ele saber que o coração de Bella estava de tal forma perdido que ela já agia como uma Volturi, como uma Rainha? Que sua esposa antes tão distraída e desligada de tudo agora pensava como uma vampira ao em vez de como uma humana? No fim a empreitada mais difícil de Edward não seria apenas salvar Bella, mas também sua alma.
Dois anos era muito tempo. Alice tem razão, disse ele para si mesmo, demoramos demais.
– Jamais confiei em feiticeiros – disse Arian com sua voz de trovão – Vampiros que se metem com artes ocultas são perigosos, traiçoeiros e imprevisíveis.
– Os feiticeiros servem para muita coisa, Arian – retorquiu Charlotte tentando parecer desafiadora, mas sua voz estava quebrada – Se não fosse por mim você jamais teria deixado aquelas celas encantadas. Mas não sou eu quem faz as regras do mundo, infelizmente algumas coisas não saem conforme o esperado.
– Fui aprisionado por feiticeiros – rebateu Arian – E não foi a primeira vez que causaram-me problemas, já enfrentei feiticeiros antes de minha queda... criaturas desconfiadas e amaldiçoadas, que atacam pela tocaia usando seus poderes ocultos para controlar e dissimular. Matei vários feiticeiros e agora bem vejo que deveria ter destruído todos, causam mais mal que bem, para cada ato valoroso produzem três indecorosos. Mesmo quando pretendem o bem, um efeito colateral terrível sempre surge... como foi o caso de vossa viagem, agora podem comprovar que bem algum origina-se na magia.
– Não estaríamos aqui se não fosse a magia de Charlotte – defendeu Seth.
– Isso é certo – Carlisle falou – Se não fosse por Charlotte nem teríamos entrado em Volterra e esta missão de resgate já teria sido desfeita há muito tempo, magia fui usada... se para o bem ou para o mal não sei dizer. Mas tudo vem com um preço e nós pagamos o preço do poder de Charlotte – e então virou para Edward – Você libertou Arian, aquele que diziam não poder ser libertado, também amaldiçoou um vampiro enfiando-lhe a alma de um homem pela goela abaixo, e Jasper encontrou Giuliana para que seu sangue fosse usado nas celas... achava mesmo que isso não teria um preço? O destino nos cobrou o que queria e pagamos na moeda que nos era mais preciosa: tempo. Corremos para poder salvar Bella, Nessie, Alice e Quil... desejávamos que não permanecessem tanto tempo nas mãos dos Volturi e por isso apressamos nossos passos para chegar o mais rápido possível e, inevitavelmente, descobrimos que nossa pressa foi vã. Estamos dois anos atrasados... não posso definir meu sentimento quanto a isso, minhas filhas, minha neta e um grande amigo ficaram aqui neste castelo sob a loucura de Volterra por tempo demais. Qual o tamanho do estrago causado em seus corações? É inimaginável. Mas é o preço que nos foi cobrado e permanecer aqui lamentando o que não pode ser desfeito é irrelevante. Temos de continuar com o que temos.
– Falaste com sabedoria, Carlisle Cullen – disse Arian – Ao anoitecer partimos rumo ao Pináculo da Luz, lar dos Mercadores da Morte, e vós tereis vossa guerra... assim como eu terei minha vingança.
– Deveríamos partir imediatamente – disse Edward saindo de seu estupor.
– Há muitos vassalos dos Volturi certando estes lados – disse Vrau Urban – Apesar dos Lordes estarem no sul para o casamento real muitos de seus servos ainda permanecem nas terras... viajar de dia é perigoso, seríamos facilmente detectados por outros vampiros.
– À noite partimos – decidiu Arian – Descansem onde quiserem ou onde puderem, apenas tomem tento quanto aos guardas ainda entocados pelo palácio. Aproveitem as horas que têm até o ocaso, podem ser suas últimas horas na face deste mundo.
Dito isso, Arian dirigiu a eles um aceno rápido e desceu do tablado seguindo para o corredor onde, muito provavelmente, Bianca já havia seguido antes mesmo de Arian terminar de anunciar sua decisão. Os outros ficaram por ali sem saber ao certo o que fazer até que Jasper quebrou o silêncio.
– E Esme? — perguntou ele olhando Carlisle com atenção.
– Billy informou que a casa está vazia há meses, desconfio que Esme e Kate tenham ido até Eleazar. Agora que sabemos que dois anos se passaram eu espero que Esme não tenha perdido todas as esperanças... e que ela fique bem onde quer que esteja.
– Será que ela não tentou contato aqui em Volterra neste tempo? — temeu Kaori.
– Nunca tivemos notícias de ninguém – Alice falou numa voz morta – Disseram-nos que Edward, Jacob e Jasper estavam mortos e então desconfiamos que Carlisle e Esme haviam deixado Forks para sempre.
– Então ela ainda está aguardando – lamentou Carlisle – Dois anos... Esme deve estar arrasada.
– Assim como Kate – fungou Garret.
– Ora, meus amigos, não fiquem tristes – gritou Vrau Urban tirando a gaita do bolso – Vamos lá, meninos e meninas, vamos cantar de vivas pela queda de Volterra...
– Se você soltar uma nota desta sua gaita, Vrau, eu a enfio pela sua goela abaixo – ameaçou Jacob Black deixando o salão emburrado.
– Acho que não é clima pra isso então – resignou-se Vrau Urban com um sorriso amarelo.
Edward caminhou até um canto em sentou-se sozinho e emburrado, Charlotte saiu do salão também com cara de poucos amigos e impediu, com um gesto de mão, que Seth a seguisse. Jasper pegou na mão de Alice conduzindo-a para fora e antes de sair a vampira captou um olhar significativo de Matheu que ainda se mantinha ali no salão, altivo em sua armadura dourada. Garret e Kaori apenas permaneceram em seus lugares... Garret pensando em Kate e Kaori em Alec.
Carlisle subiu lentamente os degraus de pedra e ficou por um tempo olhando para o trono tombado de Aro, por fim acabou erguendo-o novamente e recolocando-o em seu lugar original.
– Por que não deixou isso aí do jeito que estava? — perguntou Edward de forma sombria.
– O trono terá de ter um rei – respondeu Carlisle simplesmente.
– Por você os reis não seriam destruídos, não é? — e agora a voz de Edward continha raiva.
– Os vampiros devem ter um governo, meu filho, bem ou mal os Volturi desempenham seu papel no equilíbrio deste mundo. Eu sinto que Aro jamais tornará a sentar-se neste trono, ou Caius ou Marcus, mas isso apenas aumentará o problema... Arian não quer ser rei e ninguém além dele poderia ocupar este lugar. O que acontecerá ao mundo dos vampiros?
– Eu não me importo – Edward vomitou as palavras – Perdi dois anos da minha vida e Aro ainda quer se casar com Bella... que tudo queime, não ligo para isso... que Arian queime o mundo todo em sua vingança.
– Eu perdoarei estas palavras, pois sei que você não fala de coração – respondeu Carlisle pacientemente – Você está cansado e magoado e tem razão de se sentir assim... mas depois que Arian destruir os Três e Bella e Nessie estarem em segurança novamente, as coisas não parecerão tão simples. O mundo estará mudado e nós fomos os responsáveis por esta mudança. Mudanças têm um preço, Edward, assim como a magia de Charlotte. E haverá um preço para o que estamos prestes a fazer, talvez um preço muito mais alto do que apenas dois anos de nossas vidas.
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O quarto de Aro era circular seguindo a curvatura da torre, amplo e arejado, os móveis eram simples, porém luxuosos e a cama de dossel era imensa... provavelmente servia a outros propósitos que não os de dormir. Mas as janelas amplas permitiam que a luz entrasse por completo banhando tudo numa claridade límpida, do alto podia-se admirar toda a cidade de Volterra com suas casas de tijolos a vista e suas ruas de pedras, românticas e estreitas.
Bianca estava de frente a uma das janelas olhando para a cidade quando Arian entrou; a Rainha não desviou o olhar ou fez qualquer menção de ter notado a presença do guerreiro.
– Bia – chamou ele – Está preocupada, noto.
– O mundo mudou de tal maneira que torna-se impossível reconhecê-lo – revelou ela, sua expressão era de receio, ali ela não envergava a máscara da Rainha – Olhai para estas coisas que as pessoas usam para locomoverem-se, andam sem o apoio de animais, cavalos ou bois, e as vestimentas das mulheres variam tanto e de tal forma que é impossível discernir o que são aqueles trajes.
– Setecentos anos, Bia. O mundo mudou mais do que poderíamos prever.
– Eu não sei se terei coragem de encarar este mundo.
– Você, temendo algo? – riu Arian com seu riso retumbante.
– Perdoe-me – disse Bianca virando-se para ele – Esqueço-me sempre que o poderoso Arian Volturi nada teme.
– Eu a protegerei de tudo e de todos – declarou o gigante olhando-a com intensidade.
Bianca não respondeu, apenas ficou ali, iluminada pelo sol, como um anjo dos céus, encarando Arian. Aquele porte de rainha, aquela sempiterna arrogância em seu rosto, escondidos no fundo de sua alma; seus olhos estavam brilhando com uma emoção repentina, há quase mil anos não visitava aquele quarto, um quarto que outrora fora seu quando ela fora Rainha.
– Ama-me ainda? – perguntou ela com uma voz sedutoramente fatal.
– Amo-a como há setecentos anos – respondeu ele.
Então Bianca aproximou-se dele, sorrateiramente, felinamente, seu corpo como uma harmonia musical, sinfônica e lenta. Movia-se com passos precisos como uma leoa na savana, seus olhos brilhando numa intensidade luminosa, luxuriosa; uma predadora aproximando-se da presa. Ela chegou perto do gigante, imensamente maior que ela, e com um toque delicado e preciso deslocou a placa de aço de seu peito, soltou as grevas dos antebraços e as ombreiras pesadas deixando tudo cair no chão com um estardalhaço de metal. A camisa por baixo da armadura também estava puída e ela a desfez com um simples gesto, soltou a cinta de couro da bainha atada às costas e o machado de batalha (que deveria ser tão pesado quanto ela) tombou no chão. Arian permitiu que Bianca tirasse também suas calças e em seguida, aproveitando sua força de vampira, atirou-o sobre a cama de Aro que rangeu sob o peso do guerreiro.
Arian riu da situação e permaneceu na cama, nu, encarando sua rainha. Bianca, lentamente, retirou a camiseta emprestada fazendo-a cair ao lado do corpo e logo em seguida amontoou a calça jeans junto. Um sorriso percorreu os lábios de Arian quando ele contemplou o corpo despido de Bianca. O ventre reto e imaculado, a curvatura dos quadris, a elegância das pernas e a suavidade daqueles fartos e simétricos seios... o colo bem formado, os ombros delicados, cada centímetro daquele corpo criado a base de perfeição e desejo.
Bianca subiu na cama, o colchão malmente deformando-se sob seu peso morno, engatinhou sobre Arian e sentou-se sobre seu corpo sentindo o membro do guerreiro enrijecendo sob ela. Bianca passeou os dedos delicados por sobre os músculos do tórax de Arian, sobre seu peito largo, passou pelos músculos de aço de seus braços e finalmente terminou acariciando-lhe a barba dourada.
– Tantos séculos sem amar-te – ronronou ela.
– Ato que jamais será impedida de fazer novamente, minha senhora – respondeu Arian.
E neste momento, Bianca moveu os quadris delicadamente introduzindo Arian dentro dela, ele sorriu e ela tremeu, e continuou o movimento de forma lenta, como uma dança vagarosa, arquejava levemente a cada investida, sentindo todo o prazer que Arian lhe proporcionava. Subia e descia enquanto encarava os olhos rubros de seu príncipe amado, seu guerreiro-deus, sua Tormenta. Arian segurou-lhe as mãos e sorriu para ela num êxtase crescente e Bianca retribuiu seu sorriso com um gemido de prazer, ela debruçou-se sobre ele e o guerreiro sentiu os seios macios comprimindo-lhe os lábios, Bianca riu e aproximou a boca do ouvido do gigante.
– Você recorda-se, meu príncipe, do dia em que apaixonamo-nos?
– Recordo-me – sussurrou Arian – Uma tarde de chuva e sol, de sangue e gritos, de guerra e morte. Recordo-me, minha Rainha, como se fosse ontem, estava assustada e molhada, mas mais linda do que nunca.
– E salvaste-me naquela tarde... eu me perdi por ti naquela tarde.
