Candor Lunar - Livro 2

29 Capítulo 28 - A Sombra de Aro


Notas iniciais
Olá minha gente!
Candor Lunar finalmente está voltando de férias.
E já venho pedindo-lhes desculpas. Este aviso eu deveria ter dado no capítulo anterior e por lapso meu vocês ficaram sem saber o que está acontecendo.
Enfim:
Diê, quando me pediu para postar Candor aqui no Nyah, postou uma fic já escrita. Sim, originalmente, Candor Lunar 1 foi iniciada em Abril de 2010.
Candor Lunar 2 começou a ser escrita em Outubro de 2010. Isso mesmo! 2010. Escrevo candor 2 a mais de dois anos... isso porque é postado apenas um capítulo por mês no site original que é o Anime Spirit:
Candor 1:http://animespirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-livros-saga-crepusculo-candor-lunar-livro-1-195868
Candor 2: http://animespirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-livros-saga-crepusculo-candor-lunar-livro-2-222283
O que aconteceu é que todos os capítulos de Candor 2 postados até agora já haviam sido publicados e finalmente aqui no Nyah acalçou o original do Anime Spirit.
Os capitulos inéditos são postados uma vez por mês, mas este ano eu pretendo escrevê-los a cada 15 dias já que os leitores de Candor aumentaram consideravelmente e considero deselegante manter todo mundo esperando tanto tempo para ler.
Enfim, este capítulo postado hoje eu levei todo este tempo pra escrever... o próximo eu pretendo postar pelo menos até metade de fevereiro.
Eu realmente tento escrever mais rápido, mas não consigo... é trabalho, família, amigos... enfim, sou um ser humano comum e não um vampiro. kkkkkkk.
Mas prometo tentar apressar as postagens.
Este capítulo em especial assinala o início do fim...
É aqui que tudo se desencaminha, ou encaminha dependendo do ponto de vista...srsr
Boa Leitura.
Ang.

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Renesmee ouvia o som do riso das crianças a cercando como um mar de ingenuidade, os pequenos habitantes de Volterra corriam pela rua iluminada por lanternas amareladas que pendiam das árvores; a brisa cálida balançava seus cabelos e seus olhos pareciam flutuar por aquele mar de risos, cores e brilho.

A mão de Jane a puxava em meio àquele fluxo constante de pessoas que convergiam para a Praça de São Clemente... todos estavam felizes e animados com o festival e até mesmo Jane, a assassina fria, parecia contente de estar ali no meio dos humanos em companhia de Nessie. E a menina sentiu um frio estranho em seu estômago à medida que analisava as possibilidades de seu plano; Jane não era tola, ela teria de ludibriar muito bem a vampira para ter uma chance de fugir, mas, enfim, talvez ali no meio daquela multidão até mesmo os sentidos sobrenaturais dos vampiros poderia falhar.

Ela tinha de fugir.

Tinha de ir até Jacob.

– Você está com fome? – pergunto-lhe Jane com um sorriso.

–Não.

– Achei que comesse comida de humanos.

– E eu como, mas não estou com vontade agora.

Jane deu de ombros e continuou puxando Renesmee para a praça. O fluxo constante de pessoas começou a deixar a menina levemente agoniada, era como um rio veloz de sorrisos e olhos brilhantes naquela noite estranha e Nessie percebeu uma súbita coisa gelada se instalando em seu estômago. Medo. Ela tentava fazer o que pensava ser o certo, mas se deu conta de que nada seria de fato muito simples.

E foi neste momento em que Jane parou de puxá-la.

O centro da praça polvilhava de pessoas, carrocinhas com pipocas, sorveteiros, crianças correndo, jovens namorando, velhos sorrindo, cães correndo e sobre tudo isso um zunido de balburdia parecia sobrecarregar os sentidos ultrassensíveis de Renesmee. Ela olhou para todas as direções e então lá, há pelo menos nove quadras a baixo, erguia-se o portão norte... o portão de saída da Cidadela dos Vampiros. O portão que levaria Renesmee além dos muros de Volterra.

– O que achou do movimento? – perguntou Jane com seus olhos rubros encarando Nessie com ardor.

– Volterra tem muitos encantos pelo que percebo – respondeu Renesmee com sinceridade, ela achou muito bonito o festival com suas cores e risos.

– Ao menos agora você pode considerar deixar de birra e jurar lealdade aos Três, não é mesmo? Volterra é linda e tem encantos e prazeres que você ainda nem consegue imaginar. Pense que tudo está se ajustando agora... você jura lealdade aos reis, sua mãe se casa com Aro... ou seja, tudo pode ficar bem.

