Candor Lunar - Livro 2
28 Capítulo 27 - Athenodora, a Rainha Sorridente
Notas iniciais
Último post de Candor em 2012!
E é um capítulo especial... GIGANTE... kkk
Feliz natal.
Próspero ano novo.
Tenham muitas realizações, felicidade e saúde neste anos de 2013
E que possamos continuar nossa jornada juntos até que o fim de Candor chegue, finalmente, no ano que vem.
Um grande abraço.
Ang.
Ela achou estranha aquela cor.
Era um tom mais escuro do que a que estava habituada. De um dourado reluzente, seus olhos agora assumiram um tom de ouro envelhecido... e seu rosto pareceu assumir um teor mais maduro e sombrio. Isabella estranhou o fato de que apenas uma vez ingerido sangue humano pudesse alterar de forma tão rápida a cor de seus olhos.
Afinal, não levaria muito tempo para que seus olhos se tornassem vermelhos como sangue.
Ali, olhando-se naquele espelho, em seu quarto no alto da torre, ela percebeu que tudo havia terminado... enfim. Admirando seus olhos escurecidos, Bella soube que o plano de Alice havia desandado, que seus esforços para conquistar a confiança dos Três havia falhado; no fim das contas, foi uma ingenuidade pensar que haveria alguma brecha na invencível defesa Volturi. Não. Era tudo intrincado demais. Tudo fundamentalmente preparado para que a rede de intrigas, segredos e lealdade permaneça apenas sob o domínio dos Reis e seja usada apenas para sua única e irreversível vontade régia.
Era o fim da linha. O fim de tudo.
Não havia saída.
Ela seria Rainha.
Nada mais importava.
Afinal, como se luta contra um Rei? Contra três? Se você se erguer corajosamente é aprisionado pela eternidade que, obviamente, é muito pior que morrer. Ou você morre, pura e simplesmente, mas morrer não é bonito. O que há além da morte? O que poderia haver além da morte se é que existe alguma coisa?
Se você se verga poderia viver, mas valeria a pena viver como uma prisioneira pelo resto de sua vida? Afinal, o título de Rainha ou Princesa nada significa além de algumas regalias, mas a finalidade é a mesma: uma prisioneira de honra. Será que seria possível realmente se habituar a uma vida de escravidão charmosa nos corredores antigos de Volterra? Todos ficariam bem vivendo ali ou será que não? Alice temia a morte mais que as prisões, mas Quil aceitaria viver assim? Talvez aceitasse para mantê-las seguras. E Renesmee? O que decidiria Renesmee?
Bella olhou seu reflexo ali no espelho, sua face imutável de uma beleza atemporal a encarava quase com receio, seus longos cabelos castanho escuro deitavam sobre seus ombros como uma cascata elegante e sedosa; seus lábios de uma cor rosa pálido delineavam seu rosto delicado e pensativo. Ela lembrava-se de seu rosto refletido no espelho de seu chalé em Forks... era um rosto diferente, um rosto alheio, mas não o seu rosto, não era a sua expressão e ela sabia o por quê. A felicidade não estava ali.
Bella havia morrido.
Agora restava Isabella.
Mas mesmo Isabella tinha uma filha, uma filha que ela amava mais do que tudo. E se o preço pela liberdade e pela saúde de Renesmee fosse um casamento com Aro Volturi... Isabella não hesitaria em se sacrificar.
Era seu papel de mãe. Ela nascera com seu dom.
O dom do sacrifício.
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Marcus estava adormecido em seus pensamentos distantes há quase duas horas.
Era o único Rei presente no Salão dos Tronos.
Alice olhava com leve estafa para as estátuas dispostas nas paredes, aqueles rostos pétreos pareciam zombar de seu estado serviu de permanecer ao lado de um homem antigo e letárgico. O silêncio parecia cobrir tudo com um véu de imobilidade modorrenta e Alice viu-se quase adormecida também.
No começo ela pensou em Jasper... mas depois de um tempo isso a deixou profundamente depressiva. Lembrar-se do vampiro que amou e que a deixou para sempre.
Depois seu pensamento vagou para Matheu e seu coração culpado pesou como chumbo. Ela ainda amava Jasper e o amaria para sempre, mas agora também se apaixonara por Matheu e seu mundo louco estava ainda mais louco do que em qualquer outro momento de sua vida.
Em seguida pensou em Bella e no fardo que pesaria sobre seus ombros. A irmã agora teria de se casar com Aro Volturi para manter ela, Quil e Renesmee em segurança. Um fardo que Alice não conseguiria suportar de forma alguma e ficou admirada de Bella ter tanta coragem e força para seguir em frente.
Mas então se cansou e sua mente ficou vazia e percebeu que estava adormecendo. Seu corpo permaneceria ali, imóvel como uma das estátuas que habitavam o salão, ma sua mente vagava para muito longe dali. Ou melhor, vagava para lugar algum.
Até que, finalmente, depois de um longo tempo, Marcus fez um sinal com a mão e Alice se postou a sua frente obedientemente. O Rei moveu novamente a mão exigindo que Alice se aproximasse mais e assim que ela o fez, Marcus ordenou que ela se ajoelhase para que ficasse à altura de seu olhar. Alice encarou o rosto do vampiro, Marcus não era belo como Aro ou Caius, seu rosto era comprido e anguloso, amplo e raso, era um rosto sem emoção... como se não pudesse expressar qualquer sentimento. Um rosto triste. Os olhos de Marcus, de um vermelho opaco, encararam Alice por alguns momentos e então o rei falou.
- Houve um pedido à sua mão, minha princesa – disse ele numa voz baixa, quase nada mais do que um sussurro rouco – Lorde Guido, da Sicília apresentou formalmente a Aro seu interesse em desposá-la. Guido é um vampiro antigo de uma família tradicional e possui um poder considerável dentro da política italiana, seria interessante a nós uma aliança mais aprofundada com ele. Obviamente, Guido é nosso vassalo, mas nossas relações se estreitariam com um casamento entre uma de nossas filhas e ele.
Alice não conseguiu disfarçar o choque. Ela encarou Marcus com um leve horror e desespero nos olhos, já não bastava ser uma prisioneira e agora seria vendida como uma peça de escambo para que os Três tivessem mais poder ainda? O medo, porém, foi maior que o ódio, e a voz de Alice, quando saiu, tinha o timbre do pânico.
- Meu mestre Marcus – começou ela temerosa – Eu sou casada...
- Viúva – retorqui Marcus quase que imediatamente.
- Eu não estaria preparada para...
- Desacataria um pedido nosso? – perguntou Marcus em seu tom de voz monocórdio, mas Alice notou ali uma pontada de força.
- Pelos céus... sim – respondeu a princesa, as lágrimas jamais chegariam a seus olhos, mas o desespero de Alice podia ser visto ali, em seu choro seco – Eu não sei o que precisaria fazer, mas não conseguiria ser forçada a me casar desta forma...
- Sem amor?
- Sim.
Alice imaginou que Marcus apenas a mandaria se calar e não permitiria que ela discutisse, mas, ao contrário, ele assumiu uma expressão distante, como se tentasse acessar algum recôndito distante de sua alma, como se tentasse se recordar o que significava a “expressão” amor. E Alice permaneceu ali, ajoelhada perante seu rei durante mais alguns minutos, e quanto ela imaginava que Marcus havia se esquecido dela, ele despertou.
- Você se casaria com alguém que ama?
- Esta não é a essência do casamento? – perguntou ela estranhando o tom informal da conversa.
- De fato – disse Marcus e repentinamente um sorriso leve surgiu em seus lábios pálidos – Mas enquanto você estiver disponível, continuarão surgindo propostas e mais propostas e você não poderá negá-las para sempre.
- Isso significa que terei o direito de negá-las?
- Não. Mas juraste lealdade diretamente a mim, pequena Alice – disse Marcus – E sou eu quem tem a palavra final a qualquer assunto concernente a você. Mesmo que Aro e Caius queiram que você se case com qualquer um, este casamento não aconteceria sem o meu consentimento e, para tanto, eu não a casarei com alguém que não ame.
- Minha opinião importa, no fim... ? – perguntou Alice um pouco chocada com o cuidado de Marcus para com ela.
- Quando um vampiro nos jura lealdade torna-se nosso filho. Aro teve um filho, há muito tempo; Caius é pai de Ariadne, casada com Juan Carlos, Duque de Madri e nosso vassalo na Espanha... mas eu jamais tive uma filha. Você, pequena princesa, jurou lealdade a mim e ao fazê-lo colocou-se sobre minha proteção. Geralmente escolhem Aro ou Caius para afiliar-se, afinal, eu sou considerado um vampiro velho, senil e amargurado demais para qualquer outra coisa que não minha própria dor. Sei que jurou lealdade a mim baseando-se na pressa e no desespero por sua sobrinha, mas ainda assim o fez e agora sua vida é preocupação minha.
- Então não permitirá que eu me case com Lorde Guido?
- Você deixou claro que não o quer e assim sendo, a proposta dele será recusada.
- Eu poderia perguntar o motivo de me permitir este luxo? – quis saber Alice ainda chocada com o comportamento de Marcus.
- Eu sou velho e minhas memórias são lentas... mas não sou tolo, minha princesa. Eu sei exatamente o que significa amar alguém, ou perder alguém. A dor da perda não é exclusivamente sua. Mas eu optei por deixar o mundo como o lugar horrível que é e me fechei dentro de mim mesmo... mas você é jovem e bela demais para agir assim. Mas estou lhe avisando, você não poderá negar um pedido durante muito tempo.
- Mas o que poderia eu fazer então? – perguntou Alice desesperada.
- Case-se com alguém que você ama.
- Mas... com alguém que eu... ?
- Uma vez casada, você não receberia mais propostas... e seria um assunto a menos para eu me preocupar. Isto me aborrece imensamente. Aborrece-me toda a vez que meus irmãos me despertam para debater algum assunto irrelevante e fútil e quanto antes sanarmos este problema, antes eles deixarão de atormentar-me. Case-se com alguém que você ama... antes que a casem com alguém que não ama – e então, num ato raro, Marcus moveu-se e inclinou-se para perto de Alice, o rosto do rei quase colado ao da vampira – E ambos sabemos que você não precisa pensar muito sobre o casamento uma vez que seu escolhido habita este castelo, não é mesmo?
Alice ficou imóvel ante o olhar de Marcus, um olhar carregado, ancião... algo que a prendia de forma inexorável. Os olhos do rei, Alice teve certeza, eram capazes de desnudar sua alma e seu pensamento... era como se ele soubesse de tudo o que se passava no coração de Alice. E ela perguntou num sussurro quase inaudível temendo a resposta que sabia que receberia:
- De quem está falando, meu mestre Marcus?
- Do Cavaleiro do Portão Leste.
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Quil Ateara ergueu o olhar para o vampiro a sua frente que acaba de lhe atirar um imenso pedaço de carne crua que formou uma pequena poça de sangue próximo a ele, o lobo rosnou baixinho.
- Cale-se e como logo, cão – disse o vampiro dando-lhe as costas e deixando o salão.
Quil fungou contrariado e abocanhou a carne de uma só vez. Quando não o acorrentavam no Salão dos Tronos junto dos Reis, Quil era mantido na parte antiga do palácio, um átrio que outrora fora um imenso salão de festas... a parede principal havia desabado e os jardins podiam ser vistos pela abertura. À noite, o lobo costumava uivar para as estrelas até que o vampiro que fora designado para lhe guardar viesse calá-lo.