– Uma tarde de sol e chuva, eu me lembro.
Bianca subiu uma vez mais seu corpo e desceu, o prazer abraçando os dois ao mesmo tempo... e sim, Arian lembrava-se de quando apaixonou-se por Bianca. Numa tarde há muitos séculos, mas ele se recordava como se tudo tivesse acontecido no dia anterior.
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Acontecera a mais de setecentos anos atrás.
Turbulenta fora aquela época, cheia de questiúnculas, batalhas, disputas e pequenas querelas que conturbavam o mundo tão vasto e inexplorado, um mundo de aço e fogo, de sangue e coragem... de amor e ódio. Uma realidade que apesar de distante talvez não fosse tão diferente do mundo de atualmente.
Arian estava nas ameias da muralha sul admirando o nascer do sol, havia um vento sonolento varrendo os campos da toscana e aos poucos os camponeses levantavam-se de suas camas para mais um árduo dia de trabalho nas lavouras. Apesar de ser um conquistador, de ter nas veias o sangue real, afinal, seu pai biológico fora um rei viking, Arian não sentia mais necessidade de se locomover pelo mundo sobre a proa de um barco e descobrir novas terras... apaixonara-se pelo doce aroma da Toscana e não pensava em partir tão cedo.
Mas depois de algumas décadas o gosto pela selvageria das batalhas havia se assentado na alma de Arian, não completamente, mas levemente, como uma fina e tênue camada de geada sobre a grama de inverno. Arian começava a questionar-se sobre o que faria pelo resto da eternidade, apenas agora descobria o peso da imortalidade e decidiu que um dia as batalhas cessariam, as guerras terminariam e um dia o mundo encontraria a paz e os guerreiros adormeceriam, afinal, para qual finalidade teria um guerreiro num mundo sem guerras?
O sol nascente reluziu em sua armadura esmaltada, o machado de lâmina dupla adormecido na bainha em suas costas, os cabelos esvoaçaram ao vento e Arian voltou-se quando ouviu passos leves dirigindo-se até ele, ao contemplar o vampiro que aproximava-se um sorriso espalhou-se pelo seu rosto.
– Despertaste cedo, Alec – a voz de Arian ribombou alegremente – Vi-te ontem na vila perseguindo aquela moça de seios fartos.
– A ruiva? – riu Alec com um olhar maligno – Viste bem, meu príncipe, tinha um sangue deliciosamente excitante aquela jovenzinha vermelha. Sangue de virilha é tão saboroso quanto sangue de gargantas.
– Eu bem sei – riu o gigante – Mas sabes que não se deve assustar os camponeses tão próximo ao castelo.
– Ora, sei sim, mas que posso fazer eu se aquela ruiva vivia a atazarnar-me os pensamentos? Além do mais, são tempos perigosos estes e o azar é totalmente teu, amigo meu.
– Vieste aqui provocar-me, Alec, bem imaginei isso... o que foi agora?
– Nosso mestre Aro solicita tua presença e creio que adorarás a conversa – Alec faltou dando uma gargalhada sonora enquanto passava por Arian dando-lhe um tapinha amistoso no ombro – Afinal de contas, quem melhor do que eu para conhecer tua simpatia por companhias de alta patente?
– Oh, não estás insinuando que... – começou Arian, mas um riso de escárnio de Alec atingiu-lhe novamente.
– Claro que estou, não me conheces?
– Um dia ainda arrancarei este teu sorriso insolente dos lábios, anão – disse Arian numa ameaça divertida.
– Ah, talvez – tornou Alec dando-lhe as costas e seguindo seu caminho – Mas vamos, escoltar a Dama das Sombras de Volterra não deve ser assim tão ruim.
Prefiro mil vezes lutar com uma horda de vampiros a isso, pensou Arian desgostoso. Ele desejou que a provocação de Alec não passasse disto, mas sentiu que seu pai estava para lhe pedir um favor que há dias ensaiava. Era junho e Arian sabia o que isso significava.
O Salão dos Tronos estava silencioso e sombrio, a luz ainda não havia alcançado os poços de iluminação e na penumbra Arian percebeu que dois dos três tronos estavam desocupados, apenas o da frente, o primeiro, continha um vampiro sentado, meditando. Seu pai mantinha os olhos fechados enquanto seus pensamentos vagavam por sua mente milenar, o rosto jovem não denotava qualquer expressão e ele parecia adormecido, sereno, num sono desperto sem sonhos.
– Entre, meu filho – disse a voz de Aro num murmúrio tranquilo.
– Solicitaste minha presença, meu rei – disse Arian, sua voz retumbando no salão vazio.
– Aguardava-o, de fato. Venha – Aro abriu os olhos, ergueu-se de seu trono e tomou o braço do filho carregando-o para longe do salão, o rei nada disse até que os dois estivessem caminhando pelos pátios em direção aos jardins na ala leste do palácio – Preciso que faço algo por mim, Arian, algo que apenas você pode fazer.
– Problemas com Fernanda Clermont?
– Sim, isso também. O clã Clermont supõe que pode derrotar nosso poder... são tolos. Fernanda sempre fora ambiciosa e quer tomar para si o governo dos vampiros, mas Fernanda não pode ter este poder, transformaria todo o mundo em um abatedouro. Nós defendemos o anonimato, mas ela crê que deveríamos sair das sombras e reinar às claras o mundo dos homens.
– Ordena e eu visitarei nossos amigos franceses a fim de ensinar-lhes humildade e sabedoria.
– Não, Fernanda não está em Avignon. Talvez esteja espalhando suas forças por aí, mas desconfio que nem mesmo ela seja suficientemente tola para enfrentar Volterra de frente, seu exército quebrar-se-ia contra as muralhas da Cidadela e ela seria escorraçada. E apesar de impetuosa, Fernanda não é de toda idiota, ela sabe que contigo aqui jamais terá uma chance de vitória.
– Poderíeis tê-la destruído se tivesses permitido que eu devastasse o minúsculo reino daquela pateta há dois anos – disse Arian contrariado – No teria poupado dor de cabeça.
– Teria sido simples, meu filho – retorquiu Aro em tom professoral – Mas é indesculpável se valer sempre do uso da força, a força deve ser utilizada como árbitra e não carrasco, se sairmos por aí sempre destruindo nada restará daqui há pouco tempo. Não, devemos ser superiores a isso e utilizar a força apenas quando necessário. Fernanda nada fez a não ser ladrar, mas até o momento nada mordeu, provavelmente não passará disto, apenas alguém irresponsável que pensa que o poder vem sem qualquer responsabilidade... ou preço.
– Ela pode tentar causar uma revolução, meu pai – insistiu Arian – Fernanda estava sondando uma união com Mozar e caso ela consiga estaremos cercados por França e Áustria ao mesmo tempo, não que isso me incomode, mas sou incapaz de compreender por que não prevenimos um problema antes que aconteça.
– És um guerreiro e não um rei – riu Aro com leveza – Pensas que a lâmina de teu machado resolve todos os problemas, não é mesmo? Poderoso sois, meu filho, porém nem todo o poder provém de músculos e de talentos natos, não, na maior parte do tempo os governantes são obrigados a aguardar para saber o caminho que a maré revelará. Mas não preocupe-se com isso no momento, os reis pensam, os guerreiros executam... é uma forma duradoura de parceria.
– Política – bufou o gigante – Jamais terei paciência para isso.
Aro conduziu o filho até os Jardins dos Campos Coloridos, de propriedade sua e que explodia em cores vivas com as dezenas de variedades de flores que brotavam ali; um cheiro doce de néctar e pólen agitava o ar quente do verão e a o sol refletia-se na armadura de Arian lançando luzes sobre o gramado verde.
– Se não é para escorraçar os tolos ideais de Fernanda, o que queres de mim, meu rei?
– É Junho, creio que sabe o que isso significa – falou Aro visivelmente encabulado – Bianca irá até Veneza visitar o túmulo dos pais e eu preciso que a acompanhe.
– São tempos conturbados para que ela visite os pais – contrapôs o guerreiro – Que a rainha aguarde até o próximo verão quando a revolta de Fernanda tiver sido silenciada.
– Bianca realiza tal ritual a cada cinco anos, Arian – agora Aro parecia desgostoso – Nossa rainha não abre mão de sua via sacra, mesmo depois de séculos ela continua com esta tarefa e não há meios de fazê-la mudar de ideia. Bianca irá a Veneza e você irá protegê-la.
– És o rei e vossa vontade é lei. Mesmo minha rainha deve segui-la.
– Sou rei e esposo, Arian. Devo balancear um e outro.
– Fernanda está reunindo feiticeiros, meu rei.
– São rumores, assim como os rumores de bestas ferozes que surgem nas noites de lua cheia no leste europeu – sorriu Aro – O fato é que Bianca não abrirá mão de ir até Veneza e somente você possui o poder de protegê-la caso os servos de Fernanda tenham a intenção de atacá-la.
– Se Volterra sofrer um ataque eu serei mais útil aqui.
– Creio que Matheu, Alec e Jane sejam capazes de deter uma revoltazinha. Além do mais, um destacamento de Mercadores da Morte está chegando do sul para fazer a guarda de Volterra.
– Os Mercadores poderiam realizar a escolta de Bianca – teimou Arian.
– Eu não confiaria minha rainha a mais ninguém além de meu próprio filho – disse Aro decidindo tudo – E Bianca não aceitaria a escolta de ninguém mais. Sois o mais poderoso, meu filho, somente vós sois capaz de manter Bianca em segurança.
– Meu senhor percebe que a brecha de minha ausência pode dar motivos para que Fernanda nos ataque e desencadeie uma revolta?
– A peregrinação de Bianca não é segredo para ninguém, Fernanda pode estar planejando sequestrar Bianca para usá-la como moeda de troca, sendo assim, somente vós podeis defendê-la uma vez que nossa rainha jamais desistirá da ideia de viajar. Terá de me fazer este favor, meu filho.
Arian não gostava daquilo, seus instintos de guerreiro diziam que o pai estava errado e isso era o mais estranho de tudo, pois até onde ele sabia, Aro Volturi não era um tolo. Mas o comportamento do rei era no mínimo suspeito, Aro estava simplesmente ignorando o perigo de uma revolução dos vampiros franceses ao mesmo passo em que enviava sua rainha para uma viagem a Veneza... como poderia um governante fechar os olhos para dois perigos ao mesmo tempo? Arian era certeza de vitória onde quer que esteja e Aro escolhera enviar o guerreiro junto de seu bem mais precioso... Bianca. Mas como ficaria a defesa da cidade sob ataque?
– Será feita a vossa vontade... meu rei – disse Arian saudando o pai.
Cinco dias depois o pátio principal estava silencioso e ventoso, os reis não estavam presentes e tampouco a guarda, Arian montava um Percheron com quase um metro e setenta de altura e novecentos quilos; negro como a noite, o cavalo era forte o suficiente para suportar o peso do gigante. Arian sentia-se taciturno naquela manhã, não planejava servir de guarda-costas para a primeira dama de Volterra numa viagem ao norte até o mar Adriático.
– Talvez não seja tão ruim – disse-lhe Matheu, sua única companhia naquela manhã nebulosa, mas Arian lançou-lhe um olhar sombrio.
– Está a gracejar, Matheu? Nossa rainha não viaja a pé com a velocidade dos vampiros, somente a cavalo, acredita nisso? Terei de me arrastar sobre o lombo deste pobre animal daqui até Veneza para que ela reveja um monte de pedras e esqueletos.
– Sois ingênuo até os ossos, não, meu amigo? Acreditaste realmente que uma rainha viajaria a pé? Os reais pés de Bianca nunca tocaram nestas estradas poeirentas e não seria agora que ela começaria.
– Sinto que é loucura de meu pai enviar-me para longe agora que os franceses estão tramando revoltas.
– Aro tem suas razões, deverias saber disto. E não adianta tentar enganar-me, sei perfeitamente bem que não é a tarefa em si que enfurece-o, mas a pessoa.
Arian estudou o amigo por um instante, o rosto bonito de Matheu reluzia branco sob a luz velada do sol, seus cabelos longos escorrendo pelas costas como um risco negro e brilhante, havia algumas marcas finas em sua pele, marcas de batalha que também existia em sua própria pele. Guerreiros envergavam suas cicatrizes com mais orgulho que armaduras.
– Bianca é uma rainha e eu um guerreiro – disse Arian como se isso definisse tudo – Ela reina e eu luto, mas não gosto de sua companhia, não gosto do modo como ela olha para os outros... como se todos fossem presas para ela.
