Candor Lunar - Livro 2
40 Capítulo 39 - A Marcha dos Vingadores
Notas iniciais
Mesmo viajando meu tempo para escrever ficou mais tranquilo.
Este capítulo acabou ficando muito grande, então dividi em dois momentos... postarei os dois hoje, o outro eu chamei de "entre capítulos"... haha.
Aqui começa a cair os segredos do Livro e começa a surgir as ligações para o Livro 3. É só, como sempre, pegar as entrelinhas... e tudo está terminando.
Boa leitura.
Ang.

O lugar parecia um túmulo.
O silêncio era total e opressivo, não apenas pela ausência do som, mas algo suficientemente pesado para causar um sentimento de aflição nas pessoas que passavam por perto ou olhavam para o castelo de Volterra. Os moradores da cidadela sussurravam pelos cantos sobre o que poderia ter acontecido aos senhores ricos que moravam no castelo, geralmente havia muitas lendas a respeito daquele lugar antigo e charmoso que era o símbolo da cidade.
O que acontecera lá depois dos estranhos tremores que pareciam ter como epicentro o próprio castelo?
Mas de nada adiantava as especulações das pessoas, afinal, aquele lugar e seus habitantes sempre foi cercado por segredos e jamais pareceu dar importância à cidade ao seu redor, mas a estranheza estava no ar... alguma coisa iria acontecer.
Era certo como o dia seguir a noite.
O sol já se inclinava para o horizonte numa tarde fresca e agradável, os pássaros iniciavam sua revoada para empoleirar-se em algum galho de árvore para uma pernoite tranquila, não havia nuvens no céu e a claridade vermelha do fim do dia dava uma charmosa tranquilidade à cidade e ao castelo... apesar de que os vampiros em Volterra não estavam propensos a prestar atenção a detalhes como este.
O fato é que o silêncio que preocupava a cidade parecia emanar com ainda mais força dentro do palácio, e o Salão dos Tronos onde todo o esplendor e poder dos vampiros se concentravam agora mais parecia a sala de estar semidestruída de um bando de intrusos. E os intrusos vagavam por ali como fantasmas.
Seth estava atirado em um degrau, não havia falado com Jacob desde que o alfa havia insultado Charlotte por conta do problema do tempo, se bem que ele próprio havia ficado chateado com isso... perdera dois anos de sua vida correndo pelo mundo. Não era uma coisa fácil de aceitar. Seth havia intitulado a coisa toda como “crise dos dois anos”.
Mas o pior era que boa parte deles estava sofrendo com os efeitos da crise. Edward, que já estava distante e taciturno, tornou-se ainda mais distante e ainda mais taciturno, não falava com ninguém e não respondia quando lhe perguntavam alguma coisa. O choque de saber que Bella se casaria com Aro parece tê-lo atirado em um mundo particular de ódio e ressentimento eterno.
Carlisle parecia realmente chateado com Edward por toda a história envolvendo Arian e Bianca, o patriarca da família Cullen continuava em pé aparado por um pilar e sua mente era imperscrutável, mas seus olhos pareciam tristes e distantes.
Jacob roncava num canto. Era sua forma de talvez lidar com toda a frustração e o ódio. Dormir.
Garret estava sentado perto de Kaori, mas os dois não trocavam qualquer palavra, a única coisa que pareciam compartilhar era uma expressão de desalento e expectativa. Garret provavelmente se perguntava para onde Kate havia levado Esme enquanto Kaori tentava não pensar no cadáver decapitado de Alec deixado para trás no ventre do mundo.
Jasper e Alice não estavam por ali, haviam subido para ficar com Giuliana enquanto a menina sofria a mutação para a mortalidade.
Matheu havia desaparecido pelo castelo.
Arian tinha voltado um pouco antes para encontrá-los neste estado letárgico de autopiedade.
- Estão sofrendo por dois anos? — bradou ele em seu vozeirão – Quem dizem de mim que permaneci por quase mil anos preso?
Vrau Urban e Didi também estavam desaparecidos. Carlisle ficou curioso em saber o que eles estavam fazendo fuçando pelo castelo e o que exatamente andavam procurando, mas decidiu que não valia a pena se preocupar com mais isso.
Charlotte havia saído para os pátios e não havia retornado ainda.
**********
O quarto estava escuro tendo as cortinas fechadas. Jasper achou melhor mantê-las assim porque depois que o corpo de Giuliana terminasse de se metamorfosear em um corpo vampiro seus olhos seria muito sensíveis à luz. Alice estava parada na porta enquanto Jasper, sentado na cama ao lado da menina, secava o suor de seu rosto com uma toalha.
- Ela vai parar de transpirar quando a transformação avançar – avisou Alice – Mas a febre vai durar mais alguns dias até que seu corpo saiba que realmente está morto.
- Eu não sei o que fazer agora – disse Jasper – Não sei como posso deixá-la sozinha aqui enquanto vamos libertar Bella e Nessie, se ela ficar aqui algum dos guardas pode encontrá-la e matá-la.
- Encontraremos um jeito – ela respondeu sem se mover.
Jasper virou-se para olhar para ela. De uma forma muito íntima e pessoal ele percebeu que aquela Alice já no era a sua Alice de sempre, havia uma delicada hesitação em seus modos, seu olhar e mesmo na forma como ela se dirigia a ele... como se tivesse medo de machucá-lo com alguma coisa. Alice que fora sempre tão elétrica e tão inacreditavelmente saltitante, falante, brilhante como uma fada de luz... agora mantinha-se afastada, reclusa dentro de si mesma, desconfiada e reflexiva. Teria Volterra mudado ela tanto assim? Pensou Jasper consigo mesmo.
- Você pode me contar qualquer coisa, sabe disso, não? — disse Jasper erguendo-se da cama para olhá-la.
- Por que me diz isso? — Alice pareceu alarmada.
- Por que você está preocupada com alguma coisa e eu sei disso. Alice, você pode me contar o que está te incomodando, seja lá o que for nós podemos dar um jeito.
Podemos? Pensou Alice. Como poderíamos fazer isso se o que estou sentindo é justamente o que eu não deveria sentir?
- É apenas preocupação com Bella e Nessie, Jass... não se preocupe com isso.
- Bem, teremos que confiar que tudo vai dar certo. Eu tenho que falar com Charlotte, acabou de me ocorrer uma ideia.
- Fique aqui, eu vou chamá-la para você – ofereceu-se Alice, mesmo ela sabendo que era uma desculpa para não ficar perto de Jasper e continuar sentindo-se culpada.
- Não – Jasper foi categórico – Não posso permitir que saia por aí sozinha, há muitos guardas leais aos Volturi soltos por aí, se algum deles lhe encontrar...
- Eu sou uma Princesa de Volterra, Jass – o sorriso de Alice era amargo – Eles não podem tocar em mim, e acho que estão muito assustados com Arian para saírem de onde quer que estejam escondendo-se. Além do mais eu conheço o castelo de cabo a rabo... não vou me demorar.
Alice não esperou a resposta de Jasper e virou-se rapidamente para deixar o quarto, o corredor estava vazio e isso transmitiu a ela um estranho estado de abandono, provavelmente os Três ficariam fora de si quando vissem o estrago causado em seu precioso castelo. Mas o pensamento era uma bobagem, os Reis jamais retornariam a Volterra... não depois de Arian ter sido solto.
Rápido como um relâmpago e totalmente indesejável, Alice pensou em Marcus. Imaginou o Rei em toda a sua lenta vida, de pensamentos adormecidos e raras palavras, sentado em algum lugar a olhar o tempo e o espaço passarem por ele sem qualquer importância. Alice quase sentiu pena de Marcus. Ele resistiu ao desejo de Aro e Caius de me casarem com um lorde, pensou ela, e também não permitiu que Aro me condenasse à morte.
Mas provavelmente o rei fez tudo o que fez com alguma intenção particular, às vezes ela achava que Marcus agia daquele modo como uma espécie de teatro muito bem elaborado... toda aquela letargia parecia esconder uma energia nuclear preste a ser dissipada devastando tudo à sua volta. Havia sempre um brilho feroz no olhar de Marcus... que poucas vezes era possível de ser captado.
Quando chegou ao nível térreo Alice desejou poder ter pelo menos um vislumbre de Bella, algo para saber se ela estava bem ou se conseguiriam resgatá-la de alguma forma. E foi aí que a ideia lhe ocorreu, se ela foi capaz de suprimir seu dom por tantos meses, talvez fosse capaz de controlá-lo e direcioná-lo para conseguir visualizar o que queria e não apenas o que era despejado em sua mente por alguma vontade cósmica.
Parou logo no fim da escadaria e focou no rosto de Bella, esforçou-se para detectar o futuro da irmã e tudo o que eventualmente estivesse atrelado a isso, mas por mais que tentasse não conseguiu nada. Exasperada consigo mesma Alice resolveu mudar o foco, pensou em Nessie com toda a força que tinha e com todo o amor de tia que possuía e desejou ver pelo menos uma parte do futuro da sobrinha para tentar descobrir se tudo daria certo afinal de contas.
E quando achou que não conseguiria nada, sua mente deu um tranco e ela mergulhou em um mundo levemente borrado... o futuro que se abria à frente.
Era um apartamento comum, elegante e num estilo minimalista. Algumas paredes internas eram feitas de um vidro polido e cintilante usado para separar a cozinha da sala de estar; os móveis eram bastante impressionantes, algo futuristas, retos, de um material asséptico que lembrava aço escovado, com linhas insinuantes e bastante chamativas.
Alice imaginou que se tratava de uma época muito a frente, talvez um século no futuro levando em conta o estilo que ela via e que não era de forma alguma familiar.
