Candor Lunar - Livro 2

25 Capítulo 24 - O Feitiço da Feiticeira


Notas iniciais
Bom dia, minha gente!
Bem, deixo avisado que a partir deste capítulo, muitos segredos estarão sendo revelados aos poucos, aos sussurros. Obviamente nada escancarado. Então é preciso ficar atento aos detalhes pequenos, são eles que estarão revelando muitos dos segredos da Fic.
Agora, trocando de saco para mala... quem aí assistiu Amanhecer Parte 2 no cinema? Muita gente já notou... nós tivemos um gostinho de Candor Lunar no filmes... kkkkk.
Escrevi o Livro 1 em 2010, então acho que tive uma revelção... huahuahu
E como possivelmente tem muita gente que não viu o filme, cuidado abaixo porque eu vou soltar um spoiler aí em baixo. Eu não ia fazer isso, mas não resisti... kkkk
*************** SPOILER***************SPOILER***************
Que é que foi aquela ultima encarada do Aro na Alice e na Bella? Cara, aqui foi muito Candor Lunar... kkkkkkk
*************** SPOILER***************SPOILER***************
Enfim, boa leitura a todos.
Ang.

\"\"

O crepúsculo ainda não havia terminado de se formar quando Charlotte chegara junto dos outros; ninguém pareceu notar sua presença. Jasper ainda não havia retornado e Carlisle estava em silêncio atado a seus pensamentos e a sua culpa que não diminuía. Não era preciso ser uma bruxa para saber que o patriarca da família Cullen se culpava por tudo o que acontecera a sua família... e agora ele sabia que não fizera nada para impedir que Jasper fosse atrás de uma vida humana.

Eles sabiam que era necessário.

Edward e Jacob também estavam velados por este silêncio modorrento que os envolvia como um véu de imobilidade. Ambos tinham a mesma consciência dos fatos que Carlisle: qual era a medida da bondade? Em que ponto se deixava de seguir pelo caminho da honestidade, da incorruptibilidade para se conquistar o que era necessário?

Charlotte não podia saber, mas suas palavras ainda reverberavam na mente de todos ali: “Vocês me dizem que fariam o que fosse necessário para salvar seus entes queridos, é isso mesmo?” Mas, de fato, até onde eles iriam? Fariam realmente o que fosse necessário? Ou melhor, o que seria exigido deles para conseguir o que almejavam?

A bruxa sentou-se contra o tronco de uma árvore e fechou os olho para meditar; Alec estava atirado num canto, silencioso como uma sombra. Mas logo a voz de Jacob soou na clareira para tirar todos do estupor.

- Volturi – chamou ele e sua voz carregava um tom de desprezo – Como estão Renesmee, Bella, Alice e Quil?

- São tratados como convidadas de honra – respondeu Alec num tom monocórdio – Alice e Bella ocupam a torre sul, há sempre dois guardas com elas, mas recebem honras de princesas. Seu amigo lobo está em uma cela fechada no lado oeste... mas, ainda assim, não é mal tratado.

- E Renesmee? — forçou o Alfa.

- Sua namoradinha serve a Caius – disse Alec num suspiro – É a companheira de Chelsea, de minha santa irmã Jane e de Felix. O grupo que executa ordens e serviços práticos dos Três.

- Mentira – vociferou o lobo pondo-se em pé – Jamais acreditarei que Renesmee serviria aos Volturi de bom grado...

- Não de bom grado, claro – atalhou Alec zombando da raiva de Jake – Ela é controlada por Chelsea a maior parte do tempo, caso tenha esquecido, Chelsea tem o poder de ligar as pessoas lealmente aos Três, e sua princesinha agora é apenas uma marionete de Caius. Mas isso foi uma punição a Bella, ela tentou libertar alguns humanos que serviriam de alimento durante a viagem para Volterra e, claro, foi o meio que Caius encontrou para dominar Renesmee. Mas tirando isso ela está ótima, não se preocupe.