Por um segundo, Renesmee lançou à Jane um olhar selvagem... uma fúria súbita e mal contida, mas rapidamente ela desviou o olhar para um ponto distante e aquiesceu brevemente torcendo para que Jane não tivesse notado nada. Mas as palavras da vampira a irritaram tremendamente... para tudo ficar bem Renesmee teria de se ajoelhar e sua mãe se casar com o Rei de Volterra.

– Sim, provavelmente você tem razão, chegou a hora de eu decidir minha lealdade.

– E sendo assim, será que você e eu poderemos ficar juntas? – perguntou Jane abraçando Nessie por trás e sussurrando em seu ouvido de uma forma luxuriosa.

A menina sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando a vampira a tocou com suas mãos geladas, Renesmee fechou os olhos fazendo o possível para não sair correndo ou socar Jane com todas as suas forças... uma ânsia repentina ameaçou tomá-la, mas, ainda assim, ela resistiu.

– Talvez sim, talvez não... já disse que preciso me acostumar com a ideia primeiro.

– E o que eu poderia fazer para apressar isso? Digo... ao menos ganhar um beijo seu?

– Você poderia me trazer um algodão-doce – respondeu Renesmee com pressa procurando abrir uma brecha para poder escapar.

– Um algodão-doce por um beijo? – surpreendeu-se Jane.

– O que posso dizer? Sou tarada por algodão-doce.

– Eu não demoro – respondeu Jane cobiçosa se afastando de Renesmee.


Nessie esperou Jane lhe virar as costas e então começou a caminhar lentamente por entre as pessoas, desceu a rua vagarosamente para não despertar a atenção da vampira, misturou-se entre as pessoas sorridentes e sossegadas em suas vidas normais; alguns garotos olhavam para ela e apontavam, provavelmente surpresos com sua beleza sobrenatural e imortal. Mas Nessie não ligava para nada além da tentativa de chegar ao portão de saída.

Ela planejou acompanhar o fluxo até o final da praça e só depois correr o máximo que pudesse em direção ao portão; em suas saídas com a guarda, enquanto era dominada pelo poder de Chelsea, Nessie descobriu que no portão norte não havia guardas vampiros, apenas humanos que serviam aos Três e que a conheciam. Provavelmente estes guardas não a interpelariam ou impediriam que ela saísse sabendo a quem ela servia e o que ela era.

Entretanto, quando chegava ao fim da praça um som semelhante ao de um vento sussurrante passou por ela e num segundo Jane se plantou à sua frente com um algodão-doce rosa do tamanho de uma pequena nuvem.

– Onde está indo? – perguntou ela olhando Nessie com desconfiança.

– Muita gente, decidi vir para um lugar com menos pessoas... sentar naquele banco ali – disse Renesmee rapidamente, segurando a respiração enquanto apontava para um banco vazio numa esquina da praça.

– Oh, bem... está aqui seu doce – disse Jane por fim, seguindo Nessie enquanto sentavam-se no banco – Espero que esteja bom.


A menina olhou com desgosto para a nuvem rosa que Jane havia lhe trazido e tirou um naco mecanicamente para colocar na boca, o doce saboroso derreteu em sua língua sem, no entanto, lhe causar qualquer prazer. Jane frustrara seu plano mal planejado, Renesmee deveria saber que a Volturi não lhe daria qualquer chance de se afastar, e agora estava ali sem saber direito como agir. Ela talvez conseguisse descobrir outra oportunidade de afastar Jane dela... mas como?

– Você me deve um beijo – disse Jane olhando Renesmee de forma lupina.

– Ah... devo?

– Você ganha um doce e eu um beijo, não era o combinado?

Jane se aproximou de Nessie e a menina, instintivamente, afastou-se dela. Mas a vampira não perderia a chance de provar uma presa que de tão bom grado a ela se entregou... Jane aproximou-se um pouco mais e inclinou-se para o rosto de Nessie. A menina estacou por um segundo e só então se deu conta de que estava encurralada... se rejeita-se Jane naquele momento, daria todas as razões para que a vampira nunca mais lhe desse uma brecha, seu plano poderia ter falhado brevemente, mas Nessie ainda pretendia fugir e isso se daria através de Jane.

Renesmee respirou fundo uma única vez e fechou os olhos tentando a todo custo enviar sua mente para um lugar distante que não este onde Jane estava perto de lhe roubar mais um pedaço da alma.

E os lábios gelados de Jane tocaram os seus e uma angustia infinita pareceu se apossar de seu ser... ela não sabia por quanto tempo conseguiria suportar aquele beijo morto, pensou em Jane como uma possível passagem para fora de Volterra se ela conseguisse manipulá-la a seu favor e, infelizmente, teria que lidar com o desejo da vampira.

Mas todo o seu plano estranho, mal medido, pueril, infantil e tolo foi destruído quando ouviu uma voz alta gritando para ela.

– Renesmee! O que pensa que está fazendo?