Ela percebeu que estranhamente podia se movimentar pelo lugar, como se aquilo não fosse uma visão, mas uma lembrança. Talvez fosse uma evolução de seu dom, algo que ela nunca havia tentado antes e isso revelou-se interessante, pois ao invés de apenas assistir uma visão ela agora podia interagir com ela.
Assim sendo, caminhou até a janela mais próxima e teve certeza de que estava no futuro, os carros que passavam na rua eram totalmente diferentes do que ela conhecia, conceitos que pareciam sair de filmes de ficção científica. Mas a rua ainda era comum e bastante aconchegante, ela não reconheceu o lugar, havia muitas árvores nas calçadas e crianças brincando, as casas eram de dois andares e coloridas e havia muitos gramados verdes antecedendo as portas de entrada.
Parecia um bairro residencial, Alice não conseguiu ver sobre os telhados prédios grandiosos para denotar grandes cidades, mas também não sabia dizer se se tratava de uma pequena cidade do interior. Mas era um lugar bom, gostoso de morar, tranquilo.
Foi quando ela ouviu um ruído atrás de si, pessoas conversando, ela caminhou até uma porta entreaberta e olhou para o cômodo e até onde sua vista alcançou ela viu Kaori. Ela estava igual e diferente ao mesmo tempo. A imutabilidade vampírica estava nela, continuava linda, apesar de que seus cabelos estavam mais curtos; sua origem nipônica acentuava-se na curva do queixo e nos olhos puxados, deixando-a ainda mais bela. Mas os olhos não pareciam os de Kaori, aquela vampira que Alice conhecia sempre tímida e hesitante, com um olhar envergonhado e por vezes temeroso, não, Kaori envergava um olhar maduro e confiante. Pareceu a Alice que ela agora era uma vampira mais forte, não apenas como vampira, mas como mulher.
E Kaori estava sentada em uma poltrona conversando com uma outra pessoa, Alice atravessou a porta como um fantasma e viu que Kaori conversava com Nessie. O choque de ver Kaori não era comparado ao de ver Renesmee.
Aquela menina de modos meigos, recatados e delicada envergava agora os modos de uma mulher, seus olhos, como o de Kaori, já não eram mais ingênuos e infantis... Nessie tinha olhos de mulher e um ar muito mais maduro. Alice se lembrou de Bella no porte de Rainha quando olhou para Nessie.
A sala onde estavam estava deliciosamente aquecida pelos raios do sol vermelho do fim de tarde, havia uma estante recheada de livros e uma mesa de centro abarrotada de revistas de moda e de jardinagem, Nessie sentava-se em uma poltrona gêmea a que Kaori usava. Um quadro bonito e abstrato tomava quase uma parede toda.
Alice notou que Renesmee parecia feliz. Não apenas feliz, mas radiante. Iluminada como um sol, em êxtase e ao mesmo tempo em paz. Como se ela estivesse em um equilíbrio perfeito. Mas apesar disso, havia uma sombra de preocupação cobrindo a face de Kaori e Alice parou para ouvir o que as duas conversavam.
- Você está realmente feliz? — perguntou Kaori, sua voz um décimo abaixo do normal, mas a entonação era grave e isso deixou claro que ela estava preocupada.
- Sinceramente, Kaka? — respondeu Nessie – Eu nunca estive tão feliz em toda a minha vida.
- E o que pensa em fazer agora?
- Eu não sei, jamais imaginei que ficaria grávida – Nessie tinha uma voz sonhadora e baixou suas mãos para seu ventre – Vou esperar para ver o que acontece pelos próximos dias, se acontecer algo excepcional terei de ser obrigada a contatar Carlisle, mas acho que não será necessário... a gestação parece ser normal.
- E o que você fará com Jonathan? — Kaori perguntou – Nessie, você tem de contar a ele que é imortal.
- Eu sei que tenho – Nessie parecia subitamente preocupada agora – Mas vou esperar só um pouco mais, curtir essa nova fase da minha vida. É a chance que eu pensei que jamais teria, a de ter uma vida normal. De ser feliz. Vou esquecer todos os problemas dos últimos anos. Regina tem razão... acho que é hora de seguir em frente e esquecer toda esta loucura.
- Nem sempre Regina tem razão, Renesmee – Kaori estava levemente irritada agora.
- Ah, vocês duas brigaram de novo? Qual foi o motivo agora?
- Nada que valha a pena ser mencionado. Eu só estou preocupada... Você acha que Jonathan irá querer se tornar imortal... por você?
- Jonathan é o pai do filho que eu estou esperando, Kaka... e sinceramente não sei dizer se conseguiria viver sem ele pelo resto da eternidade.
- Está certo – Kaori hesitou – Mas e quando a Jacob?
O rosto de Nessie escureceu ao ouvir o nome e sua voz estava fria quando ela falou:
- Não quero falar sobre ele hoje, não hoje. Jacob escolheu seu caminho, escolheu correr atrás de uma mentira. Ele preferiu salvar o mundo a ficar comigo. Não há mais nada que eu possa fazer a respeito disso.
Kaori provavelmente iria falar alguma coisa a mais, mas Alice jamais soube o que poderia ser; sua mente pareceu sugada de dentro de sua cabeça como se um gancho estivesse preso à sua nuca puxando-a para muito longe da cena. Mas quando ela achou que estava voltando para o presente, enganou-se. Teve outra visão.
Agora estava parada em uma casa muito antiga, provavelmente o refugo do que algum dia havia sido uma mansão esplendorosa, deveria ser uma sala de jantar, pois havia uma mesa meio desabada e várias cadeiras espalhadas por ali; uma cristaleira encontrava-se atirada em um canto, os vidros despedaçados mostravam vários jogos de porcelana igualmente despedaçados.
Havia uma luminária decadente pendendo perigosamente do teto, suas centenas de gotas de cristais caídas para um dos lados, apagadas, esquecidas, inúteis. Estava muito escuro ali, apenas uma luminosidade leitosa transpassava as janelas encardidas, provavelmente uma lua cheia erguia-se lá fora, clareando o pó nos móveis quebrados.
Alice não conseguia saber se aquela visão pertencia à mesma época futura que havia visto a pouco no apartamento de Kaori e Nessie, mas alguma coisa nela dizia que sim. Ela olhou para os lados e uma agonia começou a se apegar a ela com dedos pegajosos. Alice não gostou do lugar.
E foi neste momento que ela ouviu vozes agitadas do outro lado da parede, e pelos passos rangendo o chão de madeira ela podia sentir que seja lá quem discutia, estava dirigindo-se para ela, para a sala de jantar. Subitamente a porta abriu-se num rompante e naquele lusco-fusco Alice viu horrorizada Jasper entrar na sala acompanhado de uma vampira que a princípio ela não conhecia, mas depois que os dois posicionaram-se abaixo de uma das janelas Alice reconheceu Giuliana, agora uma imortal.
E ambos estavam furiosos um com o outro.
- Eu já pedi um milhão de vezes para você não se meter na minha vida – esbravejou Jasper.
- E até quando você acha que vai sobreviver enfiando-se em todas as missões suicidas que Erestor te envia? Da última nós apenas escapamos por sorte... Arian quase nos partiu ao meio – Giuliana falou numa voz mortal.
- Eu não insisto para que você me siga, faz isso de vontade própria.
- Claro, e quem irá proteger as suas costas? Por que caso você tenha se esquecido, Vrau não nos ajuda mais desde aquela pequena asneira que você fez quando se meteu a enfrentar a guarda Volturi completamente SOZINHO! — foi a vez de Giuliana berrar.
Apesar do desconcerto inicial que se seguiu da discussão, Alice recuperou-se o suficiente para notar que Giuliana havia ficado consideravelmente bonita como vampira, no pouco que ela a conheceu a menina não apresentava uma beleza muito elevada, mas parece que a graça dos vampiros fez bem a ela. E Alice estava surpresa com a força que emanava de Giuliana, em nada lembrava a menina medrosa e pacata que foi conduzida para a morte, se havia alguém suficientemente corajoso para enfrentar Jasper num estado furioso, este alguém era com certeza digno de respeito.
- Alguém tem que realizar as missões mais complicadas – defendeu-se Jasper indignado.
- Você não faz isso por acreditar na causa – falou ela encarando-o com austeridade.
- Do que você está falando agora?
- Tudo o que você faz, faz por ódio – atirou Giuliana – Desde que ela o deixou a única coisa que você faz é destruir as coisas, encontrou em Erestor a mesma loucura que o tomava por dentro... nós estamos à beira do fim do mundo e o que te move não passa de um sentimento egoísta.
Alice não quis compreender nem metade do que Giuliana dizia, mas ela viu que as palavras dela atingiram Jasper como um murro direto no estômago, o rosto dele assumiu uma expressão de morte e ele aproximou-se de Giuliana com ódio nos olhos, sua boca prestes a despejar sua frustração em cima dela, mas novamente Alice não pode continuar sabendo o que estava para acontecer.
Aquela sensação de alguma coisa puxando-a para longe caiu sobre ela e sua mente pareceu vagar e distanciar-se da cena que se desenrolava. Alice arfou sem ar e então sentiu que estava caindo, suas pernas não sustentavam o seu corpo e ela não tinha controle sobre nada... mas então também sentiu um par de mãos fortes a aparando e quando abriu os olhos viu Matheu a encarando com preocupação.
- Minha senhora – disse o Cavaleiro, sua voz tinha um dedo de pânico – O que aconteceu?
- Eu estou bem, Matheu – Alice disse colocando-se novamente em pé e terrivelmente consciente das mãos do Cavaleiro em sua cintura.
- Parece assustada.