– Ela é uma Rainha, Arian. Todas as Rainhas tem este olhar. Olha, limite-se a levá-la ao norte e trazê-la novamente, e pronto... tarefa cumprida. E quem sabe Aro nos permita destruir toda aquela maldita corja de Fernanda Clermont.
E neste momento as portas do castelo se abriram e a Rainha surgiu no pórtico.
Matheu sustentou um suspiro.
Bianca desceu os degraus trajando um vestido de seda azul celeste, em sua cabeça uma coroa de cristal faiscava a claridade do dia assim como seus olhos rubros. Era linda ao ponto do inconcebível. Seu caminhar era superior ao dos outros, suas costas retas, seu olhar que não se dava ao trabalho de olhar para o chão, pois o chão não era digno do olhar de uma rainha. Nem mesmo a palavra “caminhar” definia propriamente o seu deslocamento, talvez “flutuar” fosse mais adequado... Bianca flutuava, ou talvez o chão se movesse sob seus pés... era impossível definir.
Sua beleza era atemporal, ao mesmo tempo delicada e feroz. Mas seu rosto mantinha-se sempre congelado naquela máscara de imponente soberba. Quando ela aproximou-se Matheu fez-lhe uma mesura e Bianca sorriu para ele desmanchando sua expressão de Rainha.
– Guardará o palácio para mim, Matheu? – perguntou ela, sua voz musical flutuando pelo ar como o perfume de flores.
– Farei o possível, Bia – disse ele retribuindo-lhe o sorriso.
Havia duas pessoas em Volterra que poderiam considerar-se amigos de Bianca: Matheu e Alec. Por uma razão desconhecida, ou por mero capricho, Bianca gostava da presença de Matheu com seu jeito simples e seu rosto belo, ao mesmo tempo em que apreciava a companhia de Alec por seu humor ácido e seu caráter cínico. Por coincidência – ou destino – os melhores amigos de Bianca eram também os melhores amigos de Arian, mas isto era única coisa que ambos compartilhavam.
– Ótimo – então ela dirigiu seu olhar para Arian – O meu príncipe está pronto para partir?
– Apenas aguardando a rainha – respondeu o guerreiro com o rosto numa expressão dura, ele desmontou e ergueu Bianca nos braços colocando-a delicadamente na cela do cavalo baio que a aguardava. Um cavalo esguio, porém rápido e ágil, Árabe, muito menor que o Percheron de Arian, mas muito mais veloz.
– Então... partamos – Bianca acenou para Matheu que lhe sorriu, porém, seu sorriso era mais para a cara de morte de Arian do que para a rainha.
Os campos de trigo passavam por eles lentamente, o grande cavalo de Arian e o ágil cavalo de Bianca trotavam tranquilamente pela estrada, indiferentes ao desconforto do guerreiro... e à delicada presença da rainha. Bianca olhava tudo com olhos sonhadores e quando se descuidava, Arian flagrava seu rosto sem a máscara de prepotência que quase sempre envergava. O guerreiro notou que a vampira ficava muitas vezes mais bela sem sua habitual arrogância, parecia uma menina na flor da idade e tão bela quanto um pecado.
Mas sempre que Bianca notava seu próprio relaxamento, tornava a sustentar a máscara da Rainha. Havia trabalhadores nos campos que olhavam estupefatos para aqueles dois viajantes tão chamativos, admiravam suas peles tão alvas que sob a luz velada do sol parecia brilhar. A viagem demoraria alguns dias, naquela época distante as estradas eram ruins e o progresso de viajantes não passaria de algumas milhas por dia. Uma distância de mais de trezentos quilômetros num voo de pássaro separava Volterra de Veneza e Arian, naquela época, ainda não possuía o Dom dos Ares. Por isso arrastava-se com sua rainha pelo interior da Itália.
O sol havia atingido o seu zênite quando pararam para que os cavalos descansassem e comecem um pouco do pasto espalhado por ali, haviam cavalgado lentamente e Arian teve a impressão que Bianca fizera isso para aproveitar cada segundo longe do castelo. A Rainha sentou-se na grama e o seu longo vestido azul fundiu-se ao verde tornando o contraste bastante chamativo, isto, somado aos seus cabelos dourados, rendeu-lhe uma imagem quase celestial, como uma deusa das matas sentada numa jardim natural.
Arian manteve-se levemente afastado vasculhando tudo ao seu redor, não gostava de parar muito distante da estrada, mas Bianca insistira com ele. Se ela estivesse sendo visada pelos revolucionários franceses... bem, quanto mais no interior da mata, melhor para se realizar uma emboscada. Arian nada temia, não precisava temer, nem nada ou ninguém, mas se Fernanda estivesse realmente utilizando feiticeiros...
– Tu realmente não suportas minha presença, não é mesmo, meu Príncipe? — disse Bianca com sua voz melodiosa olhando de um modo divertido, apesar de que a arrogância ainda estava lá.
– Não sei a que refere-se, minha Rainha – desconversou Arian, ele não tinha disposição de conversar com Bianca.
– Não te sente confortável com minha presença, bem sei – continuou ela depois de um minuto inteiro de silêncio. Assusto-te?
– Não assusto-me com nada.
– Oh, é claro que não. O poderoso Arian Volturi, O Inabalável. Os servos chamam-te de Guerreiro-deus, sabia? Deve ser interessante ser reverenciado como um deus, ou temido desta forma, não?
– Os servos falam muitas tolices – retrucou Arian.
– De fato – disse Bianca de forma amável – Como é sentir-se um deus?
– Não sinto-me deus algum.
– Mas és. Imortal, poderoso, perito em guerras... Inderrotável. Há mais divindade do que isso? Poderia dominar tudo o que quisesse.
– Não tenho intenção de dominar nada.
– E que intenções têm, meu príncipe? Virar rei?
– O rei, meu pai, é imortal, minha senhora... como haveria de tornar-me rei? E a bem da verdade considero uma benção que este peso não recaia sobre meus ombros.
– Mas tu já foste um rei, não é? — continuou Bianca em sua voz doce – Filho de um rei com muitos jarls e karls sob seu comando. Teu pai morreu jovem e te tornaste rei ainda mais jovem, saiu explorar o mundo e deu aqui no mediterrâneo às portas de Aro. Não sente falta de tal poder?
– Vivo para viajar e lutar e só – disse Arian, sua voz tornando-se um décimo mais alto – Não pretendo reinar, nem governar e muito menos ser deus algum. Sou um guerreiro e guerreiros lutam e morrem.
– Mesmo não podendo vós serdes morto?
– Eu posso ser destruído, minha Rainha, não sou indestrutível... meu poder deve ter algum limite e com sorte encontrarei um dia um oponente suficientemente poderoso para me dar a benção da cessação.
– Meu príncipe está a exasperar-se comigo – brincou Bianca – Seria prudente deixá-lo em paz, então. Não quero que tenhas uma má impressão de mim, não é mesmo? Ou corro o risco de afirmar aquilo que todos falam de mim...
– Não dou ouvido às palavras dos outros, penso por mim próprio.
– Mas tu ouves assim mesmo, sabes do que me chamam, não é? — ronronou Bianca, mas Arian não respondeu e ela continuou – Dama das Sombras. É assim que o servos me chamam pelos corredores, tens interesse em saber o por quê?
– Não – disse Arian categórico.
– Noutra ocasião, talvez?
Mas neste momento, Arian colocou-se em alerta e levou a mão ao punho de seu machado de guerra, deu um passo e depois outro em direção à árvore mais próxima, mas tudo o que dela saiu foi um pássaro em voo rasante. O guerreiro relaxou imediatamente.
– Estás disposto a morrer por mim, Arian?– perguntou Bianca olhando agora com muita seriedade.
– Morro por quem tiver de morrer – respondeu Arian aborrecido – Vamos, não gosto deste lugar.
A viagem prosseguiu para o norte e Bianca não tornou a falar com Arian, apesar de que com o passar das milhas seu rosto deixou de envergar definitivamente a máscara da rainha; por um tempo uma expressão de tristeza tomou-a e Arian notou, a contragosto, que isso apenas deixava-a mais bela. Mas logo em seguida ela assumiu um ar distante e pensativo e Arian percebeu que havia um pensamento lhe rondando a mente quando ela franziu o sobrolho, como se o resultado de um raciocínio não lhe tivesse apetecido. Isso tudo não passou despercebido pelo guerreiro e foi então que se pegou olhando-a demais e desviou o olhar. Ele não gostava de Bianca.
Algum tempo depois, quando o sol já ameaçava pôr-se no horizonte ouviram gritos que pediam ajuda e pouco a frente localizaram , em meio a um campo de algodão, uma carroça virada com algumas pessoas ao redor tentando erguê-la. A visão dos vampiros permitiu que Arian observa-se a cena mesmo a uma distância considerável, quando aproximaram-se mais ele desmontou e entrou na plantação de algodão, seu manto arrastando no chão de terra e prendendo-se nos galhos dos algodoeiros.
– Arian? — chamou Bianca.
– Há um homem preso sob a carroça, voltarei em um instante, não saia da estrada e não desmonte – sua voz era educada, mas a ordem deveria ser seguida. Obviamente, Bianca não a acatou. Ela desceu elegantemente do cavalo, segurou as saias longas e caminhou atrás de Arian.
Há algumas centenas de metros encontraram três homens rodeando uma carroça de carga que havia tombado sobre um quarto homem quando a correia que a atrelava ao cavalo se rompeu. Pilhas e pilhas de algodão recém-colhido espalhavam-se por ali e os gemidos do homem enchiam o lugar numa lamentação triste. Apesar dos esforços dos três homens, a carroça não se movia com o peso dos sacos ainda sobre ela. Muito distante da vila de onde vinham, a ajuda tardaria muito a chegar.
Mas neste instante os homens perceberam a aproximação de Arian, olharam-no com receio, afinal, um guerreiro imenso cravado de aço intimidaria qualquer pobre camponês em qualquer lugar do mundo, isso tudo aliado a olhos rubros de sangue davam a Arian uma figura deveras impressionante. Depois perceberam Bianca e mesmo agitados os homens não conseguiram evitar que seus queixos caíssem diante da beleza da vampira que agora caminhava até eles com um terrível olhar divertido no rosto.
– Calma – falou Arian num tom de voz tranquilizador – Irei ajudar-vos.
Não houve objeções para sua oferta e Arian notou que o homem preso sob a carroça já tinha uma idade avançada, provavelmente o condutor que já não servia para nada a não ser puxar as rédeas dos cavalos. Arian fez com que os homens cercassem a carroça para ajudá-lo, obviamente seu poder era suficiente para erguer dez daquelas carroças, porém a discrição era tudo; humanos poderiam conceber um homem forte ajudando-os a desvirar uma carroça, mas não um gigante saindo de sonhos sustentar o peso da carroça sozinho. Era melhor deixá-los sem algo para pensar.
Quando Arian sustentou o peso da carroça, um dos homens puxou o velho para longe. Arian não permaneceu tempo o suficiente para que os camponeses lhe agradecessem, mas isso não importava em nada, Arian não era do tipo de homem que fazia as coisas atrás de agradecimentos, fazia-as por que tinham de ser feitas.
Novamente na estrada, o sol se deitando na borda leste do mundo, Arian detectou um sorriso maroto no rosto de Bianca que teimava em não se desfazer, ela cavalgava com segurança e tranquilidade, mas aquele sorriso incomodou Arian por alguns quilômetros antes de ele perguntar:
– Saciarias minha curiosidade sobre o que a diverte tanto, minha Rainha?
– Por que ajudaste aqueles pobres miseráveis? – ela perguntou, seu cabelo agora numa tonalidade avermelhada com o sol agonizante.
– Por que não ajudaria?
– Bem...- começou Bianca, mas Arian a interrompeu.
– Por ser um vampiro e por eles serem mortais? Minha senhora, não vi motivos para permitir que aquele pobre homem morresse sob aquela carroça, por que haveria de não socorrê-lo? Por ser um imortal que vive a custa do sangue dos humanos eu devo odiá-los também? Sinto muito, não creio nisso. Os ursos comem salmões, mas duvido muito que os odeiem.
– Ah, misericórdia, que os deuses nos salvem – riu Bianca com gosto – Tens o pensamento reto de um soldado. Mas eu acho graça neste teu pensamento simplório, faz parte de quem és, e talvez seja esta tua força.