Ele não gostava do guarda. Era um sujeito esnobe e mal educado que o tratava como um cão, apesar de que Quil só ainda não o havia matado porque isso apenas comprometeria a vida de Bella e Alice. Mas a hora dele estava chegando... e Quil mutilaria aquele corpo frio com muito prazer.
Mas por hora ficava pacientemente aguardando quando o momento chegasse.
Quil sentia o peso do aço e do metal da couraça que o cobria. Uma armadura cheia de farpas afiadas cujo único e principal objetivo era aterrorizar os aliados e inimigos dos Volturi. Ali, daquela maneira, Quil lembrava aos vampiros do poderio bélico dos Três; naquela armadura horrenda ele os recordava dos antigos lobisomens e suas garras de prata... era um terror para quem o admirava. O medo personificado em forma de fera.
Mas aqueles que o temiam não poderiam saber que não havia sombra no coração do lobo... apenas honra, destemor e saudade. Saudade da jovem que ele deixara para trás... o motivo de sua impressão que nem ao menos sabia que Quil seria o amor único de sua vida, um amor que poderia jamais retornar. E durante este tempo ocioso onde o coração do lobo sangrava solitário, ele apenas adormecia e sonhava com época melhores... ou seus sonhos o conduziam para a floresta molhada e antiga de La Push onde ele conhecia cada árvore e cada curva do terreno e Quil passava horas ali, perambulando e correndo em forma de lobo, pelo lugar que fora seu lar... sua casa.
E foi assim também neste final de tarde... Quil adormeceu e sonhou com seus amigos reunidos ante uma fogueira de luz azul. E sentado entre os que partiram estava Sam Uley com seu rosto austero, eles conversavam sobre algo em uma língua antiga e Quil não conseguia compreendê-los, mas ainda assim, permaneceu entre eles apenas pelo prazer da companhia que jamais tornaria ter.
Mas então, depois de muito tempo, Sam olhou para o lugar onde Quil estava e sorriu para ele, fez sinal para que ele se aproximasse e quando Quil chegou próximo sentiu o calor da fogueira, era um calor aconchegante, um calor que lhe lembrava duma lareira quente em uma casa confortável.
- Ele está a caminho, Quil – disse a voz grave de Sam.
- Quem? – perguntou Quil sem entender.
- O Alfa. O grande lobo.
E dito isso, Quil ouviu um rosnado alto, um rosnado que não vinha do círculo de amigos... e então, um relâmpago riscou sua mente e ele viu um animal grande se movendo como o vento entre as árvores, seus paços deixavam sulcos na terra e suas presas brilhavam à luz da lua... e a criatura estava furiosa.
- Ele está a caminho – repetiu Sam.
E Quil acordou assustado... ergueu-se de um salto fazendo toda a armadura tilintar. Correu até a abertura na parede desmoronada e saiu para o pátio escuro, o céu reluziu com as estrelas distantes... e ele farejou o ar assustado.
Com os olhos sobrenaturais de lobo ele conseguia ver algo que aparentemente nem os vampiros eram capazes, as dobras no ar originadas pelos feitiços e pelas barreiras de magia que cercavam Volterra... ele conseguia vê-las, ali, tremeluzindo como uma leve cortina de névoa se erguendo a vários metros de altura.
Mas havia algo mais.
Quil não conseguia saber o que era... não conseguiu compreender o que era aquele ar estranho que farejou no vento. Mas havia alguma coisa diferente ali, havia uma presença forçando sua mente, pressionando sua alma... havia alguma coisa se aproximando dele.
Uma força.
Uma força elemental.
“Jacob?” – pensou Quil.
Ele não sabia como sabia. Não tinha certeza que como poderia saber, de como poderia sentir isso... era para Jacob estar morto, mas agora... agora ele sentia. Mesmo não podendo ouvi-lo em sua mente estava lá, claro como o dia, um chamado selvagem, um chamado da natureza.
Era Jacob Black, o Alfa sobrevivente de La Push. Quil tinha certeza disso, mesmo com as barreiras de Aro impedindo-o de se comunicar, a vontade de Jacob o havia alcançando, como um aviso de sua chegada.
“Jacob Black está vindo” – pensou Quil novamente.
E num gesto de alegria, Quil uivou para o céu noturno e seu uivo era um uivo de ódio e vingança... um uivo de alegria e fúria. Pois ele sabia de algo que aqueles vampiros ali não sabiam: O senhor de La Push se aproximava deles.
E Quil sentia que aquela força que o atingiu era a ira de Jacob.
Volterra seria reduzia a pó.
O mais poderoso dentre os lobos de La Push se aproximava deles.
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- Você está livre, pode subir – disse-lhe Chelsea.
- Me pergunto por que se deu ao trabalho de me libertar – perguntou Renesmee bruscamente.
- Nosso mestre Aro gostaria que você e sua mãe se acertassem.
- Eu não tenho nada para acertar com ninguém.
- Você só está com raiva ou é realmente tola, menina? – disse Chelsea olhando Renesmee com uma expressão de crítica – É tão cega que não vê? Sua mãe e sua tia apenas juraram lealdade aos Três para conseguir manter você em segurança da obsessão louca de Jane.
- Elas mataram um humano...
- Se não quer ficar com sua mãe permaneça pelos corredores então... até que Jane a encontre.
E dito isso, Chelsea virou-se e afastou-se pelo corredor a paços largos e obstinados. Renesmee permaneceu ali, no escuro, sentiu seu coração acelerar em seu peito e o medo a fez refletir sobre o fato de que Jane poderia pular em cima dela a qualquer instante. E, além disso, não poderia evitar sua mãe durante muito tempo.
As escadarias e o silêncio da torre eram os mesmo, por um segundo, Nessie sentiu o ímpeto de seguir para o quarto de Alice uma vez que sua tia estava a serviços de Marcus e dificilmente tornaria ao aposento durante a noite... mas não adiantava postergar o inevitável. Quando chegou ao corredor avistou Giordano parado em frente à porta do quarto de sua mãe, o guarda não fez qualquer menção de tê-la notado, ao menos até que a menina já estivesse quase à sua frente.
- Você ficou fora uns dias – disse Giordano a olhando com cuidado.
- Tudo devido aos assuntos de seus mestres – disse Renesmee insolente antes de entrar no quarto.
Sua mãe estava na sacada. Somente a luz fraca e diáfana de algumas velas iluminava o aposento dando ao lugar um aspecto antigo e assombrado; as cortinas de ceda branca esvoaçavam pelo ar como mantos etéreos e fantasmagóricos e uma brisa gelada soprava de fora vinda dos pátios silenciosos do palácio.
Bella não dirigiu uma única palavra para a filha. Renesmee procurou em sua mente ou seu coração por algo a ser dito, mas também não encontrou nada... apesar de toda a raiva e rancor que rondavam seu coração, ela não sabia o que dizer à mãe. As palavras de Chelsea vieram-lhe à mente de repente: “É tão cega que não vê? Sua mãe e sua tia apenas juraram lealdade aos Três para conseguir manter você em segurança da obsessão louca de Jane.”
Seria ela tão cega? Chelsea havia dito a verdade? Mas estariam sua mãe e sua tia tão desesperadas ao ponto de jurarem lealdade aos Volturi apenas para mantê-la em segurança?
- Eu vou dormir – declarou ela por fim, mas novamente Bella não lhe deu atenção e Renesmee se exasperou ante esta declaração de indiferença da mãe, ela parecia magoada quando, na verdade, era Nessie quem deveria estar entristecida pelo que vira – Será assim então? Descubro as coisas que andam fazendo pelas minhas costas e só recebo silêncio como explicação?
Bella suspirou. Um suspiro de desalento. Então se virou para a filha e Renesmee viu no rosto imortal da mãe uma máscara de cansaço; vampiros eram quase que fisicamente incansáveis, mas aquela expressão que Nessie viu era de uma fatiga muito mais acentuada, muito além da fatiga física. Era algo emocional... Bella estava em seu limite.
- O que espera que eu lhe diga Renesmee? – falou Bella e havia uma pontada leve de impaciência em sua voz – Que eu sinto muito? Bem, eu sinto muito por muitas coisas... geralmente quanto mais tentamos fazer as coisas certas, mais elas parecem desandar. Deve ser a sina de Volterra. Eu tento lhe proteger de todo o mal, mas o mal lhe atinge independente de meus esforços... ou dos esforços de sua tia.
- Me proteger não pode envolver matar humanos – disse Nessie irresoluta.
- As coias não são tão simples como você imagina... nem tão retas ou planas. Certas coisas que fazemos deveriam permanecer na escuridão Renesmee, infelizmente, esta é a lei da sobrevivência. Eu errei em tentar lhe proteger demais das notícias ruins, mas bem, se você se considera tão madura ou forte a ponto de carregar o fardo que sua tia e eu carregamos... que seja. Mas saiba que isso não será fácil e eu espero que você realmente tenha forças para suportar. Nessie, seu pai e Jacob estão mortos.
Por um momento Renesmee encarou a mãe tentando decifrar o que era aquela expressão em seu rosto; a perfeita face alva de Bella era um misto de exaustão e tristeza... mas ela parecia amortecida, amortecida como se a contínua repetição daquela informação a tivesse tornado indiferente aos sentimentos. Como se ela estivesse morta.
- E você acreditou nisso? – perguntou Renesmee.
- A informação veio de uma fonte confiável.
- Mesmo a sua fonte confiável pode estar errada.
- Eu sei que é difícil aceitar.
- Eu não preciso aceitar porque sei que não é verdade – disse Renesmee irresoluta – Eu sei que não é. Jacob está vivo. Eu sinto isso.
- Então devemos nos sentar e esperar que Jacob venha nos salvar? – perguntou Bella cansada.
- Eu não sei mãe, só sei que devemos tentar resistir até que alguém venha nos salvar.
- E o que acha que eu e sua tia estamos fazendo?
- Vocês são princesas agora...
- Foi o modo que encontramos – disse Bella – Entenda Nessie, eu e sua tia não tivemos escolha, fomos guiadas a isso. Você acha que estando na situação que estamos deveríamos fazer como você fez? Estufar o peito e dizer com orgulho que jamais se curvará? Eu sei que isso é bonito, sei o quanto é nobre, mas às vezes não funciona. Nem sempre funciona. Eu tentei resistir à Volterra, tentei fazer o possível para não me deixar tragar... mas somente o tempo poderá dizer se esta nossa luta renderá algum fruto. Você terá de ser paciente.
- Acho que no fim das contas simplesmente pensamos de forma diferente, mãe. Eu não irei me curvar...
- Oh, sem dúvida – disse Bella com um sorriso triste – Você não terá de se curvar, minha filha, afinal de contas, eu e sua tia já nos curvamos por você.
E para isso, Renesmee não teve resposta. Mesmo não concordando com as ações de sua mãe, ela sabia em seu íntimo que só não era mais severamente punida pelo fato de Bella e Alice estarem sempre se curvando para o Reis. Mas esta submissão a incomodava, mesmo que servisse para mantê-la em segurança.
- Há algo mais que eu precise saber? – perguntou Nessie furiosa – Ou você vai permitir que eu descubra tudo por mim mesma?
- Se é assim que deseja que as coisas sejam... há algo que você precisa saber. Aro Volturi pretende me transformar em Rainha de Volterra.
- Rainha? – Nessie estranhou – Mas para isso ele teria que...
- Sim. Ele pretende se casar comigo.
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Isabella ainda sentia o ódio de Renesmee pairando pelo quarto. A filha, em fúria, projetou-se como um vento furioso para fora do aposento avisando que ficaria no quarto de Alice até que a loucura da mãe passasse. A vampira ficou ali, parada, estatuesca e silenciosa imaginando como poderia fazer a filha entender a gravidade das circunstâncias.