- Terrivelmente assustada – ela respondeu e só então percebendo que suas mãos agarravam com força os braços de Matheu. A proximidade dele pareceu roubar a força de seu corpo, Matheu erguia-se alto sobre ela, seus cabelos compridos e negros como a noite atirados sobre seu peito graças ao movimento rápido de agarrá-la antes que caísse; os olhos do vampiro, de um vermelho claro, quase um tom cereja, pareciam beber cada traço do rosto de Alice como um néctar celestial. Alice não conseguiu se impedir de sussurrar para ele – Você conseguiu se manter vivo.
- Por você – foi a única coisa que ele respondeu, mesmo seus olhos querendo dizer mais.
- Matheu... eu... eu... — começou Alice sem coragem, mas ele a interrompeu com suavidade.
- Eu sei – e delicadamente a soltou, mas Alice notou o tormento que causava a ele ficar longe dela, como uma dor física – Eu apenas estarei sempre aqui quando precisar de mim.
Alice sorriu e com esforço afastou-se dele, correu para o pátio sem olhar para trás. Eu não posso olhar para trás, estarei condenada se o fizer, pensou ela consigo mesma. Os pátios destruídos estavam desertos, não havia sombra de coisa alguma por ali, mas Alice teve a impressão de sentir olhos suspeitos e assustados observando-as das milhares de janelas no castelo; ela correu até o extremo para ter uma vista melhor e enxergou Charlotte próximo ao Jardim do Bem e do Mal.
Alice deslocou-se rápido como o vento e parou na frente da bruxa com um leve derrapar na grama. Charlotte, distraída, assustou-se.
- Não pretendia assustá-la, me desculpe – pediu Alice.
- Está tudo bem – Charlotte parecia ainda bastante aborrecida – O que faz aqui?
- Jasper precisa de você no quarto de Giuliana, ele parece ter alguma ideia para deixá-la em segurança. Você... — Alice hesitou por um instante – Está chateada por causa daquele assunto mágico, não é? O do lapso do tempo?
Charlotte encarou Alice por um instante e então soube o motivo que levou Jasper a cruzar o mundo e um monte de perigos apenas para estar junto dela novamente. Alice era realmente linda, parecia uma fada encantada, era pequena, mas seu corpo curvilíneo movia-se sensualmente a cada passo que dava; ela parecia flutuar. Seu cabelo repicado deixava seu rosto com um ar arteiro eternamente congelado em seus dezenove anos de idade, sua boca era pequena e de contornos graciosos e sua pele de porcelana deixava-a com um aspecto delicado. Mas os olhos não eram como os olhos dos outros Cullen, o dourado era muito mais escuro, um dourado envelhecido... quase num tom avermelhado.
Havia uma graça em Alice que quase a deixava no mesmo patamar que Bianca. Quase.
Mas também havia uma dor ali, algo que ela parecia estar ocultando dentro de si mesma, e mesmo tendo conhecido-a a apenas algumas horas atrás, Charlotte, tão espantada com todo o comportamento dos Cullen, não conseguiu deixar de perguntar:
- Algo esta te aborrecendo ou é apenas o estresse por tudo o que passou?
- Você sabia que eu posso prever o futuro? — Alice respondeu depois de um tempo, ela não sabia ao certo por que estava contando isso a Charlotte, talvez pelo fato de que não havia mais ninguém além dela por ali e porque Bella, sua confidente oficial, estava muito distante.
- Ouvi isso durante nossa viagem. Você teve uma visão recente? Não me diga que vamos morrer todos – o sorriso de Charlotte era amargo.
- Não, não é bem isso. Para ser franca, algumas coisas me deixaram aliviada por saber que pessoas que amo estarão bem, mas outras... — a voz morreu na boca de Alice.
- Lidar com o futuro é sempre complicado – Suspirou Charlotte.
- Você pode ver o futuro também?
- Não, eu não. Minha mãe. Mas não é um dom, é algo através da magia e muito impreciso, chamamos de profecia e não previsão, mas acredite em mim... é tão horrível quanto. Se quer meu conselho, não preste muita atenção no futuro, escolhas que você não sabe se faria vão estar determinadas e vão te influenciar no presente.
- Eu sei disso – a voz de Alice saía entristecida – Mas o meu dom já salvou nossa vida um par de vezes.
- Você pode estar certa, mas tente não fuçar muito no que ainda não aconteceu, se você consegue controlar seu dom, bem, use-o apenas quando for necessário ou ele se tornará uma maldição.
**********
Vrau Urban assistia Didi batendo com os nós dos dedos contra a rocha dura da parede, estavam em uma sala vazia – umas das centenas que havia em Volterra – era um pequeno salão que não era usado para nada. Os ouvidos dos dois vampiros estavam atentos para uma batida oca na parede, mas pareciam visivelmente frustrados.
- Ao diabo com isso – enfureceu-se o anão – Eu não vou mais procurar porcaria nenhuma, daqui a pouco minha mão vai cair se eu continuar testando cada pedra nesta parede maldita.
- Temos de fazer o que fomos enviados a fazer, meu bom amigo – disse Vrau Urban em sua voz musical – O Cofre dos Segredos tem de estar aqui em algum lugar.
- E é exatamente a essa merda toda que eu me refiro, nem você ou Erestor ou aquela vaca da Madalene sabem onde fica esta droga de cofre. Se ao menos houvesse uma pista não teríamos que ficar batendo em pedras para encontrar alguma passagem secreta. E tudo isso por causa de um maldito livro verde.
- Vermelho – corrigiu Vrau Urban que parecia imune às reclamações do anão – O Livro Vermelho é como uma bíblia dos vampiros, meu amigo Didi; extremamente velho e possivelmente profético. É dali que provém todo o poder dos Volturi e se nós soubéssemos onde está já o teríamos em mãos, a Confraria do Sangue nos enviou para cá justamente para procurá-lo.
- Tanto faz – o humor de Didi parecia pior a cada segundo – Mas eu quero só ver como vamos encontrar esta droga de livro com aquele viking maníaco solto por aí.
- Arian não estava nos planos – a voz de Vrau tornou-se subitamente sombria – Isso foi uma loucura de Edward Cullen. Mas talvez seja uma boa coisa, ele vai destruir os Três e Volterra será apenas nossa para procurar pelo Livro o quanto quisermos. Arian não será rei e este castelo será abandonado.
- Vai nessa – riu Didi – Se você acredita que Arian não vai sentar aquela grande bunda dele em algum dos tronos você é mais burro do que eu sou anão, Vrau. Aquele vampiro nasceu para reinar... e te digo uma coisa, se ele se tornar rei os planos de Erestor vão para o saco.
- Você não deveria duvidar da astúcia de Erestor.
- E você não deveria duvidar da força de Arian – retorquiu Didi voltando-se para a parede e recomeçando a bater nas pedras.
**********
O corpo de Giuliana era tomado, vez ou outra, por pequenos espasmos que a faziam chacoalhar na cama, Jasper já havia visto centenas de vampiros se transformarem quando cuidava de um exército para uma mulher que quebrou seu coração... há muito tempo. Não era algo bonito, a transformação modificava tanta coisa, vazia Jasper imaginar qual era o processo físico-químico que alterava pele para este tecido quase indestrutível e ainda podia animar o corpo independentemente de um coração parado. Ele lembrou-se de algo que Edward lhe dissera há décadas atrás.
Somos monstros, Jasper. Mortos-vivos. O que pode nos sustentar a não ser um hálito demoníaco e sombrio? Nada abençoado poderia animar corpos mortos que só podem alimentar-se de sangue... somos belos, oh sim, somos, mas quão horrível não seria a face de um demônio?
Jasper voltou a olhar para Giuliana, sua pele já ganhava a palidez típica dos vampiros, algo que emanava uma aura de sensualidade desmedida, delicado e forte ao mesmo tempo, seus cabelos já adquiriam um renovado viço e seus lábios tornavam-se rosados e cheios.
… mas quão horrível não seria a face de um demônio? Foi isso que eu transformei você, Giuliana? Em um demônio como nós?
E ali, em sua relutante consciência, a voz de Carlisle ecoou na mente do soldado: Você poderia condená-la ao em vez de salvá-la. Pense, Giuliana é uma suicida, ela já havia envenenado-se para morrer, por que haveria você de dar a vida eterna a uma menina que não mais quer viver?
Você não quer viver? Perguntou Jasper mudamente à menina adormecida. Há tantos tormentos ele já havia passado, tantas provações e agora mais uma. Apenas nesta viagem ele cometera pecados suficientes para uma vida, e não se arrependia deles. Que os céus o amaldiçoassem, mas nem por Giuliana ele arrependia-se uma vez que Alice estava salva fora das celas. Era isso que ele era... diferente dos outros Cullen, ele não sentia remorso.
Você vai me odiar ou me compreender? As perguntas soterravam-no.
- Eu fiz o que pude para mantê-la viva – sussurrou ele para os ouvidos mudos da menina – E agora eu lhe amaldiçoei, eu te dei a vida eterna, sou seu criador – e neste momento ele estendeu a mão pela cama tomando a mão gelada de Giuliana – Me perdoará algum dia? Você acha que eu te salvei quando entrei pelo seu quarto sorrateiramente aquela noite, mas não, talvez no futuro você me odeie, talvez você então entenda que eu apenas te usei... e eu permitirei que você se vingue de mim.
A porta se abriu e Alice entrou trazendo com ela Charlotte. Jasper olhou para elas e se fosse possível, Alice lhe pareceu ainda mais abatida do que antes.
- Você queria me ver? — perguntou Charlotte, não havia calor na voz da bruxa e quando Jasper respondeu, também sentiu frieza em sua própria voz.
- Preciso protegê-la, antes de partir terei de ter certeza que Giuliana ficará segura. A transformação levará alguns dias para se completar e até voltarmos ela ficará desacordada.