E ao virar-se para o lugar de onde a voz veio, Renesmee deu de cara com sua mãe. Bella tinha uma fúria fria queimando na face e a seu lado, Aro Volturi a tudo assistia com uma insatisfação óbvia.


As pessoas olhavam para Isabella e Renesmee com uma leve admiração no rosto, os humanos provavelmente tratavam-nas como duas irmãs de idade muito próxima, nunca poderiam desconfiar que na verdade eram mãe e filha, duas vampiras imortais, e que a primeira estava extremamente descontente com a segunda.

Renesmee olhava para Jane que agora havia se postado atrás dos três, a vampira havia levado um leve sermão de Aro e estava muito aborrecida. Caius e Athenodora estavam próximos também, assim como Alice e Marcus, todos pareciam estar apenas aguardando Isabella e Renesmee ajustarem suas diferenças.

– Há algo que possa explicar a cena que acabei de presenciar? – perguntou Isabella contendo a raiva com muito esforço.

– Uau – disse Nessie – Você até já está falando como uma rainha.

– Não ouse apontar este sarcasmo para mim, Renesmee, eu lhe fiz uma pergunta e exijo uma resposta.

A menina, apesar de contrariada, segurou a mão da mãe para se comunicar com ela através de seu dom; mesmo levemente entorpecida, Renesmee sabia que não seria prudente declarar na frente dos reis que estava tentando fugir à custa de Jane.

“Estava tentando usar aquela bruxa da Jane para fugir” – disse ela através do elo mental que criou com a mãe – “Pensei que se a distraísse, poderia fugir pelo portão norte... não há vampiros vigiando aquele portão em particular”.

“E o que, em nome de todos os santos desta terra, pensava em fazer depois de fugir daqui?”

“Encontrar Jacob, é claro” – declarou Renesmee, com efeito.

“Encontrar Jacob?” – repetiu Bella horrorizada – “Encontrar Jacob onde?”

E a isso, Nessie não tinha resposta e por uma única e simples razão... não havia planejado nada depois que passasse pelos portões de Volterra”.

– Vamos voltar... agora – declarou Isabella.

– Voltar para onde?

– Para casa, para o castelo.

– Meu Deus, você ouviu o que disse?

Sim, Isabella tinha ouvido.

– Renesmee – disse ela encarando Nessie, os olhos de Bella agora estavam levemente escurecidos pelo sangue humano que bebeu recentemente e a fúria neles imbuída fez com que a filha se cala-se imediatamente – Vamos voltar agora e teremos nossa conversa no palácio.

Mas ao se virar, Bella não caminhou... ao contrário, permaneceu imóvel no mesmo lugar. Renesmee encarou a mãe e logo em seguida desviou-se para o local que Bella olhava. Pouco mais à frente ela viu sua tia Alice encarando-as, mas seus olhos não estavam enxergando-as, estavam desfocados e vidrados como se ela estivesse sonhando acordada.

E tanto Isabella quanto Renesmee sabiam o que aquilo significava... Alice estava tendo uma de suas premonições.


Deve-se salientar que apesar de não parecer, Alice Cullen sempre foi capaz de controlar o seu dom de premonição. Anteriormente, ou ao menos quando a vida parecia menos complicada, Alice mantinha seu dom livre, ou seja, ela o mantinha sem rédeas, sem amarras ou coleiras... quando as premonições vinham ela simplesmente deixa que fluíssem pelo seu corpo e sua mente para que ela pudesse, mais tarde, separá-las e compreendê-las.

Mas, entretanto, quando se tornou uma prisioneira de Volterra, Alice acreditava que viriam resgatá-la, que Jasper viria resgatá-la e se ele decidisse qualquer coisa a respeito dela ou se qualquer um decidisse o que quer que fosse a respeito dela, suas premonições iriam avisá-la. Mas agora ela era uma prisioneira e se ela tivesse uma visão Aro poderia ler suas lembranças e encontrar esta visão no meio delas... se fosse uma premonição de um possível salvamento, os Volturi saberiam disso antes mesmo de os salvadores terem chegado.

Desta feita, Alice inibiu seu dom comprimindo-o no fundo de seu ser para que não se manifestasse e quando ela sentia que estava prestes a prever algo... parava. Deixava seu dom aprisionado, desconectado e preso dentro de si para não dar sequer uma única pista do futuro aos Volturi. Mas Alice pensou que seria temporário, achou que o plano que planejara daria resultado... mas não deu.

E ela descobriu que Jasper estava morto e então se esqueceu de muita coisa, inclusive de seu dom. E ela deixou seu poder adormecido, deixou que ele ficasse ali, dormindo em seu íntimo como uma relíquia esquecida... como algo que não servia para nada. Até hoje.

Até agora.


