Candor Lunar - Livro 2
39 38 - Bella e Nessie: Depois pode ser tarde demais
Notas iniciais
Bem pessoal, quase atrasado, mas aí está.
Estou saindo de férias e vou cair na estrada... com sorte não atraso o próximo capítulo... kkkk.
Como foi esperado, Emma Roberts irá encarnar Renesmee em Candor Lunar, não teve concorrência entre comentários e e-mails e chamadas no skype... srsr. A voz dos leitores é a voz de deus (em alguns casos)...
Enfim, mais um daqueles capítulos que alguns odeiam e alguns gostam...
Estamos quase no fim...
Boa leitura e nos vemos em breve.
Ang.
Athenodora estava deslumbrante, não havia qualquer outra palavra para poder descrevê-la. Sua pele de porcelana destacava-se com ainda mais fulgor contra o vestido azul-celeste, seus cabelos dourados estavam presos num coque alto e seu rosto perfeito sorria de forma radiante. Não era difícil imaginar o motivo que levou Caius a se apaixonar por ela, ele não precisou fazer muito esforço.
– Ah, Isabella – ela falou com alegria – O que acha do meu vestido? Estou suficientemente bonita para uma madrinha?
Bella queria que Alice estivesse ao seu lado, que ela fosse sua madrinha e não Athenodora. Mas de uma forma ou de outra, Alice fora sua madrinha quando ela casou-se com Edward e Bella provavelmente não teria coragem de simplesmente vê-la ao seu lado num altar onde tivesse que dividir espaço com Aro Volturi.
– Você está linda, Dora – disse Bella sorrindo-lhe com afeição verdadeira. Ela gostava da Rainha – Como se fosse possível você não ficar sempre deslumbrante.
– Você precisa ver seu vestido de casamento... é estupendo. Sabe que toda esta movimentação matrimonial me deu uma vontade imensa de renovar meus votos com Caius? O que me diz Isabella, você aceitaria ser a minha madrinha?
– Eu ficaria encantada. Caius nunca teve outra Rainha?
– Além de mim, nenhuma. E se ele inventar de me substituir... pessoalmente o castro – respondeu Athenodora com um sorriso travesso – Eu já lhe contei como eu e Caius nos conhecemos?
– Ainda não.
– Então venha cá – chamou Athenodora sentando-se na cama segurando as mãos de Bella enquanto dispensava as costureiras que lhe arrumavam a barra do vestido – Minha mãe, há alguns séculos, voltou-se contra o poder dos Volturi.
– Sua mãe? Lara? — Bella estava genuinamente chocada.
– Exatamente. Lara não estava contente com a expansão do império dos Volturi, ela era soberana em sua terra, a Suíça, e quando os Volturi tentaram fazer dela uma Baronesa, vassala dos Três, bem, imagine que Lara não ficou nem um pouco feliz, a bem da verdade considerou a coisa toda uma provocação, uma ofensa.
– E lançou uma revolta?
– Bem, sim – Athenodora sorria alegremente como se a lembrança lhe trouxesse alegria – Mas isso significava apenas fechar as fronteiras e unir-se com uns romenos idiotas para uma espécie de manifestação contrária. Naquela época a Suíça era uma junção de cantões, mas Lara controlava as três, o país em si só se unificou totalmente sob o nome que conhecemos ali pelas idas de mil oitocentos e oitenta mais ou menos. Mas o fato é que fazíamos fronteira com a Itália e qualquer coisa que esbarrasse na Itália pertencia aos Volturi. Lembro que já havia meses do cerco quando ouvimos rumor que os reis estavam indo para a fronteira a fim de derrubar nossa resistência.
– Isso me soa familiar – gemeu Bella.
– Era um mecanismo de conquista, mas naquele tempo Aro, Caius e Marcus participavam das batalhas pessoalmente, eles não tinham esta guarda gigantesca para lutar por eles.
– Os Três... lutando? — as sobrancelhas de Bella arquearam-se em descrença.
– Oh, eles lutam – afirmou Athenodora – E jamais queira vê-los lutando, Isabella, é terrível... imagine o que séculos e séculos de experiência em batalha são capazes de criar.
Isso fez Bella ficar pensando.
Estava fresco no quarto de Athenodora, os móveis eram antigos e bastante diferentes dos de Volterra, eram de madeira, mas retos, simples, humildes. A cama era ampla, muito maior do que qualquer cama que Bella tenha visto, e os tapetes espalhados pelo chão eram felpudos e tão brancos quando a espuma do mar. As janelas eram amplas, estavam abertas e uma brisa oceânica varria as cortinas permitindo que uma onda da luz solar banhasse o aposento. Fiapos de poeira dançavam na luminosidade.
Os reis lutando.
Bella jamais vira qualquer um dos reis lutar. Marcus era praticamente um fantasma e fazia pouco mais do que caminhar de vez em quando, mas Aro e Caius tinham aquela aura belicosa os cercando, como se por baixo de toda aquela calma houvesse uma furiosa vontade de esmagar o mundo com os próprios punhos. Não, Aro e Caius poderiam parecer muito honrados em sua imobilidade, elegantes em seu status de Reis, mas Bella sabia que era um equívoco subestimá-los, afinal, os Três conquistaram tudo o que têm por um motivo e mesmo que não parecesse, eram guerreiros habilidosos com milênios de experiências em batalhas.
Vê-los em ação deve ser pavoroso, pensou Bella.
– Bem, o castelo de Lara fica nas proximidades de Genebra, alguma coisa distante da fronteira, mas a Suíça é um país pequeno, então não havia uma segurança absoluta em torno de nós – contou Athenodora — Ouvíamos rumores da frente de batalha, na fronteira, que dizia que a força dos Três era imensa e que talvez o exército de Lara não conseguiria suportar a carga do ataque durante muito tempo. Havia ordens claras para que ficássemos no castelo, mas eu estava farta de ficar presa por meses, era primavera e eu tinha que aproveitar este pouco tempo onde a neve não tomava conta de tudo.
Desobedecendo as ordens de Lara eu saí do castelo numa tarde ensolarada e corri para o campo para coletar algumas flores selvagens, estava lá há horas aproveitando o sol e o céu límpido quando ouvi um cavaleiro se aproximar. Eu não me importei porque imaginei tratar-se de um dos soldados de Lara vindo me buscar e eu estava no meio do campo de flores, então talvez ele simplesmente não me visse.