- Então agora a magia fará algum bem? — a voz de Charlotte era afiada como um navalha – Você e os seus condenaram-me pelo episódio do Pântano e do lapso dos anos, mas quando foi necessário arrancar a alma do homem que você sequestrou e para proteger a menina que você permitiu morrer, magia é essencial.
- Você sequestrou um homem? — Alice perguntou, espantada.
- Para depois eu arrancar a alma dele – disse a bruxa mordazmente.
- Muita coisa aconteceu até chegarmos aqui, Alice – Jasper falou num tom imparcial, mas não teve coragem de olhar para a esposa – E eu não sabia que você era tão sentimental, Charlotte. Mas se espera um pedido de desculpas eu temo ter de desapontá-la – e neste momento Jasper aproximou-se da feiticeira e seu rosto estava sombrio e seus olhos ameaçadores – Você não está aqui nos fazendo favor algum, está aqui por vingança assim como todos nós, podemos maquiar nossa missão dizendo que é apenas por resgate, mas ambos sabemos que seria apenas para deixar as coisas bonitinhas. Os Volturi mataram seu pai e também mataram pessoas das quais eu gostava, então eu quero matá-los ou pelo menos atirar Arian no meio deles para ver o circo pegar fogo. Então sugiro que nossa cooperação continue apesar de seu coração partido por nossas críticas quanto à demora de termos chegado até aqui.
Charlotte encarou Jasper demoradamente. De modo algum ela sentiu-se chateada pela dureza de suas palavras, estava acostumada à rudeza da vida, seu olhar também não era de medo, mas ela agora parecia estar analisando melhor o vampiro à sua frente. Você é diferente dos outros Cullen, Jasper – pensou Charlotte – É sombrio, determinado e perigosamente mortal. Parece muito distante da filosofia pacifista de Carlisle. Você parece odiar tudo, isso é quase como um dom seu. Tudo o que mantém este seu frágil equilíbrio é Alice, mas se ela fosse tirada de você...
- Qual é o seu plano para proteger esta criança? — perguntou a bruxa por fim.
- O vampiro do feitiço – começou Jasper, ele parecia relutante em falar daquilo na frente de Alice – O que você enfiou a alma do homem goela abaixo.
- Vesgo John.
- Exato, ele está em Volterra, Charlotte... apenas aguardando as suas ordens. Não sabemos onde ele está escondido aqui dentro, mas sei que pode convocá-lo quando quiser. Traga-o aqui para ficar com Giuliana.
- Ah, este é o seu plano – sorriu Charlotte – Espere aqui.
A única coisa que Charlotte fez foi fechar os olhos e murmurar uma palavra que pareceu estranha e rude aos ouvidos de Alice, aconteceu um pequeno lampejo de luz verde no quarto e depois silêncio.
- Ele está a caminho – declarou a bruxa.
Não levou nem cinco minutos para que Vesgo John surgisse na porta como um cadáver ambulante, tinha a roupa suja e parecia ainda com aquele olhar de sonho como se estivesse caminhando e vivendo dormindo. Seus olhos foram diretos para Charlotte e Alice distinguiu uma chamazinha verde mesclando-se à sua íris.
Deus meu, pensou Alice, então realmente existe magia e feitiçaria neste mundo.
- Você ficará aqui e tomará conta da menina – ordenou Charlotte, direta como um raio partindo uma árvore ao meio – Tomará conta dela e não permitirá que ninguém a encontre ou lhe faça algum mal. Entendeu?
- Sim, minha senhora – respondeu Vesgo John numa voz distante.
- Eu me pergunto se só este vampiro será capaz de cuidar dela – mediou Jasper.
- O que você pretende, Cullen? — a voz da bruxa era feroz – Arrancar a alma de mais alguns mortais para fazer um exército de zumbis?
- Enfeitice a porta para que ela não se abra – falou Jasper ignorando o veneno de Charlotte.
- Feitiços de tranca são feitos a partir de sangue e eu suponho que não há mais qualquer humano aqui neste castelo... e creio que não será saudável você raptar mais uma mocinha indefesa de alguma janela durante a noite, não é mesmo?
Jasper a fuzilou com o olhar, mas antes que as coisas piorassem ela interveio, dizendo:
- Já é quase noite, vamos nos reunir com os outros no salão e ver o que Arian pensa em fazer com Volterra agora que ele a arrasou.
**********
E como um chamado estranho e mudo, o crepúsculo trouxe novamente os que estavam espalhados para dentro do salão. Arian chegou trazendo Bianca que parecia ter encontrado algum guarda-roupas com roupas atuais para vestir; ela usava um vestido de tom marfim sem mangas, o tecido era bastante líquido, parecia delicado como seda ou qualquer coisa semelhante, era decotado permitindo que o perfeito busto de Bianca aflorasse de seu colo como uma arma de sedução em massa. Era curto acima dos joelhos e ela calçava sapatos claros de meio salto que deixavam suas pernas bastante apetitosas... seus braços alvos e nus descansavam ao redor do corpo. Se fosse possível, estava ainda mais linda do que nunca envolta em seus cabelos dourados e em sua aura eterna de arrogância.
Vrau Urban e Didi chegaram logo em seguia com uma terrível expressão de disfarce. Jasper, Alice e Charlotte também não tardaram a chegar e uma vez mais estavam todos reunidos nos Salão dos Tronos, cuja glória agora era reduzida a tronos tombados e fuligem de cinza.
- O crepúsculo não tarda – disse Edward claramente se dirigindo a Arian – Temos de partir.
- De fato, mas há coisas a serem feitas antes disso – Arian respondeu, sua voz ecoando grave pelo salão – Questões que podem parecer pequenas, mas que tem certo impacto. Feiticeira, você remodelou a barreira que paira sobre o castelo, antes ninguém poderia atravessar as muralhas vindo de fora, agora ninguém as pode transpor de dentro. Sendo assim, sairei até o pátio para falar com aqueles que ainda habitam Volterra, eu nada tenho contra eles e depois que eu arrasar os Reis, pretendo liberar Volterra destes encantamentos e permitir que todos os servos que ainda estão aqui, partam.
- E como você pensa fazer isso? — quis saber Carlisle, mas sua resposta veio apenas com um sorriso irônico de Arian.
Agora havia apenas um rastro vermelho no horizonte distante e a luminosidade era oriunda mais das nuvens que refletiam-se rosa no céu do que do sol propriamente dito, no oeste algumas estrelas já pontilhavam enquanto a luminosidade da tarde extinguia-se.
Arian obrigou todos eles a irem para o pátio externo, reuniram-se num amontoado atrás do gigante que tinha enganchado em seu braço direito o braço delicado de uma Bianca radiante que parecia emanar prepotência como a própria lua cheia. Eles sabiam que estavam sendo cuidadosamente observados, havia muitos olhos nas janelas espreitando o que estava acontecendo no pátio, temerosos por aqueles estranhos invasores que derrubaram as defesas da inexpugnável Volterra.
- Ouçam, ouçam – bradou Arian, sua voz de trovão ecoando por todos os pátios e jardins – Eu sei que me escutam, posso vê-los, posso senti-los. Eu sou Arian Volturi, filho de seu grande Rei Aro. Alguns de vocês já serviam nesta casa enquanto estive aprisionado, estavam aqui há quase mil anos quando eu destruí os Mercadores da Morte aqui mesmo, nestes pátios... nas ruas da cidade. Seus olhos viram a traição. Sei que muitos foram obrigados por juramento a jamais tocar em meu nome, mas eu voltei. Estou aqui e estou vivo.
O silêncio era quase tumular a não ser pelo vento que uivava pelo castelo, Arian deixou suas palavras pesarem por um tempo e então prosseguiu:
- Não tenho nada contra qualquer ser que habite este castelo. Não lhes desejo o mal. Eu reagi quando fui atacado, mas entendam, não sou vosso inimigo. Mas não enganem-se em minhas intenções, pois sou a Ruína dos Três, fui despertado para trazer a este lugar o fogo e o sangue; Aro, Caius e Marcus jamais retornarão para Volterra... eu sou a Queda dos Reis.
Houve uma nova pausa, e o ar parecia subitamente pesado como quando uma tempestade se aproxima.
- Partiremos hoje para o Pináculo da Luz – declarou Arian – Ao meu retorno vós todos sereis livres e não mais servos de Reis. Eu os libertarei. Mas também serei justo com aqueles que ainda pretender ser fiéis aos reis, respeitarei seu orgulho. Sei que há muitos aqui que não são guerreiros e que realizam os serviços domésticos aos Três, a estes eu peço que se apresentem ao pátio, sem qualquer temor, eu lhes juro que não receberão qualquer punição.
Passou-se um bom tempo antes que uma voz surgisse de um dos lugares altos do palácio.
- Está apenas nos atraindo com promessas vazias – disse a voz – Vai nos matar a todos.
- Não irei – a voz de Arian era afiada, mas sincera – Pois o que poderiam fazer contra mim? Eu que sou mais poderoso do que todo o exército dos Três? Poderia simplesmente por a baixo todo este castelo com vocês dentro, mas não o farei. Pretendo olhar em seus olhos para lhes dar a liberdade.
Por muito tempo não houve qualquer som, nada que comprovasse que alguém havia realmente levado a sério a intenção de Arian, mas Didi sabia que dentro do castelo os vampiros escondidos estavam se movendo, não com medo de Arian, mas porque simplesmente não conseguiam se impedir de seguir aquela ordem, como se os habitantes de Volterra reconhecessem, mesmo que inconscientemente, que Arian era maior que os Três.
Eles reconhecem seu senhor, seu rei, pensou Didi, você estava completamente equivocado, Vrau, este filho de uma puta com certeza nasceu para ser Rei. E com todo o poder que ele tem, provavelmente será muito mais do que Aro, Caius e Marcus imaginavam ser. Arian fará coisas grandes, talvez boas ou más, mas fará. Ele será rei... mesmo que Erestor não goste disso. Edward Cullen, desgraçado, você pode ter feito isso sem querer, mas fodeu a vida de muita gente poderosa.