Ela não teria escolha a não ser casar-se com Aro.
Esta verdade inexorável a deixara completamente perdida. Ela poderia tentar fugir junto de Nessie e Alice... mas teria de libertar Quil primeiro. Provavelmente morreriam, mas Isabella não tinha coragem para por a vida de sua filha em perigo, não, Renesmee lhe era preciosa demais... ela dera-lhe a luz em circunstâncias mortais e não aceitaria perder Nessie para a morte.
Ela seguraria a carga... suportaria o fardo.
Por amor.
Mesmo que Renesmee não entendesse e a odiasse. Ela faria isso.
Durante a madrugada agradável da Itália, Isabella permaneceu na varanda olhando as estrelas e com um sobressalto se pegou pensando em Edward. Seu amor. Lembrou-se do sorriso contido e dos modos milimetricamente mensurados no marido... de seu cheiro e da cor de seus cabelos, do som da sua voz e do toque de suas mãos. Ela teve um sentimento egoísta de se permitir morrer e ir até Edward lá, além da vida, mas Renesmee agora era sua prioridade.
Na varanda Isabella permaneceu, lembrando-se da época que era simplesmente Bella... e de como era feliz; e o dia começou a vagarosamente clarear tingindo a escuridão do céu com um azul pálido e minguante. A visão geralmente reconfortava a vampira, a escuridão da noite parecia assustar seu coração... e Isabella geralmente ansiava pela luz da aurora.
Até que, finalmente, a tão conhecida batida de Giordano na porta a despertou de seus sonhos e um arrepio instantâneo tomou-lhe de sobressalto, ela temia os chamados de Giordano porque, inevitavelmente, Aro a chamaria para alguma coisa e ela, desde o pedido de casamento, estava tentando ao máximo manter-se longe do Rei.
- Minha princesa – chamou Giordano com sua voz grave – Sua presença é requerida.
- Obviamente – disse Isabella resoluta, ela alisou a longa saia que usava e dirigiu-se para fora.
Os corredores tão familiares a receberam em silêncio e ela desceu pelos degraus da escadaria circular rogando aos céus para que Aro não estivesse com disposições românticas para com ela... se fosse possível, Aro parecia ainda mais assustador quando tentava ser bom. Mas, entretanto, ao pisar no térreo, Giordano indicou o longo corredor da direito ao em vez do central que conduzia ao Salão subterrâneo dos tronos; Isabella estranhou por um segundo, mas logo seguiu o guarda que se esgueirou por uma parte do castelo que ela ainda não havia visitado.
Isabella não podia deixar de se surpreender com Volterra. Por mais que ela já conhecesse o palácio da Cidadela, sempre havia algum lugar que ainda não visitara... era como se o castelo crescesse como um animal vivo, ramificando-se para além dele mesmo, sempre ostentando corredores luxuosos e velhos. Ela passou por pesadas portas fechadas que pareciam incapazes de serem abertas, por salas vazias ora com móveis expostos ora por móveis cobertos com lençóis brancos; havia salas de jantar, salão de jogos, salas de estar... uma infinidade de cômodos. Ela passou por uma biblioteca imensa e fez questão de marcar a posição do lugar... pelo menos haveria algo para se ler em todos os séculos que passaria no castelo.
Seu senso de direção lhe indicou que estava na ala sul do palácio, era a ala mais iluminada e ampla pelo que pudera perceber, as paredes eram menos escuras e a tapeçaria mais leve, os aparadores ao longo do corredor eram de madeira nobre num tom envelhecido e havia vasos de flores sobre eles. Os quadros eram num estilo cubista, coloridos e rebuscados, e suas molduras eram charmosas e elegantes.
No teto, lustres armados com pequenas gotas de cristal iluminavam o caminho e tudo parecia estranhamente mais dourado e reluzente que nas outras partes do palácio... Isabella notou este tom leve e jovial, puro e cristalino, e sentiu como se houvesse um toque levemente feminino ali longe da brutalidade visceral da presença dos Três. Parecia um reduto isolado longe do domínio dos reis.
- Eu só venho até aqui, minha princesa – declarou Giordano parando no corredor – Logo à frente haverá uma bifurcação, siga pela esquerda até encontrar um amplo salão de portas duplas e brancas. Ela esta à sua espera.
- Ela? – estranhou Bella, mas o cavaleiro não respondeu e a vampira conhecia bem demais o guardião para saber que de nada adiantaria interrogá-lo.
Isabella encontrou sem problemas a bifurcação no corredor, o lado direito e o esquerdo eram praticamente idênticos com seus aparadores e flores e lustres... mas um culminava em uma janela ampla que erguia-se do chão até o teto e o outro em portas duplas e altivas. Ao se aproximar, Isabella notou que as portas eram imaculadamente brancas e havia arabescos em alto-relevo imitando trepadeiras cheias de folhas.
Hesitando por um segundo, ela abriu a porta.
O salão era alto e amplo. As paredes cobriam-se com um tom leve de rosa e havia janelas espalhadas em todas as paredes, altas com o topo arredondado, cortinas brancas pendiam de varões dourados. As colunas de sustentação eram arredondadas e pintadas de um branco oleoso e brilhante; o chão era de tacos lustrosos e não havia ali nenhum móvel, aliás, nada havia ali a não ser os quadros nas paredes... e duas vampiras.
A vampira mais baixa segurava um quadro na parede e tentava a todo custo endireitá-lo ante o olhar atento e cuidadoso da vampira mais alta.
- Meu Deus, Corin – disse a vampira alta – Isto está milimetricamente torto! Como pode se considerar uma vampira se nem é capaz de acertar um quadro em uma parede?
- Perdoe-me, minha rainha – respondeu a outra com um quê de infelicidade.
O quadro, Isabella notou, era retangular e repleto de figuras, algumas arredondadas e outras retas com arestas perfeitas, pelo pouco que conhecia de arte ela tinha quase certeza de que se trava da Guernica de Picasso e, levando em conta o gosto e o fascínio dos Volturi pela arte, ela também estava convicta de que aquele quadro não era uma cópia.
E neste exato momento, as vampiras sentiram sua presença e voltaram-se para ela.
- Isabella! – disse a vampira mais alta sorrindo para ela de forma esfuziante – Corin deixe isso aí e arrume, por favor, a mesa na varanda... esta abafado aqui neste salão.
Corin soltou o quadro – que permaneceu levemente torto na parede – e saiu apressada para a varanda, enquanto isso, a vampira alta veio até Isabella. Ela não caminhava, ao contrário, parecia flutuar... seus braços delicados acompanhavam o ritmo do corpo como os galhos de uma árvore saboreiam o vento ao redor do tronco; era graciosa, altiva, real. Tinha um porte majestoso, caminhava muito acima de uma vampira comum, a bem da verdade, Isabella sentiu-se como uma desengonçada perto daquele caminhar e soube, mesmo antes de a vampira dizer, quem ela era.
- Finalmente, é um prazer imenso conhecê-la pessoalmente e de uma vez por todas. Eu sou Athenodora.
A Rainha era muito mais alta que Isabella e lançou seus longos braços ao redor do corpo da princesa dando-lhe um abraço apertado e caloroso para, logo depois, encará-la com um novo sorriso ofuscante nos lábios.
- O prazer é meu, minha rainha – respondeu Isabella sem jeito.
- Ora, vamos... que bobagem, me chame pelo meu nome e não por este título bobo de nobreza, afinal de contas logo você também será uma rainha. Eu fiquei radiante quando Caius me contou sobre você... ah, Aro merece uma esposa mais atenciosa do que Sulpícia fora. Cá entre nós, meus céus, aquela vampira mirrada era um tédio!
Isabella encarou Athenodora com uma surpresa mal contida. A Rainha era linda, os olhos eram de um vermelho leitoso, mas cintilantes e atentos, o nariz era pequeno e perfeitamente proporcional ao resto do rosto e os lábios eram rosados e mais vivos do que os de uma vampira comum. Seus cabelos eram louros de um dourado pálido e claro e caíam-lhe pelos ombros como se tivessem uma luz própria. Sua voz era musical e leve.
Athenodora já era uma mulher feita. Foi transformada com seus prováveis trinta e cinco anos de idade e envergava uma postura madura e forte, Isabella sabia que Caius fora transformado muito jovem e imaginou que os dois juntos deveriam destoar levemente... mas, querendo ou não, provavelmente formavam um casal muito bonito.
- Venha, por favor, vamos nos sentar lá fora onde o ar é mais fresco e poderemos desfrutar melhor desta manhã nascente, não é mesmo? – convidou a rainha sorrindo e Isabella notou que ela sorria demais.
A manhã florescia iluminada sob um céu azul miosótis. Tudo era luz naquela ala do palácio, e os raios de sol faiscando nas paredes brancas aumentavam a sensação de assepsia em Isabella; Athenodora a conduziu até uma mesa de pedra na varanda onde bancos entalhados em mármore brilhavam à luz do dia. Ela sentou-se e estranhamente sentiu-se feliz... não era bem uma felicidade, mas Isabella pareceu estar levemente contente de estar ali na presença da Rainha num lugar calmo e claro, tão distante do salão dos tronos onde tudo era penumbra e velharia.
Logo que a rainha se assentou, Corin retornou e postou-se pouco distante das duas, Isabella encarou a vampira-menina e tentou se recordar de quem ela era. A lembrança veio num estalo... e dizia respeito à história dos Volturi. Logo que Didyme, irmã de Aro e esposa de Marcus, fora assassinada em circunstâncias misteriosas, Caius e Aro decidiram que suas esposas eram valiosas demais para ficarem à solta por aí... a tristeza de Marcus os preocupou e eles sempre as mantinham em segurança no palácio.
Mas a vida de reclusão não agradou Athenodora ou Sulpicia e os Três então designaram a pequena Corin para fazer-lhes companhia; Corin tinha um dom interessante, um dom que lembrava o de Didyme e muito próximo ao de Jasper: ela fazia com que os que eram influenciados por seu poder se sentissem contentes com sua vida, mesmo que as circunstâncias não fossem tão boas.
Corin era uma garota talvez com seus eternos quatorze ou quinze anos de idade; tinha o rosto redondo e lábios finos o que lhe rendia uma expressão infantil e alegre, parecia mais simpática que bela. Pouco mais alta que Jane e levemente mais encorpada. Mas ela também sabia que a vampira-menina era perigosa... seu dom viciava. A ausência de Corin atirava as pessoas em um poço de infelicidade quando não estavam sob o efeito de seu poder, assim sendo, acabavam viciando em Corin e em seu maravilhoso dom de felicidade.
Marcus jamais permitia que a menina ficasse perto dele.
- Você é muito bonita, Isabella. Nunca tivemos a oportunidade de conversarmos ou de ficarmos tão próxima, mas vejo que meu cunhado fez uma escolha excelente.
- É bondade sua, minha rainha...
- Athenodora.
- Sim, me perdoe, é bondade sua... Athenodora.
- Ouvi dizer que sua filha é igualmente linda, ou quase tão linda quanto uma vampira pode ser. Eu adoraria poder conhecê-la, a bem da verdade ela é uma joia rara, uma filha biológica. É espantoso.
Por um momento, Isabella tentou encontrar em Athenodora a malícia dos Volturi, mas os olhos da rainha eram risonhos e cristalinos... por mais que tentasse, ela não conseguia sentir maldade. Era fácil encontrar a indiferença no olhar de Marcus, ou a ambição nos olhos de Aro ou mesmo a rigidez doentia e quase malévola dos olhos de Caius, mas em Athenodora a sombra da maldade era inexistente e Isabella acabou sorrindo de forma natural para a vampira.