Mas vampiros são vampiros. O cavaleiro me avistou, mas não era nenhum soldado de minha mãe. Os cavaleiros da Suíça trajavam armaduras brancas e esmaltadas para mesclar-se à neve, o cavaleiro que agora parava o cavalo a poucos passos de mim trajava uma armadura negra como a noite... com um grande V pintado em vermelho sobre o peito. O cavalo era alto e o cavaleiro também, ele olhou para mim por trás de seu elmo fechado e então desceu do cavalo no momento em que eu me colocava em pé, soube que estava em apuros porque aquele com certeza era um cavaleiro inimigo.
Então ele tirou o elmo e eu vi um rapaz lindo, ali pelos seus vinte e poucos anos, loiro, olhos brilhantes, um sorriso educado desenhando-se nos lábios.
– Caius – disse Bella adivinhando.
– Sim, mas eu não o conhecia, não sabia quem era – continuou Athenodora – No começo tive medo, mas ele me explicou que vinha para tentar alcançar a paz com Lara, que não tinha intenção de nos fazer mal e que as batalhas na fronteira apenas diminuiriam as forças de ambos os lados. Eu me ofereci para levá-lo até o castelo, estávamos longe e ele seguiu a pé comigo segurando a rédea do cavalo que trotava tranquilo atrás de nós. Lembro que chegamos a um lago e ele ficou por lá um tempo admirando a paisagem, eu deveria não gostar dele, mas desde o primeiro momento eu soube que tinha de confiar. Conversamos durante horas e horas até o crepúsculo cair sobre o mundo, ríamos e nos conhecíamos mutuamente e ouso dizer que parecíamos destinados a nos encontrar.
No calor do momento Lara só não o matou porque ele estava comigo quando chegamos aos salões no castelo. Apresentou-se como um mensageiro e entregou um pergaminho selado contendo uma carta de Aro, o Grande Rei, para Lara. Ela leu tudo com uma cara de poucos amigos, mas enquanto seus olhos percorriam as letras escritas outro ar tomou seu rosto... eu sabia o que era aquilo, conhecia-a a tantos anos, era uma expressão oportunista que tomava Lara, ela sabia que tinha uma grande oportunidade nas mãos.
Os senhores de Volterra nos oferecem um acordo, disse Lara revelando o conteúdo da carta a todos no salão, eles desejam a amizade de nosso país e para isso propõem um laço bastante sólido: eles querem que casemos nossa princesa Athenodora, minha filha, com um de seus reis.
Aquilo caiu como uma bomba no meu colo. Você pode imaginar o motivo, não é?
– Claro que sim – riu Isabella – Quando humana seu marido a deixou por outra, qualquer casamento deveria aterrorizá-la.
– Isabella, pelos céus, que mente mais minúscula e egoísta essa sua – Athenodora riu e apertou a bochecha de Bella em repreensão – Não era por trauma, se fosse para evitar que a Suíça e a Itália vampira entrassem em guerra é claro que eu me casaria, mas o que me deixou em choque foi o fato de que a única pessoa com a qual eu desejava me casar naquele momento era justamente o mensageiro que trouxera o suposto pacto.
– Você se apaixonou por Caius? Mas ele era um Rei.
– Mas nenhum de nós sabia disso e ele não apresentou-se como um rei. Lara não conhecia os reis pessoalmente ou qualquer um ali presente. Como poderíamos supor que ele seria um dos Três?
– E por que Caius foi até lá? — questionou Bella – Era perigoso.
– Ele queria dar uma olhada nas forças da Suíça a aproveitou o fato de que ninguém o conhecia. Mas ele captou meu olhar e eu desviei os olhos dizendo para Lara: Se o preço pela paz dos dois países é um casamento, minha mãe, então que seja... eu me sujeito a isso. Lara não estava evidentemente feliz, mas também não podia perder a chance de criar um laço com Volterra, a crescente potência. Ela concordou com o termo e mandou o mensageiro retornar para os Três informando que uma paz estava para ser selada.
– E o que Caius fez?
– Ele fez uma mesura para Lara e sorriu para mim perguntando se poderia acompanhá-lo até a saída do castelo – contou Athenodora com um ar sonhador – Quando ele estava prestes a subir no cavalo ele voltou-se para mim e perguntou se eu estava feliz por casar-se com um Rei. Preferiria casar com alguém que eu mesmo escolhesse, alguém que eu sei que talvez goste de mim de verdade. Ele me olhou por um tempo e depois fez uma mesura e deixou um beijo suave em minha mão, subiu no cavalo, mas antes de partir tornou a me olhar dizendo: Bem, eu gosto muito da senhora. E depois partiu sem nem ao menos me dizer seu nome. E eu fiquei feliz por ele gostar de mim, triste por desejar que ele fosse muito mais que apenas um mensageiro.
– Eu não acredito que Caius fez este suspense todo, por que não lhe contou que ele era o Rei?
– Eu soube depois que eles não haviam decidido quem se casaria comigo caso Lara aceitasse, se Aro ou Caius. Mas eu me recordo como se fosse ontem, estávamos todos reunidos no salão em Schnee, o castelo Suíço de Lara, quando Aro entrou todo vestido em sua armadura negra muito semelhante à que Caius utilizou naquele dia e apresentou-se a nós, eu estava ao lado de Lara e tremendamente nervosa quando ele simplesmente anunciou que eu seria desposada por seu irmão, Caius. Quando Caius finalmente foi introduzido no salão eu fiquei confusa, achei que o mensageiro faria as apresentações e só depois de um tempo me toquei de que o mensageiro era o Rei.
– E o que ele disse depois disso? Você não ficou furiosa com ele?
– Não, estava em choque – riu Athenodora – Ele pediu desculpas a Lara por não ter se identificado prontamente, mas achou que como Rei ela não aceitaria termo algum de paz, e depois ele veio para perto de mim sorrindo daquele modo irônico e perguntando-me se ele teria a honra de poder me conhecer melhor. E estamos felizes até hoje... tantos séculos depois.
Um pensamento maldoso queimou na mente de Bella, como alguém poderia ser realmente feliz ao lado de Caius? Mas, bem, gosto é gosto e não adiantaria discutir... apesar disso ela acabou sentindo-se aliviada por estar se casando com Aro e não com Caius. Mas ainda assim ela gostou de saber como Athenodora e ele se conheceram, foi algo realmente especial e Bella fez um esforço para imaginar Caius como um cavaleiro num cavalo branco que chega para se casar com uma princesa. Mas talvez há tanto tempo atrás ele se parecesse mais como um príncipe do que um rei psicótico.