Alice estava apenas ali, chateada com Renesmee e depressiva quando pensava em Bella e Aro, assim como se sentia horrível pelo fato de estar sendo cortejada como um produto por vários Lordes vassalos dos Volturi, e acho que foi por isso que ela se distraiu.

E foi por isso que se esqueceu do dom e por isso ele voltou do nada a assaltando como um gatuno no meio da noite.

As luzes, o riso das crianças, a música, as pessoas... tudo tornou-se um borrão de cores desfocado e o som morreu. Alice sentiu seus pés fraquejarem e de repente a imagem formou-se em sua mente flutuante, clara como um amanhecer sobre uma praia de areias brancas; primeiro ela viu uma imensa torre feita de vitrais com tonalidades diversas que se mesclavam entre o azul e o vermelho, o verde e o amarelo numa onda multicolorida e cintilante... depois ela viu Bella vestida de seda clara e havia lágrimas de sangue em seus olhos, e logo um vulto alto e sombrio se aproximou dela e Bella olhou-o com tristeza.

“Eu não posso fazer isso” – disse ela num eco distante – “Por isso estou fugindo”.

“Você tem de ficar aqui para sempre agora” – respondeu o vulto num tom categórico.

“Não, eu não suportarei” – respondeu Bella logo depois de sair correndo.

E Alice viu Bella e Renesmee correndo pelas ruas de Volterra e depois se enveredando pelos portões abertos da entrada norte e correndo pelas florestas fechadas da Itália até o mar sem fim, desaparecendo em seguida no meio da água turbilhonante.

E quando a visão começou a voltar ao foco, Alice sentiu aquela habitual tontura que sempre sentia quando uma de suas previsões se manifestava, mas ela nunca se preocupou de cair uma vez que Jasper sempre esteve lá para apará-la. E desta vez ela também não caiu, porque uma mão evitou que seu corpo tocasse o chão... e no momento em que Alice voltou a si e olhou para cima seu coração imóvel pareceu capaz de saltar pela boca.

Porque a mão que aparou sua queda pertencia a um rei.

A Aro Volturi.

Aquele que absorvia todas as memórias de quem sua mão tocava.


Bella viu quando a irmã hesitou com aquela tão conhecida expressão vazia no rosto com que tantas vezes vira Alice ficar; Bella não achou que nem meio minuto tinha se passado quando Alice cambaleou e foi aparada por Aro. Renesmee se aproximou um pouco da mãe também imaginando que aquilo que acontecera era o que imaginara... que sua tia havia tido uma visão como há muito não acontecia.

Mas Bella também notou que poucos momentos depois de Aro ter aparado Alice, o rosto da irmã ergueu-se para encarar o do rei e uma expressão de medo e desespero inundou aquela face tão linda que Bella há tanto tempo conhecia.

E Alice realmente sentia medo.

No momento em que Aro a aparou ele viu em sua mente a visão que acabara de ter, vira que Bella pretendia fugir dele e então, não se contentando com o que aquilo poderia significar, em questão de segundos, vasculhou todas as memórias que Alice possuía desde o dia em que fora sequestrada. O rei acessou todas as memórias da Alice, cada conversa que teve com Bella, cada detalhe que pudesse explicar o comportamento da noiva e foi isto que causou a expressão de medo nela.

Aro descobriu o Plano.

O Plano que falhara.


– Então havia um plano – disse Aro num sibilo baixo e ofídico.

E Bella olhou para o Rei e viu a expressão de Aro escurecer numa fúria fria.

– Plano? – perguntou Caius se aproximando.

– As meninas Cullen tinham um plano para fugir de nós, irmão – respondeu Aro.

E então ali, diante delas, não havia mais Aro ou Caius ou Marcus da forma que haviam deixado o palácio, os vampiros que haviam caminhado entre humanos como homens comuns com suas paixões e amores não estavam mais presentes. O rosto dos Três agora sustentava a máscara dos Reis. Ali, diante delas, não havia mais nada além de uma frieza calculista e de uma impiedosa atitude de raiva... diante delas erguiam-se os Três, os Reis de Volterra, Senhores dos Vampiros.

Senhores de Volterra.

– Retornamos ao palácio? – questionou Caius.

– Sim. Imediatamente — respondeu Aro.

– Meu senhor? – perguntou Bella temerosa tentando parecer o mais natural possível – O aconteceu exatamente?

– Você sabe o que aconteceu, Isabella – tornou o Rei – E resolveremos isso no palácio.

– Cunhado – chamou Athenodora – Não é algum equívoco de julgamento...?

– Eu jamais julgo equivocamente, Athenodora. Isso é assunto dos Três.

E com isso, a Rainha lançou um olhar sincero e pesaroso para Bella e calou-se imediatamente.