E o desbocado anão tinha razão, pois apesar da demora, silhuetas começaram a se mover por trás das janelas, sombras caminhavam através das escadas, seus passos soando com um leve roçar de uma brisa sobre as água de um lago. Das portas das torres e alas eles apareceram. Não eram os guardas com suas roupas escuras num tom sangue, mas os servos que realizavam as funções administrativas e domésticas em suas túnicas de um tom cinza.
Não havia realmente muitos deles, talvez seis dezenas. Variavam muito, mas seus rostos atemporais eram muito jovens, a idade máxima não passava de seus vinte e poucos anos. Quem os conduzia era uma moça realmente bonita. Deveria ter sido eternizada ali pelos vinte, o rosto era anguloso e a curva do queixo que se unia ao maxilar era nada menos que perfeita, os cabelos eram loiros prateados, na luz que se extinguia pareciam brancos. Tinha um corpo curvilíneo e delgado e movia-se com um felino balanço. Seth teve de admitir que se tratava de uma bela vampira, obviamente não tão bela quanto Bianca, mas quase... quase.
- Sofia? — a voz de Bianca soou surpresa.
A vampira que se aproximava ergueu os olhos e focou em Bianca, por um momento ela fez como quem não conseguia acreditar no que via, franziu o cenho tentando decidir se era realmente quem pensava... ou não.
- Minha Rainha? — ela falou e sua voz soou emotiva e ela correu até se aproximar de Bianca e se ajoelhar à sua frente – Eu não acredito que a libertaram minha senhora Bianca.
A máscara de soberba de Bianca deslizou de seu rosto, ela abaixou-se e quando se levantou trouxe Sofia com ela novamente, encolhida em seus braços, as duas vampiras pareciam realmente felizes de terem se reencontrado, quando se afastaram um pouco, Sofia olhou para Bianca como uma filha olhava para uma mãe. Ela parecia, de alguma forma, muito mais jovem.
- Sofia, eu não acredito que ainda está aqui – a voz de Bianca tremia – Nunca tive a chance de me despedir...
- Ah, minha senhora, quando eu a vi sendo arrastada para aquelas catacumbas, nunca imaginei que a veria novamente, por todos estes séculos eu torci para que a senhora pudesse ser solta novamente.
- Por que não veio até nós antes?
- Eu ouvi a batalha, mas nunca imaginei que pudesse ser o meu Mestre Arian – ela disse então erguendo seus olhos para o gigante – A princípio eu não quis acreditar que era ele, achei que seria bom demais para ser verdade... mas agora eu estou tão feliz!
- Sofia era a aia de Bianca no passado – explicou Arian aos outros — Eram grandes amigas.
- Somos grandes amigas – corrigiu-o Bianca, a máscara da Rainha retornando automaticamente para o seu rosto – Há mais alguns rostos que conhecemos, Sofia?
- Apenas Igor, minha senhora – respondeu ela – Igor? Venha cá, está tudo bem,
Do meio da assustada turba de servos surgiu um rapazinho pequeno, Alice notou que aparentava um extrema juventude, pelo menos doze anos de idade, magro como uma lança, seu rosto lembrava alguma coisa de roedor e seus cabelos eram vermelhos como a cabeça de um fósforo.
- O rapaz dos estábulos – lembrou-se Arian.
- Sim, meu senhor – a voz de Igor era estranhamente grave para alguém tão esquálido – Mas já não há muitos cavalos em Volterra nestas épocas atuais, eu cuido dos automóveis agora.
- Seja lá o que isso for – riu Arian e sua risada alta pareceu assustar os servos quase tanto quanto sua voz – Bem, vocês estão aqui agora, podem manter suas funções enquanto estivermos fora, eu voltarei para decidir o que será feito deste palácio decadente.
Igor acabou tomando a frente dos servos e despachou-se com todos para longe do pátio, enquanto saíam, cerca de uma dúzia de guardas surgiu marchando em formação pelo jardim, eles vinham em uma massa compacta com suas vestimentas de um veludo vermelho escuro, tão escuro que parecia negro. Carlisle temeu que eles viessem em uma última surdida, mas há trinta metros de Arian pararam, ajoelharam-se e baixaram suas cabeças.
- Eu não vos quero de joelhos – a voz possante de Arian era séria – Não sou teu senhor, não sou teu rei. Ergam-se — Os guardas o fizeram – Quantos de você ainda restam?
- Apenas o que vê aqui, meu senhor – disse um deles, um pobre diabo esfarrapado cuja orelha direita havia desaparecido – O senhor e seus aliados dizimaram todo o resto.
- Muito bem, já que estão depondo suas armas quero que me escutem com atenção. Não serão molestados de forma alguma, mas não deixarão este palácio até que retornemos, não podemos nos dar ao luxo de ter algum de vocês correndo para o sul para avisar os Três. Quando tudo acabar nós os libertaremos, estarão livres para fazer o que quiserem.
- Mas senhor – um guarda aproximou-se com relutância – Eu não desejo partir de Volterra, o senhor não voltará para aqui reinar?
- Voltarei, mas não serei rei – disse Arian e Bianca soltou um leve gemido de irritação – Mas aguardem até que tudo tenha findado. Apenas mais um aviso: em um dos aposentos deste palácio há uma aliada nossa que está se recuperando, se ela for de algum modo ferida, eu pessoalmente cuidarei para que tenham uma morte lenta e agonizante. Agora vão.
Os guardas dispersaram-se rapidamente. Já era noite e a escuridão parecia muito mais acentuada agora que todos os postes de iluminação dos pátios e dos jardins havia sido destruídos, algumas poucas e esparsas luzes acendiam-se pelo castelo afora.
- Muito bem – disse Arian – Estamos indo. Sofia, no último quarto da torre principal acima dos Tronos está a menina que nos ajudou. Ela foi transformada, junto dela encontra-se um vampiro que também está do nosso lado. Cuide dos dois até voltarmos.
- Sim, meu Mestre Arian – aquiesceu Sofia.
- Você vai realmente insistir em ir conosco? — Arian perguntou a Bianca.
- Eu não perderia por nada a queda dos Três, meu amor – a voz da Rainha era doce como o mais perigoso dos venenos.
- Feiticeira – chamou Arian – Leve-nos através da barreira.
Através do pátio eles seguiram, andando todos juntos. O que começou com um grupo pequeno tornou-se maior, um retalho de várias histórias que haviam sido, de alguma forma, alterada pelos Volturi. Cada um deles nutria um motivo para ir até o Pináculo da Luz e lutar para que os Reis não mais governassem os Vampiros. Caminhavam unidos sob um destino comum, morreriam juntos pelo mesmo destino.
Charlotte seguiu na frente até o portão mais próximo, sussurrou suas palavras estranhas e cruzou a linha limitadora acenando para que todos a seguissem... e assim eles o fizeram. Aquele portão que cruzaram era o portão Leste, Matheu deu uma leve olhada para o lugar antes de deixá-lo, ali fora sua casa por muitos e muitos anos.
A rua era deserta, dava para um canto da cidade bastante inabitado, o que, dada as circunstâncias era tremendamente vantajoso. O movimento da cidade já estava morto naquele horário, e o castelo de Volterra ficou para trás, erguendo-se solitário e quebrado acima da colina mais alta da cidade. Arian parou e voltou-se para o grupo.
- Vrau Urban – chamou ele – Sei italiano, vero?
- Sì, nato ad Ancona – respondeu Vau.
— Então sabe onde fica Bassa Collina?
- Sei, perto de Nápoles. Atualmente é o Parco Regionale Monti Picentini. Por quê?
- Leve todos com você até lá, encontre-me no cume da colina. Não se atrasem muito, eu os estarei aguardando lá até o nascer do sol.
- Espere – objetou Edward – Você não irá conosco?
Arian encarou Edward com um sorriso enviesado, em seguida tomou delicadamente Bianca pelas mãos e ergueu-a em seu colo com um movimento rápido. A Rainha sorriu deliciada e logo seu olhar arrogante tombou para Edward como se ele fosse um total idiota.
- Não está à altura de uma Rainha correr por aí, Edward Cullen – riu ela.
- Não se atrasem – reafirmou Arian.
Em seguida, sem qualquer aviso, Arian ergueu-se do chão. Flutuou alguns poucos centímetros e depois disparou pelos céus como um pássaro, mas muito mais rápido, muito mais furiosamente veloz. Por alguns instantes eles distinguiram seu contorno contra as estrelas rumando para o sul, mas depois ele desapareceu completamente deixando para trás um grupo de vampiros e lobos completamente aterrorizados.
- Puta que o pariu – a voz de Didi era tensa – Não há de ver que o desgraçado pode voar?
- O dom dos ares – murmurou Carlisle pensativo, seu rosto congelado numa expressão de descrença.
- Parecia um Superman barbado e selvagem – apontou Seth.
- Há alguma coisa que este vampiro não pode fazer? — perguntou Garret.
- Pelo visto não – respondeu Edward num tom sombrio.
- Deixe que ele vá – resmungou Jacob – Nós não podemos voar, então vamos logo com isso.
Ele transformou-se em lobo e Seth o seguiu e um segundo depois corriam pelas ruas de Volterra rumo ao sul da Itália. Os vampiros os seguiram de perto, seria uma longa corrida até o local de encontro e todos eles estavam seriamente invejando Arian... voar viria muito a calhar numa hora como aquela.