– Eu fico feliz que você seja feliz, Dora – disse Bella por fim – O destino às vezes nos presenteia com coisas assim, jamais imaginei que pudesse ter sido amor à primeira vista com Caius.
– Você não gosta dele – aquilo não fora uma pergunta, mas Athenodora não parecia chateada.
– Caius é... difícil – definiu Bella como se isso resumisse tudo.
– Também, ele é muito dedicado à causa dos Volturi. Mas não tanto quanto Aro... e por falar em Aro, eu estou feliz por ele, escolheu uma vampira excepcional como Rainha. Tenho certeza que você é, sem dúvida alguma, a primeira Rainha com quem ele se casa por amor.
– Ah, eu não sei... se... é isto... exatamente – gaguejou Bella – Acho que ele apenas não sabe exatamente o que fazer comigo... direito...
– É amor, Bella. Eu sei disso – Athenodora segurou as mãos de Bella e olhou-a nos olhos com uma expressão séria – Ele a ama. Por quê? Não sei, talvez ele não saiba, o amor não se explica, acontece. Então, basicamente, nós duas viveremos juntas por um bom tempo... não é ótimo?
– É claro que sim, Dora – respondeu Bella com sinceridade – Você é uma das minhas favoritas.
– Mas é claro, sou sua madrinha! Agora tenho de ir, lembre-se que seu vestido de noiva estará pronto ao anoitecer. Eu estou louca para vê-la dentro dele.
Athenodora estalou um beijo na bochecha de Bella e flutuou para fora do quarto. Bella suspirou e ergueu-se da cama alisando o vestido curto sobre as pernas, tinha algumas coisas para fazer referentes ao casamento que aconteceria ao entardecer do próximo dia. Uma vertigem tomou conta dela quando subitamente lembrou-se de Edward. Mas Edward estava morto e ela perdida, então tratou de colocar a lembrança no poço que criou dentro de seus pensamentos e deixou o quarto.
O castelo estava cheio. Lordes, Duques, Duquesas, Barões e Baronesas, os corredores fervilhavam de vida de um jeito que aquele velho castelo não via há séculos; fora as centenas de trabalhadores que serviam para preparar o casamento. Bella ouviu um quinteto de cordas ensaiando no hall de entrada aproveitando para entreter um pouco todos os nobres que compunham a Corte Volturi. Humanos misturados a vampiros, vampiros cobiçando humanos. Bela se perguntava como os humanos não se importavam com todos aqueles olhos vermelhos e peles resplandecentes a rodeá-los. Mas levando em conta o imenso estoque de sangue refrigerado no pátio principal, vampiro algum iria sentir sede durante as festividades. Bella ao menos se sentiu melhor com isso, poderia ser pior, como um porão lotado de pessoas esperando para ser abatidas para um casamento real.
Bella havia dispensado a companhia de Giordano e Selina, queria poder caminhar sozinha por pelo menos um pouco de tempo sem alguém tropeçando nos seus calcanhares. E isso era bom. Sem sua escolta ninguém a reconhecia, muitas das Baronesas e Duquesas ali olhavam-na do alto como se fossem superiores sem nem imaginar que dentro de pouco mais de vinte e quatro horas ela seria sua Rainha. Mas Bella não se importava, não ligava para os olhares que a estudavam, que a mediam e avaliavam, para ela aquela pompa da corte nada significava, querendo ou não, bem ou mal, eles eram inferiores a ela. Ela seria Rainha.
Mas no momento em que este pensamento perpassou pela mente de Bella ela o afastou. Não queria sentir-se melhor do que os outros por conta disso... bem, talvez melhor só para aqueles que achavam-se melhor que ela.
Decidiu que seguiria até o pátio para poder respirar melhor quando seu próprio reflexo num espelho lhe chamou a atenção. Ela olhou-se e por um momento notou a máscara da Rainha que pairava em seu rosto, mas também percebeu algo que não tinha notado ainda... o dourado de seus olhos havia quase que praticamente sido substituído por um vermelho singelo. Não era o vermelho dos olhos da maioria dos vampiros, mas um tom que lembrava o lilás escuro, uma transição entre o dourado e o vermelho. Por isso Nessie evita me olhar nos olhos, pensou ela. Acabou suspirando para seu reflexo, era inútil ficar tentando parecer o que fora e o que jamais tornaria a ser... distanciou-se do espelho dirigindo-se para fora.
A tarde faiscava na brancura das tendas, a correria dos funcionários continuava exaustivamente. Parecia que uma estrela do cinema mundial estava para se casar levando em conta o tamanho descomunal da infraestrutura que era montada. Bella notou que do lado direito do pátio, lá onde começava o Jardim das Fontes Murmurantes, um grande palco havia sido erguido. Que os céus me salvem, ela riu para si mesma, Volturis dançando será a coisa mais anormal que eu vi até hoje. Alice ficaria de boca aberta com tudo isso.
Tinha o plano de dirigir-se até o fundo do pátio, na mureta que dava para o penhasco, e olhar o mar, começou a atravessar a multidão de convidados e trabalhadores, desviando-se da confusão de corpos quando notou um rapaz sentado em uma das mesas armadas sob as tendas. O reflexo do vermelho de sua pele contrastava totalmente com a brancura dos vampiros ao redor que olhavam-no como quem olha para um animal feroz. Seus cabelos estavam despenteados, mas ele vestia uma fina camisa branca, calças sociais da cor da areia e sapatos marrom; segurava insolentemente uma taça de vinho na mão e sorriu para ela de modo travesso quando seus olhos se encontraram.
Bella caminhou até ele sentindo seu coração ficar mais leve.
– Eu posso me sentar com você? — perguntou ela.
– Seria um prazer, minha senhora – sorriu Quil puxando uma cadeira perto dele – Nervosa?
– Decididamente não. O que está bebendo?
– Vinho – respondeu Quil cheirando o líquido dentro da taça – Uma safra consagrada de um vinho francês cujo nome complicado sou incapaz de reproduzir... mas eu ri muito quando o garçom vampiro fez biquinho ao dizer o nome.
– Você consegue ficar alcoolizado?
– Só se tomar uma garrafa num gole só e acho que não teria efeito por mais do que alguns minutos. O metabolismo dos lobos é acelerado demais, queima o álcool num instante.