- Ótima – zombou Garret – Vocês arrancaram tudo delas e as mantém presas numa torre, “ótima” é eufemismo de sua parte, Alec.

- Ah, por favor – resmungou o Volturi – Caso queiram reclamar de alguma coisa, façam isso a Aro, Caius e Marcus, não a mim. Acham que eu me importava com a inútil família de vocês? Se não fosse a paranoia de Aro e Caius nós nem teríamos ido à América, mas eles morrem de medo de deixar vampiros especiais soltos por aí...

- Tudo por medo de serem subjugados.

- Isso ou algo que não seja isso, não é mesmo, Garret? — riu Alec que, valendo-se do auxílio de Kaori, notou Edward esparramado no chão, distante dele, o olhando com um rosto sombrio – E quanto a você Edward? Caraminholas na cabeça? Nem se manifestou sobre sua preciosa Bella, o que foi que houve, já leu tudo o que queria de minha mente? Ou ficou mais estranho depois da surra que Felix lhe deu, eu fiquei surpreso, todos diziam que você havia morrido.


Mas Edward não se deu ao trabalho de responder. Ficou ali encarando-o por um tempo, e Alec notou a estranheza daquele olhar, não era o mesmo de antes, agora havia uma frieza latente ali. Alec era um ser das sombras e era capaz de detectar estas sombras em qualquer indivíduo, em qualquer criatura, e ali, no coração de Edward Cullen havia sombras. Mesmo que seus companheiros não percebesse, mesmo que Carlisle estivesse cego para isso, elas estavam ali, ramificando-se em sua mente como uma erva daninha.

O que você está guardando dentro de si, Edward Cullen?” — perguntou Alec para si mesmo — “Há algo na sua mente, não é mesmo? Algo escuro, viscoso e desagradável crescendo em suas ideias, alguma coisa tão maligna que você não é capaz de dividir com o santarrão do seu pai. Mas eu sou diferente, eu consigo sentir a sombra se adensando aí dentro. Pelo visto Jasper não é único que fará coisas que Carlisle desaprova. No fim de tudo, quando a coisa aperta, não nos tornamos todos Volturi?”

- Precisamos de algumas informações de Volterra, Alec – disse Carlisle.

- Depois – respondeu o vampiro menino – Amanhã talvez. Hoje, definitivamente, estou exausto. Boa noite.

Alec fechou os olhos e pareceu ausentar-se de todos ao redor, Carlisle nem ao menos desperdiçou seu tempo alongando seu pedido. Até ele não sentia-se disposto a discutir o caminho sombrio que os precedia. Já bastava o que seria feito quando Jasper retornasse.

Charlotte abriu os olhos no momento em que as estrelas surgiam no firmamento, singrando o cosmo negro como uma miríade de joias reluzentes e infinitas; nuvens espaçadas navegavam pelo céu escuro e um vento tranquilo soprava do sul. Ela tentou se concentrar no feitiço, mas tudo o que conseguiu foi pensar em Seth... e neste instante, como que por mágica, o lobo mais jovem surgiu por entre as folhagens esfregando um olho com mão como se tentasse espantar o sono.

- Por onde diabo você andou? — perguntou Jacob.

- Não sei ao certo, só sei que o sono me pegou e me colocou para dormir – respondeu Seth ainda sonolento.

- Quileutes! — riu Kaori – Onde encostam, dormem.

- Não sei o que me deu, acho que a canseira está me pegando afinal – brincou o lobo espetando uma salsicha que Jacob havia assado em uma fogueira baixa no solo.

Ele mastigou a salsicha lentamente como que tentando se lembrar de alguma coisa que teimava em fugir de sua mente, até que, finalmente, seus olhos focalizaram Charlotte e ele esqueceu-se completamente do que estava tentando lembrar. A bruxa, ainda ansiosa por tudo o que acontecera, não desviou do olhar do lobo, ao contrário, impensadamente, sustentou os olhos de Seth procurando se segurar ao máximo para não sorrir... ou para não cobrir a distância que os separava e atirar-se nos braços do rapaz.