O retorno não foi uma coisa muito agradável. Aro seguia na frente e logo atrás iam Caius e Athenodora, Marcus caminhava atrás destes seguido de perto por uma Alice que parecia prestes a despencar numa crise de choro; Bella caminhava preocupada atrás da irmã e era seguida por uma Renesmee que não conseguia saber do que é que se tratava tudo o que acontecera. Jane fechava o cortejo e parecia extremamente divertida.

As pessoas passavam pela comitiva de vampiros alheias ao que de fato representavam. As preocupações dos mortais, suas vidas limitadas e efêmeras, sua correria desabalada e diária... diante das intrigas e segredos dos mortais qualquer leve e tola preocupação dos humanos parecia insignificante. Os imortais passeavam entre os homens carregando consigo sua escuridão pessoal adquirida com o passar das imutáveis décadas e séculos... o peso da imortalidade lhes cobria como uma nuvem pesada e escura.

O palácio os acolheu com indiferença, os guardas saldaram os reis e as princesas, mas as faces não demonstrava nada além de uma total preocupação. Athenodora foi enviada para sua torre assim como Renesmee foi obrigada a subir para o quarto escoltada por Jane; Bella não gostou disso, mas não ousou abrir a boca levando em conta o humor de Aro. Ela temia o que ele vira e quando desciam para o Salão dos Tronos grudou na irmã e sussurrou o mais baixo que conseguiu:

– Alice, o que foi que aconteceu exatamente?

– Ele sabe de tudo – sentenciou a irmã apenas movendo os lábios.

E Bella sentiu o frio do medo apalpar-lhe o coração com garras geladas e imperdoáveis.


No Salão dos Tronos os Três tomaram seus respectivos lugares com Aro pouco à frente dos irmãos, não havia mais qualquer guarda ali, apenas os Reis e as duas princesas paradas à frente dos tronos como duas centelhas de luz esquálidas diante de uma escuridão densa e inabalável.

– Eu vi as suas memórias – declarou Aro encarando Alice – Explique-se.

– Foi uma visão apenas, meu senhor – gaguejou Alice – Não significa o que aparentou, as minhas visões nem sempre mostram um futuro concreto, quero dizer...

– Elas mostram a tomada de decisão de uma pessoa – cortou Caius.

– Isabella decidiu fugir aproveitando o plano que vocês arquitetaram – disse Aro numa voz monocórdia, ele parecia tentar ao máximo disfarçar a decepção na voz – Nos fizeram crer que estavam decididas a permanecer conosco em Volterra quando, na verdade, queriam apenas se aproveitar de nossa boa vontade, conquistar nossa confiança para fugir de nossa cidade. Não é isso?

O silêncio das meninas Cullen revelava mais do que era preciso.

– Traição é um crime capital em Volterra – disse Caius.

– De fato – concordou Aro.

– Meu senhor – chamou Bella assustada – O que isso significa?

– Alice foi a arquiteta deste plano... ela deve pagar por isso. Nós não aceitamos traições aqui dentro destes muros, Isabella – disse Caius – Sua irmã será sentenciada à morte.


Alice levou ambas as mãos aos lábios com o intuito de abafar um grito e Bella, por sua vez, sentiu o tempo desacelerar; ela olhou para o rosto irascível de Aro e percebeu que ali não haveria qualquer indício de piedade. Ele vestia a máscara do Rei. Mas um mal estar tomou conta dela, Bella olhou para a irmã e sentiu uma estranha náusea subir-lhe pela garganta... ela não conseguiria jamais conceber a ideia de perder Alice, ao menos não desta maneira. Edward e Jacob já lhe foram arrancados... mas Alice, nesta altura dos acontecimentos, ela não permitiria que lhe fosse tomada.

– Por favor... – começou Bella num sussurro suplicante e fraco devido ao choque, entretanto, não teve tempo de continuar sua súplica, pois a voz de outro rei se fez presente.

– Ela é responsabilidade minha Caius – disse Marcus com sua voz arrastada e estranhamente ecoante; havia uma pontada de ira naquele timbre antigo – Jurou lealdade a mim e a mim cabe julgá-la.

– Uma surpresa você se envolver nestes assuntos, irmão – disse Caius não escondendo o desgosto – E o que você sugere que façamos? Lembro-lhe que Alice é a autora de um plano que visava nos enganar para encontrar uma brecha para a fuga das meninas Cullen. O juramento delas a nós e mesmo a lealdade de seu amigo lobo agora estão em cheque... tudo foi feito de caso pensado para culminar numa fuga aproveitando que nosso rastreador foi destruído. De fato, agora me pergunto se o último ato de vida de Jacob Black ao destruir Demetri não era justamente para dar alguma vantagem a elas para uma possível escapatória de nós. Enfim, Alice teve a visão de que Bella declinaria do pedido de casamento de Aro, ou seja, ela não pretendia se casar com nosso irmão e obviamente desta atitude iria decorrer uma fuga, ou será que meu raciocínio está errado? O que você decide para sua tão esperta filha?