Neste momento um garçom aproximou-se da mesa, vestia um terno branco imaculado e sacolejava com uma bandeja cheia de taças com um líquido escuro que Bella percebeu na hora não ser vinho... assim como o garçom não era humano.
– Minha senhora, aceita uma taça? — ofereceu o garçom e Bella aquiesceu brevemente recebendo em suas mãos uma taça de sangue levemente aquecido. O cheiro era irresistível e ela olhou Quil com um ar culpado depois que o garçom partiu.
– Bem, pelo menos esta em uma taça ao em vez de uma garganta – riu Quil com descontração.
– Sinto muito por isso – pediu Bella dando uma bebericada na taça, o sangue era doce e vigoroso.
– Minha única preocupação é você sair por aí atacando pescoços quando se acostumar com sangue humano.
– Acho que não vai acontecer... eu espero.
– Falou com Nessie?
– Não desde que chegamos aqui – Bella se mexeu na cadeira, incomodada – Ela não está digerindo isso muito bem.
– Talvez ela consiga... um dia.
– É uma surpresa você estar sem o seu casaco de peles – riu Bella – O que te fez ficar na forma humana e quem lhe deu as roupas?
– Bem, é legal caminhar sobre as duas pernas para variar, e as roupas foram me dadas quando perceberam que eu estava disposto a caminhar por aí completamente nu. Ao que parece isso iria escandalizar os convidados ilustres dos Reis.
– E como eles não te prenderam? — Bella ria alto, um riso cristalino e feliz que era muito raro em seu repertório atual de humor.
– Eu os lembrei de que sou amigo pessoal da Rainha e eles se cagaram de medo.
Bella fez um esforço para não deitar fora o sangue que acabara de por na boca, ela sufocou o riso enquanto Quil ria alto. Muitos vampiros olhavam para eles sem compreender, afinal, o que viam, era uma vampira jovem com um humano que cheirava lobo, rindo histericamente.
– Eu odeio toda esta pompa – revelou Bella sentindo-se bem por poder finalmente ter uma conversa normal como antigamente.
– Eu vi uma vampira com um chapéu tão ridículo – cochichou Quil dobrando-se sobre a mesa – Parecia que ela tinha matado um urubu e empalhado sobre a cabeça.
– Jamais usaria uma coisa destas.
– Imagino que não. Além do mais você sempre detestou esta coisa chamativa e elegante, acha que Aro vai te deixar usar jeans e tênis depois do casamento?
– Duvido muito, pelo menos como vampira os meus pés não me matam por usar salto alto o tempo todo. Mas todos estes vestidos que me dão para usar apertam os meus peitos, eu pareço ter duas bexigas sob o sutiã.
– Não há de ver que é mesmo? — Quil estreitou os olhos olhando para o colo de Bella – Será que você não está grávida?
– Ah sim, do sabonete – riu Bella ainda mais alto.
– Não confie nem nos sabonetes em Volterra – tornou Quil e os dois riram por mais algum tempo atraindo olhares espantados e mal humorados, mas aos poucos o riso foi se dissipando e o silêncio caiu entre eles como uma lâmina cortando o momento.
– Obrigada, Quil – disse Bella – Há muito tempo eu não rio.
– Quando precisar... — Quil ergueu a taça numa saudação.
– Vai permanecer por aqui?
– Claro que sim, ficarei aqui olhando par a cara destes sangue sugas imbecis que não entendem por que eu cheiro tão mal.
– Cuide-se, Quil.
– A gente se fala, Bella.
Ela driblou as pessoas, rostos falsos olhando-a com estranheza, e conseguiu alcançar o local além das fontes, a mureta que antecedia o penhasco vertiginoso. Bella sentiu o vento refrescante do mar, o ócio do vazio que aquela altura proporcionava, o cheiro oceânico queimava sua respiração e o sol faiscava em sua pele.
A tarde se inclinava para o final, a voz da multidão no Pináculo da Luz ribombava atrás de si e a única coisa que Bella conseguia pensar era que estava prestes a se casar uma vez mais... e se ela já não havia se acostumado ao estilo de vida dos Cullen, como acostumar-se-ia a toda elegância forçada da corte de Volterra? Isso é bobagem, Bella, você não tem escolha, reprimiu-se a si mesma.
Foi quando sentiu que aproximavam-se dela e ao olhar para trás um meio sorriso sombreou seus lábios.
– Vocês não conseguem ficar longe de mim por muito tempo, não é?
– Perdoe-nos – disse Giordano – Mas Seline precisava falar com a senhora.
Seline estava visivelmente constrangida do que quer que fosse, mas Bella notou que a vampira apenas ficava mais bonita assim, com esta incerteza nos olhos; o cabelo castanho chocolate estava amarrado num firme cabo de cavalo e ela usava um vestido cor de chumbo de corte simples que a deixava parecer bastante frágil. A verdade é que Seline mostrou-se incrivelmente tímida e introspectiva, ela parecia não ter confiança em si mesmo, Bella lembrava-se de Kaori sempre que acompanhava os modos de Seline.
– Muito bem – começou Bella enquanto sentava-se na mureta – O que posso fazer por você, Seline.
– Minha senhora, eu vim lhe pedir um favor – a vampira parecia nervosa, tinha as mãos coladas uma na outra e olhava para o chão enquanto falava – Mas não sei se tenho o direito.
– Bem, saberemos sobre isso quando você me contar o que é – algo no tom de Bella parece ter despertado segurança em Seline, pois a menina ergueu os olhos e falou com cuidado.
– Como a minha rainha sabe, fui transformada há pouco mais de dois anos em vampira. Não foi um momento fácil para mim, eu amava minha vida humana e de uma hora para outra tornei-me imortal dentro de um mundo de escuridão, pavor e servidão. Só não enlouqueci de medo porque outra menina também havia sido transformada em vampira dois dias antes de mim e ela tornou-se minha amiga mais importante, era a rocha onde eu me apoiava. Mas enquanto eu fui requisitada por Lorde Fingal em Verona, Margot acabou indo para Roma sob as ordens do Barão de Grasso, Giliano. Então, eu gostaria de saber, minha senhora, na verdade sei que é demais este pedido, mas como a senhora me salvou... quero dizer... seu coração bondoso...
– Você quer que eu traga sua amiga Margot pra Volterra para que vocês possam ficar juntas novamente – concluiu Bella.