- Seria um prazer, mas, infelizmente, Renesmee está passando por um momento... delicado.
- Eu entendo. Ela é extremamente jovem e já passou por tanta coisa. Aliás, você também ainda é uma criança, Isabella, e já viu e sofreu muito desde que veio para Volterra... então me conte, como está o seu coração?
- O meu coração? – perguntou surpresa.
Isabella novamente não soube o que responder, durante todo este tempo ela não se abrira para ninguém, não ousava trocar confidências com Alice pelo risco de Aro ler a mente da irmã e se ofender com algo que as duas dissessem. Ela sentiu durante muito tempo a vontade de berrar a plenos pulmões toda a agonia que sentia dentro de si, lavar sua alma e escancarar a toda maldita cidade de Volterra o quando odiava tudo aquilo. Ao mesmo tempo, nunca revelara toda a tristeza que armazenava dentro de si, a falta de Edward, o medo por Nessie a odiar para sempre... o medo de que Alice ou Quil se machucassem.
Mas ali, agora, Athenodora lhe perguntara o que ela estava sentindo, como seu coração estava... e por pior que parecesse, Isabella sentiu-se impelida a conversar com Athenodora sobre os segredos que seu coração ferido guardava. Ela sentiu algo familiar na rainha... uma coisa maternal que a lembrou de Esme. E a recordação da matriarca da família Cullen foi capaz de fazer seu coração imóvel comprimir-se no peito, a saudade de Esme era tão avassaladora quanto a saudade que sentia de Charlie e Renne ou mesmo de Carlisle.
E Athenodora, por mais estranho que parecesse, tinha este mesmo ar terno e protecionista.
- Eu procuro não mais ouvir meu coração – respondeu Bella por fim.
- Eu sinto muito por Edward – disse a rainha.
- É estranho ouvir estas palavras da esposa de um dos reis que destruiu minha família e amigos.
- Eu imagino que sim – respondeu Athenodora sem se abalar – Mas acho que você vai descobrir, se é que já não o fez, que nem todos os Volturi são maus... ou essencialmente maus, nem mesmo nossos temidos reis, não é mesmo? Eu realmente sinto muito pela sua família... não me recordo o ano exato, acho que pelas idas da década de sessenta, eu e Caius estivemos em Liverpool, na casa de campo de Carlisle e Esme, para tentar convencê-los a se unir a nós novamente aqui em Volterra. A despeito de toda eloquência de Caius e às minhas súplicas, Carlisle sempre recusou nossas ofertas...
- Por que havia tanto interesse em vocês por Carlisle afinal de contas?
- Ora, Isabella... nós o amávamos. Era nosso amigo, Carlisle é um vampiro ímpar. Você convive há muito pouco tempo com ele para saber o quanto ele é extraordinário. Sua visão de humanidade é singular e era apreciada pelos Três... Carlisle funcionava como um peso e uma balança para Aro e Caius; quando partiu um buraco se abriu em nosso meio. Eu amo Carlisle e fiquei muito entristecida quando soube que vocês haviam recusado uma vez mais o convite de nossos reis.
- Mas como poderíamos não recusar? – perguntou Isabella surpresa.
- E por que recusaram?
- Nós queríamos viver em paz... em nossa casa. Queríamos a liberdade de ir e vir sem precisar declarar lealdade a rei algum.
- A liberdade vocês teriam em Volterra. A lealdade, de fato, teria de ser feita aos Três. Mas, minha querida, eu não julgo os seus motivos por ter resistido, mas quando presenciaram a revelação dos Mercadores da Morte, por que, em nome de Deus, não se entregaram? Veja, todos estariam sãos e salvos aqui, é melhor estar vivo e com as pessoas que ama do que mortos ou espalhados ao vento. Veja o que a resistência fez com vocês... olhe para você com este rostinho triste por estar longe de seu precioso Edward.
- Eu simplesmente não compreendo a necessidade de ser leal a um rei – disse Isabella contrariada – Nós não transgredíamos regra alguma, então éramos inocentes.
- Vocês eram mornos, minha querida – respondeu Athenodora de forma afável – Nem frios nem quentes. Mornos. Ou seja, estavam em cima do muro. Há muito mais complexidade e responsabilidade no mundo dos vampiros do que julga esta sua jovem cabecinha.
- Eu sei. Aro já me informou sobre isso.
- Imagino que sim. Os monólogos de Aro são impressionantes não é mesmo? Ele passou muito tempo com grandes ditadores e acabou assumindo essa temperança por diálogos dramáticos e inflamados. Você precisava vê-lo conversando com Adolf Hittler...
- Ah céus – gemeu Bella – Não me diga que vocês também foram nazistas.
- Não – respondeu rapidamente Athenodora – Claro que não, que bobagem... eu não suportava toda aquela coisa messiânica de raça ariana para cá e raça ariana para lá. A bem da verdade, Aro escondeu inúmeros judeus aqui em Volterra... ele não gostava dos nazista, mas era um governante de uma pequena província com laços estreitos a Mussolini, bem ou mal, ele tinha que fazer uma média. Ele gostava da mente estratégica de Hittler, mas não de sua ideologia estúpida de genocídio de uma raça... então acho que por birra Aro acolheu tantos judeus. Há vários netos e bisnetos deles ainda morando em Volterra. Acho que se o velho Eli ainda está vivo, bem, ele é um dos refugiados originais... está bem velhinho pobrezinho, há dois anos atrás eu fui visitá-lo e está praticamente surdo – completou a rainha abanando as mãos como se aquilo fosse uma bobagem.
- E eles viviam aqui, em paz?
- Bem, um ou outro serviu de alimento, mas naquela época de guerra as coisas eram complicadas e os vampiros ainda não conseguiam controlar direito a sede depois do decreto de Aro que em solo italiano não se podia mais matar humanos.
- Não consigo imaginar Volturis salvando humanos.
- Não? – disse Athenodora arqueando uma sobrancelha para – Isabella, querida, os Volturi já salvaram milhares de seres humanos, para ser franca, talvez já tenham salvado o mundo. Alguma vez ouviu falar das Guerras Secretas?
- Uma vez Carlisle nos contou uma história sobre isso, ele havia lido nos arquivos de Aro.
- As Guerras Secretas foram travadas contra as Bestas da Lua, ou lobisomens... há centenas de anos atrás. Eram coisas horripilantes, eu, graças a Deus, jamais vi uma pessoalmente. Mas me recordo que Arian trouxe o cadáver de um, certa vez, para que os estudiosos de Volterra estudassem a espécie... sinceramente era a coisa mais aterrorizante que eu vi na vida. Mas, enfim, os lobisomens eram altamente infecciosos e poderiam ter transformado toda a civilização humana em bestas irracionais... mas os Volturi impediram isso.
- Houve também a questão das Crianças Imortais – continuou a rainha – Oh, foi o caos, imagine aqueles pequenos rebentos com seus rostinhos inocentes destruindo vilas inteiras... apesar do que muitos dizem por aí, Aro, Caius e Marcus não sentiam prazer em destruir crianças. Era algo hediondo. Por isso as leis são tão implacáveis... se deixássemos crianças imortais serem criadas, centenas de humanos teriam padecido. Além é claro de inúmeras outras questões que, bem, decidiriam o futuro dos homens.
- E por que tiranizar seu próprio povo?
- Você já ouviu aquele ditado, Bella? “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. Somos poderosos demais, você acha que a democracia serviria aos vampiros? Não, é claro que não. Não respeitamos o que não é suficientemente forte para nos ameaçar. A lei dos homens não é a lei dos vampiros ou vice-versa. Entenda, os vampiros tem de ser regidos através da coerção, é complicado, mas verdadeiro.
- E onde eu e minha família entramos nesta equação? – perguntou Isabella.
- Bem, vocês eram uma família, porém, vampiros nômades poderiam ver isso como uma associação de interesses.
- Associação de interesses?
- Querida Bella – sorriu Athenodora colhendo as mãos de Isabella entre as suas – Você conheceu três vampiros nômades uma vez, não é mesmo? James, Victoria e Laurent eram as sínteses da natureza vampírica e podemos concordar que eles não eram exatamente civilizados, não é mesmo? Afinal de contas, os três tentaram matá-la. Agora imagine se os vampiros nômades resolvem seguir o exemplo de vocês e viver em grandes grupos? Meu Deus... seria um stress imensurável poder contar a fúria de um grupo de vampiros sanguinários, grupos pequenos como os Denali não oferecem problema a ninguém... mas vocês era um grupo grande demais. Fomos até Carlisle explicando a situação, mas ele simplesmente sorria complacentemente e dizia que tudo podia ser resolvido pacificamente. Eu amo Carlisle, mas às vezes me pergunto se ele é um gênio ou um idiota.
Isabella se perdeu levemente nas explanações de Athenodora. A rainha sorria para ela com delicadeza e fez com que pensasse em tudo o que até agora havia aprendido sobre o mundo cru dos vampiros. Aro já havia dito que a sugestão de família gigante deles era perigosa, mas seria verdade que até mesmo Athenodora teria pedido para que Carlisle se unisse a eles alertando dos perigos futuros? Se fosse assim, por que Carlisle, o vampiro mais inteligente e culto que Bella conhecera, não havia ao menos pensado a respeito?
Seria Carlisle tão cego pelo pacifismo quanto Aro pelo poder?
- Há uma ruguinha de preocupação se formando neste rostinho – disse Athenodora beliscando meigamente o rosto de Bella.
- Antigamente as coisas eram mais fáceis – respondeu a princesa.
- Quando os Volturi eram apenas os cruéis, malignos e inescrupulosos?
- Sim – sorriu Isabella sem jeito.
- Bem, eu não gosto muito do pensamento atual sobre o “bem e o mal”, tornou-se algo extremamente maniqueísta na minha concepção. Tanto o bem quanto o mal são dependentes do ponto de vista do indivíduo. Pessoas de culturas e de países diferentes veem o bem e o mal de aspectos distintos... o que é bom para um é mal para o outro e assim por diante. Os Volturi fazem coisas ruins baseando-se em causas nobres, Carlisle sempre tentou ser nobre, mas ignorou o perigo de todas as escolhas que fez. Bem e mal, justo e injusto... são faces de uma mesma moeda. Tudo o que é bom um dia pode virar mal ou vice-versa. Os Volturi são ou já foram bons aos injustiçados, mas para você somos maus, pois destruímos tudo o que amava... e isso é natural.
Para isso, Isabella, uma vez mais, não teve resposta.
- Mas vamos, deixemos de falar de coisas desagradáveis – riu Athenodora – Aro me pediu para voltar e lhe fazer companhia quando estiver entediada, sei que Alice é sua sempre confidente, mas como ela está a serviços de Marcus, desconfio que vocês não tenham muito tempo para ficar conversando, não é mesmo?
- Aro pediu que voltasse?
- Sim, eu estava com minha mãe, a bem da verdade já fazia quase dois anos que estava longe de Volterra. Mas eu estava entediada e Caius achou por bem eu me distanciar um pouco da Cidadela. Ele sempre ia esporadicamente me ver, mas ultimamente seus negócios aqui o impediam de me visitar na Suíça, para ser sincera a carta de Aro me alegrou muito e veio em boa hora. Eu não lido muito bem com distâncias e saudades e já estava para voltar por conta de Caius e a carta de Aro me motivou instantaneamente.
- Na casa de sua mãe? – espantou-se Bella.