– O deixaria morrer mesmo podendo socorrê-lo? — indagou Arian arqueando uma sobrancelha.
– Rainhas não erguem carroças, Arian, que pensamento mais tolo este seu.
O guerreiro permaneceu calado até que finalmente o ocaso tivesse coberto o mundo, estrelas relampejavam seu brilho pelo céu, naquela época ancestral o céu ainda era escuro como breu sem as luzes artificiais das cidades para empalidecê-lo, assim sendo, o cintilar das constelações era intenso e maravilhoso.
Há setecentos anos não havia hotéis de beira de estrada ou pousadas disponíveis, então conduziram os cavalos para uma pequena clareira na mata e se deixaram ficar lá, no chão, olhando para o céu. Não que eles se sentissem fatigados pela viagem, mas os cavalos tinham que descansar, se morressem, a Rainha teria de caminhar a pé... ou Arian teria de carregá-la e isso fez com que ele não se importasse em parar.
Bianca estava sentada sob um carvalho antigo, seu vestido azul celeste a rodeando como ondas de um mar rodeando um rochedo dourado. Seus olhos, de um vermelho brilhante e claro, refletiam a luz das estrelas e seus cabelos brilhavam com uma tonalidade prateada. Ela parecia uma visão e Arian percebeu que ela tinha um tipo transcendental de beleza, não aquela beleza apenas carnal, que desperta o desejo, que se admira, era muito mais que isso... Bianca era linda como um anjo (ou um demônio de tentação), linda de uma forma perfeita, atemporal, inominável e inacessível.
E uma vez mais Arian irritou-se consigo mesmo por estar olhando para ela e tornou a olhar para os céus escuros e brilhantes. Ele estava deitado na relva fresca, o cheiro da noite de verão enchia seus pulmões toda vez que ele lembrava-se de respirar, havia alguns vaga-lumes zunindo por ali e piscando suas resplandecências fátuas como pequenos espíritos livres de luz. Ele ouvia a mão de Bianca afagando a grama e fechou os olhos, desejou estar sozinho naquele lugar tranquilo... fora feito para a guerra, mas agora sentia necessidade de estar em paz por mais tempo.
Sua mente estava silenciosa, mas de repente um pensamento assaltou seu descanso e ele não foi capaz de controlar a língua.
– Seguiste-me até o local onde a carroça tombara esperando que eu os estivesse caçando, não é mesmo, minha senhora?
– Perguntas se eu imaginei que estava a cortejar o sangue dos mortais? De fato, não. Apenas senti-me curiosa sobre o que estavas a planejar. Mas dói-me saber que considera-me tão sanguinária a ponto de pensar que segui-lo apenas para aproveitar um potencial banquete.
– Perdoe-me a conclusão precipitada, minha Rainha.
– Não é preciso perdoar nada, Arian, já estou acostumada.
O guerreiro relanceou os olhos para a Rainha e notou seu olhar de tristeza, ela parecia linda como sempre, mas havia algo nela que entristecia Arian mesmo que ele ainda não soubesse o que era exatamente. Por que faz isso consigo mesma? Pensou ele. Por que sustenta a máscara da Rainha sendo que possivelmente há uma mulher incrível por baixo disso tudo? Ou serei tolo por acreditar que há algo por baixo da rainha?
Pelo resto da noite os dois permaneceram em silêncio, Arian olhando para o céu e Bianca acariciando a grama. Uma única vez, durante a madrugada, Arian e Bianca cruzaram olhares e isso deu a certeza aos dois sobre o fato de que estavam ambos sempre se olhando quando um não olhava o outro.
O céu permaneceu em seu azul límpido na manhã seguinte que nasceu com raios de sol pintalgando as árvores e as plantações do lado direito da estrada. Bianca cavalgava com desenvoltura, uma menina-mulher de beleza descomunal. Arian, pesado e levemente confuso, seguia-a como um vento segue as copas das árvores.
Cavalgaram até o meio-dia quando pararam para os cavalos descansarem, deixaram os animais pastarem na grama daninha que corria paralela à estrada, do lado esquerdo a floresta deu lugar a um imenso campo de flores selvagens que cresciam pequenininhas com suas pétalas brancas delicadas. O ar era cheiroso ali, não muito, mas algo doce quebrava levemente o ar inodoro. Do lado direito um trigal jovem espetava suas hastes douradas rumo ao céu, e foi no meio dos trigos que Arian percebeu uma sombra.
Foi como se uma nuvem tivesse passado pelo céu, sombreando o campo, mas nuvens não se moviam tão depressa, de uma forma ou de outra, foi rápida o suficiente para que Arian apenas registrasse sua presença com o canto dos olhos, mas isso já foi o bastante para ele empertigar-se desconfortavelmente.
– Minha Rainha, não deixe a estrada, eu volto logo — disse ele com sua voz de trovão, e apressou-se a acrescentar – E, por favor, não me siga.
A incompreensão sombreou o rosto de Bianca, mas ela não se moveu. Arian entrou no trigal e sacou o machado da bainha, o fio da lâmina tão afiado que cortava as hastes de trigo apenas de roçá-los. Arian caminhou por algumas centenas de metros, mais ou menos onde vira a sombra saltar no meio da plantação, mas seus olhos nada detectaram. Seu sentido de guerreiro dizia que havia alguma coisa errada por ali, era como se ele pudesse farejar o perigo sem, no entanto, vê-lo. Não havia nada no trigal e ele se voltou novamente para a estrada e ao fazê-lo sentiu seu um nó de gelo na garganta.
A estrada estava vazia, Bianca não estava lá.
Arian usou sua velocidade sobrenatural e num piscar de olhos estava novamente na estrada envolto em uma nuvem de pó que ergueu-se ao seu redor, os cavalos continuavam pastando tranquilamente e apenas o barulho monótono de uma cigarra podia ser ouvido.
– Bianca – chamou Arian em meia voz, ela era uma vampira e não havia necessidade de gritar, mas quando a rainha não respondeu, Arian ergueu a voz num desespero crescente – BIANCA?
– Estás a gritas para quê, meu príncipe? — respondeu ela num murmúrio tranquilo.
Arian distinguiu o lugar de onde a voz dela veio e lentamente se dirigiu até lá caminhando por entre as flores selvagens. Depois de algumas centenas de metros, encontrou Bianca sentada tranquilamente em meio às flores, seu vestido azul formando ondas ao seu redor; seus olhos brilhavam com serenidade ela terminava de trançar uma coroa de flores silvestres colocando-a, em seguida, sobre sua cabeça.
– Vê, agora sou uma rainha de um canteiro de flores – falou ela lhe sorrindo de forma natural e desprendida.
Diante de Bianca sentada em meio às flores, de seu sorriso esfuziante e de seu rosto inocente, o olhar carregado e repreensivo de Arian se dissolveu como bruma ao sol. Ela estava realmente linda com as flores no cabelo e não envergava a máscara de opulência da rainha, então era apenas ela mesma, como uma menina comum sorrindo-lhe à luz do sol.
– Minha senhora – disse Arian, mas sua voz saiu suave e ele se abaixou para que ela pudesse olhá-lo nos olhos – Preciso pedir-vos que não se afasteis de mim.
– Temes perder a esposa de vosso pai para algum inimigo? — perguntou ela, mas um sorriso travesso já se espalhava por seus lábios.
Ela tenta-me sempre que pode, pensou Arian, que respondeu polidamente:
– Sois a Rainha e os tempos são perigosos. Fui designado para proteger-lhe, minha senhora, mas não posso permitir que facilite as coisas para nossos inimigos.
– Se eu pedisse-lhe para vir comigo até aqui, negar-me-ia – disse Bianca, sua voz chateada – Queres saber o motivo pelo qual viajo para minha terra natal a cada cindo anos? Para poder sair um pouco do palácio e fazer as coisas por mim mesma. A vida de Rainha é enfadonha depois de alguns séculos, Arian. Tenho de sorrir sempre para os lordes vassalos do senhor meu esposo, Aro trata-me como um enfeite, um ornamento em sua corte, mas nunca presta atenção ao que eu falo e considera que por ser mulher minhas ideias são perigosas e tolas. Será que nem ao menos colher flores eu posso sem ter de pedir permissão a alguém?
Arian notou a tristeza que havia em Bianca, esforçou-se para se lembrar dos porquês que o levavam a não gostar da Rainha, mas naquele momento não conseguiu recordar-se de nem um. Ele mesmo sentia-se sufocado às vezes com todo o rigor das regras dos Três, sem jamais conseguir descanso, sempre servindo, servindo e servindo; lutando, lutando e lutando.
– Podes colher flores sempre que desejar, minha Rainha – disse ele por fim, sorrindo-lhe – Apenas me informe para que eu possa acompanhá-la.
– Estamos evoluindo – disse Bianca levemente surpresa – É a primeira vez que sorri para tua Rainha.
– Eu não sorri para a Rainha – disse Arian sem pensar – Sorri para você, Bianca.
Ela olhou-o, o susto tomando-a, e então Arian desviou o olhar e ficou em pé, de guarda, enquanto Bianca terminava de trançar sua coroa de flores. Ele não tornou a olhá-la até que ela pediu que ele ajudasse a levanta-la e quando Arian tomou a mão de Bianca foi como se um choque elétrico passasse pelos dois, a mão dela tão pequena e delicada escondeu-se em seu punho grande e rude coberto pela manopla de aço.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Enquanto Bianca seguia novamente para a estrada, Arian perguntou-se por que havia dito aquilo à Rainha. Talvez – ou muito provavelmente – por ter descoberto que a Rainha era uma máscara, algo que Bianca usava para sobreviver na corte, mas por baixo de toda aquela roupagem real, talvez houvesse uma mulher delicada e frágil que precisava de ajuda, de carinho e proteção.
Mas o guerreiro chacoalhou a cabeça vigorosamente... seja lá do que Bianca precisasse, não lhe dizia respeito. Ele era apenas o seu protetor. E só.
Tantas décadas convivendo com Bianca e ele jamais havia lhe dirigido um olhar mais atento, sempre fora apenas uma Rainha e Arian também acreditava que as rainha de nada serviam a não ser de enfeite na corte mesmo que tivessem certa influência sobre os reis. Agora, entretanto, alguma força até então desconhecida por ele fazia-o voltar seus pensamentos para a vampira... como se Bianca tivesse sua própria força gravitacional.
Durante a tarde cavalgaram em silêncio, mas ao fim do dia encontraram uma precária estalagem em uma encruzilhada na estrada. Aquela estalagem ali estava há muitos anos e mesmo decrépita ainda recebia inúmeros viajantes que não se importavam com as condições do estabelecimento desde que tivessem um lugar sobre suas cabeças durante a noite.
Bianca pediu ao estalageiro um quarto para que pudesse banhar-se e mudar de roupa, o homem não era tolo e percebendo que tratava-se de uma dama de rica procedência, cobrou o dobro pelo quarto já que ela não usaria-o para uma pernoite. Bianca não se importou e subiu para o quarto pedindo para que as criadas levassem água quente para o banho. Bem quente, escaldante. O cavalo de Arian carregava em seus alforjes a bagagem da Rainha e ele entregou um embrulho volumoso a uma das aias para que levasse-o até Bianca.
Já era noite cerrada quando a Rainha desceu e todos no pequeno salão de jantar prenderam a respiração... as mulheres mantinham no olhar um ar de respeitosa inveja e os homens devoravam-na com a mente. Bianca substituiu o vestido azul celeste por outro num tom roxo trabalhado em fitas brancas, o decote era levemente tentador para a época e seus fartos seios enchiam-se com uma aparência de apetitosa luxúria. Seu rosto estava perfeito e ela havia prendido os cabelos num coque alto permitindo que seus olhos rubros e brilhantes ganhassem ainda mais destaque... seus lábios tinha uma coloração rosa e suculenta, seus braços estavam desnudos e sua pele resplandecia à luz das velas de sebo.
Arian ergueu-se da mesa onde se sentava para saudá-la e ela lhe fez um sinal para que ficasse a vontade. O guerreiro não sabia ao certo o que pensar de sua Rainha até o momento em que ela sentou-se delicadamente ao seu lado olhando o salão ao redor.
– Estás faminto? — ela perguntou sorrindo – Ouvi dizer que o ensopado de carne de cavalo deste lugar é muito bom.
– Gracejas, minha senhora – respondeu Arian.
– Sim, não faça esta cara de espanto, estou a brincar... e pelo visto nunca entendes meus gracejos. Talvez não tenha sido feito para entender as brincadeiras de uma mulher?