– Sim senhora.
Bella encarou a vampira com simpatia. Seline não era tão mais velha do que Bella, enquanto a primeira beirava os vinte e dois anos de idade, a segunda acabava de passar dos trinta, mas de uma forma que Bella não conseguia explicar, sentia-se responsável por ela desde o momento em que a libertou do estúpido Lorde Fingal. Além disso, Seline e Bella tinha algo em comum: ambas haviam sido apartadas de pessoas que gostavam, ela lembrou o vazio que sentiu quando deixou Alice para trás e sabia exatamente o que Seline estava passando longe da amiga.
– Eu posso tentar, Seline – respondeu Bella, por fim – Mas não posso lhe dar certeza, eu não sei exatamente como funciona este negócio de servos e senhores, mas vou me informar, eu prometo.
O rosto de Seline iluminou-se de esperança e um sorriso espalhou-se por seu rosto. Ela fica mais bonita sorrindo, pensou Bella, lhe da um ar mais natural, deveria passar muito tempo sorrindo quando era humana e tinha tudo o que amava perto de si. Será que eu ando sorrindo tão pouco também?
– Eu agradeço profundamente, minha senhora, de coração – falou Seline segurando as mãos de Bella num ímpeto. Ela saltitava de felicidade.
Bella não sabia ao certo como poderia trazer a amiga de Seline para perto dela, já havia excedido mesmo seu posto de Rainha tirando uma serva de um Lorde. Ela não gostava do arranjo que havia na escravidão dos Volturi, simplesmente recusava-se a aceitar que seres dotados de pensamento próprio pudessem aceitar uma vida de servidão... mas o mundo dos vampiros não era como o dos humanos e ela não via um modo de conseguir mudar isso tão facilmente.
Enquanto pensava nisso percebeu a garota aproximando-se, atravessando a multidão até ela. Os cabelos castanhos de Renesmee brilhavam ao sol do entardecer com um a tonalidade vermelha; sua pele brilhava com uma intensidade muito menor que a dos vampiros puros, pareceria um pouco incomum aos olhos humanos e ainda mais incomum aos olhos dos outros vampiros. Nessie usava um vestido bonito e curto que a deixava parecendo mais madura e extremamente sexy, o que lhe rendeu vários sorrisos desejosos de lordes e barões espalhados pelo pátio.
– Você está muito bonita – comentou Bella quando a filha aproximou-se.
– Ao menos me permitiram usar algo além daquelas vestes ridículas da guarda – respondeu Renesmee indolentemente – Você poderia perguntar ao seu noivo por que eles obrigam-nos a vestir aquelas coisas fetichistas.
– Acho que não custa tentar. Nessie, quero lhe apresentar Seline, a minha nova... assistente. Seline, esta é minha filha Renesmee.
– É um prazer, senhorita – Seline fez uma meia reverência.
– O prazer é meu. Vocês poderiam me permitir ficar a sós com minha mãe por um momento?
Giordano e Seline afastaram-se depois de uma mesura deixando Renesmee e Bella na companhia uma da outra. Bella continuou sentada sobre a mureta do pátio com apenas o abismo atrás dela e Nessie ficou por ali, distraída, olhando para o oceano que faiscava sob os últimos raios do sol da tarde. Assim permaneceram por um tempo, sem dizer uma palavra, Bella olhando os enfeites do pátio terminando de serem montados e Nessie simplesmente alheia a tudo; não parecia haver alguma coisa a ser dita, mas por fim o silêncio foi quebrado.
– A coisa toda está ficando bastante luxuosa – a voz de Nessie era distante, mas Bella sorriu quando lhe respondeu.
– É o casamento de um rei, o que esperava?
– Você não vai fazer nada para impedir a si mesma de casar com ele, não é?
– E condenar sua tia a uma eternidade em uma cela numa catacumba enfeitiçada?
– Percebe que está se enfiando em uma prisão para toda a eternidade também?
– Esta série de perguntas sem resposta não vai nos levar a lugar algum – respondeu Bella de modo despreocupado.
– Você está desistindo de lutar, mãe – reclamou Nessie virando-se para Bella com um olhar suplicante.
– E você continua lutando por algo que não existe mais.
– Mas parece errado não lutar por isso se eu sinto que ainda há esperança. Mãe, não desista agora, não se entregue a Aro. O que te leva a crer que Jake e o meu pai não estão vivos e prontos para vir nos buscar?
– Dois anos – respondeu Bella – Há dois anos esperei que alguém viesse e eu queria acreditar tanto quanto você que Edward e Jacob estavam vivos, mas dois anos, Nessie? Eu não acreditei quando nos contaram que eles haviam morrido, pensei que talvez alguma outra coisa pudesse ter-lhes acontecido e que os Volturi estavam apenas nos atormentando. Pensei que Carlisle e Esme nos mandariam notícia, mas nada chegou a nós. A verdade é que depois destes dois anos eu desisti de esperar seu pai ou Jacob, eles não estão vindo nos salvar, Renesmee, e não estão vindo porque morreram naquela luta contra os Mercadores da Morte. Nós ficamos por conta própria e eu fui obrigada a fazer o que era preciso para nos manter vivas. E é isso.
– Você quer que eu pare de acreditar?
– Dois anos é tempo demais... eu sinto muito, Nessie.
Renesmee retornou o olhar para o mar, talvez naquela inconstante imensidão ela encontrasse uma resposta que sabia que não estava lá. Seu coração estranhamente dizia que a mãe estava errada, mas ela também questionava-se sobre o tempo, dois anos era tempo suficiente para que o pai ou o noivo tivessem tentando algum contato com elas em Volterra. Jasper jamais deixaria Alice desamparada. E se por acaso eles estivessem mortos? E se Quil tivesse razão quando disse que talvez o que ela sentira era na verdade o espírito de Jacob vagando furioso pelo mundo como um vento maldito?
– Eu também.
– Eu realmente preciso que você seja forte por mim amanhã. Pode fazer isso por mim?
– Por você, sim. Por Alice e por Quil. Mas não importa o que aconteça no futuro, mãe, você precisa entender que eu jamais serei uma Volturi. Eu entendo os motivos que te levaram a aceitar isso, compreendo que não tivemos escolha e que fomos atiradas no meio deste turbilhão. Talvez eu compreenda até mesmo que os Volturi tenham sua importância para o mundo... mas nunca, nunca serei um deles, não importa o que aconteça.