Mas logo que pensou nisso, Charlotte recostou-se novamente na árvore e fechou os olhos com força, ela não poderia ficar levitando seus sentimentos em direção à Seth, o amor era algo poderoso e incontrolável, se ela, como feiticeira, ficasse pensando no lobo, ele imediatamente seria atraído ainda mais para perto dela... e isso seria a perdição de ambos.


E foi neste momento que Jasper chegou.

Silencioso como as sombras da noite. Austero. Sombrio. Determinado.

Jasper era letal, preciso, frio e imperdoável. Fora um solado espantoso. Um guerreiro temível... e agora, ali, saindo soturnamente da floresta em trevas, até mesmo os lobos o farejaram como um perigo. Um predador aproximando-se deles, espreitando-os com cuidado.

E, sobre um ombro, ele trazia uma carga desajeitada que atirou no meio da clareira sem qualquer cuidado ou gentileza. O fardo, envolto em uma lona grossa, gemeu baixo e choramingou um pouco até que o silêncio os atingisse novamente.

- Aí está o que você pediu – disse ele encarando Charlotte.

- Jasper – chamou Carlisle – Quem é este homem?

- Dono de uma boca de fumo em Gênova, tem uma ficha extensa na policia: assalto a mão armada, sequestros e homicídios. Como vê, foi o pior elemento que eu pude encontrar, perdi horas buscando e procurando, até que cheguei a este infeliz... não fará falta.

- É um ser humano, Jass – contrapôs Carlisle – Todos os humanos têm o valor da vida em si, mesmo que não tenham sabido utilizá-la com sabedoria. É uma lástima assim mesmo ter de destruir uma vida humana. É interessante o quanto somos testados, não é mesmo? O correto, se formos seguir nossa essência e nossa filosofia, seria não matá-lo para dar vida ao feitiço de Charlotte, mas, entretanto, precisamos disso para evitar que os Volturi enviem alguém para procurar os mercenários e Alec.

- Não temos escolha, Carlisle.

- Sempre temos escolha, Jasper. Sempre. A questão é definir qual escolha é essa. A partir do momento em que matarmos este homem seremos diferente de Aro, Caius e Marcus que devastam vidas para seus propósitos?

- Os Volturi destroem vidas inocentes – opinou Garret.

- Vida é vida, meu amigo – continuou Carlisle – Podemos maquiar o fato de que este homem é mal em sua índole, mas não sabemos o que o tornou isto que é hoje, não temos poder sobre suas escolhas. Não somos deuses para julgar e condenar uma vida. Nem temos moral para isso. Nos baseamos no fato de que este homem cometeu crimes, nos basemos no fato de que ele causou mal a terceiros, compreendemos que isso o torna condenável a morte? Não, infelizmente não... isso é uma lei Volturi. Condenar a morte um ser vivo por um crime que tenha cometido.

- Este homem pode ter feito coisas hediondas... — completou Jasper.

- E teria o direito de se arrepender, um dia, talvez. Agora que estamos aqui, eu sinto muito, filho, mas eu não sou Aro ou Caius ou Marcus, não irei julgar um homem segunda a lei da vida e da morte. Minha posição é contrária, eu sinto muito.

- Pois eu voto a favor – declarou Jasper – Não temos escolha, Carlisle, ou fazemos isso para maquiar nossa presença no território dos Volturi ou eles desconfiarão que aconteceu alguma coisa aos mercenários e virão atrás deles para saber notícias se Alec está morto ou não.

- Eu voto contra – disse Kaori – Me perdoe Jass, eu sei o quanto isso é importante, mas concordo com Carlisle. Eu sei o que é ver um vampiro ceifando vidas humanas e não compactuo com a prática, a única forma de sermos diferentes dos Volturi é não agir como eles.

- Acho que seria perigoso termos chegado até aqui e perder tudo devido a um empecilho como este – disse Garret – Eu entendo você, Carlisle, mas concordo com Jasper. Nesta altura do campeonato temos muito a perder. Como poderíamos correr este risco quando estamos tão perto?