Marcus encarou uma Alice aterrorizada. Bella encarou Marcus com uma expressão de susto e Aro e Caius aguardavam a resposta do irmão que, por hábito, demorou quase vinte minutos para ser exposta. E essa demora quase matou as duas Cullen de desespero. E quanto Marcus falou, sua voz saiu lenta e metódica, baixa e arrastada como de costume, como se falar fosse sempre um esforço.

– Alice deverá permanecer presa nas catacumbas – disse Marcus e uma vez mais Alice levou as mãos ao rosto num gesto de terror – Até que Aro e Bella estejam casados, assim, depois da cerimônia, ela será libertada uma vez que não podemos permitir que a irmã de uma Rainha de Volterra permaneça prisioneira daquelas celas.

– Haverá um casamento? – perguntou Caius a contragosto.

Mas Aro não respondeu.


Bella viu aí uma chance única: a chance de salvar Alice e, muito provavelmente, a chance de salvar a todas de uma perdição certa. Ela não teve muito tempo para pensar, afinal, tudo aconteceu de forma muito abrupta... a visão inesperada de Alice que mostrava ela fugindo de Aro e a descoberta de um plano falho por parte dos Volturi. Ela sabia melhor do que ninguém que o preço de uma traição ali dentro do palácio era a morte; o que as salvou, surpreendentemente, foi a atitude de Marcus que não permitiu que Caius sentenciasse Alice a uma morte instantânea.

– Aro – Bella chamou com uma voz suplicante – Nós podemos conversar? Só nós dois?

– O que há para ser conversado? – cortou Caius impaciente – Por favor, Aro, você não irá cair nas armadilhas desta menina, não é mesmo? Os encantos das Cullen são tão fortes a ponto de ludibriar dois reis de Volterra? Depois de tudo o que você viu ainda vai dar uma chance a ela de lhe enganar uma vez mais?

– Aro, por favor – suplicou Bella dando um passo à frente – Nem tudo é o que parece, havia um plano sim... mas muita coisa mudou desde então. Pelo que diz sentir por mim, por favor, me conceda ao menos a chance de explicar.

Alice estava suficientemente aterrorizada com a perspectiva de ser morta ou aprisionada para se sentir mal pela atitude de Bella que agora suplicava a chance de explicar a Aro que o plano de fato nunca funcionou. E Bella estava tão desesperada para salvar a irmã que realmente deu a entender que não queria ter magoado Aro... e talvez tenha sido isso que as tenha salvo no fim das contas.

– Eu ouvirei o que tem a dizer – declarou Aro.

– Ah, isso é ridículo – desabafou Caius furioso, mas calou-se ante o olhar reprovador de Aro.

– Eu e Isabella teremos nossa conversa em particular e vocês aguardem aqui enquanto isso.

O Rei ergueu-se e desceu dos degraus com o rosto inexpressivo, passou por Bella e dirigiu-se para as portas duplas do salão, andava de forma rígida e levemente furiosa como apenas um homem anda depois que descobre a traição da mulher que ama. Bella não demorou a segui-lo imaginando o que exatamente conversaria com Aro já que ele descobrira tudo.

O Rei caminhou pelo corredor a passos largos com Bella em seu encalço, caminhou em silêncio durante todo o percurso e só parou diante de um par de portas sólidas de carvalho, abriu-as com um único golpe de mão e entrou no salão como um vento de raiva. Bella notou que jamais havia estado ali, era um salão amplo de colunas de pedra maciça e a única coisa que havia ali dentro era um ar envelhecido e parado. O silêncio do vazio invadiu os ouvidos de Bella que viu quando Aro Volturi parou diante de uma grande janela permanecendo imóvel como uma estátua.

Bella não sabia exatamente o que fazer... ela estava detestando o sentimento que se alojava no fundo de sua garganta, era como se ela se sentisse mal por Aro ter descoberto que ela pretendia fugir. E isso a deixou furiosa consigo mesma. Afinal de contas, o que diabos Aro Volturi fizera com a mente dela a ponto de ela sentir-se mal por traí-lo? Era como se ela realmente tivesse incorporado o juramento que fizera, como se já pertencesse à Volterra... ou pior, como se já fosse Isabella. Mas ela não podia se esquecer de que também tinha que manter a vida de Alice que agora estava por um fio.

– Aro – ela chamou-o baixinho.

– Há algo a ser dito, Isabella? – respondeu ele com uma fúria fria subindo-lhe na voz – Há realmente algo a ser dito?

Ele virou-se para ela e com certo alívio Bella constatou que ali não estava o Rei, mas sim o homem. O homem que era apaixonado por ela, por uma razão desconhecida, porém era algo ainda contornável, afinal, o Rei era impiedoso, já o homem podia ser pouco melhor.