– Talvez depois as coisas se tornem menos piores, querida.
– Depois pode ser tarde demais, mãe...
Renesmee beijou a mãe no rosto e se afastou dela. Bella manteve o olhar na filha enquanto ela misturava-se aos convidados e sumia dentro do castelo, mas mesmo depois de Nessie ter partido sua tristeza permaneceu ali, pairando ao redor de Bella como uma névoa acinzentada e densa. Mas por mais que ela se senti-se mau pela filha estar vivendo o pior momento em sua vida, não havia nada a ser feito. E muito além disso, um sentimento brotou em Bella, aquele sentimento premonitório que apenas as mães possuem sobre seus filhos... de uma forma ou de outra Renesmee ainda viria a sofrer muito com esta decisão. Bella não sabia o motivo, não conseguia saber como, mas ela teve a certeza de que futuramente ela e Nessie teriam sérias divergências.
Mas quando o momento ameaçou deprimi-la, uma música ecoou pelo pátio caindo sobre Bella como uma chuva, depois dos primeiros acordes ela reconheceu a grave voz de Frank Sinatra numa melodia doce e lenta. O teste de som estava começando. Antes que o dia termine, dissera ela a Aro, e agora que estava ali não adiantava tentar fugir.
Ela ergueu-se num suspiro alisando o vestido dirigiu-se para o meio das tendas onde um grande tablado circular que seria usado para o baile havia sido montado; o chão de tacos tinha sido forrado com um carpete cor de bronze, várias treliças tinham sido erguidas ao redor de onde fios elétricos se cruzavam formando uma teia de lâmpadas sobre o palco. Pilares de pedra branca ao estilo grego com um metro de altura estavam espalhados pelo pátio, vasos de folhagem equilibrava-se sobre elas deixando tudo com um ar bastante fresco.
Holofotes de tonalidades diferentes também estavam instalados por todos os lados e assim que a noite chegasse por completo o teste da iluminação aconteceria... e Aro Volturi estaria com ela. Mas não foi preciso esperar para que a tarde terminasse, o Rei já estava ali, caminhando para ela como se flutuasse. Vinha da mesa de som de onde dava instruções ao DJ.
Isabella parou no meio do tablado aguardando por ele. Aro vestia um elegante terno de tweed cinza, mas por alguma razão dava a ele um ar bem contemporâneo e moderno, mesmo o estilo não pertencendo a esta década.
– A iluminação está quase pronta e em pouco tempo será testada, minha senhora – ele disse sorrindo.
– É bom saber – respondeu Bella ainda anestesiada pelo encontro com Renesmee.
– Enquanto isso, eu poderiam convidá-la para uma dança?
– Dança?
– Sim.
– Aqui?
– Provavelmente.
– No meio de toda esta gente? – arquejou Bella.
– Eu posso ordenar que eles virem de costas — sugeriu Aro.
– Sou terrível dançando, acredite... jamais fiz isso muito bem nem mesmo sendo uma vampira.
– Há sempre o momento para começar, não? – Aro lhe deu a mão no momento em que uma música lenta começava, nada além de um violino tocando seus acordes lentos. Era bonita e triste e Bella quase imaginou que veria Alec tocando seu violino no palco.
Aro segurou sua mão enquanto pousava a outra em sua cintura, seus corpos aproximaram-se suntuosamente um do outro e foi apenas então que ela teve consciência de que Aro era um pouco mais alto que Edward.
– Vocês está linda – comentou o Rei.
– Você sempre diz isso – respondeu Bella desviando o olhar.
– Bem, vou continuar dizendo sempre que a ver.
Este era um ponto que de certa forma intrigava Bella. Sempre que os dois se encontravam, Aro a olhava como se estivesse vendo-a pela primeira vez, existia aquele eterno olhar surpreso... como se o Rei realmente a achasse a mulher mais linda do mundo, mesmo Bella sabendo que não era. Mas ela também sabia que a lisonja não era falsa, Aro sempre era sincero neste ponto.
– Eu... tenho um pedido a lhe fazer – disse Bella tentando mudar de assunto.
– Um pedido? — Aro arqueou uma sobrancelha em dúvida – Espero que esteja ao meu alcance.
– Seline tem um amiga que está a serviços de Lorde Giliano, foram transformadas em vampiras na mesma época. A moça chama-se Margot e Seline a considera uma irmã...
– E você prometeu a ela que traria a amiga para Volterra? — a voz de Aro era firme, mas Bella notou que ele estava quase sorrindo.
– Eu prometi que iria tentar ver se seria possível.
– Uma resposta sensata, você está aprendendo a se portar como Rainha.
– Mas é possível? Trazer a menina para Volterra?
– Duas assistentes e um guarda pessoal? — zombou Aro – Mesmo para uma Rainha isso é muito, você não acha?
– Acho, por mim não teria nem Giordano ou Seline, não gosto dessa coisa de servos – disse Bella com um tom ríspido na voz – Mas eu sei o que é ficar longe de quem gostamos, Seline foi transformada sem o seu consentimento, talvez com Margot perto dela sua imortalidade se torne um fardo menos pesado. E em Volterra elas podem vir a ser úteis.
– É importante para você que a menina esteja feliz?
– Sim Aro, é importante para mim.
– Então será feito, minha senhora – respondeu Aro inclinando a cabeça de modo formal.
– Ah – gemeu Bella – Assim... tão fácil?
– O que for importante para você... tornar-se importante para mim.
– E você não vai querer nada em troca? — estranhou Bella.
– Que tal um sorriso? — pediu o Rei.
E o sorriso veio sem esforço algum, não um sorriso forçado, mas natural e pungente. Aro sentiu-se satisfeito e permaneceu ali conduzindo Bella no palco que pertencia apenas a eles. Por alguns momentos eles ficaram em silêncio, mas Bella descobriu que isso a incomodava mais do que um diálogo qualquer.
– Você fica melhor com o cabelo curto – apontou ela, o Rei já havia cortado o cabelo há meses, mas apenas agora ela resolveu comentar.
– Fico feliz que tenha gostado, Renata firmou que pareço mais jovem.
– Jovem quanto? – uma sombra de sorriso surgiu nos lábios de Bella.
– Uns quinhentos anos? – arriscou Aro.
– Não exagere.