- Sim, mãe. Lara é minha criadora, a que me tornou vampira, mas ela sente-se ofendida se eu a chamar de criadora, então o termo “mãe” é mais familiar e querido. Eu não passava muito tempo com ela há quase uma década e ela já estava reclamando por isso; mesmo querendo voltar ela me pressionava para ficar um pouco mais e assim sendo fiquei fora do palácio por mais de ano e meio. Este é o problema com imortais, nós geralmente deixamos de contar o tempo depois de alguns séculos... na medida em que estava, eu acabaria ficando lá por cinco anos ou mais do modo como conheço Lara. Caius não gosta da Suíça, acha o ar lá muito gelado e morto... acho que é porque ele nasceu na Grécia e viveu durante toda sua vida da Itália onde o clima é mais gostoso. A Suíça é linda, porém muito monocromática com suas neves eternas eu suponho.
- Ah, não precisava deixar sua mãe por minha causa – disse Bella.
- Não, não é incômodo. Eu já não conseguia mais ficar longe de Caius... a saudade estava me corroendo por dentro. E eu não confio em algumas vampiras do palácio... são, como se diz hoje em dia mesmo? Ah sim... periguetes. Não podem ver um vampiro poderoso disponível que voam como abutres atrás da carniça.
Isabella não teve resposta para isso também.
- Eu sei, eu sei – riu Athenodora com vigor – Eu sou ciumenta, o que posso fazer? Mas Caius é um Rei e é extremamente bonito, além de inteligente, culto, atencioso, cavalheiresco, educado... o que foi? – perguntou Athenodora e Bella percebeu que não havia conseguido disfarçar a expressão de contrariedade que surgiu em seu rosto.
- Perdão, minha rainha... mas estamos falando do mesmo Caius?
- Bella, não seja boba – disse Athenodora com um arremedo de censura divertida no rosto – Estou falando do meu Caius... não do Rei. Você nunca notou a diferença entre o cargo e o homem?
Isabella já havia notado. Em Aro.
Aro Volturi era diferente enquanto rei e enquanto homem. Como rei era implacável, usava uma máscara de prepotência, arrogância e soberba... sempre olhava seus servos de cima, como um deus olharia um fiel. E Caius não era diferente, a bem da verdade era quase tão pior quanto Aro. Mas no momento em que descia do trono, no instante em que Aro tirava o manto de rei de suas costas... ele se transformava; seu rosto geralmente tornava-se sereno e distante, às vezes saudoso e triste. Ele sempre mantinha seus modos cavalheirescos e não era rude nem mesmo com os guardas do palácio, sempre sorria mais e falava com uma cadência saudosista. Havia até certo charme nesta atitude de Aro... como se houvesse dois homens ao em vez de um.
- Caius é diferente do Rei. Tem de ser. É como um diretor de uma empresa, por exemplo. Ele não pode ficar mostrando os dentes todo o tempo e para todo mundo ou as pessoas vão considerá-lo complacente demais e não vão acatar tudo o que diz. Ser Rei é muito pior, a regra básica é a seguinte: quando se tem um poder grande demais e é preciso governar... é muito melhor ser temido do que amado. Mas longe de tudo, ele é um amor de pessoa.
- Eu ficarei surpresa de descobrir isso – respondeu Bella com sinceridade – Não me recordo de ter visto Caius nem ao menos sorrir uma única vez desde que estou aqui... ao menos não de uma forma normal e não cruel.
- Isso pelo fato de que o motivo de meus sorrisos não estar em Volterra, minha princesa – disse a voz sonora de Caius atrás de Bella.
Isabella voltou-se rapidamente e lá, na porta de entrada da varanda, estava Caius. Mas não o rei, notou Bella imediatamente. O rosto de Caius era jovial e tranquilo e um meio sorriso de felicidade espalhava-se por seus lábios pálidos; era quase incômodo Isabella olhar este Caius apaixonado... sempre fora mais fácil pensar nele como um maníaco homicida.
- Sobre o que estão conversando? – perguntou Caius tranquilamente aproximando-se e beijando carinhosamente Athenodora no rosto, em seguida ele puxou uma cadeira e sentou-se preguiçosamente junto delas na mesa.
- Bella acha difícil pensar em você sem a máscara do Rei – riu Athenodora e Bella notou que ela parecia uma menina perto de Caius, os olhos brilhando como duas lamparinas na escuridão. Era o mesmo olhar que ela mesma sempre lançava para Edward.
- Nossa princesa está há muito pouco tempo em nosso meio, minha querida – comentou Caius naturalmente – Ela demorará um pouco a se acostumar com nossa rotina. Mas eu me divirto muito sabendo que você me considera um terrorista, Isabella.
- Minha filha é prisioneira de Chelsea por mando seu, meu mestre Caius – disse Bella de forma cuidadosa.
- Sua filha está sob os cuidados de Chelsea – disse Caius não parecendo se incomodar com o comentário – E para sua própria segurança. Você viu o que aconteceu no Salão dos Tronos na última vez, sua filha permanecerá assim até poder caminhar por si só sem trazer problemas... ficaremos aliviados de libertá-la deste fardo. Mas você sabe que por enquanto ainda é impossível, Renesmee está muito arisca.
-Vamos, vamos – disse Athenodora abanando as mãos – Não vamos ficar aqui falando sobre coisas que ainda não se acertaram, eu acabei de chegar e não pretendo me entristecer. Vamos imaginar que logo logo Renesmee irá se adaptar e seremos uma família, não é mesmo? Aro esta muito feliz por se casar novamente e, principalmente, ser padrasto... há tempos ele não sente a alegria de ser pai.
Isabella obrigou-se a sorrir para a Rainha, só de lembrar da reação de Renesmee mais cedo ela ficou pensando o que Nessie faria se Aro ousasse chamá-la de filha. Mas por mais estranho que pudesse parecer, Isabella não quis contrariar Athenodora... a rainha era tão alegre, feliz e sonhadora que seu próprio humor parecia ter melhorado um pouco na presença dela. E só poderia ser da presença de Athenodora, por um momento, Bella imaginou se Corin não a estaria influenciando também... mas então lembrou-se de que seu escudo impediria tal coisa.
- Caius, você cumprirá o que me prometeu para hoje? – perguntou Athenodora enlaçando sua mão na do marido.
- Obviamente – respondeu Caius com um sorriso – Há algo que eu não faça por você?
- Ótimo, então podemos convidar seus irmãos para nos acompanharem, assim Isabella pode passear um pouco por Volterra.
- Aro poderá aceitar, mas duvido muito que Marcus nos dê o prazer de sua companhia mal-humorada.
- Caius me levará até o centro hoje – explicou Athenodora a Bella – A toda sexta-feira do final do mês acontece uma pequena celebração na Praça de São Clemente, os moradores comemoram um mês produtivo e enfeitam a praça com luzes... eu sempre vou lá para comer algodão-doce.
- Algodão-doce? – surpreendeu-se Bella.
- Ora, Bella... você sabe perfeitamente bem que nós vampiros podemos ingerir uma pequena quantidade de comida humana, o veneno dá conta de dissolver o alimento em nosso corpo... mas o algodão-doce é muito mais prático, afinal, você só precisa deixar ele derreter na boca. E eu adoro algodão-doce... é um vício.
- Bem, estaremos saindo à noite... se quiser realmente que Aro ou Marcus nos acompanhem, minha querida, trate de convidá-los logo – disse Caius.
- Exato. Bella querida... vamos – e dito isso, Athenodora levantou-se de um pulo e ergueu Bella pelas mãos arrastando-a em direção às portas dentro do salão – Temos que convidar seu futuro marido para irmos todos juntos ao centro. Corin, não precisa me acompanhar, fique aqui e faça companhia a meu querido marido, assim você poderá contar melhor as novidades de minha mãe que eu ainda não tive tempo de transmitir.
- Nada que venha de Lara pode me interessar – disse Caius num tom divertido – E Corin, vá passear pelos jardins, eu fico melhor sozinho com meus pensamentos.
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Renesmee saiu para o pátio tentando buscar algum ar mais leve do que o do castelo. A claridade do sol faiscou em sua pele e ela sentiu um vento leve refrescar seu rosto, seus pulmões se encheram com o ar puro do meio-dia e isso pareceu clarear um pouco sua mente. A menina caminhou sem uma direção determinada, apenas seguia seus passos incertos; olhou os muros altos de pedra sólida e as ameias onde os guardas passeavam em suas rondas eternas.
Fugir dali parecia incerto até mesmo para uma vampira... quem dirá para uma meia vampira cujos poderes eram absolutamente limitados. Mesmo que escalasse os muros, Nessie não passaria pelos guardas e nem conseguiria ir muito longe já que os vampiros puros eram mais velozes que ela.
Acabou enveredando, perdida em pensamentos, para o pátio interno que geralmente era tido como abandonado, um pátio com uma pequena fonte desativada que acaba embrenhando-se quase que dentro do castelo... as paredes eram mais estreitas e não havia nada ali, apenas uma hera vigorosa correndo pelas paredes semi desabadas. Só então percebeu, com um susto, que aquele era o lugar onde Quil permanecia quando os Reis não precisavam ostentá-lo como sua arma de guerra.
Renesmee se locomoveu com cuidado até chegar à abertura desabada na parede, com uma espiada rápida ele viu o imenso corpo de Quil enrolado em si mesmo... o grande lobo ressoava num sono profundo, mas um segundo depois se moveu e ergueu a cabeça para abertura; Renesmee ouviu um rosnado baixo até que Quil a focalizou e um ganido de afeto surgiu de sua garganta.
Talvez devido à carência acumulada, Nessie fez o que fez... Quil não era Jacob e ela sabia disso, entretanto, a necessidade de abraçar um lobo era tanta que Renesmee se atirou para frente até chocar-se contra o corpo maciço e cravejado de aço de Quil. As lágrimas saíram numa torrente incontida de choro acumulado, seu corpo soluçava junto com ela e Quil emitiu outro ganido baixo de tristeza. Demorou um pouco até Renesmee se recompor e ela, delicadamente, tocou a face do lobo por baixo da máscara de aço fundido. E suas mentes se conectaram graças ao dom da vampira.
“Quil” – lamuriou-se Nessie – “Ela vai se casar com Aro... como ela pode fazer isso?”
“Nessie, você deveria confiar em Bella... ela sabe o que faz”.
“Não Quil, ela não sabe. Eu não sei o que minha mãe pensa que está fazendo.”
O lobo calou-se. Como poderia Quil contar a Nessie sobre o plano estapafúrdio de Alice? Aro sempre colhia lembranças da mente de Renesmee, sabe-se lá Deus quanta coisa ele poderia ver... Quil sabia que o plano havia dado errado, mas ele compreendia os motivos de Bella. Por ele, como lobo guerreiro, morrer lutando seria fácil, mas eles caminhavam numa linha muito tênue, se Bella ou Alice se revoltassem contra os Três, todos estariam mortos ou seriam aprisionados para sempre e ele jamais permitiria que o amor de seu alfa sofresse algum mal. Jacob jamais o perdoaria.
Mas a encruzilhada também se formou no coração de Quil, ele não poderia contar nada a Renesmee e não teria escolha a não ser mantê-la com o sofrimento no coração.
“As tramas dos Volturi são enredadas demais, Nessie, você sabe disso. Se sua mãe ou qualquer um de nós fizer alguma coisa brusca corremos o risco de ir parar naquelas catacumbas encantadas de Aro. Eu sei que é difícil compreender tudo o que está acontecendo, mas acredite em mim, Bella sabe o que faz. Ela está se arriscando para proteger você”.
“Parece que todos me dizem isso. Mas você pode imaginar a dor que eu sinto de ver minha mãe se casando com o vampiro que destruiu a minha família inteira?”
“Eu sei... sei que não é fácil”.