– Talvez – disse o gigante levemente incomodado com a presença de Bianca, de uma forma estranha ela o intimidava, e Arian fez o que pode para não olhar para o colo de Bianca e seu decote apetitoso.
Bianca pediu vinho e dois copos, mas durante o tempo que ali permaneceram não tocaram na bebida, por um quarto de hora permaneceram em silêncio, apenas admirando os humanos e observando os bêbados ficando mais bêbados enquanto dançavam sobre as mesas e apertavam o traseiro das moças que serviam a comida. Bianca sorria com displicência considerando, obviamente, a tolice dos humanos, mas Arian, por sua vez, não conseguia relaxar nem por um momento.
– Você não tem sede? — perguntou-lhe a Rainha.
– Alimentei-me antes de partirmos, minha senhora.
– Eu também, mas é difícil concentrar-se quando há tantas gargantas espalhadas ao nosso redor, não é mesmo?
– De fato.
O silêncio tomou-os por mais uns instantes, Bianca cheirava perfume de rosas depois de um banho e o pó da estrada já não maculava seu rosto perfeito, os olhos de Arian traíram-no e ele olhou para Bianca no mesmo momento em que ela o olhava e os dois apressaram-se a desviar-se um do outro.
O que diabos acontecia a ele?
Não gostava de Bianca, não gostava de ninguém da Corte, eram apenas burgueses rufiões que nada faziam além de engordar seus cofres aproveitando-se do trabalho dos outros.
– Podereis banhar-se se assim desejar – disse Bianca.
– De nada adianta um guerreiro cheiroso se a minha senhora não ficar sob minha proteção.
– Mas eu fiquei sem vossa proteção, meu príncipe. Ou tomaste banho junto de mim? — perguntou ela com aquele seu eterno sorriso maroto.
– A minha senhora sente-se bem em troçar de minha pessoa, não?
– Não – tornou ela, e seu rosto tornou-se sério – Mas só há vós para conversar comigo.
– Não conversas com o rei? — quis saber Arian sem saber, no entanto, porque perguntara aquilo.
– O rei não conversa comigo há muito tempo – disse Bianca vestindo seu olhar prepotente de Rainha.
– Fazes isso como defesa, não é? — perguntou Arian sabendo que ia longe demais, muito além do que pretendia ou queria, mas parecia que seus lábios moviam-se contra sua vontade.
– Meu príncipe? — uma ruga de incompreensão formou-se no rosto de Bianca.
– A máscara da Rainha. Tens dois rostos, eu não havia reparado até então. Quando a conheci e desde este momento acreditava que era feita de prepotência, arrogância e ambição, mas recentemente percebi que esta pompa não passava de uma máscara, uma identidade criada para uma Rainha. Parece que por baixo de tudo há uma pessoa diferente.
Por um instante uma sombra de ira queimou nos olhos de Bianca e Arian percebeu que ela não gostava de ser vista em sua forma natural... ou frágil. Mas a sombra desapareceu um instante depois e a Rainha apenas estudou o rosto de Arian com atenção. O guerreiro imaginou que ela iria repreendê-lo por ter usado um tom tão casual para com uma Rainha, ou por ter sido insolente, mas Bianca não fez nada disso.
– Então ambos escondemo-nos sob máscaras? — perguntou ela arqueando uma sobrancelha.
– Perdoe-me?
– Não é fácil ser mulher, Arian. O mundo crê que somos inferiores em tudo, frágeis e despreparadas, mulheres não são nada além de parideiras; quando vampiras é tão pior, não podermos gerar filhos e somos usadas apenas para o prazer. Se não houver nada entre este estúpido pensamento que somos inferiores... bem, o que quero dizer é que quando uma mulher quer respeito ela tem de conquistá-lo de outras formas. Mas eu não compreendo, Arian, por que até hoje um homem que nasceu para ser rei, contenta-se em parecer apenas um bom filho.
Foi a vez de um lampejo de ira perpassar pelo rosto de Arian, mas ele também tratou de apagá-la. Bianca sabia que Aesir, seu pai biológico, fora um rei Viking e que Arian não era príncipe apenas por ser filho adotivo de Aro, mas por ter nascido príncipe enquanto mortal, portanto, talvez o que ela estivesse tentando dizer é que não compreendia como um rei por direito contentar-se-ia a ser apenas um servo durante a eternidade. Vikings nasceram para conquistar e não ser conquistados.
Arian suspirou.
– Jamais ansiei um reinado.
– Nasceste com todo este poder sem o pensamento de dominar? — riu Bianca aquele seu riso cristalino e musical – Nasceste incompleto então, Arian.
– Nem todo grande pintor tem vontade de pintar para sempre, minha senhora. E nem todo bom pescador sonha em passar os dias queimando ao sol e ao sal do mar até o fim de sua vida, reinar não é comigo, eu sou bom em...
– Destruir? — cortou-o Bianca, mas ela sorria de um modo que dizia claramente que se divertia.
– Guerrear não é única coisa que sei fazer, minha senhora.
– Então amas também? — ela disparou a pergunta como uma flecha.
A pergunta deixou Arian confuso por um tempo. Qual interesse nisso? Perguntou-se Arian. Ele não gostava da Rainha, mas aquela não parecia ser a Rainha, era apenas Bianca mesmo que Bianca fosse a Rainha que ele não gostava. Aquilo começava a embaralhar seu pensamento, ele não gostava dela, mas começava a conhecê-la e descobrir que mesmo sendo duas pessoas, trava-se de identidades diferentes, como uma roupa bonita que vestimos e que pode mudar nossa aparência, mas não quem somos.
Ele sentia-se estranhamente confortável ali naquele lugar imundo e pobre, divertia-se vendo Bianca, uma Rainha imortal, descontraidamente sentada numa cadeira suja e rodeada por mortais miseráveis. Mas a voz dela era bonita de ouvir e seus olhos o impeliam a conversar... e conversar com ela era diferente do que conversar com Matheu ou Alec, ela o desafiava, desafiava de um modo diferente. Numa luta corpo a corpo não havia adversário para Arian, mas Bianca desafiava sua mente... forçava-o a admitir que ele não a compreendia de todo. E havia outra coisa também. Arian sempre conhecera mulheres mortais e matava sua sede e sua vontade libidinosa com mulheres comuns, mas somente agora, naquele local improvável, percebeu o que até então jamais havia lhe chamado atenção: ele nunca se envolveu com uma vampira, não havia prestado atenção a mulheres imortais até aquele momento.
Décadas lutando e guerreando... talvez seu bravo coração agora apenas ansiasse também por alguém para se amar. E sim, ele era capaz de amar, apesar de jamais tê-lo feito.
– Nunca tive tempo para amar – disse Arian e Bianca inclinou-se sobre a mesa parecendo ainda mais interessada.
– Nunca? — ela perguntou e ele notou a sensualidade de sua voz.
– Tornei-me rei muito jovem quando meu pai morreu e não tive tempo de buscar uma rainha. Depois afoguei-me na costa do Mare Nostrum, o Mediterrâneo, quando Aro me encontrou e tornou-me imortal. E desde então luto em nome dos Volturi.
– Nenhuma vampira chamou-lhe a atenção? — ela perguntou, seus olhos brilhando.
– Nunca notei-as até então... tinha a cabeça apenas nas batalhas.
– Nem mesmo os imortais podem dar-se ao luxo de negar o amor.
– Ama Aro? — a pergunta saiu num rompante, algo que não era esperado por nem um dos dois e assim que as palavras foram enunciadas, Arian arrependeu-se de tê-las dito. Bianca endireitou-se na cadeira e desviou os olhos dele, mas seu rosto assumiu um ar distante e ela demorou muito até responder.
– Amei-o um dia, pelo que ele era – disse ela – Amava-o pelo que poderia ser, mas Aro mudou desde então e tornou-se diferente... e suspeito que jamais tenha me amado realmente, talvez apenas tenha mantido-me na corte como um prêmio ou algo assim.
Arian sabia o que era esta sensação, às vezes imaginava que Aro não nutria qualquer sentimento para com ele, apenas mantinha-o por perto como uma arma superpoderosa que garantia a hegemonia Volturi. Mas ele não disse nada. Refletiu sobre o que Bianca havia revelado, “amei-o um dia”. Mas o que isso importava a ele? O que poderia os desamores dos reis interferir em seus próprios negócios? Mas isso serviu apenas para compreender um pouco mais sobre Bianca.
De que servia ter tudo e ao mesmo tempo nada? Bianca tinha todo o poderio e toda a riqueza de Volterra a seu alcance, era a Rainha Maior, esposa do Grande Rei, e tudo o que desejasse era oferecido a ela ao menor estalar de dedos. Era, provavelmente, uma das mulheres mais belas que havia caminhado sobre a face do mundo, linda ao ponto da loucura, mas nem isso poderia salvá-la da dor que sofria. Bianca tinha poder e riqueza, beleza e força... mas não tinha amor. De que serviria a eternidade sem o amor?
Arian não conhecia ao certo a história de Aro e Bianca, mas já ouvira dizer que ela a conquistara como prêmio: A mais bela veneziana como esposa. Aro apenas a conquistou para tê-la como exibição, mas talvez a tenha amado apenas no início, e agora, pelo visto, Bianca também já não mais o amava. E esta era a tristeza de Bianca, a tristeza que ela matinha oculta sob a máscara da Rainha: não havia mais amor em sua vida e por isso, talvez, ela insistisse tanto em fugir de Volterra de tempos em tempos... queria ver-se livre de sua própria máscara, seu próprio fardo.
Arian não sabia ao certo o que dizer, ou por que deveria dizer algo... pela milionésima vez lembrou-se de que não gostava dela, mas uma voz na sua mente o contrapunha sempre com uma força cada vez mais insistente: Mas esta não é a Rainha, é apenas um mulher imortal e triste. Porém, mesmo que encontrasse palavras, Arian não teria tempo de dizer nada.
As janelas encardidas da estalagem explodiram numa nuvem de vidro pulverizado. Gritos desconexos de surpresa ecoavam por entre as mesas tombadas e o cheiro doce e metálico de sangue formou uma nuvem libidinosa em todo o lugar. Arian piscou e automaticamente ergueu-se empurrando Bianca para um canto da sala de jantar, havia confusão e caos, corpos caídos e pessoas tentando erguer-se do chão apoiando-se nas cadeiras. Copos e pratos espalhavam-se por todos os lados formando um tapete de cacos e recortes de cerâmica.
O guerreiro agarrou o cabo do machado empunhado-o a frente do corpo, sua mente trabalhando em vários lugares ao mesmo tempo, calculando riscos, probabilidades de ataque e de defesa. Geralmente Arian usaria apenas o ataque, mas como tinha de proteger Bianca, não teria outra opção a não ser aguardar.
Mas sua espera foi recompensada apenas com mais uma explosão de impacto. Arian nunca havia visto uma força como esta capaz de varar parede de tijolos com barro endurecido; o guerreiro notou que uma fumaça verde seguia as explosões e que um cheiro metálico, como uma tempestade de raios, empesteava o ar.
Feiticeiros, pensou num lampejo de raiva.
– Arian – chamou Bianca – O que é isso?
– Estão atrás da senhora, minha Rainha – esbravejou Arian – Permaneça atrás de mim.
Mais pessoas haviam sido feridas e os gritos tornaram-se gemidos brandos em meio aos escombros do edifício. Quando Arian pensou em se mover uma terceira explosão, muito mais potente do que as anteriores, chacoalhou a estrutura frágil do lugar e as paredes e colunas começaram a ceder. Arian agarrou Bianca e usando sua força atravessou uma parede de tijolos em meio a uma nuvem de pó, o guerreiro viu-se do lado de fora da estalagem que colapsava-se sobre si mesma. Arian segurou Bianca com o braço esquerdo da mesma forma que um pai seguraria sua filha infante, correu com ela dali, mas não havia nem bem chegado à estrada e percebeu que estava cercado.
Havia oito deles. Trajavam roupas escuras com o brasão da casa Clermont: um corvo de olhos vermelhos voando num céu igualmente vermelho. Seus olhos sanguinolentos de vampiro brilhavam à luz verde que incendiava a estalagem destruída. Encaravam Arian com sede de sangue, prontos a amaldiçoá-lo ao menor movimento suspeito.
– Entregue-nos a Rainha – falou o que estava mais próximo, provavelmente o líder – E terás um morte rápida.