Eles balançavam pelo palco num ritmo lento e cadente. Aro conduzia Bella sob o olhar atento e faminto da maioria dos vampiros que por ventura estavam pelo pátio, o sol escondia-se no horizonte e estrelas pálidas começavam a lentamente pontilhar o céu.
– Com quantos anos você foi transformado em vampiro? – quis saber Bella.
– Vinte e três... e meio.
– Quantos anos tinha quando casou-se com Bianca?
– Ah, eu não lembro ao certo, perto de seiscentos talvez.
– Athenodora disse que é a primeira vez que você se casará por amor.
– Athenodora me conhece melhor do que penso – respondeu Aro num sorriso – Eu me casei com Bianca por luxúria assim digamos e francamente fico desconfortável por admitir isso aqui, desta maneira. Mas eu era jovem...
– Jovem? Com seiscentos anos? – intrometeu-se Bella olhando para o Rei de modo enviesado.
– Jovem para um vampiro. Mas enfim, era impossível não desejar Bianca depois que bati os olhos nela, mas Bianca tinha uma aura de luxúria tão grande que simplesmente percebi que ela me daria problemas no momento em que a tornei uma imortal. Mas acho que olhando agora para tudo, sei que nunca amei Bianca, apaixonei-me por ela... mas nada além disso; desconfio que nunca se transformou em amor. No fim das contas eu a magoei e ela me magoou e tudo terminou muito ruim.
– E Sulpicia?
– Sulpicia era minha amiga, mas nunca nos amamos, suponho. Ela era uma órfã que eu auxiliei desde pequena depois que a vi quase morrer de fome, com os anos acabamos ficando cúmplices e eu contei a ela tudo o que era e ofereci a vida eterna. Acabamos nos casando por que eu pensava que a amava, mas era um tipo diferente de amor... era afeto, não o tipo de amor que há entre homens e mulheres. Passei séculos ao lado de Sulpicia, e todo este tempo sabíamos que jamais seríamos amantes, nunca nos amaríamos como a coisa toda realmente teria que ser para parecer um casamento real. Então permitir que ela partisse de Volterra talvez tenha sido a melhor coisa que fiz por ela... permitir que ela tivesse a própria vida, a liberdade, me deixou muito aliviado.
– E não teme cometer um terceiro erro?
– Eu não vou cometer este erro novamente... desta vez me caso por amor.
– Aro... – Bella começou a dizer, mas ele a calou com um olhar.
– Eu estou me casando por amor, Isabella... ao menos uma das partes está interessada e isto é melhor do que nem uma delas, não é mesmo?
Bella ia responder, mas neste momento as luzes acenderam-se, o sol se escondia na linha reta do horizonte no mar e a noite abraçou o mundo. Haviam dezenas de luzes amarelas cruzando o tablado onde ela e Aro dançavam e refletores verdes iluminavam as folhagens nas colunas brancas; luzes potentes clareavam as paredes do castelo que acabava refletindo-se nas fontes murmurantes deixando todo o pátio com uma luminosidade viva.
Sombras dançavam por todos os lados, mas o Pináculo da Luz parecia agora como um planeta de luz própria faiscando em meio à noite. Tudo tinha um aspecto bastante mágico e onírico, luzes e conversas, fontes e folhagens, flores e música... e o calor agradável da noite embalava o momento. Bella sentia-se como se estivesse num sonho, há milhas e milhas de distância de si mesma, de quem ela fora, de quem ela era, apenas vagando num momento que existia longe da realidade, de uma realidade que ela conhecia e que lhe era segura. Era algo que pertencia a o que ela era agora.
– Eu não sou bom com palavras sobre o amor – falou Aro, tirando Bella de sua abstração – Mas aproveitando que estamos aqui...
– Todos vão te ouvir – disse ela subitamente consciente de todos os ouvidos ali presentes.
– Eu não me importo, Isabella. Recentemente ouvi uma música de um cantor contemporâneo e acho que a letra diz exatamente o que eu gostaria que você soubesse.
– Qual música?
– I won’t give up… eu acho.
– Jason Mraz?
– Ah, você conhece o cantor?
– Sim, não imaginei que você se interessasse por este estilo de música.
– Bem, não propriamente dito. Mas eu tenho consciência dos estilos de música que existem por aí, e esta música me chamou a atenção, você gosta dela? – perguntou Aro esperançoso.
– Da música? Eu nunca parei para pensar na letra.
– Então, por favor, faça isso agora.
Com um gesto na direção do DJ a música começou a tocar, enchendo o ambiente e todo o pátio do Pináculo, passando pelas tendas como uma brisa melódica e ecoando por cima do oceano. Aro aproximou-se de Bella e ela descansou a cabeça no ombro do Rei... seria mais fácil dançar sem precisar ficar sob o atento olhar rubro de Aro.
E música lhe encheu os ouvidos e a mente.
Quando olho em seus olhos
É como observar a noite estrelada
Ou um belo amanhecer
Há tanta coisa que eles carregam
E assim como as velhas estrelas
Eu vejo que você chegou tão longe
Para estar bem onde você está
Quão velha é a sua alma?
Eu não vou desistir de nós
Mesmo que os céus fiquem furiosos
Estou te dando todo meu amor
Ainda estou olhando para cima
E quando você precisar do seu espaço
Para navegar um pouco
Eu estarei aqui pacientemente esperando
Para ver o que vai encontrar
Porque até as estrelas queimam
Algumas até mesmo caem sobre a terra
Temos muito a aprender
Deus sabe que valemos a pena
Não, não desistirei
Eu não quero ser alguém que vai embora tão facilmente
Estou aqui para ficar e fazer a diferença que eu puder fazer
Nossas diferenças fazem muito para nos ensinar como usar
As ferramentas e os presentes que recebemos, sim, temos muita coisa em jogo
E no fim, você ainda é minha amiga, pelo menos, tínhamos intenção
Para funcionarmos, não terminamos, não queimamos
Tivemos que aprender como nos virar sem o mundo desabar
Tive que aprender o que tenho, e o que eu não sou
E quem eu sou
Eu não vou desistir de nós
Mesmo que os céus fiquem furiosos
Estou te dando todo meu amor
Ainda estou olhando para cima
Ainda estou olhando para cima
Eu não vou desistir de nós
Deus sabe, sou difícil, ele sabe
Temos muito a aprender
Deus sabe que valemos a pena
Eu não vou desistir de nós
Mesmo se os céus fiquem furiosos
Estou te dando todo meu amor
Ainda estou olhando para cima
Ainda estou olhando para cima
Enquanto a música soava em seus acordes finais Aro parou de se movimentar e olhou para Bella, seu rosto assumindo uma expressão de desafio, seus olhos fixos nela com atenção e fervor. Quando falou sua voz estava emotiva e ele realmente não se importou de que todos os presentes ouvissem o que ele tinha para dizer.