Mas Bella sentiu novamente a raiva subir-lhe abruptamente, parecia aço derretido agarrando a sua garganta prestes a transbordar pela boca e queimar tudo ao redor. Ela estava farta de ter de medir suas palavras o tempo todo, farta de ter de cuidar de cada passo pensando que poderia ser o último... ela já não suportava mais viver com medo.

– O QUE VOCÊ ESPERAVA DE MIM, PELO AMOR DE DEUS? – berrou ela, sua voz reverberando pelas paredes como o estrondo de um trovão possante rolando pelas escadarias dos céus.

E naquele momento Aro obrigou-se a assumir uma expressão de surpresa, afinal, muito provavelmente, ninguém jamais havia tido a ousadia de erguer a voz para um Rei. Mas ela o fizera, Bella o fizera e agora parecia dar-se conta do possível erro que cometera; assim sendo, ela respirou fundo, alisou o vestido, e encarou Aro com o olhar mais humilde que pode encontrar para aquele momento.

– O que se espera de um prisioneiro a não ser o anseio pela fuga? – começou ela – Sim, havia um plano. Um ridículo plano que deu errado, ou melhor, um plano que jamais funcionou a não ser para acalentar as esperanças de duas esposas... duas viúvas. Vocês destruíram nossa família e não importa o quão bem intencional tenha sido as intenções dos Volturi, o fato é que destruiriam nosso lar e tudo o que amávamos. Mas ainda assim, este plano de Alice não passou de uma tolice.

– Acha que eu estou incomodado pela criancice de sua irmã? – disse Aro e sua voz revelou uma mágoa mais profunda do que Bella poderia supor – Na visão dela, você partia. Fugia de mim.

E a isso, Bella não teve resposta. No fim, Aro estava pouco se importando pelo fato de haver um plano ou uma possível traição por parte delas... ele se ressentiu porque na visão de Alice Bella decidiu fugir dele, abandoná-lo, e o sentimento de um homem abandonado era quase tão perigoso do que a de um Rei traído.

– Por que, pelos céus, você se apaixonou por mim? – perguntou Bella estarrecida.

– Eu sinceramente não sei – respondeu o Rei encarando-a – Por que amá-la, enfim? Por que não? Você é apenas uma menina, nada mais do que uma jovem que nem ao menos compreende direito todas as vicissitudes do mundo, mas há um brilho em você que me despertou a atenção; sua capacidade ímpar de me contrariar, sua fé inabalável no amor... sua natureza tão contraditória e estranha a mim. Eu lembro-me de vê-la humana e desejá-la, lembro-me de sentir inveja de seu marido quando recebi o convite de seu casamento e recordo-me de ficar feliz de poder tê-la como minha companhia aqui nesta casa de mortos.

– Mas buscar um por que, um motivo, uma resposta lógica e racional por eu amá-la é impossível, Isabella. Eu a amo por que amo. E é isso.


E era isso justamente que Bella não compreendia e talvez jamais pudesse compreender, mas a verdade pesou sobre ela de uma forma inexorável: Aro a amava e ela sabia que ele jamais a deixaria partir.

– Você jamais quis casar-se comigo, não é? – perguntou o Rei.

– Não – respondeu Bella sabendo que não adiantaria mentir para ele.

– Então por que jamais disse qualquer coisa a respeito?

– Medo.

– Tudo o que sente por mim é medo?

Mas Bella não respondeu. Ela não podia responder, afinal, o que poderia dizer a Aro? E esta era a primeira conversa realmente franca que os dois tinham... e ela viu que o olhar de Aro era triste com aquela revelação que ele, a bem da verdade, deveria já ter conhecimento. Mas o Rei deu as costas à vampira e voltou a olhar para a janela... Bella ficou ali sem saber exatamente o que pensar ou fazer, era muita coisa para a sua já tão exausta mente suportar.

– Por amá-la eu lhe darei a liberdade – disse Aro e Bella ergueu os olhos para ele sem entender – Posso lhe dar a Liberdade dos Volturi.

– A morte – disse Bella num sussurro.

– Sim, a morte. É a morte que lhe ofereço Isabella. Se viver com medo é a única opção que lhe resta eu lhe libertarei, libertarei a você e sua filha, sua irmã e seu amigo lobo... todos vocês. Obviamente é a única coisa que posso lhe oferecer...

– Esta é a lei Volturi – disse Bella – Os Três não poderiam permitir que algum prisioneiro saia de Volterra... demonstraria fraqueza.

– Mas eu estou disposto a lhe oferecer isso, Isabella. Aqui e agora. Toda esta dor pode desaparecer, você poderá partir e talvez encontrar seu precioso Edward no mundo de lá... e prometo que sua irmã, sua filha e o lobo a seguirão para a morte. Eu ofereço o meu amor, ofereço a você a cura para seus tormentos... ofereço-lhe a morte. A liberdade definitiva.