– Quem ousa ameaçar a Rainha de Volterra? — perguntou Arian, sua voz de trovão retumbando na estrada vazia e escura – Revele-se.
– Não há motivos para revelar-nos para um cadáver – retorquiu o feiticeiro.
– Então teu nome não constará na história, tolo – rebateu Arian com furor – Esmagar-te-ei o crânio com meus próprios punhos e tu não serás lembrado pelo que é, apenas como um feiticeiro indigente que ameaçou enfrentar a fúria de Arian Volturi.
– Peguem-na – ordenou o feiticeiro líder e os outros fecharam o cerco sobre Arian.
– Arian – gemeu Bianca.
Os feiticeiros formaram um círculo ao redor dele, não eram tolos o suficiente para aproximar-se do raio de alcance de seu machado de guerra, Arian ainda sustentava o peso morno de Bianca em seu braço e isso lhe dava uma menor agilidade. Ele odiava feiticeiros, eram seres covardes que não lutavam com honra, apenas mantinham-se a distância lançando seus encantamentos e maldições.
Arian cuspiu não chão perto deles.
– Se não há coragem em tuas almas corruptas para me enfrentar, então eu irei até vós.
O guerreiro acelerou até além do limite de sua própria velocidade, muito mais veloz que um vampiro comum, movia-se apenas como um borrão e os feiticeiros não eram capazes de lhe seguir os movimentos. O machado de Arian varreu a cabeça de um feiticeiro para longe e partiu um segundo ao meio, mas antes que desenterrasse a lâmina do corpo do inimigo, ouviu o líder deles bradando ordens.
– Detenham-no antes que ele nos liquide.
Arian sentiu seu corpo pesar, como se uma grande força o impulsionasse rumo ao chão, forçando-o a curvar-se; ele sentiu como se a gravidade do mundo aumentasse centenas de vezes, subjugando-o, pressionando-o rumo ao centro do mundo. Mas Arian não seria facilmente vencido por feiticeiros, ele suportou a força, tentando não curvar-se, mas a pressão era tamanha que o chão ao seus pés fendeu-se enquanto ele lutava para manter-se.
Bianca tinha uma expressão de horror no rosto, ela percebeu que não podia fazer nada para ajudar Arian, se a força do gigante podia ser subjugada, o que ela poderia fazer? Em pouco tempo Arian soltou-a dos braços, mantendo-a sob suas pernas, ele forçou o braço do machado a erguer-se num movimento lento e trabalhoso. O líder dos feiticeiros olhou-o com espanto.
– Aumentem a força, ele está se movendo ainda.
Mas era tarde demais, com um movimento rápido do braço, Arian atirou o machado em direção a um dos feiticeiros, o vampiro matinha ambas as mãos erguidas para o feitiço e não teve tempo de de defender... o machado cravou-se entre o peito e a cabeça abrindo uma valeta em seu corpo que quebrou e estilhaçou-se no chão.
Com apenas quatro inimigos sustentando o encanto, Arian conseguiu forçar-se a ficar em pé e encarou-os com um olhar de demônio.
– Matarei a todos aqui – sua voz soava como o ribombar de uma tempestade.
– Aumentem a carga – gritou o líder feiticeiro – AUMENTEM A CARGA.
Sofrimento relampejou pela face dos quatro feiticeiros que mantinham o feitiço sobre Arian, eles claramente esforçavam-se para vencer a força descomunal do gigante. Pouco a pouco o joelho de Arian dobrou-se sob o peso e suas mão tremiam quando ele olhou para Bianca.
A Rainha estava caída no chão consciente de que não havia nada que pudesse fazer para ajudar o guerreiro, Arian vergava-se sob o peso de uma montanha, como se estivesse sustentando o céu. E quando o feiticeiro líder teve a certeza de que o guerreiro estava subjugado, entrou no círculo de feitiço sem, no entanto, ser afetado pela pressão que prendia Arian. Ele caminhou indiferente até Bianca agarrando-lhe o braço e erguendo-a do chão.
Bianca não notou sua presença até senti-lo puxando-a, ela virou-se e desferiu um golpe poderoso em seu rosto, o feiticeiro cambaleou, porém, acostumado a batalhas, recuperou-se rapidamente e com as costas da mão golpeou Bianca que perdeu o equilíbrio, mas antes que ela caísse o feiticeiro agarrou-lhe o pulso, puxou-a para si e golpeou-lhe novamente... agora com o punho fechado. Bianca parou de lutar no mesmo instante. Era uma dama, não uma guerreira.
O ódio de Arian fervilhava como um vulcão em erupção, queimando-o por dentro, cozinhando sua vingança. Bianca lhe lançou uma olhar impotente.
– Arian – ela chamou baixinho enquanto o feiticeiro lhe arrastava para longe do guerreiro.
– Matem-no – ordenou o líder atirando Bianca sobre um ombro e desaparecendo na noite escura.
A pressão sobre Arian aumentou ainda mais, mas a raiva do guerreiro era mais potente, florescia feito uma mata incendiada, queimava como lava incandescente. E Arian desejou poder atacar à distância e quando pensou nisso xingou-se a si mesmo... afinal, não era ele um manejador de dons? Não era ele diferente de outros vampiros que possuíam apenas um único poder? Arian concentrou-se, sua mente rodava com o esforço, nublava-se para qualquer pensamento, mas no fundo de sua consciência ele desejou desenvolver dons que pudessem lhe dar uma vantagem à distância... e então ele os formulou.
Sua raiva transcendeu os limites quando ele lembrou-se de Bianca sendo golpeada e focou-se em apenas um dos quatro inimigos que lhe lançavam o feitiço... subitamente o homem ficou estático, suas mãos afrouxaram e caíram ao lado do corpo, seu rosto assumiu uma expressão de espanto vidrado.
– O que está fazendo? — berrou outro feiticeiro – Não pare agora, irá enfraquecer o laço.
– Não consigo me mover – resmungou o vampiro entre os dentes cerrados.
Arian focou no vampiro imóvel e uma explosão de ira lampejou em seus olhos. Queime, ele pensou dentro do turbilhão de sua mente... e o vampiro queimou. Do nada, o corpo do feiticeiro entrou em combustão, o cheiro calcinado de cinzas mesclou-se ao grito de horror do vampiro que agora sentia as chamas consumindo-o. Os outros três feiticeiros assustaram-se e um deles baixou a mão... isso foi o suficiente para que Arian pudesse erguer-se novamente.
Não houve tempo para que o trio retornasse a sua concentração para o encanto, Arian paralisou mais um e ateou fogo no feiticeiro fazendo uma segunda pira queimar na noite escura. Agora já não havia mais meios de os feiticeiros vencerem-no. Ele olhou para o outro e nem se deu ao trabalho de paralisá-lo, apenas queimou-o com um ódio sem fim, o grito do vampiro encheu o ar e ecoou pela estrada vazia.
Arian olhou com olhos assassinos para o último feiticeiro que agora recuava aterrorizado, o guerreiro sentiu que o vampiro iria tentar correr e paralisou-o ali mesmo. Arian caminhou para ele lentamente, uma expressão demoníaca em seu rosto rude, ele desprendeu o machado do corpo do inimigo que havia matado mais cedo e alisou a lâmina com um sorriso mortal.
– Pare com isso – murmurou o feiticeiro.
– Diga-me para onde a Rainha foi levada – exigiu Arian, mas o feiticeiro não respondeu e ele cortou-lhe o braço direito. O feiticeiro berrou de surpresa e dor – Eu tenho a noite toda, maldito, darei cabo de ti bocado a bocado e tu vais me dizer para onde levaram Bianca ou teu sofrimento durará até o dia amanhecer.
Foi preciso mais um braço e uma perna até o feiticeiro revelar o paradeiro de seu líder e da Rainha, depois disso Arian atorou-lhe a perna restante e o incendiou com seu dom de combustão. Varreu com o olhar o lugar onde vários feiticeiros jaziam decapitados ou reduzidos à cinzas.
Arian seguiu para o leste, como um lobo caçador, e encontrou uma região rochosa e infértil na boca distante de um vale amplo. Havia uma montanha não muito alta e em sua encosta pedregosa erguia-se uma espécie de castelo de rocha bruta. Parecia uma imensa torre circular e decrépita com seu cume escarpado e aberto para o céu, da montanha corria uma cachoeira que parecia cair dentro do castelo.
Arian caminhou irresoluto até lá, não se importando se haveria ou não mais feiticeiros. Quando aproximou-se, um corredor alto de pedra o conduziu até a porta do castelo, havia rochas quebradas em montes como se um gigante com uma marreta igualmente gigante estivesse a estilhaçar as rochas do lugar.
Antes de alcançar as porta de entrada – que de porta nada tinha, não passava de uma gruta, uma caverna escura e úmida – sete vampiros, todos usando o brasão de Clermont, surgiram para lhe enfrentar, mas a fúria de Arian já assumia proporções descontroladas e o guerreiro queimou-os com o seu dom sem qualquer hesitação. Depois disso desprendeu o machado da bainha e ceifou a cabeça de mais quatro inimigos que surgiram dentro da caverna.
A caverna afunilou-se até não passar de um túnel comum, porém grande, onde quatro homens poderiam andar lado a lado sem tocar nas paredes de pedra. Arian seguiu por ali, o machado na mão, e deparou-se com uma dúzia de vampiros correndo para ele provavelmente ordenados a interceptar e matar o agressor. O guerreiro varreu-os com seu machado, partindo braços, decapitando cabeças, rachando crânios... até que todos estivessem mortos. O castelo rochoso era um labirinto de corredores quase todos iguais, mas Arian ouviu o som de água corrente e decidiu seguir para baixo, quase sempre as prisões eram em baixo dos castelos, apesar de que ele não tinha certeza de que o bruxo seria tão estúpido de tratar Bianca como uma prisioneira comum.
Mas assim que chegou a uma abertura larga no fim do corredor, deu-se conta que o feiticeiro era realmente estúpido.
Arian descobriu que estava no vão do castelo que abria-se para o céu que ele havia visto de fora, olhando para cima havia nada como telhado a não ser um céu claro de amanhecer e a água que caia esparrinhando-se para todos os lados, a cachoeira que descia da montanha caia ali e provavelmente o vão nada mais era do que um túnel imenso aberto pela água ao passar de milhares de anos erodindo a rocha.
O guerreiro observou os inúmeros outros corredores que desembocavam neste vão, como nichos vazios de esculturas nas paredes das catedrais, e quando correu os olhos mais para baixo, viu que havia uma estrutura de madeira atravessando o vau lá alguns andares abaixo, a princípio Arian imaginou que tratava-se de uma ponte, mas percebeu que na verdade era uma prisão. Pois Bianca estava lá.
Seu vestido estava completamente amarrotado e havia sido rasgado na linha das coxas deixando-o escandalosamente curto, uma das alças havia sido arrebentada e ela segurava-o sobre o busto tentando manter-se vestida. A ponte deveria ser levadiça e móvel, pois Arian notou que não havia qualquer túnel para que ela conduzisse, provavelmente Bianca foi colocada sobre ela e a ponte foi decida até o lugar mais profundo do vão, de onde ela não conseguiria saltar ou escalar a parede lisa.
A água caía sobre a Rainha, e por mais que Bianca tentasse se esconder em um lado da ponte onde houvesse menos água, o vento acabava mudando os borrifos banhando por inteiro o lugar e não permitindo que ela mantivesse-se seca. No último patamar, antes do andar onde ela se encontrava havia uma espécie de ameia por onde vários guardas a vigiavam, se ela tentasse escalar seria atirada novamente sobre a plataforma abaixo.
Arian ficou realmente furioso com as condições a que Bianca havia sido submetida, ali, atirada no fundo de um poço escuro, quase nada restava da dignidade arrogante da Rainha. O guerreiro ouvia ao longe os ecos que chegavam pelo corredor, estavam buscando por ele, mas era bobagem, sem mais feiticeiros nem um exército seria capaz de detê-lo.
Sem mais esperar, Arian soltou-se do andar onde estava e atirou-se na escuridão, aterrizou com um baque surdo espalhando água para todos os lados nas ameias onde os guardas vigiavam Bianca, eram seis no total e estavam totalmente despreparados para a surpresa que tiveram. Arian chutou o primeiro no peito, fintou para o lado para se livrar do golpe da lança, quebrou a haste, girou o corpo e meteu o cotovelo cravejado de aço na cara do atacante; quando o vampiro desequilibrou-se, partiu-o ao meio com o machado. O terceiro tentou agarrar-lhe a garganta, mas Arian deu um passo rápido para trás e subiu o machado no queixo do vampiro, a cabeça do pobre abriu-se em duas. Os outros três estavam assustados demais para chegar até eles e Arian simplesmente invocou seu dom da combustão e queimou-os ali mesmo... um fogo tão feroz e brilhante que nem mesmo a chuva constante da cachoeira era capaz de apagar.