A situação ficou levemente tensa quando os votos tornaram a empatar nesta votação que iniciou-se de forma repentina, mas que demarcava uma questão fundamental: matar um humano seria crime mesmo se tratando de um bandido? Com a questão complicada os quadro olharam para os dois lobos.

- Contra – disse Seth determinado – Eu existo para proteger os humanos, se é um bandido deve ser julgado pelas leis dos homens, não dos lobos ou vampiros. Não é honroso matar um homem indefeso, para um lobo não há glória destruir um ser mais fraco. Que enfrentemos Volterra de uma vez por todas com o que temos de nós mesmos, não é mesmo Jake?


Mas Jacob Black, o Senhor dos Lobos de La Push, não respondeu.

Seth encarou o companheiro incompreendendo seu silêncio, o Alfa evitou olhar o rapaz por um tempo até que finalmente ergueu os olhos; havia uma tristeza e um conflito imenso cingido naquele olhar cansado, e quando falou, a voz de Jacob saiu lastimosa como um pranto.

- Me perdoe, irmão, mas eu preciso ter Renesmee novamente e não posso arriscar que eles venham atrás de Alec, é melhor que pensem que está morto. Sou a favor.

- Mas Jake?

- Eles mataram Leah, Seth... e quase todos os nosso irmãos. Quilan quase morreu e crescerá órfão por causa deles. Há várias esposas sem maridos, filhos sem pais, pais sem filhos. Amores terminados e vidas inacabadas. Tiraram tudo de nós e não posso ser pego antes de reduzir a pós as muralhas de Volterra... eu sinto muito.

O silêncio novamente reinou e a questão continuou indefinida. Charlotte e Alec não eram da “família” e suas opiniões não contavam, por isso nem ao menos pensaram em se pronunciar. Mas ainda faltava um voto a ser computado, um voto que determinaria a morte ou a salvação do homem. O voto final.

- Edward – chamou Carlisle – Infelizmente, meu filho, cabe a você encerrar a questão.

Quando Edward levantou varreu seus companheiros com os olhos e depois encarou o fardo que era o homem e não disse uma palavra sequer, mas seus olhos diziam tudo. E Alec Volturi, percebeu este olhar através de Kaori. Não havia piedade ali, nem ódio, nem rancor, nem nada. O que ergueu-se foi uma sombra vingadora e Alec soube que o homem estava condenado à morte antes mesmo de Edward abrir a boca.

- Me perdoe, pai – disse ele olhado Carlisle – Mas Bella e Nessie são mais importantes para mim do que um vagabundo qualquer.

Carlisle lançou um olhar de desalento ao filho, Edward era seu companheiro mais antigo, seu amigo, seu irmão... seu filho. Ele pensou que Edward talvez ficasse ao lado dele, mas soube então que a ferida no coração do filho era muito mais profundo do que Edward deixava transparecer.

“O que você está tramando, Edward?” — perguntou-se Carlisle — “Há referência ao que Salesiana nos disse? Sobre você esquecer os pensamentos que rondavam sua mente? Você não é mais o mesmo de antes... o que de tão sombrio está tramando que não é capaz de compartilhar mesmo comigo?”


Charlotte ergueu-se do chão e caminhou até o homem caído, desenrolou-o das lonas com cuidado até expor um homem jovem, meio calvo, a face devastada pelo uso contínuos de drogas; o rosto estava transformado numa polpa de sangue onde Jasper o golpeara. Provavelmente, caso eles não estivessem prestes a matá-lo, ele morreria de uma forma ou de outra. Houve um leve suspiro quando o cheiro do sangue humano atingiu os vampiros, mas como estavam todos alimentados, conseguiram se controlar.

- Muito bem – suspirou Carlisle – Qual será o próximo passo?

Charlotte não se moveu. Por um segundo pensou em Seth e desejou pedir para o lobo se afastar dali, ela não queria que ele visse o que ela estava prestes a realizar... e para não deixar explícita a sua intenção, dirigiu o pedido a todos.