Se você não tivesse saída para um problema grave cuja única solução à mão fosse a morte... você aceitaria? Se um demônio, ao em vez de um anjo, lhe oferecesse a salvação... você aceitaria? Ser um Volturi ou morrer? A escolha pareceria fácil... seria uma decisão simples morrer, afinal, é muito melhor morrer do que viver como escrava o resto da eternidade. Muito melhor ser um cadáver do que um Volturi.

Mas para Bella, naquele momento, a resposta não era simples.

A princípio Bella sabia que sua obrigação era com Renesmee. Como mãe ela tinha que preservar a vida de sua filha, afinal, como poderia simplesmente entregar Nessie para a morte depois de ter literalmente morrido para ter lhe trazido à vida? Teria Bella o direito de escolher a morte de Alice e Quil? Quem ela era para decidir isso? Decidir pela vida de alguém?

E tudo isso passou pela mente de Bella como um relâmpago amargo, porém, ela sabia que acima de todas estas questões se encontrava algo maior... algo muito mais íntimo e egoísta: sua própria vida. E Bella estava com medo, ela sentiu medo, o medo de simplesmente morrer. O que havia, afinal, no mundo de lá? Haveria um mundo melhor? Haveria Edward esperando-a? Era possível?

No fim ela sentiu medo de morrer. Medo de jamais rever seu pai ou sua mãe... medo de jamais rever Renesmee. Bella sabia que era melhor morrer do que viver como Volturi, ela tinha consciência disso como tinha consciência dos seus braços e suas pernas, mas as coisas não são simples. Ela sentiu medo. A morte a assustou e ela não conseguiu aceitar a oferta de Aro Volturi.

E uma verdade inconveniente se abateu sobre Bella com a força de um maremoto: se ela não tinha coragem o suficiente para aceitar a morte e a liberdade que Aro lhe propôs, só havia um caminho a ser tomado, um caminho que protegeria a ela e Renesmee, a Alice e Quil.

Se Bella não iria morrer ela teria de se casar. Teria de deixar definitivamente de ser quem ela era para se tornar rainha. Não havia mais escolha, não havia mais Bella, agora ele seria Isabella Volturi. Edward estava morto, sua família estava morta, sua vontade também. Ela teve medo de morrer ou de condenar todos à morte e agora redefiniu suas escolhas... e seu futuro.

– Eu não quero morrer – disse ela numa voz baixa.

– E vai viver com medo o resto da eternidade?

– Não vou mais viver com medo.

– E o que vai ser então, Bella?

– Isabella – disse Bella resignada – Meu nome é Isabella. Você promete que Alice será solta assim que nos casarmos?

– Haverá um casamento?

– Você ainda me quer como rainha?

– Sim.

– Promete que ela não sofrerá nada?

– A palavra de Marcus foi dita e não pode ser desdita – disse Aro ainda levemente surpreso pela reação de Isabella – Alice deverá ser aprisionada.

– Eu me caso com você.

– Por medo.

– Não, não mais por medo. Eu estou escolhendo isso. Façamos o mais rápido possível, não quero minha irmã naquelas catacumbas amaldiçoadas por mais do que o tempo necessário.

– O casamento de um rei não funciona de um dia para o outro, Isabella. Reis não se casam em Volterra, mas no Pináculo da Luz que fica no sul. Os Lordes vampiros são convidados e tudo deve ser preparado, não podemos meramente adiantar as coisas... há protocolos.

– Quanto tempo?

– Uma semana, talvez.

– Então comece logo.

– Isabella...

– Aro?

– É uma mudança tremenda e repentina demais, isso tudo se deve ao medo de ver sua irmã morrer?

– Talvez sim – disse Bella – Mas eu decidi fazer uma escolha de uma vez por todas. Decidi parar com toda esta loucura. Edward está morto independente de tudo o que eu fizer ele jamais retornará para mim, minha Irmã e minha filha são muito mais importantes para mim do que eu mesma. Então eu me casarei com você. Eu serei uma Volturi. Serei sua Rainha. Esta é minha escolha. Eu escolho isso.

– Você está decidida?

– Sim – respondeu Bella – Poeira e vento...

– Poeira e vento – respondeu Aro tomando Isabella pela mão e retornando novamente em direção ao Salão dos Tronos.


Isabella suportou o peso atirado sobre seus ombros, aceitou o fardo que o destino lhe impôs.

Para salvar Alice ela se tornaria Rainha.

Para salvar Renesmee ela seria uma Volturi.

Para salvar Quil ela escolheu se casar.


Que Edward a perdoasse onde quer que estivesse.


O Pináculo da Luz a aguardava.



Notas finais
Próximo Capítulo: A Fada Aprisionada