Quando todos haviam morrido, Arian colocou a cabeça para fora das ameias e olhou para baixo, os olhos dele encontraram os olhos de Bianca e uma luz de surpresa, alívio e medo percorreu o rosto dela.
– Minha Rainha – ele chamou – Estás ferida?
– Apenas o orgulho – a voz dela chegou a ele quebrada e infantil.
Arian subiu na ameia e atirou-se para baixo, a plataforma rangeu em protesto sob o impacto do gigante, ele caiu do lado oposto ao que estava Bianca para não correr o risco de acertá-la. Bianca o encarou e ali, com o vestido rasgado, o cabelo molhado colado ao rosto, esfarrapada e suja, parecia ainda tão linda quanto antes. Arian atravessou o jato de água da cachoeira e Bianca atirou-se em seus braços.
– Eu sabia que viria salvar tua Rainha – ela disse.
– Eu não vim pela Rainha, Bianca – e seus olhos encontraram-se demoradamente e ela lhe sorriu com afeto – Agora vamos sair daqui, eu tenho contas a acertar com um certo feiticeiro.
Arian embainhou seu machado e ergueu Bianca em seus braços, saltou para a parede lateral e impulsionou-se para cima meio saltando, meio voando, caiu nos corredores de onde tinha vindo; caminhou irresoluto pelo lugar até encontrar passagens que o conduziriam para cima, tinha certeza de que o líder estaria nos andares superiores.
Quando, dobrando uma das esquinas de rocha, deu de cara com um batalhão inteiro enxameando o corredor, os olhos de Arian se inflaram e ele ateou fogo em todos os vampiros que o encaravam. Bianca sentiu o calor daquela onda de fogo e os gritos de desespero dos vampiros encheu a câmara ecoando por todos os lugares, amplificando um desespero infinito. Arian não teria misericórdia de ninguém.
Nascera para isso... para matar e guerrear.
Os deuses o fizeram mortal para que sua fúria não se sustentasse por muito tempo na face do mundo, mas Aro fora tolo o suficiente para imortalizá-lo... para permitir que esta ira infinita destruísse todos que se punham no caminho de Arian.
Houve mais guardas, Arian destruiu-os a todos. Até que encontrou o último andar onde uma câmara grande era guardada por dois vampiros igualmente grandes e uma porta dupla de carvalho enegrecido. Os guardas ergueram suas grandes espadas e Arian colocou Bianca no chão e ao deixar os olhos sobre ela, sua raiva apenas aumentou, ali na luz das tochas ele notou que o rosto da Rainha estava marcado, ferido, como quando uma placa de mármore é quebrada; ranhuras percorriam o rosto de Bianca e Arian tocou de leve seus ferimentos.
– Fique aqui, minha senhora – pediu ele delicadamente.
Os guardas avançaram para ele, Arian adiantou-se, abaixou-se num movimento fluido e passou a lâmina do machado nas pernas do primeiro, decepando-as. O guarda caiu num estardalhaço e o segundo pulou sobre ele, Arian desviou para a esquerda e a espada do vampiro passou incólume ao seu lado... um segundo depois o atacante não conseguia se mover: Arian o havia paralisado. O guerreiro-deus ergueu o machado e decapitou-o, ateou fogo no companheiro e deu um chute nas portas, arrancado-as dos suportes nas paredes.
O líder feiticeiro estava só em seus aposentos, Arian nem deu uma olhada pela sala, apenas dirigiu-se cegamente até seu alvo. O vampiro ergueu a mão direita, gritando:
– Mais um passo, Arian Volturi, e eu destruo todo este lugar com vós e tua preciosa Rainha.
Mas antes de o feiticeiro tentar qualquer feitiço, Arian atirou seu machado de guerra, a arma rodopiou no ar com um assovio de corte e chocou-se com o feiticeiro, o braço do vampiro foi cortado na altura do ombro e o membro caiu no chão contorcendo-se. O líder olhou para o braço amputado e depois para Arian e havia choque e horror em seu rosto.
– Você não pode fazer isso – ele gritou – Sabem que sou? Eu sou Agh...
O nome jamais deixou sua boca, Arian meteu-lhe um murro na cara, poderoso o bastante para atirar o bruxo para o outro lado da sala, dentes partidos espalharam-se por todos os lados.
– Não quero saber teu nome, bruxo – gritou Arian em fúria – Avisei-te que morreria no anonimato e ninguém lembrar-se-ia de ti nos anos vindouros.
Arian não o incendiou, paralisou ou fez menção de alcançar o machado... apenas usou os punhos. Aqueles punhos envoltos por uma manopla de aço, rebitado em metal, socaram o rosto do líder feiticeiro vez após vez, transformando o crânio do vampiro numa polpa esfarelenta. Arian reduziu a pó a cabeça do vampiro até que restou apenas um corpo morto e mutilado movendo-se em espasmos nervosos.
Arian voltou-se então para Bianca e ela, uma vez mais, correu para seus braços aninhando-se em seu colo. O guerreiro deixou para trás aquele castelo de rocha que agora fedia a morte e destruição... tolos foram os que acreditaram que Arian Volturi podia ser derrotado. Ele que era uma Tormenta, ele que nasceu para não ser derrotado por nem uma mão mortal... ou imortal.
O guerreiro afastou-se numa velocidade contínua até ganhar uma distância considerável daquele lugar de morte, daquele castelo de pedras estilhaçadas, correu até encontrar os generosos e faiscantes campos da Toscana. Os céus estavam escurecendo aos poucos com nuvens de chuva, mas o sol da tarde ainda queimava límpido e brilhante, Arian encontrou uma parte de mata densa próximo a um córrego de água cristalina e parou ali para permitir que Bianca descansasse.
Não demorou muito para que a chuva começasse a cair, lenta e tranquilamente. O sol faiscava as gotas de água tornando-as douradas, dava a impressão de que gotas de ouro liquefeito despejavam-se dos céus. Uma tarde de chuva e sol. Acontecia muito disso na Itália.
Bianca evitou o olhar de Arian, ela estava com vergonha de estar num estado tão frágil e ele notou isso, o guerreiro desprendeu dos ombros o seu manto e envolveu a Rainha para que ela pudesse se sentir um pouco melhor. Quando Bianca o olhou, não foi com a máscara da Rainha, mas apenas ela mesma... uma linda mulher imortal.
– Agradeço-te por me salvar, Arian – ela falou num murmúrio tímido.
– Sirvo para proteger-lhe, Bianca – ele respondeu com sua voz profunda e ela não pode evitar de sorrir ao ouvi-lo pronunciar o seu nome.
– Eu gostaria que fosses o Rei – disse ela depois de um momento, olhando-o com cuidado.
– Jamais serei rei, minha senhora.
– Serias um rei tão melhor que Aro...
– Ou talvez pior.
– Arian, eu... — ela começou a falar, olhando-o com atenção, tentava dizer algo que matinha se preso à usa garganta. Era como se um sentimento forte estivesse prestes a brotar dela, mas era de tal forma perigoso que Bianca tornou a calar-se.
– Vamos, minha Rainha – chamou Arian, com a voz triste – Volterra não está longe.
Bianca foi levada pelas servas assim que chegaram a Volterra, ela lançou um último olhar doce para Arian antes que a máscara da Rainha lhe subisse aos olhos. O guerreiro descobriu que Matheu e Alec não estavam em Volterra, pois haviam partido para a França com todo o batalhão de Mercadores da Morte que havia chegado do sul. Passara pouco mais de dois dias fora e tudo havia acontecido em sua ausência, assim que Bianca se foi ele quis procurar os Reis, mas não pode ir até sua presença, eles deliberavam algo com Forge, o feiticeiro de Volterra. E dado o atual estado de espírito de Arian com relação a feiticeiros, era melhor que ele não ficasse muito perto de Forge naquele momento.
Arian, contrafeito, subiu para seus aposentos na torre norte para banhar-se, mudar de roupa e conseguir outro manto. Passara-se quase nove horas até o momento em que ele foi chamado para ter com os Três e quando chegou lá encontrou Bianca em pé, não no tablado ao lado de Aro, mas na parte baixa do Salão, como uma ré sendo sentenciada.
O guerreiro aproximou-se fazendo uma reverência e buscou com o canto dos olhos Bianca que não lhe lançou olhar algum, mas seu rosto tinha uma expressão de morte e desespero.
– Meus Mestres – começou Arian – Fomos atacados a caminho de Veneza e...
– Não há necessidade de recontar a história, Arian – disse Aro erguendo a mão para interrompê-lo – Nós sabemos o que aconteceu.
– Minha Senhora já lhes deve ter informado sobre tudo, mas..
– Bianca não contou nada, Arian – Aro interrompeu-o novamente – Tudo saiu como era esperado.
– Meu Rei? — perguntou o guerreiro sem compreender.
– Fernanda Clermont está morta, Arian – continuou Caius olhando-o com superioridade – O destacamento de Mercadores da Morte liderados por Matheu e Alec atacou seu palácio em Avignon. A ameaça das revoltas francesas fora extinta. Graças a você, em boa parte.
Por um momento Arian não entendeu o que as venenosas palavras de Caius significavam, mas então, do nada, um pensamento acendeu em sua mente e ele compreendeu de imediato o que havia se passado. A fúria ameaçou tomar-lhe e foi com muito custo que ele manteve a voz calma.
– Nós fomos a isca – declarou ele em meio tom, os rei pareceram inclinar-se sobre ele.
– Bianca foi a isca – respondeu Aro indiferente – Há meses soubemos que Fernanda havia contratado os serviços de Aghmar, um vampiro feiticeiro de grande poder que havia aprendido os segredos da magia no Egito. Este bruxo caminhava junto de vários asseclas e se um feiticeiro poderia representar perigo para nós, imagine um bando. Enfim, soubemos de fontes seguras que Fernanda estava para tentar algum golpe contra Volterra usando estes feiticeiros, mas que ainda não havia conseguido encontrar uma brecha. Desta forma espalhamos a notícia de que Bianca viajaria ao norte, para Veneza, acompanhada apenas pelo Príncipe de Volterra...
– Era a chance de Fernanda em se livrar de dois coelhos de uma só vez – continuou Arian adivinhando o plano dos Reis – E com Bianca sob custódia ela poderia chantagear Volterra. Com isso em mente Fernanda enviou todo o poderio de seus feiticeiros, mais um destacamento de seu exército para me destruir e tomar Bianca como cativa... Volterra ficaria sem sua Rainha e sem seu guardião mais forte.
– Exato – disse Caius numa voz esganiçada – Obviamente sabíamos que Fernanda era uma tola, ela nem ao menos completou trezentos anos de idade, imagine! Aro permitiu que Bianca saísse da segurança do palácio e Fernanda, vejam só, engoliu a isca. Ao mesmo tempo em que soubemos que os feiticeiros e uma parte de seu exército já não se encontrava mais em Avignon, bem, aproveitamos esta fragilidade para enviar nossas forças e liquidar Fernanda Clermont e suas ambiçõezinhas de poder de uma vez por todas.
– Como prevíamos, você escorraçou os feiticeiros – continuou Aro – Devastou as forças de Fernanda no Topo Rochoso e matou Aghmar. Fez um trabalho esplêndido, meu filho, monumental... mas isso já era esperado. Jamais duvidamos de vosso poder.
Agora Arian compreendia a ira de Bianca uma vez que sua própria raiva também aflorava, ele tentou manter uma expressão imparcial, mas quando falou, sua voz de trovão retumbou com raiva no Salão dos Tronos.
– Arriscas-te demais, meu pai – disse ele – Por muito pouco eu não fui derrotado pelos feiticeiros de Aghmar, por muito pouco vossa Rainha não perdeu a vida.
– Bobagem, Arian – Aro falou abanando as mãos – Como haveria de você, a criatura mais poderosa do mundo, ser derrotado para meros feiticeiros de araque?
– Eu poderia ter atacado Fernanda diretamente, não seria necessária toda esta pantomima.