- Vocês não precisam ficar – disse ela – Só eu sou necessária para o feitiço, não é algo bonito de se ver.

- Foi decidido em votação – declarou Jacob Black – Somos todos responsáveis pela morte deste homem. Ficaremos e assistiremos ao seu fim, é o mínimo que podemos fazer.

- Que seja – a bruxa deu de ombros – Mas não atrapalhem o ritual.


A noite parecia mais tenebrosa a medida em que Charlotte realizava os preparativos para o seu encantamento, fiapos de nuvens passavam aceleradas pelo céu como se tivessem pressa em não participar do que seria realizado ali. As estrelas piscavam com menos força e seu brilho parecia tímido ante o mando negro da noite; um vento frio e traiçoeiro varria a a clareira fazendo com que um som fantasmagórico se erguesse da relva baixa.

A bruxa vasculhou sua mochila até encontrar um pequeno saco encardido, com um punhal afiado ela estocou o saco de onde um pó fino e negro como grafite começou a escoar em profusão. Ela obrigou todos a se afastarem enquanto traçava com o pó um círculo amplo no centro da clareira, tinha pelo menos quinze metros de diâmetro, enquanto traçava os limites ela sussurrava baixinho uma antiga prece de proteção. Quando terminou, apenas a bruxa, o homem caído e Vesgo John estavam no interior do círculo. O mercenário havia tentado fugir mais cedo, mas Jacob Black partira suas duas pernas para impedir que ele corresse.

- Você não quer que eu fique aí com você? — ofereceu-se Seth.

“Quero” — pensou Charlotte consigo mesma, mas não foi isso que respondeu.

- Eu não preciso de sua ajuda, criança – disse a bruxa não olhando para o lobo – Fique longe deste círculo se não quiser ter sua alma sugada do corpo. Isso serve para todos vocês, a partir de agora, não entrem neste círculo aconteça o que acontecer... se transpuserem a barreira, o feitiço pegara vocês também.

Os viajantes afastaram-se um passo para trás depois do alerta da feiticeira e, com isso, Charlotte pode dar continuidade ao encanto; ela posicionou-se no centro do círculo e olhou para as estrelas e para a lua que crescia cheia como um lago cintilante no céu, com cuidado ela dobrou as mangas de sua roupa deixando os antebraços nus, sua pele refulgindo à luz da lua. Charlotte sussurrou uma palavra e aos poucos um semicírculo se formou na pele de seus braços, era como uma tatuagem de tinta negra florescendo na macules de sua tez alva, linhas curvas do punho até o cotovelo.

No momento em que as linhas se tornaram completamente negras, Charlotte ergueu os punhos cerrados para o céu e uniu os dois antebraços, todos viram quando um círculo completo se formou na união das linhas curvas dos dois braços e, depois disso, a voz da bruxa encheu o ar. Mas não era uma voz comum, havia poder ali, era uma voz hipnotizante que parecia entrar diretamente na mente dos que ouviam.

E Charlotte pronunciou o encantamento:


Doce orvalho na grama, causa o frio que levanta... calor que espanta.

Noite de mil luas, estrelas... noite escura que espreita

Solo que acoberta os mortos... sepulta os vivos que choram

Lágrimas do céu que banham os mortais...

Clamo a força... inovo a forca... imploro o empréstimo

Da terra que não oferece abrigo quente

Dos céus cujo clangor soa destoante...

Eu invoco, das sombras passageiras

A impenetrável e poderosa... Barreira Fulgurante.


E, com isso, ouve um clarão de luz, o pó que Charlotte jogara no chão para demarcar o círculo incendiou-se, logo, uma muralha de luz ergueu-se do solo até o alto, numa altura superior à copa das árvores, uma parede de luz fosforescente num tom azulado. E assim que o encantamento foi despertado o vento assolou a clareira com o dobro de força, e todos ali prenderam a respiração ao olharem para o céu.