**********
As nuvens singravam o céu negro como navios intangíveis e alvos, suas velas de vapor de água desfraldando-se ao vento, impelindo-as pelo imenso oceano do céu através de marés e ondas de vento. Dali daquela altura as estrelas faiscavam com um brilho ofuscante, em cada pequeno pedaço de céu escuro havia um ponto cintilante que não poderia ser visto da terra com todas aquelas luzes brilhantes que a princípio haviam fascinado Bianca, mas agora, com seu olhar de vampira ela conseguia contar constelações e estrelas à vontade.
Os braços de Arian seguravam-na com uma delicada firmeza enquanto os dois rompiam os céus. Bianca lembrava-se de como ficou assustada quando Arian lhe mostrou seu dom de voar pela primeira vez, eles estavam sobre uma das torres de Volterra, só podiam ficar juntos escondidos e então ele a tomou nos braços e a levou para longe para poder amá-la sem medo. Ela quase havia apavorado-se, mas como sempre os braços dele a faziam se sentir segura.
E ali estava ele, impedindo-a de ter de correr até o sul do país, sustentando seu corpo enquanto atravessava por sobre o mundo todo... e todo aquele poderoso coração pertencia a ela. Somente a ela.
Bianca olhava para baixo e as cidades eram como ilhas de luz no meio do escuro, desenhando traços araneiformes com seus milhares de pontos brilhantes. Como havia o homem de ter conseguido criar tamanhas maravilhas? Ela não sabia, mas descobriria em breve, o mundo agora pertencia a ela e Arian, e se ela pedisse... ele o conquistaria apenas para ela.
Ela enterrou seu rosto no ombro de Arian, ela estava ali nos braços dele há centenas de quilômetros de altura depois de setecentos anos, em algumas ocasiões enquanto esteve meio acordada entre um século e outro ela quase desesperou-se imaginando que nunca tornaria a vê-lo novamente, a tê-lo uma outra vez em seus braços. Sentir a força de tudo o que ele era. Ele sorriu de leve ao sentir o toque da pele dela... e ela o apertou com ainda mais força contra si.
Arian nunca calculara a velocidade com que voava, nem sabia se poderia se comparar aos aparelhos que agora o homem usava para também poder voar conforme o que Garret lhe disse, mas ele sabia que chegaria muito antes dos outros no ponto de encontro. Enquanto isso observava tudo com olhos espantados, a explosão de luz no mundo escuro abaixo onde ficavam as cidades, de onde ele estava podia ver (ou sentir) a circunferência da Terra e isso o deixava extasiado. Mas havia tantas luzes, de tantas cidades que antes não existiam que ele teve que se sentir ligeiramente temeroso com relação ao mundo que encontrariam depois que tudo terminasse.
Depois que ele matasse seu pai.
Arian não saberia se localizar naquele imenso cesto de luzes, mas seus olhos de vampiro eram suficientemente aguçados para distinguir a ausência de luzes que buscava, ele costurou a costa voando por cima do oceano até ter certeza de que se tratava de Nápoles graças à Ilha de Prócida. Dali dirigiu-se novamente para terra até ter certeza de ter encontrado o Parco Regionale Monti Picentini como uma ilha de escuridão em meio a tantas luzes.
Ele se recordava do susto que tomaram quando descobriu que poderia voar e com isso a certeza de que se ele conseguira este feito — numa época em que os homens só poderiam sonhar em alçar voo aos céus — nada mais seria capaz de detê-lo. Mas agora seu dom já era natural para ele, poderia deixar os outros estarrecidos, mas ele considerava-o comum... geralmente alçava voo para esquecer dos problemas da vida mundana e mesmo sem saber, por muitos séculos, Arian fora o único ser terrestre que teve o prazer de conhecer o céu, domínio exclusivo dos seres alados por muito e muitos séculos.
Com um gesto gracioso ele começou a perder altura enquanto rumava para o topo de Bassa Collina que erguia-se contra o céu escuro, parou pairando como um anjo vingador a poucas dezenas de metros do chão e acima das copas das árvores. Bianca o encarava agora com pleno ardor, e lentamente, rodando sobre si mesmo, Arian desceu ao chão, pousando com um leve farfalhar de folhas mortas. Ele desceu Bianca de seu colo e caminhou até um pequeno despenhadeiro que cortava o cume da colina, lá em baixo uma cidade cintilava como um amontoado de estrelas amareladas; a massa escura da floresta do Parque mantinha-se oculta na escuridão da noite.
- Lembra-te daquela floresta, minha Rainha? — perguntou Arian apontando e quando ela emparelhou com ele, sacudiu a cabeça de leve.
- Não, meu amor – sua voz como o murmúrio de uma brisa primaveril – Que lugar é?
- Resta muito pouco dela agora, mas outrora fora a floresta onde paramos logo depois de tê-la resgatado das mãos daqueles feiticeiros, quando nos apaixonamos.
- Pobre floresta, reduzida a apenas isso.
- Temo que futuramente tudo o que verei quando ganhar os céus seja um mundo iluminado por esta estranha a brilhante luz que os homens criaram para ceifar o negrume da noite. Humanos, evoluíram muito.
Dito isso ele se afastou dela um pouco e sentou-se sobre um amontoado de raízes grossas de uma árvore alta e antiga, dali ele ficou admirando a cidade que ele não sabia dizer qual era, o brilho das centenas de luzes faiscando em seus olhos rubros. Bianca se voltou para ele e um sorriso de desejo espalhou-se pelos seus lábios, ela descalçou os sapatos para que eles não afundassem no terreno fofo e foi sentar-se no colo de Arian acomodando suas pernas ao redor do guerreiro.
- Meu Príncipe conhece o tempo que os estranhos levarão para chegar até nós? — ela perguntou enquanto roçava sua boca em um dos lados do pescoço de Arian.
- Horas ainda – a voz dele era pesada.
- Então – disse Bianca que agilmente abriu o zíper de trás do vestindo deixando-o deslizar sobre seu busto nu – Há tempo para fazermos amor e depois...
- Depois? — perguntou Arian hipnotizado pelo colo de Bianca.
- Não está com sede, meu amor?
- Sim... terrivelmente sedento.
- Então depois de nos amarmos sob estas estrelas, poderemos descer até aquela cidade brilhante e saciar nossa sede, não é?
- Os desejos de minha rainha são para mim sempre uma ordem – murmurou o gigante enquanto enterrava o rosto entre os perfeitos e irresistíveis seios de Bianca.
**********
Os lobos estavam à frente, mas isso era natural. Eram sempre muito mais rápidos que os vampiros. Vrau Urban indicava o caminho e eles se dirigiram para o sul seguindo parelhos a autoestradas, cortando caminho por plantações e pastos e florestas e às vezes atingiam o subúrbio de cidades tendo que se esgueirar pelas sombras até conseguir atingir a cobertura da noite novamente.
Levou bastante tempo para encontrarem o lugar onde Arian havia demarcado como ponto de encontro, Edward ficou realmente azedo por saber que a metade da noite já havia passado e eles ainda teriam de chegar mais ao sul até encontrar o Pináculo da Luz.
- Ah, lá está — a voz de Vrau soou abafada contra a velocidade da correria deles.
Tudo o que havia era uma floresta rodeada por uma mureta de proteção demarcando os limites da reserva e lá, olhando para cima, estava uma colina alta que provavelmente tratava-se do lugar onde Arian os aguardava. Fizeram a escalada pelo terreno inclinado numa corrida suave e constante e, já no cume, trataram de procurar por Arian e Bianca... não foi difícil encontrá-los.
Estavam na face leste da colina onde um corte reto na encosta formava um despenhadeiro abrupto, os dois olhavam abraçados para a cidade faiscante que adormecida brilhava com seus milhares de postes de luz. Ao notar a aproximação do grupo eles se viraram e o sorriso no rosto de Bianca era irônico quando ela disse:
- Demoraram.
- Bem, é mais difícil chegar a um local quando se tem cidades e árvores e todo o resto pela frente – respondeu Garret num tom neutro.
Edward notou que tanto Arian quanto Bianca pareciam menos tensos, seu comportamento estava mais relaxado e sereno e quando o vento mudou ele descobriu o motivo disso. Um cheiro de sangue, sangue humano atingiu-o como um soco no estômago e ele soube que os dois haviam se alimentado na cidade. A princípio ficou com raiva, mas então lembrou-se de que noventa e nove por centro dos vampiros do mundo alimentava-se de humanos e que isso era natural à sua espécie, no mundo deles eles eram a anomalia.
Mas Edward não conseguiu conter um arrepio desconfortável quando se pegou imaginando quantos humanos eram necessários para que Arian, em todo o seu tamanho e poder, encontrasse sua saciedade. Ele afastou este pensamento com um balançar rápido da cabeça.
- Estamos há algumas léguas do Pináculo da Luz – declarou Arian – Mas esperaremos aqui até que o dia esteja quase amanhecendo.
- E o motivo disso é? — quis saber Edward.
- A surpresa do ataque é nossa vantagem – respondeu o guerreiro – Não podemos ficar muito perto de lá com o risco de sermos descobertos. Então antes que o dia amanheça, partiremos. Estaremos lá e aguaremos até que todos estejam despreparados e distraídos... e isso ocorrerá justamente durante a cerimônia do casamento.
- Temos de aguardar tanto assim? — a voz de Carlisle não continha críticas, mas uma leve preocupação – Até que Bella esteja no altar com Aro?
- Os Casamentos Reais obrigam que todos os servos dos Volturi os prestigiem – Bianca respondeu em sua voz afiada como se estivesse explicando a uma criança como se dobra papel – Todos os membros da Corte, servos e Mercadores da Morte estarão no pátio externo do Pináculo para que reconheçam sua nova Rainha. Neste momento poderemos nos aproximar sem sermos notados.