– Pantomima? — reinou Caius – Tudo o que fazemos tem um propósito, Arian, deveria vós já estar ciente disso. Se o enviássemos diretamente para Avignon Fernanda estaria preparada para recebê-lo e daríamos início a uma batalha muito penosa, usando Bianca como chamariz nós enfraquecemos Fernanda em sua própria soberba e a destruímos sem um única baixa e tão rápido e eficazmente quando poderíamos esperar.
– Por que não me contou? — Arian fez a pergunta diretamente a Aro ignorando Caius.
– Não aceitaria se soubesse do plano – respondeu o Grande Rei.
– De fato, não. Apenas covardes lutam nas sombras, eu aprendi que guerras são travadas às claras, ferro contra ferro, e não por engôdos – a voz do guerreiro era desafiadora e quando terminou de dizer isso tanto Caius quanto Aro colocaram-se em pé com fogo nos olhos.
– Modere tua língua, guerreiro – sibilou Caius – Esquece-te de com quem falas?
– Reis governam e guerreiros lutam, Arian – disse Aro, sua voz áspera – Lutaste centenas de lutas e ainda não aprendeste isso? Usasse as estratégias necessárias para ganhar uma batalha, nós somos os estrategistas e vocês os enviados para implementar estas estratégias. Francamente, meu filho, não compreendo vosso comportamento.
E Aro não poderia mesmo que quisesse, o Rei sabia de muitas coisas o tempo todo, mas não tinha como saber sobre a mudança que operou-se entre Arian e Bianca, sobre o elo que surgira entre os dois. E a raiva de Arian não era pelos Reis terem-no usado como massa de manobra, muito pelo contrário, ele era um guerreiro e estava acostumado a ser enviado para as batalhas, o que Arian não conseguia absorver era o Rei ter colocado em risco a vida de sua própria Rainha.
– Se os meus mestres permitirem – disse Bianca numa voz apagada – Eu me retirarei de vossas presenças.
– Esteja a vontade, cunhada – falou Caius num sorriso – Afinal, já cumpriste o vosso papel.
Bianca virou-se para sair e olhou para Arian, não era a Rainha, mas apenas Bianca e o coração do guerreiro parecia ter tornado-se fogo ante aquele olhar.
– Ora, para que servem as Rainhas a não ser para serem usadas a nosso favor? — Caius perguntou num tom azedo assim que Bianca saiu do salão.
– Por que não ofereces Athenodora da próxima vez que for necessário um sacrifício real, meu senhor Caius? — rugiu Arian furioso.
– Eu não estou inclinado a continuar permitindo que responda desta maneira os teus Reis, Arian – respondeu Caius estreitando os olhos, Arian deu um passo a frente, sua mão erguendo-se levemente como se ele tencionasse pegar seu machado, uma aura de poder e raiva emanando dele. Quando notou isso, Aro adiantou-se e fuzilou o filho com o olhar.
– Esquece-te de quem és, servo? — perguntou Aro numa voz venenosa – Estás aqui para obedecer, Arian, és meu filho, mas deve obediência a nós. Fernanda Clermont está morta, sua casa destruída, seus exércitos desbaratados... sua causa enterrada. A revolta dos franceses morreu. Isso foi feito pelo bem de nossa causa e atingimos esta meta usando de todos os meios disponíveis... e triunfamos. Bianca está bem e você venceu... como sempre. Não tolerarei mais estas vossas infantis bravatas iradas.
O olhar de rancor que Arian atirou nos Três poderia muito bem ter-lhe causado tanto mal quando as palavras que proferiu, mas o guerreiro endireitou o corpo, ergueu o queixo e respondeu simplesmente:
– A vontade dos Três é a ordem – disse ele fazendo uma reverência, em seguida girou sobre os calcanhares e caminhou para fora do Salão dos Tronos deixando para trás três Reis bastante irados.
Quando chegou ao hall de entrada, Arian dirigiu-se até um dos serviçais domésticos perguntando onde a Rainha Bianca se encontrava.
– Ela foi para o lado leste do castelo, meu senhor – respondeu o servo – Está na capela e ordenou que ninguém a incomodasse lá.
Arian atravessou o patio e os jardins até chegar à capela. Era um galpão simples construído em pedra rústica num formato retangular, nada havia lá dentro a não ser as vigas de madeira que sustentavam o teto, um chão de tacos lustrados, vitrais de santos e um altar rústico em madeira tratada. Quando Arian entrou, os raios do sol invadiam a capela e uma nuvem de pó rodopiava pelo ócio do aposento vazio, Bianca estava em pé, próxima aos degraus, estava virada para ele e não havia surpresa em seus olhos. Ela o aguardava.
– Bianca – chamou Arian preocupado, ela parecia prestes a cair num choro sem lágrimas.
– Você vê? — ela começou, sua voz quebrada num murmúrio triste – A máscara da Rainha é um mero artefato, um adorno; nada sou além de uma posição inútil, afinal, um rei deve necessariamente ter uma rainha. Principalmente para usá-la como chamariz. Aro não me ama, aprecia a minha beleza, será está a minha maldição? Serei cobiçada pelos homens apenas pelo meu rosto e pelo meu corpo? Tudo o que emana de mim é luxúria e pecado? Será que nem um homem amar-me-á pelo que sou, ou será que sou assim tão irrelevante que sem minha beleza nada representa de importante?
– Bianca – Arian tentou falar, mas a rainha continuou sem prestar atenção nele.
– Ele me descartou, Arian. Eu servirei apenas como moeda de troca, nada mais. Aro não escuta meus conselhos, não se importa com minhas opiniões e não me quer... deseja apenas meu corpo quando o fogo da luxúria cai sobre ele. Aproveita as noites para possuir-me, mas quando o faz, o faz sem amor... sem paixão. Sou a Dama das Sombras, uma mulher que vive esquecida, perdida, atirada aos cantos. Uma rainha de pó e sombras num castelo de pó e sombras. Oh, maldita imortalidade, estou fadada a não amar e não ser amada para todo o sempre.
– Isso não é verdade – disse Arian – Não permitirei que a usem mais para propósitos malignos, Bianca, não permitirei que ninguém mais a machuque... ou que passe a eternidade sem ser amada.
– Arian? — chamou Bianca desesperada.
– Estarei tão errado ao imaginar que você e eu sentimos a mesma coisa um pelo outro?
Arian imaginou que Bianca fosse negar, que a Rainha o insultaria o enxotaria de sua presença, por que haveria de uma Rainha deitar sentimentos para um guerreiro? Mas Bianca apenas baixou o olhar como se estivesse sentindo-se envergonhada.
– Eu supus que apenas em mim este sentimento havia brotado – ela disse numa voz farfalhante.
– Quando isso aconteceu? Como pudemos despertar um no outro este sentimento proibido?
– Eu não sei – ela respondeu assustada – Foi na tarde de ontem... durante a chuva...
– Eu queria ter-lhe dito que havia me apaixonado por ti.
– Mas nem ao menos gostas de mim, Arian.
– Não gosto da Rainha... mas apaixonei-me por Bianca.
– É proibido, Aro nos matará.
– Bianca, eu nada posso lhe oferecer a não ser meu coração. Jamais faria contigo o que Aro fez, jamais a usaria. Não sou um Rei, sou apenas... o que vês.
– Eu não me importo – Bianca falou abruptamente – Deixaria tudo por você, oh céus... eu não quero mais ficar com Aro, especialmente depois de ele ter me usado assim. Eu não quero ser Rainha dele, prefiro ficar contigo. Me protegeste, foste atrás de mim sem desistir arriscando a própria vida. Arian, o que faremos?
Mas Arian não respondeu, ele olhou para aquela mulher que já havia vivido séculos, olhou para sua beleza estonteante e percebeu que a beleza era apenas uma das qualidades de Bianca, ele teve a certeza de que havia alguém especial por baixo de todo o manto da Rainha, sabia que ela era mais do que aparentava ser. E ele a desejou, não conseguiu explicar ao certo de onde veio este sentimento, de onde brotou com tamanha força a ponto de dobrá-lo e domá-lo... Bianca o tranquilizava, apaziguava sua fúria, ela parecia capaz de acalmá-lo.
E quando decidiu não dizer nada, Arian apenas atirou-se para frente, correndo em direção a ela e Bianca também correu para seus braços; os corpos de ambos se encontraram e a Rainha atirou-se no Príncipe esmagando os seus lábios contra os dele, com um ardor quase desesperado. Arian sentiu o pequeno e delicado corpo de Bianca contra o seu, sentiu que era seu dever protegê-la, o perfume dos cabelos dela o deixavam tranquilo como o cheiro das manhãs de primavera. E ele sentiu que suas bocas encaixavam-se perfeitamente mesmo que aquele beijo fosse proibido... mesmo que ambos fossem condenados por aquilo, Arian não se arrependeu nem por um segundo.
– Estamos condenados – Bianca sussurrou com a voz rouca – Oh, meus deuses, estamos condenados.
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A noite aproximava-se sorrateira para eles. Bianca olhava para a janela ainda sobre o corpo sólido de Arian, ela lembra-se perfeitamente bem de quando haviam se apaixonado, e ali, naquele momento, sobre a cama de Aro, sentindo novamente Arian perto dela depois de tantos séculos, ela teve a certeza de que iria ficar ao lado dele para sempre.
– Aproxima-se o momento de vossa vingança, meu Príncipe – disse ela ronronando para Arian.
– Uma longa espera, minha Rainha.
– Estás preparado para matá-los?
– Passei séculos planejando a morte deles, Bia. Não se preocupe, eles não nos escaparão.
– E tu serás Rei – ela falou acariciando o rosto dele, mas Arian afastou-se dela.
– Eu nunca serei Rei, Bianca... já lhe disse isso mil vezes.
– E se tu não te sentares na cadeira de Aro, quem governará os vampiros? – a voz dela era doce e terna, mas Arian levantou-se afastando-se dela e procurando pela armadura no chão.
– Achei que estava farta de ser Rainha.
– A Rainha de Aro, não vossa.
– Eu não me importo com o mundo dos vampiros, guerreei e lutei por muitas décadas para manter este mundo em paz, agora não disponho mais de paciência para endireitar as coisas, viverei por mim mesmo, livre pelo mundo. Você ouviu as histórias que Edward Cullen contou, Bia, nós podemos conhecer o mundo todo... não há mais guerras, não há mais disputas, podemos viver como pessoas normais.
Bianca sentou-se na cama envolta nos lençóis, Arian admirou aquela visão... imaginando-se como foi capaz de suportar tantos séculos sem vê-la, sem tocá-la. E apesar de o rosto de Bianca estar sereno, havia aquele brilho de ousadia a que Arian aprendeu a amar.
– O mundo dos homens só conhece a paz porque o mundo dos vampiros é governado, Arian – ela disse olhando-o com atenção – Se exterminardes os Três simplesmente... o que acontecerá ao mundo? O nosso povo deve ser contido, Arian, e só vós possui este poder... não haveria mais Reis, apenas um Grande Rei. Vós.
– Ah, tua intenção é amaldiçoar-me? Olhai a tua volta, Bia. Olha quanta destruição, e por quê? Por estes malditos postos reais, um rei não pode nem ao menos pensar por si próprio, é obrigado a pensar sempre nos outros, imaginar meios de governar tentado ser justo o tempo todo... mas é impossível ser justo o tempo todo. Eu matarei Aro pela traição que ele cometeu assim como matei Alec, mas Aro nunca foi mal e nem mesmo um mal Rei. Não, não me quero enredado nas tramas dos tronos, segredos e mentiras, jogos e trapaças... um Rei deve fazer o que é melhor e não o que é certo. Aro, Caius e Marcus fizeram sempre o que deveria ser feito para manter a paz deste mundo e como são conhecidos hoje? Tiranos. Fomos libertados por uma destas famílias que se viram tiranizados pelos Três... mas que fizeram eles até que Aro tivesse de tomar medidas tão drásticas? É muito difícil definir o que é bom e o que é mal, Bia. Eu não sirvo para ser Rei... e Rei não serei.
E dito isso ele pegou o machado e o resto da armadura e saiu pela porta afora. Bianca ficou na cama olhando o ocaso caindo sobre o mundo, sentia-se viva, triunfante e feliz. Era dona do coração do ser mais poderoso do mundo, teria sua vingança contra aqueles que lhe aprisionaram e ceifaram séculos de vida e o castelo que um dia fora seu acabara de retornar às suas mãos.
– Não, meu amor – falou Bianca para si mesma – Vós nasceste Rei... e Rei será.
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