Kaori soltou uma exclamação de espanto e, instintivamente agarrou a mão que estava mais próxima dela... mas Alec olhava tão assombrado através dos olhos da vampira que não se importou com o toque súbito.

A lua agigantava-se sobre eles e as estrelas debruçavam-se do céu como se estivessem prestes a cair por terra. Era como se o céu estivesse tocando a clareira, era tão próximo que Seth pôde ver as galáxias e as nebulosas, as estrelas brilhantes como se estivesse a um passo de tocá-las com a mão. O brilho da lua imensa tornou-se quase insuportável e o calor das estrelas e sua energia pulsante podia ser sentida em suas peles como um incêndio gigantesco.

Era como se o céu tivesse caído sobre eles.

Estavam todos estupefatos, sem palavras... sem reação.

Mas, mesmo em estado de choque, Kaori sentiu quando Alec se aproximou dela com cuidado.

- Por favor – disse o Volturi num sussurro ao ouvido de Kaori – Você poderia desligar o seu poder de mim?

- Desligar? — não entendeu Kaori respondendo sem conseguir desviar a atenção daquela imagem espetacular.

- Eu já vi este feitiço sendo realizado uma vez... e foi o que bastou. Acredite em mim, não quero ver isso de novo. Prefiro ficar na escuridão.

- Mas é espantoso – respondeu Kaori hipnotizada e sem fôlego.

- Oh sim, espantoso até os gritos começarem. Escute, mesmo que eu feche os olhos eu continuo vendo devido ao seu poder, então será que poderia desligá-lo ao menos por enquanto?

Kaori desativou seu dom e Alec se desvencilhou do aperto da mão da vampira, com cuidado afastou-se dali e foi sentar-se de encontro a uma árvore tentando manter sua mente o mais longe possível.


E havia uma voz no vento. Uma voz elemental. Uma voz aérea e triste.

E assim, Jacob Black convenceu-se de que a magia era real e extremamente poderosa.

Com um aceno das mãos da bruxa, o corpo do homem ergueu-se do chão pairando levitando a poucos centímetros no ar, o mesmo aconteceu com Vesgo John que agora olhava com horror para a bruxa, o medo instaurado em sua face.

- Me libertem daqui – berrava ele desesperado – O que vão fazer? O que querem de mim? Eu digo o que quiserem que eu diga, mas me libertem daqui. O que vão fazer comigo?

Mas nenhum deles se moveu, até porque não podiam. Sem se darem conta, estavam hipnotizados pelo poder da bruxa, pelos sons das vozes no vento, pelo brilho da barreira que se erguia, pela luz que tocava suas faces... estavam encantados pelo encanto da feiticeira.

E quando o vento abrandou, Charlotte ergueu novamente as mãos para a lua, era como se ela pudesse tocar o imenso astro prateado, como se pudesse roubar sua aura de luz; todo o brilho das constelações parecia estar convergindo para a feiticeira. Ela abriu os braços o máximo que pode, esticou-os até tocar o peito do homem desmaiado com a mão direita e, com a esquerda, o peito do vampiro que cuspia pragas e clemência na noite enfeitiçada.

E, uma vez mais, a voz de Charlotte se fez soar:


Mãe dos espíritos que vagam nas sombras

Pai dos que habitam as profundidades mais externas

Aceitem a alma do mortal

Recolham o sopro de vida que paira nas vias internas.

Oh, brilho fulgurante cumpra seu dever.

Sele no não-vivo a vida a receber

Torna o que não vive vivo.

Torna o vivo no que não mais vive.

Aceita o sacrifício do espírito

Recolha o que deve recolher!


Quando a bruxa finalizou o encantamento, quando selou o pacto com as sombras, puxou as mãos com brutalidade e a lua pareceu explodir em milhões de pequenos pedaços que desceram à terra na forma de cacos de vidro cintilantes.

E foi neste instante em que os gritos começaram.