E de repente o rosto de Nessie se iluminou numa ideia repentina.
“E se eu conseguir fugir e chamar ajuda?” – disse ela na mente de Quil, sua excitação crescendo.
“Ah, Nessie... olha...” – gemeu Quil desconfortável.
“Não, não... escute. Se eu conseguir fugir daqui, posso ir até os nossos aliados, os Denali ou Zafrina ou Siobhan ou qualquer outro”.
“Mas Nessie, o que eles poderiam fazer para nos ajudar? Eles não têm força suficiente para enfrentar os Volturi.”
“Poderiam evocar uma discussão. Uma audiência exigindo nossa libertação”.
“Renesmee” – riu Quil uma risada sem humor – “Eu não sei se você percebeu, mas os Volturi não são exatamente uma democracia, acha que eles se importariam com alguns vampiros desgarrados pedindo nossa liberdade? Principalmente porque sua mãe agora é noiva de Aro e acho que ele não se inclinaria a libertá-la.”.
“Quil... você sente, não sente?” – perguntou Nessie encarando o lobo com atenção.
“O que?”
“Ele está vindo.... eu sei que está. Eu o sinto”.
Quil não precisou perguntar a quem ela se referia. Mas como poderia Nessie ter sentido a presença de Jacob?
“Eu sabia!” – exaltou-se a menina – “Sabia que você sabia. Jacob está vindo”.
“Eu senti uma presença, mas não sei se é Jacob. Nessie, eu ouvi o coração dele parar. Quero acreditar que sim, mas não posso ter certeza”.
“Como não? Quil... é ele, esta presença que você sente só pode ser ele...”
“Eu temo” – começou Quil e sua voz tornou-se triste na mente de Nessie — “Que seja apenas a sua presença, sua raiva e seu espírito vindo até nós, Nessie. Nós compartilhamos o espírito do grande lobo... sua essência; antigamente o espírito dos lobos apenas adentrava nossos corpos para que assumíssemos a forma do grande lobo. Eu temo que seja apenas o espírito de Jake vagando por aí... furioso”.
“Não” – declarou Nessie irresoluta – “Eu sei que é ele e preciso encontrá-lo, vou dar um jeito de escapar e ir ao seu encontro.”.
“Como?”
“Não sei ainda” – disse Renesmee, mas um segundo depois uma centelha de luz iluminou seu rosto novamente – “Vou usar Jane”.
“O que?” – sobressaltou-se Quil.
“Vou usar o amor louco de Jane a meu favor, vou usá-la para me colocar para fora dos muros deste palácio. Acho que se ela se descuidar eu consigo golpea-la e...
“E? E o que, Nessie? Jane é muito mais velha que você... pelo amor de Deus, ela já participou de quantas matanças? Aquela vampira psicopata precisa de apenas um segundo para te derrubar com aquele dom doido que ela tem e te arrastar novamente para Volterra.”
“Quil, eu preciso ir encontrar Jacob.”
“Você vai arriscar a segurança de Bella e Alice. Se os Volturi te capturarem vão querer puni-la e Bella vai se impor e provavelmente sofrerá as consequências.”
“Elas estão se virando muito bem, eu preciso fazer alguma coisa”.
Neste ponto Quil se enfureceu. Ele levantou-se e soltou um rosnado reverberante que fez com que a pele da menina de arrepiasse; o grande lobo ergueu-se em toda a sua raiva armada em aço e metal e deu um bote furioso contra uma coluna de granito caída por ali... a coluna de pedra sólida se desfez em pó. Depois ele voltou para perto de Nessie e colocou a grande cabeça com força sob a mão da menina para que o poder da vampira os ligasse mentalmente.
“Você não está pensando”.
“Claro que estou!” – defendeu-se a menina – “Eu quero fazer algo além de permanecer como uma serva dos Volturi. Pensei que você seria o primeiro a me apoiar a ir atrás de Jake. Quil, eu realmente estou pensando em fazer algo, não é nada por impulso... juro”.
“Não é por impulso?” – riu o lobo de forma sarcástica – “Você está pensando como daquela vez em que saiu pela floresta e quase foi morta junto com Quilan?”
“Não é como daquela vez”. – defendeu-se Nessie.
“É exatamente como daquela vez. Ouça, nós estamos no mesmo barco e você não vê ninguém aqui agindo por impulso. Aro quer se casar com sua mãe? Pois é, é uma merda e eu sei disso, mas se fizermos algo impensado vamos ferrar a vida de todos nós. Eu pertencia a uma matilha, Nessie, a um banco, e neste bando agíamos unidos e não sozinhos. Você deveria parar de culpar sua mãe ou Alice pela nossa desgraça. Elas não são culpadas. Eu não sou culpado. Você não é culpada. Mas temos que assumir este fardo... Bella está fazendo o que pode para manter todos em segurança... uma pisada de bola pode simplesmente aumentar o peso sobre os ombros dela, não se esqueça disso.”
“Eu preciso fazer alguma coisa, Quil...”.
“Confie em sua mãe, Nessie... isso seria fazer algo de fato. Antes de fazer alguma coisa impensada, lembre-se: quem sofre as consequências pelas suas imprudências é Bella... não você”.
E dito isso, Quil afastou-se da menina e embolou-se sobre si mesmo para dormir e esquecer-se de tudo.
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Bella suspirou uma vez longamente enquanto fitava seu rosto no espelho. Estava sentada na cama pacientemente esperando enquanto Alice terminava de fazer uma trança em seus cabelos; Isabella estava usando um vestido longo e elegante num tom verde oliva, o vestido lhe caia bem... dava um tom bonito em seus olhos levemente escurecidos.
Alice, por sua vez, trajava as estranhas vestes fetichistas da guarda, uma minissaia plissada e a camisa cinza chumbo era uma vestimenta básica para as moças que serviam de perto os Três, a única diferença era que Alice envergava uma linda e caríssima tiara no alto de seus cabelos curtos... isso mostrava que ela era um princesa.
- Então estou enrascada a este ponto... – suspirou Alice por fim.
- Bem, ao menos lhe ofereceram Matheu, não é mesmo? – respondeu Isabella levemente amortecida.
- Bell, você me ouviu? Parece que toda a corte vampira dos Volturi decidiu que eu daria uma ótima esposa. A questão é: se eu não quiser virar esposa de algum vampiro velho e depravado, serei obrigada a me casar com Matheu.
- Por quem você está apaixonada.
- Bella... como eu poderia me casar com Matheu tendo acabado de enviuvar de Jasper?
- Bem, você prefere ser casada com algum daqueles velhacos que servem os Três?
- Eu não quero me casar com ninguém! — disse Alice furiosa
- Bem, quem vai se casar com Aro sou eu, não se lembra?
- Oh, eu sei... eu sei. Estamos ferradas. O que pensa em fazer?
- E há algo que possa ser feito? Eu já tentei pensar em todas as alternativas possíveis, mas todas elas terminam conosco aprisionadas em uma cela há centenas de metros abaixo do solo.
- Que excelente, não é? — riu Alice tristemente, ela soltou o cabelo de Isabella e se levantou da cama – E a que horas ficamos de encontrar nossos Reis?
- Ao cair da noite, Athenodora não tolerará atrasos.
- Eu fiquei com um pé atrás com a rainha – confessou Alice – Ela parece boazinha demais, Aro a mandou aqui para amaciar você, isso sim.
- Eu não sei – disse Isabella em dúvida – Não senti maldade nela... ela é apenas ela mesma, eu acho. É difícil explicar, entende? Athenodora não tem a malícia nela, é apenas apaixonada por Caius e por ser vampira.
- O que, por si só, já assustador, não é mesmo maninha?
- Sim, ver Caius sem a máscara do rei foi pior do que quando Aro me faz destas...
- É horrível imaginá-los como pessoas normais – disse Alice – Eu já fiquei de cara por Marcus decidir acompanhar os irmãos até o centro. E sabe o que é o pior? Parece que ele fez isso apenas para eu sair um pouco e não me entediar mais uma noite no Salão dos Tronos enquanto ele fica olhando para as paredes.
- Eu não sei mais o que pensar, para ser sincera, não quero pensar em nada. Eu desisto.
- Você não pode se entregar Bell...
- Bem, já vi coisa demais por hoje, espero não ter nenhuma surpresa a mais. Amanhã é outro dia e eu vou tentar conversar com Nessie uma vez mais... quem sabe ela esteja mais calma. Amanhã eu penso no que fazer com relação a Aro... ou qualquer outra coisa.
Isabella e Alice estavam esperando no salão de entrada do palácio. O mármore branco das paredes faiscava com os últimos raios de sol que apagavam-se vagarosamente carregando consigo uma tarde bonita e agradável; a noite não tardaria a chegar com seu manto de estrelas resplandecentes.
Mas não permaneceram por muito tempo ali... foi com o som de risos que Athenodora surgiu no alto da escadaria e desceu até elas como um cometa fulguroso. Ela usava um vestido leve de cor creme até o meio da coxa e calçava um par de sapatos baixos da mesma cor; seus cabelos estava soltos numa onda dourada e pálida e ela envergava o sempiterno sorriso juvenil e faiscante no rosto.
- Ah, Isabella, você está linda – disse ela abraçando Bella e depois Alice – Eu já havia ouvido falar de sua beleza, Alice, mas acho que todos os elogios não fazem jus à verdade, você é muito mais linda que qualquer palavra. Entendo porque tantos vampiros tentaram lhe desposar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!- Obrigada, minha senhora – disse Alice num reverência.
- Bem, nossos acompanhantes estão nos aguardando no pátio... vamos? — chamou Athenodora já se dirigindo para a porta.
E, de fato, os reis as aguardavam no pátio. E Alice e Bella completaram sua cota diária de sustos.
Aro vestia uma camisa imaculadamente branca e calças sociais. Caius trajava um terno cinza, elegante; Marcus também usava um terno cinza, num tom mais escuro que o de Caius, e também uma capa em tom creme por cima do conjunto... estavam estranhamente elegantes e Isabella identificou quase que instantaneamente o motivo de sua estranheza: os reis pareciam quase comuns.
- Isabella – disse Aro se aproximando dela, seus olhos faiscando à luz do crepúsculo, tomou-lhe uma das mãos – Você está linda.
- Obrigada, meu mestre Aro – respondeu ela rígida como um bloco de gelo, o contato com a mão de Aro gelando-lhe a alma.
- Minha Rainha radiante – disse Caius pegando as mãos de Athenodora com delicadeza e a conduzindo pelo pátio rumo ao portão principal.
- Ninguém mais nos acompanhará? — perguntou Alice reparando que o grupo estava sozinho.
- Não – respondeu Aro – Às vezes é bom sair do castelo sem uma dezena de vampiros em nossos calcanhares, além disso, somos capazes de cuidar de nós mesmo e a noite está tranquila, vamos apenas passear pela cidade. Que mal um punhado de humanos poderia fazer?
Isabella, decididamente, sentia mais medo de Aro quando ele tentava ser normal.
Mas a despeito de toda a mágoa que Alice e Bella guardavam em seus corações, elas não podiam deixar de admitir que a cidade de Volterra era encantadora. Suas ruas estreitas eram de pedras polidas ou tijolos alaranjados assentados milimetricamente ajustados, as casas e prédios eram sempre, ou quase sempre, de tijolos a vista dando ao lugar uma aspecto bruto e suavemente colonial. Edifícios baixos erguiam-se no conhecido estilo europeu e havia sempre varandas apontando para fora recheadas de vasos de flores que lançavam no ar cálido da noite um cheiro adocicado e terno.