- Ah, mas eles não deixam nem um guarda para tomar conta da vigilância? — preocupou-se Kaori. Bianca a olhou com total descrença, como se ela tivesse perguntado a coisa mais absurda do mundo, mas foi Arian quem respondeu.
- No Pináculo da luz todos os Lordes Vampiros estarão reunidos, são centenas, e junto deles os Mercadores da Morte que vocês dizem não passar de três milhares. O que haveria para os Reis temerem se toda a sua força está reunida em um único lugar? Quem seria louco o suficiente para tentar enfrentá-los diante de seu poderio? Não há necessidade de vigias durante a cerimônia... e será neste momento que os surpreenderemos com nossa chegada.
- E você tem algo específico em mente? — perguntou Vrau e recebeu um sorriso diabólico de Arian.
- Oh sim, tenho algo muito interessante em mente. E vamos precisar de nosso amigo que está se escondendo ali atrás.
Todos se viraram para saber do que Arian falava.
- Mas do que diabos você está falando? — perguntou Didi.
A resposta foi um leve deslocar de ar, Arian moveu-se em uma velocidade alucinante, quase um teletransporte, num momento estava com Bianca e no outro localizava-se atrás do grupo segurando uma coisa invisível nas mãos e seu sorriso continuava terrivelmente triunfante.
- Um camuflador – disse o guerreiro – Você pode mostrar-se agora... ou pode morrer invisível.
Do nada, preso à mão de Arian, surgiu um vampiro. Magro e com os cabelos cacheados, vestia uma suja roupa que era um conjunto de calças e jaquetas jeans velhos, seus pés estavam há centímetros do chão e ele olhava para Arian com nada menos do que um horror espasmódico.
- Miguel – arfou Vrau Urban ao ver o vampiro – Arian, ele é nosso amigo.
- Seu amigo – fungou Garret.
- Amigos não aproximam-se fortuitamente – a voz do guerreiro era inflexível – Fala agora o que pretendia ou eu partirei teu pescoço ao meio.
- Eu só os segui até aqui porque não sabia ao certo o que pretendiam – Miguel falou esganiçadamente uma vez que a mão de ferro de Arian o esmagava.
- Eu o libertei para você nos auxiliar contra os guardas de Volterra – disse Edward num desgosto claro, seus olhos frios como duas lascas de gelo dourado – Você e seu companheiro simplesmente não tiveram qualquer papel em nossa batalha, o que está fazendo aqui?
- E.. e.. eu saí para a batalha que acontecia sem saber ao certo o que fazer – a voz de Miguel era urgente agora – Simplesmente não consegui encontrar ninguém porque estava uma confusão dos diabos e Alexandrovish me convenceu a ficar de fora disso, rumamos para um dos portões e quando tentamos sair fomos repelidos. Continuei usando meu dom para nos camuflar enquanto tentávamos entender o que acontecia até que os tremores vieram e abalaram o castelo... então depois houve gritos e um cheiro de morte e fumaça empesteando o ar e nós vimos um vampiro vestido em armadura e com um machado gigante na mão incinerando todo mundo. Depois disso nos enfiamos num canto e ficamos lá aterrorizados demais para sair, então ouvimos uma voz dizendo que estava tudo bem e que ninguém seria machucado e saímos para encontrá-los ao lado do vampiro que matava todo mundo... desconfiados, acabamos ficando distantes. Quando soubemos que estavam saindo e que a bruxa abriria a barreira nós os seguimos para ganhar a liberdade do castelo e aqui estou eu procurando entender todo o problema, mas pelo que ouvi vocês estão indo libertar os outros que ainda estão com os Reis.
- Onde está Alexandrovish? — perguntou Vrau Urban.
- Eu não sei, ele simplesmente desapareceu quando deixamos a cidade. Eu não o vi mais.
- Aquele vampiro caquético sempre foi um covarde – bufou Didi.
- Você não respondeu à pergunta – apontou Jasper que provavelmente tinha uma lembrança muito fresca sobre o fato de Miguel ter ajudado os Volturi a destruí-los.
- Estou aqui para ajudá-los – disse Miguel e finalmente Arian o soltou e o vampiro desabou no chão, a pele de sua garganta trincada onde o aperto do guerreiro o prendeu.
- Porque estavam presos? — Vrau Urban aproximou-se e o ajudou a se levantar.
- Os rei desconfiaram de nós, tinham ouvido rumores sobre agentes da Confraria infiltrado entre os Volturi.
- Confraria? — Arian estranhou o nome.
- A Confraria do Sangue – explicou Jasper – Uma espécie de liga anti-Volturis, é complicado demais para explicar agora.
- Por que aceitaríamos a sua ajuda? — a voz de Garret era fria e um rosnado de Jacob demonstrou que o lobo também pensava da mesma forma.
- Um vampiro que pode ocultar a si mesmo e a outros tem suas vantagens – disse Miguel incerto.
- Isso tem a ver com o seu plano? — perguntou Edward a Arian.
- Agora tem – respondeu o guerreiro com seu habitual e cada vez mais constante sorriso diabólico como o de um serial killer feliz com seu trabalho de despedaçar corpos.
**********
Jacob e Seth não se deram ao trabalho de retornar à forma humana, ficaram ali em guarda esperando pelo sinal de rumarem para o Pináculo, os outros estavam espalhados em seus aborrecidos pensamentos.
Jasper estava deitado no colo de Alice mantendo seu corpo esticado na relva fria, mas Carlisle, mesmo afastado, notou a troca de olhares que acontecia entre Matheu e Alice. Seu coração pesou, seja lá o que estivesse acontecendo entre aqueles dois era grave o suficiente para incomodá-lo, afinal, um pai sempre sabe quando há algo de errado com seus filhos.
Kaori havia tirado da mochila uma pequena manta estendendo-a no chão e agora, recostada em uma árvore, tinha seus olhos perdidos em uma expressão distante, pelo menos até Bianca aproximar-se dela e pedir para se sentar junto dela na manta para que seu vestido não fosse sujo; não foi um pedido educado ou amigável, Bianca olhou para Kaori como se ela fosse uma lesma e deu a entender que seria uma honra para ela dividir a manta com uma Rainha.
Arian estava novamente na beira do penhasco olhando com fascinação para a cidade faiscante, Edward aproximou-se dele colocando-se ao seu lado e dizendo:
- Qual é a sensação?
- De estar livre? — a voz do gigante sou baixa, mas mesmo assim ecoava como um trovão.
- De voar.
- Ah, não é possível descrevê-la – um sorriso desenhou-se no rosto de Arian – Vocês me contaram alguma coisa deste mundo e uma delas é o fato de o homem ter construído aparelhos capazes de os carregarem pelo céu. Mas eu suponho que não seja a mesma coisa, erguer-se pelos ares com a força de seu próprio corpo não pode ser descrito em palavras... apenas vivenciado.
- Os homens fizeram muitas coisas espantosas nestes últimos séculos – Edward disse.
- Eu imagino que sim, só de olhar as cidades resplandecendo como o dia durante a noite eu fico espantado. Olho estes veículos como charretes que os homens usam para se locomover, o que os faz se mover?
- Uma explosão controlada – explicou Edward – Um líquido na verdade, derivado de petróleo que é uma fonte amplamente usada para energia, o mundo que você vê pararia sem ele... e por isso é muito precioso.
- Imagino Baltasar assistindo a toda esta loucura – riu Arian – Ele ficaria com tanto medo que jamais deixaria sua biblioteca.
- Eu reconheço este nome, estava escrito em uma das prisões, justamente no mesmo andar onde Bianca estava aprisionada.
- Baltasar está preso? — Arian parecia genuinamente surpreso – Ele era muito importante para os Três, muito velho, nunca imaginei que Aro o prenderia nas catacumbas. Pobre Baltasar, eu gostava dele, era um bom amigo mesmo sendo rabugento e... gentil demais. Por que será que o prenderam?
- Alec disse algo sobre ele ter falhado numa missão em encontrar alguém.
- Irei libertá-lo assim que retornar a Volterra.
Edward calou-se por um instante, um pensamento começando a ecoar em sua mente, algo que ele não havia imaginado no início, mas que agora as implicações começavam a importuná-lo como pequenas picadas de uma adaga afiada.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!- Você será rei de Volterra? — Edward perguntou – Rei dos Vampiros depois que destruir os Três?
A resposta tardou a vir, Arian olhou do alto para Edward que era uns bons trinta centímetros mais baixo que o guerreiro, os olhos de Arian estudando-o, medindo sua força ou o motivo pelo qual havia feito aquela pergunta. Mesmo ali, sob o olhar atento do vampiro mais poderoso do mundo, Edward não sentiu medo, era como se ele simplesmente soubesse que Arian não era mal, para ser franco era muito fácil gostar de Arian. Ele lembrou-se do que Alec dissera-lhe uma vez.
Era fácil gostar de Arian... vikings são geralmente alegres, baderneiros e beberrões. O som da voz de Arian era como um trovão retumbante, como uma montanha em movimento... era alta, alegre e exagerada assim como seu riso ecoante e sincero. Não havia maldade em Arian, ou ao menos não a malícia que os Três possuem, não, Arian era diferente, ele apenas gostava de lutar... nascera para lutar.
- Não – respondeu Arian – Eu não serei Rei.
- Me pergunto se mais alguém poderá ser – havia dúvida na voz de Edward, mas resolveu arriscar ir mais longe do que sua coragem permitia – Bianca não parece inclinada a deixar de ser Rainha.
- Por que você se preocupada se alguém será rei, Edward Cullen?
- Porque deve haver um governo vampiro? — Edward arriscou, mas tudo o que recebeu em resposta foi uma explosiva gargalhada de Arian – Pelo visto você não compartilha desta preocupação, ou o assunto apenas é hilário demais e você não se importa com o mundo dos vampiros e dos homens.