– Sei que não tinha o direito de lhe dirigir o meu amor, Isabella – disse ele – Mas eu o fiz. Eu lhe trago tudo o que sou, toda a minha escuridão, os meus pecados; toda a minha existência reduzida a fracassos e decisões equivocadas. Eu sou o que sou. Lhe entrego este meu coração sombrio para que você o transforme em algo diferente do que é. Que as estrelas sejam testemunhas, eu ainda estou aprendendo como posso ser um homem melhor... e o farei por você. Não sei se é possível, mas eu tentarei, juro que tentarei.
Neste momento o aperto de Aro em seus braços tornou-se mais intenso.
– Eu não me importo se os céus são contra, se não tenho o direito. Entendo que todos podem ser contra o fato de eu amá-la, mas é isso o que sinto e não há nada que possa fazer para deixar de sentir o que sinto. Tenho consciência de que desejá-la é o mesmo que um demônio desejar um anjo dos céus, mas não vejo saída para mim... estou condenado. Sou rei e homem. Mas ambos pertencem a você. Eu não vou desistir de você. Se for preciso cem anos ou mil... vou continuar tentando. Você é a luz que busquei por tanto tempo, a minha chance de me redimir por todo o mal que espalhei pelo mundo tentando fazer o certo. Eu tenho tanto a aprender agora, pois você tinha razão... eu não era capaz de amar, não desta forma, não verdadeiramente, não até agora. Então eu lhe peço perdão, perdão por ser quem eu sou, mas tudo o que você vê aqui será seu... com falhas ou possíveis qualidades; eu não me escondo de você. Você vê o que sou. E eu sou isso... e amo você assim mesmo.
Bella mantinha os olhos vidrados em Aro. Sentia-se absorvida por aqueles olhos antigos e brilhantes... a luz que os rodeava fazia sua cabeça rodar e a música embalava seus devaneios. Ela tinha consciência das estrelas olhando para ela, dos vários rostos voltados para a sua direção, sabia que o mar ainda estrondava suas ondas contra os rochedos... mas apenas conseguia ver Aro à sua frente.
Ela não o amava, sabia disso.
Mas descobriu naquele momento um fato que fez seu coração arrepiar-se: mesmo não amando o Rei, ela soube que viria a amá-lo nos anos vindouros. Nos séculos que se estendiam à frente dos dois.
Aro não era perfeito, tão perdido em sua jornada, tão absorto em governar, mas ele era capaz de amar. Amava-a. Sim, ela acreditou no amor do rei. Aro não escondeu-se em uma sala para dizer o que sentia por ela, o fez na frente de quase toda a sua corte, fez abertamente para que todos soubessem que seu coração sombrio havia sido entregue àquela mulher que mal havia passado dos trinta anos de idade. Entregou sua alma velha para a vampira cuja família havia desintegrado, cujos sonhos havia ceifado.
Havia algo mais proibido que isso?
Amar uma mulher cujo coração ele mesmo feriu?
Mas Aro os enfrentou, escancarou a todos os seus sentimentos, confessou suas limitações e jurou que amaria Bella mesmo que os céus desabassem sobre sua cabeça e isso realmente tocou no coração dela. Ele enfrentaria todos para ficar com ela, enfrentaria os que eram contra ou que não viam com bons olhos a união dos dois, enfrentaria as regras da moral que ditavam que ele não poderia tê-la.
Que não tinha o direito de amá-la.
Bella o olhava com intensidade, assustada com suas palavras... horrorizada com a verdade que brotava dentro dela própria. Aquele seria seu marido. Ela tentou buscar as lembranças de Edward, de seu sorriso e de sua voz, mas elas estavam tão distantes dela... ele havia partido, deixando-a para trás a mercê do destino.
E agora Aro estava ali... Aro e sua existência amaldiçoada jurando amor por ela.
Ele disse que ela era seu anjo... sua salvação.
Ela realmente poderia salvá-lo?
Se negaria a fazê-lo?
– Acho que o dia já terminou – sorriu Aro para ela, e de repente ela o viu como apenas um rapaz de vinte e três anos, bonito em seu terno cinzento – Mas será que ainda assim eu poderia beijá-la?
– Sim, você poderia – respondeu Bella, ela mesma tendo consciência de que o fez rápido demais.
Aro aproximou-se como se Bella fosse feita de porcelana, de algum material delicado ao ponto de que qualquer toque indevido pudesse danificar, suas mãos tocaram a cintura dela puxando-a levemente em direção a ele. E quando o Rei inclinou para beijá-la ela ergueu-se nas pontas dos pés e sem perceber suas mãos haviam se enlaçado ao redor do pescoço dele.
Era a primeira vez que Bella correspondia ao beijo do Rei.
E ali, sozinhos na pista de dança, com luzes jorrando por todos os lados, nada mais havia além deles. Os lábios de Aro demoraram-se nos seus, mas ela não se importou... algo em sua alma gritava para ela em protesto informando que aquilo estava errado, mas seu coração não pareceu se importar, seus lábios não se desprenderam dos de Aro e ela sentiu-se como se não fosse ela mesma.
Isabella Volturi.
Depois de um longo tempo ele afastou-se, mas os olhos de Bella ainda permaneceram fechados por um tempo como se o momento não lhe permitisse abrí-los para uma realidade que ela não compreendia. Quando o fez, Aro sorria para ela. Mas o Rei notou que ela estava assustada, soube que Bella não sabia o que fazer com o amor dele.
– Não se preocupe, minha Rainha – disse ele em um tom amável abraçando-a com força como que para protegê-la do que quer que fosse – Depois tudo ficará bem.
Bella abraçou Aro. Ela estava realmente aterrorizada com tudo... principalmente pelo fato de já não odiá-lo, de ter correspondido ao beijo do homem que mais do que todos deveria odiar.
Estava em pânico com um romance que não deveria existir. Um amor proibido.
Talvez Aro tivesse razão... depois, talvez, tudo ficasse bem.
Mas quando Bella pensou nisso, a voz de Renesmee ecoou em sua mente.
Depois pode ser tarde demais.
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