E as pessoas eram felizes, sorriam e cumprimentavam umas às outras como se todos se conhecessem. A cidade existia há séculos e Bella desconfiava de que muitas daquelas pessoas ali eram de famílias antigas que remontavam há gerações passadas, gerações que nem suspeitavam que o Reis ali eram seus reais governantes.
E os Três caminhavam como se fossem homens comuns, Aro ofereceu o braço a Bella obrigando-a a caminhar enganchada nele, mais a frente, Caius e Athenodora caminhavam de mãos dadas como um casal jovem e elegante, ela ia sempre mostrando as coisas a Caius que sorria e aquiescia a tudo o que a esposa dizia. Marcus caminhava um pouco mais atrás, lentamente, com Alice a seu lado.
Eles desceram pela rua principal até encontrarem a rua do comércio onde várias lojas elegantes se misturavam com mercearias, pequenos mercados e panificadoras; as pessoas caminhavam por ali com total naturalidade e Bella gostou daquilo, era raro, atualmente, as pessoas saírem às ruas ao anoitecer.
E todos se dirigiam para o mesmo caminho.
- O que acha de Volterra? — perguntou-lhe Aro numa voz calma – Da cidade?
- É linda, muito... aconchegante.
- Não é lugar ruim para se morar, não é mesmo?
- Não – respondeu Bella monossilábica, pensando que a cidade seria ainda mais linda sem qualquer um dos Três.
Ela teve uma sensação terrivelmente surreal quando olhou ao redor. Havia crianças correndo por toda a parte, carregando em suas pequenas mãos cataventos de neon que reluziam em centenas de milhares de cores na noite alegre de Volterra; ela ouvia suas vozes infantes na língua italiana gritando alegremente. Havia velhos também, caminhando lentamente e com sorrisos nos lábios. Também havia jovens rindo abertamente das crianças que passavam correndo, jovens sorrindo... jovens vivendo.
E Isabella olhou para frente e viu um rei e sua esposa. E olhou para o lado e viu o grande Rei de Volterra segurando seu braço tranquilamente... e tudo pareceu estranho. Havia luzes espalhadas por todos os lados da praça, as árvores envergavam centenas de milhares de lanternas com velas em seu interior; parecia um festival de fogos flutuantes no meio de centenas de pessoas rindo alegremente. Era uma ciranda de luzes, sons e risos.
Havia o cheiro de comida no ar... de tortas doces, pão fresco e cevada. As pessoas se amontoavam nos bancos da praça e no meio-fio das ruas, conversavam e riam e os casais se beijavam e Bella sorriu. Sorriu porque era um lugar mágico aquele, um lugar de pessoas normais que não sabiam que vampiros eram reais e que havia no mundo pessoas imortais que viviam vagando pelas eras, prepotentes e amargurados.
E Bella sentiu falta de ser humana. Sentiu falta e poder adormecer, das lágrimas que saíam de seus olhos, sentiu falta do gosto gelado do sorvete e dos microscópicos cristais de açúcar das frutas. Ela sentiu falta de poder rir como aqueles humanos, de rir sem se preocupar com nada... ela sentiu inveja deles e então percebeu num rompante de esclarecimento que era isto o que os imortais mais invejam nos seres humanos... seu dom para poder morrer.
- É bom vê-la sorrindo, minha princesa – disse Aro satisfeito.
- É impossível não rir diante deles – disse Bella – Eles são tão... inocentes.
- De fato, são.
Bella viu quando Caius adiantou-se até uma barraca de onde uma senhora corpulenta e sorridente fazia imensas nuvens de algodão doce, o rei pediu um para sua esposa e Athenodora ficou radiante quando recebeu um imenso amontoado de algodão-doce e rosa. Caius sentou-se tranquilamente num banco e a rainha não demorou a se acomodar em seu colo. Athenodora deliciava-se com o algodão-doce como uma mulher comum, saboreava-o lentamente, com cautela, registrado o sabor do doce. Caius sussurrava-lhe alguma coisa no ouvido e Athenodora ria abertamente.
Eles pareciam um caso jovem e feliz. Era um casal feliz, mas não jovem.
Pareciam tão... normais.
- Vê aquele pequeno mirante na rua de cima? – perguntou Aro – De lá é possível ver toda a praça e parte da cidade, gostaria de ir até lá? A vista realmente vale a pena.
E realmente a vista valia. Enquanto Athenodora e Caius namoravam, Marcus sentou-se num banco para olhar as árvores iluminadas e Alice ficou por ali admirando o riso leve das pessoas. Mas Bella seguiu Aro até o mirante que se elevava da rua de cima, de lá a praça podia ser vista em sua plenitude... uma quadra cheia de árvores e arbustos florescidos e cercados de luz. Volterra também se esparramada por todos os lados com seus edifícios antigos e sóbrios. Era uma vista bonita, admitiu Bella para si mesma. Era um lugar lindo.
- Isso é tudo o que temos. É tranquilo vir aqui, fazemos isso todos os meses – disse Aro.
- Pensei que não admirava os humanos – respondeu Bella.
- Não os admiro. Eu admiro sua superficialidade, a capacidade de sorrir e não se preocupar mesmo sabendo que o mundo onde vivem está doente; admiro sua capacidade de ingenuidade de pensar que tudo o que existe é o que veem durante o dia. Eles nem desconfiam que existimos. Se soubessem, passariam a duvidar de muitas coisas que consideram verdadeiro, que consideram seguro. Mas de uma forma ou de outra, esta atmosfera me tranquiliza... como se fosse mais fácil a vida deles sendo tolos.
- Eu acho que invejo sua efemeridade.
- Por que haveria de invejar isso, Isabella?
- Por que é o meio que os humanos possuem para se libertar deste mundo.
- A sua dor ainda é recente, mas ela irá amenizar com o tempo.
- Eu espero que não... ou então terei me esquecido de quem eu fui.
- Você não está feliz com o casamento, eu sei disso – disse Aro se aproximando dela – Mas com o tempo, talvez você perceba que não somos tão maus, Isabella... e que sou um homem digno.
- Eu não duvido da necessidade dos Volturi, Aro, mas você não pode realmente desejar que eu os considere bons apenas pelo fato de ver Caius feliz perto de Athenodora.
- Sim, pois apenas os bons amam, não é mesmo?
- Não. Mas acho injusto que os maus amem... eles não deveriam possuir esta capacidade.
- Você sabe que as coisas não são tão simples, minha princesa.
Aro calou-se depois disso e Isabella permaneceu ali olhando Caius e Athenodora namorando e não conseguindo deixar de achar a cena estranha. Caius não deveria ser tão feliz e mesmo Aro tentando provar que eles não eram essencialmente maus, ninguém que dizima uma família inteira poderia ter o direito de ficar tranquilamente feliz depois disso.
Mas Aro havia assumido uma postura distante, provavelmente perdido entre pensamentos antigos e Bella apenas permaneceu ali com a certeza de que não conseguiria se casar com o Rei crescendo cada vez mais em seu ser. Ela não poderia fazer isso, achou que conseguiria ser forte o suficiente para deixar todos em segurança, mas agora estava começando a fraquejar... ela não poderia se casar com Aro, mas também não tinha a menor ideia de como impedir isso.
- Carlisle algum dia mencionou por que nos deixou? — perguntou-lhe o rei.
- Pela sua política de sangue?
- Certa vez, na França, tivemos um problema desagradável com um grupo de nômades, eram cinco no total e tinham uma inclinação perversa para o sadismo. Este grupo começou a subtrair suas vítimas na presença de outras pessoas... apenas para confundi-las. Um de seus últimos casos foi ridículo, eles haviam encontrado no campo um criador de cabras almoçando com a esposa ao lado de um córrego de água, depois da refeição o pastor levantou-se e caminhou poucos passos para ir lavar-se no córrego enquanto a mulher permaneceu almoçando. Quando o homem se voltou, segundos depois, ela havia sumido... e jamais tornou a ser encontrada.
- Eles levaram a mulher assim, do nada? — perguntou Isabella incomodada.
- Sim, eles fizeram com que o homem corresse por todos os cantos afirmando que a esposa sumira num piscar de olhos e, com isso, além da esposa perdida ele também ficou com fama de louco e mentiroso e alguns até sussurravam pelos cantos que ele mesmo havia matado a esposa e ocultado o corpo. E este foi um dos casos apenas... houve tantos outros parecidos.
- Por que fazia isso?
- Ora, Isabella, a maioria dos vampiros errantes no mundo é tão pior quanto nós que você julga maus. São seres peçonhentos e de coração maldoso, não se pode confiar neles. Mas, enfim, eu decidi que já era tempo de testar a teoria insistente de Carlisle, a teoria de que o diálogo pode resolver mais do que a coerção e, para tanto, levei Carlisle comigo quando fomos confrontar estes vampiros sádicos e inconsequentes. Eu lhe dei a oportunidade de dialogar como ele tanto desejara... e ele o fez, encontramos os cinco vampiros e Carlisle lhes explicou sua filosofia. Os vampiros prometeram que jamais tornariam brincar com os humanos. Sabe o que aconteceu? Uma semana de pois um ferreiro estava em sua forja martelando o aço, ele tinha um filho de quatorze anos que o auxiliava; o menino estava na fole atiçando o fogo, de repente o pai notou que o fogo perdeu o viço e ao voltar-se para o filho viu que o menino havia desaparecido. O ferreiro era um homem já de idade e precisava do filho para auxiliá-lo, ele não tinha como pagar por um ajudante... o velho procurou por seu garoto durante semanas a fio mal sabendo que o menino já havia morrido na mesma tarde em que desaparecera, na mesma tarde em que os cinco o haviam raptado.
- Eles não aceitaram a palavra de Carlisle... — sussurrou Bella sabendo onde Aro queria chegar.
- Não. Nós os encontramos e eu ordenei que dois deles fossem desmembrados e queimados para que servisse de lição por sua desobediência, os outros três foram marcados a fogo para que levassem pela eternidade a marca de párias em seus rostos. E depois disso, nunca mais tornaram a fazer este tipo de coisa novamente.
- O modo dos Volturi é o modo que funciona – disse Bella por fim.
- Não fomos nós que decidimos que teria de ser assim, mas nosso próprio povo.
- Você não precisa tentar provar que os Volturi são importantes aos vampiros sempre que esta em minha companhia, Aro.
- Me perdoe, minha princesa, talvez seja a ânsia de poder vê-la um pouco mais a vontade conosco.
- Por que eu desconfio que você não me trouxe aqui para tentar me convencer da bondade altruísta dos Volturi, Aro?
- Eu só estou dizendo que talvez os vampiros não sejam tão diferentes uns dos outros, Isabella. Veja, você nos julga maus, mas há outros piores que nós. Nós, ao menos, mantemos a ordem. Só que somos todos egoístas no fim, Isabella... todos nos sentimos impelidos à imortalidade por um sentido único e egoísta: o de viver para sempre e aproveitar os séculos para nossos próprios interesses.
Por um segundo, Bella não respondeu. Ela encarou Aro, ali, elegante e sábio no alto de seus milhares de anos e tudo o que sentiu foi pena. Isabella descobriu então, com uma surpresa gelada, que não detestava Aro Volturi... ela não o odiava; o sentimento que surgiu-lhe foi realmente a pena. Como Aro simplesmente não conseguia entender? Como era possível ele não compreender a intrincada engrenagem da vida, a conduta da alma... ou o peso do amor?
Aro era sábio e vazio e naquele instante Bella descobriu porque o rei a queria como esposa... provavelmente para que tentasse compreender o até então incompreensível, talvez ele quisesse se auto avaliar uma última vez antes de ter certeza de que sua sina era de fato a destruição. E Isabella descobriu também que teria de fugir... ela jamais poderia se unir a Aro Volturi para sempre.