- Não estou rindo da situação, mas de tu – e quando Arian o encarou havia uma cintilante crítica em seu olhar – Libertou-me para destruir os Três, me perdoe se eu considero isso algo tremendamente contraditório, quer destruir reis, mas se preocupa com o governo de tua raça? É no mínimo cômico.
- Eles devem ser destruídos – a voz de Edward aumentou o tom – Eles merecem ser destruídos.
- Merecem? Devem? — Arian riu, mas era um riso desguarnecido de humor – Se eles eram reis assim tão ruins como puderam manter o equilíbrio deste mundo por tanto tempo?
- Eles prenderam você e Bianca, esqueceu-se disso?
- Jamais – o rosto de Arian escureceu – Eu odeio Aro, Caius e Marcus e vou destruí-los por isso. Mas eu o farei pela traição deles comigo, não por que são reis maus. Você nunca parou para pensar sobre o que é ser um rei porque jamais teve pretensão a trono algum Edward Cullen. Um rei deve abdicar de sua vontade própria a favor da maioria, e a despeito de tudo o que faça sempre será criticado, o desapego com os sentimentos pessoais deve ser a primeira qualidade de um rei. Quantos reis este mundo já teve? Eu pessoalmente conheci vários, e como é que a história dos humanos se refere a eles, me diga? São taxados como tiranos ou como bons e justos?
Edward não respondeu, a história da humanidade podia contar nos dedos de uma só mão os reis que foram realmente elogiados.
- Pois bem – suspirou o gigante — A verdade é que faça o que se faça, enquanto rei tu sempre será alvo de críticas. É o que acontece a quem governa e por que então eu iria querer algo assim para mim? Viver sempre à sombra de fazer as coisas pelo bem da maioria, sabe qual é o lema dos Volturi? Fazer o que é necessário. Isso significa que tens de fazer o que é preciso independentemente de ser certo ou errado... e não foi o que você mesmo fez até aqui, Edward? Não fez o que foi necessário? Está prestes a desencadear acontecimentos impensáveis e tudo isso porque fez o que achou que era preciso.
- Os Volturi são assim também – continuou Arian depois que Edward não respondeu – Você diz para eu me sentar no Trono, mas esquece-se que eu também sou um Volturi. Preocupa-se com uma anarquia de vampiros neste mundo depois que todos saberem que os Três foram destruídos, um acontecimento que está para ocorrer graças a você. Sob este ponto de vista a sua preocupação é no mínimo hipócrita. Você quer destruir os Três por razões pessoais, assim como eu. Mas se olhar para o problema com um olhar mais amplo o que estamos para fazer nos tornará os vilões da história.
- Não consigo entender como isso será possível, Arian.
- Então ou é muito ingênuo ou verdadeiramente tolo, Edward. Você é uma minoria, pela sua história vocês vivem em grupos e clãs e não se alimentam de sangue humano, mas a grande nação vampira não é assim. Os Volturi só prestaram atenção em vocês porque de alguma forma fizeram algo para chamar a atenção deles, talvez até mesmo algo que tenha quebrado a lei, mas há centenas de milhares de vampiros pelo mundo que jamais tiveram problemas com os Volturi, que jamais foram molestados pelos Reis e que servem ao Governo de Volterra sem o menor problema. E o que acontecerá quando a anarquia for instaurada? O que acontecerá quando estes vampiros souberem que não há mais lei que os reja, alguém que os puna? Haverá um banho de sangue e você sabe qual será o nome que será sussurrado por aí como o responsável por tudo isso? Edward Cullen.
Edward sentiu seus joelhos subitamente moles como gelatinas.
- Você acreditava que não haveria realmente nem um dano colateral? – Arian falava agora olhando para a cidade, havia certa tristeza na voz – Você não gosta dos reis e arranjou os meios para destruí-los, mas e depois? Somente eu teria força o suficiente para reger o governo dos vampiros, mas não estou interessado no cargo... o mundo vai sair dos eixos e não moverei um único dedo para encaixá-lo no lugar. Não é problema meu. Você odeia os homens por debaixo das coroas, Edward, mas matando-os estará matando também os reis... faz isso por vingança, faz isso porque não se importa com o mundo como um todo. Isso não faz de você alguém pior que Aro? Os Três fizeram verdadeiras barbaridades durante milênios, mas com o único propósito de manter o mundo dos humanos e dos vampiros equilibrados. Você fez o que fez por egoísmo e não pensou no mundo e no equilíbrio delicado que mantém as duas realidades... quem então é o pior? Vampiros podem temer o nome Volturi, mas eles saberão que foi um Cullen quem destruiu tudo o que existia há centenas de anos.
Edward sentiu a cabeça pesar, a voz de Arian ecoava em sua mente, ele tentou de todas as formas afastar a verdade daquelas palavras, mas por mais que tentasse não conseguia. Um mundo sem Reis, uma sociedade de vampiros sem leis ou ninguém para fazê-las serem seguidas.
Um mundo de seres superpoderosos sem controle algum.
E ele teria feito isso, fora ele quem abriu as portas para que estes acontecimentos fossem possíveis.
E somente ele seria responsabilizado.
- Aro, Caius e Marcus são responsáveis por verdadeiras abominações, Arian – disse Edward, vazia um tremendo esforço para tentar se justificar – Agora porque são reis eles não poderão ser jamais julgados? Quem levará a justiça aos Três? Será a eles permitido levar seu tiranismo para os quatro cantos do mundo sem nunca responder por isso? Você justifica a maldade deles pelo fato de manterem o mundo equilibrado.
- A bondade e a maldade são pontos de vista, Edward – disse Arian dando-lhe as costas e se afastando – Muitas vezes é impossível fazer o certo sem sujar as mãos, justifica-se o fim através dos meios, não é algo bonito, mas é o que é. Pode ser que pessoas comuns não precisem participar desta lei, homens normais podem se dar ao luxo de um grau seguro de bondade, mas reis? Não, Edward Cullen, com os reis é totalmente diferente. Um rei deve fazer o que for necessário independente se for certo ou errado. O que importa é o equilíbrio... sempre o equilíbrio.
- Realmente – disse Edward – Você é um Volturi.
Arian lhe sorriu e afastou-se dali em direção onde Bianca sentava-se, Edward cansou de tentar sustentar seus joelhos e caiu sentado no chão com as pernas soltas no despenhadeiro, encarou as luzes da cidade distante sentindo que a cabeça explodiria a qualquer instante.
Ele não se deu ao trabalho de imaginar quanto tempo tinha se passado, só saiu de seu devaneio quando sentiu uma mão em seu ombro e em seguida Carlisle sentou-se ao seu lado.
“Consciência pesada?” – disse Carlisle na mente de Edward, ele usava o dom de Kaori para se comunicar com mais privacidade.
“Ouviu a conversa?” – o sorriso que se formou nos lábios de Edward era amargo.
“Oh sim, suspeito que foi uma forma de Arian nos estapear educadamente. Quem poderia imaginar que um guerreiro seria tão retórico em suas críticas?”
“Este é o motivo pelo qual você sempre foi contra a destruição dos Três?”
“Eu sempre me perguntei o que aconteceria à nossa sociedade se de uma hora para outra Aro, Caius e Marcus deixassem de ser reis. Eu os odiei é claro. Emett e Rosalie jamais retornarão para nós por causa das deliberações radicais dos três, nosso lar jamais tornará a ser o mesmo, desejei de todo o meu coração que surgisse alguém que os punisse por todos os seus crimes. Para ensiná-los que por serem poderosos não têm o direito de tiranizar todos os que não são. Mas, francamente, sempre temi um mundo onde os Volturi não existissem”.
“Então Arian matará os Três e ninguém se sentará nos Tronos. O poder de Volterra terminará e os vampiros saberão que não há mais ninguém para aplicar as leis. Sei que os vampiros jamais terão um governo democrático para eleger um presidente como acontece no mundo dos humanos, então o resultado de tudo isso, o resultado de toda a minha raiva e a minha vontade de vingança é que as coisas podem terminar como Arian disse: num banho de sangue”.
“Você acha que Arian realmente não se tornará rei”?
“Arian não é feito do material de reis, Edward. Ele é poderoso, sem dúvida alguma, mas seria ele um bom líder? Arian nasceu um rei até onde sabemos do pouco que nos contou, ele é filho de um rei humano e de um rei vampiro... então ele é duplamente destinado a ser rei. Mas Arian está acostumado a vencer e não poderia ser diferente, afinal de contas, ele é a criatura mais poderosa deste mundo; se vampiros são deuses, Arian é o deus dos deuses. Mas Arian nunca perdeu e geralmente aprendemos mais com nossos fracassos do que com nossas vitórias, ele é arrogante em sua invencibilidade e isso é um defeito que nem um dos Três possui, eles podem ser prepotentes, mas não são invencíveis. O que seria se Arian se tornasse rei?”
“O que está dizendo? Que é pior Arian se tornar rei do que ficarmos sem rei algum?”
“Francamente?” – Carlisle disse com uma expressão intranquila – “Eu já não sei mais o que pensar”.
Carlisle levantou-se e havia cansaço em seus olhos antigos, ele encarou por um momento a cidade abaixo, suspirou e afastou-se do filho. Mas Edward chamou-o novamente, dizendo:
“Carlisle, o que você acha que vai acontecer quando tudo isso acabar?”
“Eu não faço ideia” – respondeu ele com sinceridade – “Sempre me orgulhei de minha racionalidade para assuntos gerais, mas um estranho sentimento indefinível me diz que nós todos vamos pagar um preço muito alto por nossas escolhas”.
E mesmo sem querer acreditar nas palavras do pai... Edward Cullen tinha o terrível sentimento de que Carlisle tinha razão.
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