Mas, antes de qualquer outra coisa, ela se moveu lentamente em direção ao rei. Seu rosto sustentava uma expressão de leve confusão no rosto, e ela ficou bem próxima ao vampiro e ergueu cuidadosamente suas mãos para o rosto de Aro; ele se retraiu por um momento, estranho àquele toque delicado, mas logo permitiu que as suaves mão de Isabella colhessem seu rosto.
Aqueles olhos rubros encararam os olhos dourados de Bella e a vampira tentou decifrar o que havia naquela alma atormentada, o que existia além da máscara do Rei. Tentou identificar por que era impossível amar Aro mesmo que ele não fosse quem era. O rei a encarou em silêncio permitindo que a princesa perscrutasse seus olhos e sua alma mesmo sabendo que ela jamais encontraria ali uma resposta para suas indagações.
- Você se engana, meu rei – disse Bella num sussurro – Engana-se quando diz que escolhemos a imortalidade pelo egoísmo.
- Sempre são ações egoístas que nos remetem à imortalidade... não foi assim com você? Você não escolheu viver para sempre e não deixou tudo para trás para poder ficar com seu Edward pela eternidade? Você é tão melhor do que eu que escolhi viver para sempre apenas pela ânsia do poder? Podem ser egoísmos distintos, mas sua essência, sua base, seu início são inequivocamente os mesmos: a necessidade pessoal.
- Você se engana, Aro.
Repetiu Isabella balançando a cabeça num movimento lento, os olhos do rei brilharam à menção de seu nome e a intensidade do olhar da vampira o impediram de discutir com ela. Isabella ainda segurava delicadamente o rosto de Aro entre suas mãos, e ela olhou com ainda mais estranheza para o vampiro à sua frente. Olhou-o sem conseguir compreendê-lo em sua plenitude, olhou-o com um leve toque de decepção por não ser capaz de identificar o que havia na alma de Aro... ou do motivo que o fazia ser quem era.
- Você se engana completamente – continuou Bella – Você, meu rei, escolheu a eternidade e deixou tudo para trás pelo poder, para poder governar para sempre. Eu, por outro lado, deixei tudo para trás e escolhi a eternidade... para poder amar para sempre.
E ali, numa noite cálida da Itália, recheada por risos e luzes, Aro Volturi, o rei milenar da Cidadela dos Vampiros foi calado. O vampiro fazedor de leis, o que julgava e condenava, aquele que possui eloquência e a retórica perfeitas... calou-se diante da mais jovem vampira que conhecera. Ele olhou dentro daqueles dois poços dourados e flamejantes que eram o olhos de Isabella e se perdeu... ele não conseguia compreender como podia existir um ser que amasse desmedidamente da forma como Isabella amava. De onde vinha esta força? Esta potente energia que ela chamava de amor?
O toque das mãos geladas em seu rosto o fez, por um segundo, esquecer-se de quem era. Ele não era mais um rei, apenas um vampiro admirando uma linda vampira e Aro percebeu o inevitável... percebeu algo que o deixou profundamente triste: ele soube que jamais conseguiria ser o dono do coração de Isabella Volturi.
Aro, cuidadosamente, segurou com as suas as mão de Bella e as baixou de seu rosto... os dois vampiros ficaram ali, com as mãos dadas olhando um para o outro, e Aro sabia que Bella o estava tentando entender... apesar de no íntimo, odiá-lo.
- Se eu não fosse quem fosse e não tivesse cometido todos os pecados que cometi. Eu conseguiria, um dia, possuir seu coração? — perguntou-lhe Aro.
- Se você não fosse quem é e não tivesse cometido todos os pecados que cometeu... então sim, provavelmente eu poderia amá-lo, meu rei – respondeu Bella com sinceridade – Mas você é quem é, Aro... e seu coração é recheado de sombras, poeira e vento.
- Poeira e vento... — repetiu Aro meditando sobre as palavras dela.
Isabella soltou as suas mãos das do rei e voltou-se para a praça pouco abaixo, Athenodora já havia terminado com seu algodão-doce e agora ouvia com atenção uma história qualquer que um sorridente Caius lhe contava. Ao mesmo tempo, Alice estava sentada ao lado de Marcus ouvindo algo que o rei lhe dizia... mas Bella não prestou atenção à nada disso. Ela sentiu quando Aro emparelhou o corpo próximo ao dela sem dizer uma palavra... e Isabella soube que algo ficou decididamente subentendido entre os dois: ela jamais conseguiria amá-lo.
- Poeira e vento – suspirou Aro uma vez mais.
***********************
Renesmee sentiu seu coração acelerado no peito. Um leve mal estar comprimia-lhe o estômago e ela se perguntava se o que fazia era uma loucura; lembrou-se das palavras de Quil: “você deveria pensar antes de agir”. Mas ela não estava pensando agora? Fugir daria, talvez, uma oportunidade para que ela conseguisse encontrar o caminho para que a ajuda viesse até elas. Sua mãe e sua tia estavam enredadas nas tramas sem fim dos Volturi.
Mas ela não.
Renesmee não estava sendo vigiada de perto. Chelsea sempre a deixava livre para fazer o que quisesse, isso porque todos pressupunham que ela jamais faria algo inesperado depois que a mãe e a tia haviam jurado lealdade aos Três. Mas este era, talvez, justamente a brecha que Renesmee precisava... fazer algo inesperado.
Se ela arriscasse o que pretendia ninguém poderia pensar em prever suas ações. Só lhe restava isso. Porém, outra coisa a preocupava: Quil deixara claro que se ela aprontasse quem levaria a culpa e a responsabilidade seria Bella. O lobo deixou claro que Bella e Alice só se encontravam na atual situação por que faziam o que podiam para protegê-la; se ela resolvesse fugir e fosse capturada... o que poderia acontecer?
Se bem que sua mãe agora era queridinha de um Rei... o que Aro faria com Bella? Faria algo?
Não, Nessie iria arriscar. Mesmo contra todos os conselhos que havia recebido... ela iria arriscar. Chegou o momento de arriscar. Ela era a única que podia. E faria.
Desceu pelos corredores até a ala leste do palácio, o corredor era desprovido de luxo e apenas candelabros bruxuleantes se encarapitavam do teto; havia portas e mais portas até que o corredor culminou numa escadaria que subia em espiral até a torre mais alta desta parte do palácio.
Renesmee respirou fundo, tentou baixar um pouco mais a minissaia que mal cobria a metade de suas coxas e subiu lentamente... ela sabia que o quarto de Jane ficava no último andar da torre... e não foi uma das subidas mais fáceis de se fazer.
No último andar encontrou um corredor escuro e no fundo uma única porta de onde uma luz amarelada fugia pela fresta jogando uma luminosidade incerta pelo chão escurecido; a menina prendeu a respiração e caminhou silenciosamente até a porta. As lembranças de Jane a molestando gritando em sua mente, seu coração martelando no peito... Renesmee sentiu medo e pavor, mas ainda assim continuou.
Quando chegou à porta, forçou a melhor expressão de tédio em seu rosto e bateu duas vezes.
A porta abriu-se lentamente e o rosto de Jane normalmente apático se iluminou numa surpresa súbita e Renesmee quase tremeu de pavor.
- Nessie? — perguntou Jane que olhou um pouco mais atrás da menina, explorando o corredor vazio – Onde está Chelsea?
- Provavelmente entretida com Afton, não é mesmo? Afinal, ao menos para isso serve aquele marido dela – disse Renesmee entrando no quarto sem esperar o convite de Jane, manteve o comportamento prepotente e indiferente – E como fiquei sozinha no quarto, me senti entediada.
- E veio aqui para? — perguntou Jane desconfiada.
- Quero explicações, não sou do tipo que deixa algo passar. Então me diga, Jane... o que diabos te levou a me beijar?
- Bem – começou Jane e ela parecia inacreditavelmente constrangida – Com o tempo nossos gostos mudam eu acho, já fui casada, mas meu marido se foi e certa vez me apaixonei por um garoto, mas ele era muito mente fechada para um vampiro. Enfim, não sei explicar... talvez pelo fato de você ser tão peculiar e linda, lembrar uma humana e ser imortal. Mas não é incomum mudarmos nossos gostos, veja Felix, por exemplo, ele há décadas só se relaciona com meninos jovens... é estranho, mas não é anormal.
- Felix gosta de meninos? — esganiçou-se Renesmee – Eca, que nojo.
- Ah, não seja boba, Nessie – respondeu Jane se sentando próximo à menina na cama — Felix já foi casado com mulheres, mas ultimamente prefere garotos, talvez pela companhia, não sei...
- Que horror – disse Renesmee abafando um riso.
- Enfim, eu simplesmente gostei de você.
- O seu modo de gostar é meio agressivo, não é?
- Me desculpe, acho que não tenho muito jeito para demonstrar sentimentos. Mas Renesmee, pensei que iria querer me matar.
- Bom, é verdade... mas estou numa fase em que odeio minha mãe também.
- Bella? A santa Bella? Sério?
- Sim, não fiquei feliz com a ideia de ela se casar com Aro.
- Eu tão pouco de ela virar Rainha. Então resolveu ser uma filha rebelde agora?
- É acho que seria isso... uma fase rebelde.
- E esta fase rebelde envolve você me dar uma chance? — perguntou Jane se aproximando perigosamente de Nessie.
- Sim, mas espera um pouco – respondeu Renesmee colocando a mão no peito de Jane para impedir seu avanço – Vamos com calma, eu preciso me acostumar com a ideia primeiro. Então, não força muito a barra.
- Está bem... quero só ver a cara da sua mãe – riu Jane de forma maldosa.
“Eu também” — pensou Renesmee arrepiada.
- O que quer fazer, então?
- Sair deste castelo de mortos um pouco – disse Nessie – É possível ou temos que pedir aos Três?
- Não precisamos disso. Os Três devem estar no Salão dos Tronos meditando ou sei lá o que... podemos sair tranquilamente, se eles precisarem de nós os guardas saberão onde nos encontrar.
- E aonde iremos?
- Podemos ir até o centro, para a Praça de São Clemente... lá acontece às últimas sextas-feiras do mês um festival onde os humanos comemoram a fartura. É bem bonito, cheio de gente estúpida e sorridente... mas as luzes e a ornamentação compensam o passeio.
- Ótimo – respondeu Nessie animada.
Jane pulou da cama levantando Renesmee, ela segurou a mão da menina e juntas saíram pelo corredor rumo aos pátios do palácio e por fim para longe das muralhas. Renesmee tentou soltar da mão de Jane, mas a vampira não deixou... “que bela namorada obsessiva eu arrumei” pensou Renesmee.
Mas tudo havia corrido como ela imaginara a princípio. Conseguiria deixar os muros do palácio. E com sorte conseguiria despistar Jane no meio da multidão que se formava com o festival no centro.
Esta comemoração veio bem a calhar para ela, Nessie sentiu-se levemente culpada por não dizer nada a ninguém e um medo terrível se apoderou de seu coração... ela poderia perfeitamente nunca mais voltar a ver a mãe ou a tia.
Mas tinha que fazer isso pelo bem de todos.
E, além disso, o que poderia acontecer de errado em um festival popular?
Lá ninguém a reconheceria... e ela poderia escapulir na surdina sem ninguém para impedi-la.
Era um plano arriscado... mas não deixava de ser bom.
Ninguém a impediria de fugir de Jane... na praça de São Clemente.
Notas finais
Um super abração a todos os leitores de Candor.
Se o mundo não acabar, vemo-nos por aí.
Atenciosamente.
Ang.
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