Gritos inumanos de agonia vindo de homem e vampiro que agora eram alvos do implacável feitiço que Charlotte lhes lançara; gritos de desespero que encheram a clareira como um canto lamurioso fazendo com que a pele dos Lobos se eriçasse. Ali, naquele local ermo, onde a o céu tocava a terra e a lua havia se feito em fragmentos prateados, os gritos pareciam selar um destino único a todos eles... um destino de sofrimento e de escolhas malditas.

Os olhos de Charlotte fulguravam num brilho esverdeado e sobrenatural e havia um poder sombrio sibilando pelo ar: havia voz naquele vento pestilento que soprava de dentro do círculo mágico. Mesmo Jacob Black, Senhor de La Push, temeu aquela voz estranha. Uma voz numa língua antiga, uma voz das profundezas da antiguidade que parecia emanar do nada hipnotizando quem a ouvia.

Subitamente, uma luz cegante explodiu dos olhos do homem que Jasper trouxera e, em seguida, de sua boca. A luz pairou no ar em forma de feixes até torcer-se sobre si própria e invadir os olhos e a boca de Vesgo John que, alucinado, gritava ainda mais. Seth sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo quando percebeu que a luz era, na verdade, o espírito do homem sacrificado... sua alma que estava sendo extirpada do próprio corpo como sacrifício pelo encanto.

E então, rápido como começou, tudo terminou.

Os andarilhos piscaram como se acabassem de despertar de um pesadelo horrendo, olharam uns para os outros e a expressão de choque estava estampada na face de cada um; Kaori estava um pouco pior... seu rosto era uma máscara de horror. Todos ergueram os olhos para o céu em busca das estrelas que estavam próximas e dos estilhaços da lua, mas viram apenas a normalidade celeste em sua plenitude noturna; a lua estava lá, prateada e brilhante e as estrelas continuam piscando tristemente a anos luz de distância.

O silêncio voltou a reinar da campina desolada. Nem mesmo a brisa noturna se encorajou a soprar, mas havia resquício de pó cintilante pairando pelo ar mostrando os fragmentos de uma magia recém realizada. Agora, sem a presença avassaladora da lua mágica do encantamento, a clareira parecia escura e sem vida, mas, ainda assim, no lusco fusco da madrugada, podia-se ver Charlotte em pé, uma figura solitária e sombria, sobre o corpo do homem e do vampiro que jaziam em silêncio sobre a relva.

Carlisle foi o primeiro a se mover em direção à bruxa, Seth o seguiu assim como Jacob, Edward, Jasper e Garret, mas Kaori não se atreveu a chegar mais perto e ficou ali, quieta como uma sombra da noite, retinindo sua beleza absurda de vampira sobre a luz da lua natural do céu.

O cadáver do homem estava seco e cadavérico como se toda a carne e músculos tivessem sido extraídos de seu corpo, a cavidade de onde deveriam estar os olhos agora não passavam de dois poços escuros e fumegantes. A boca desdentada se abria num fantasmagórico “O” de onde um grito eterno ecoava no outro mundo. Assemelhava-se a uma múmia milenar.

Vesgo John, por sua vez, estava deitado e seu rosto mostrava serenidade, seus olhos muito abertos numa expressão distraída, parecia muito tranquilo, como se coisa alguma tivesse acontecido.

Charlotte tinha os olhos muito fechados e tinha uma expressão de exaustão no rosto.

- Está feito? — perguntou Carlisle olhando com desalento para o cadáver do humano.

- Sim – respondeu Charlotte com uma voz cansada – O vampiro só despertará do estupor ao amanhecer do dia, levará algumas horas, depois disto fará o que o mandarmos fazer.

- Ele voltará ao normal algum dia? Digo, Vesgo John poderá se ver livre do seu feitiço?

- Sim, eu posso libertá-lo... quando o momento chegar.

Neste instante, o feitiço cobrou o preço e as forças de Charlotte se exauriram, a vampira tombou para trás, mas antes de tocar o solo, os braços ágeis de Seth a acolheram e num segundo a vampira descansava no colo do quileute. O lobo a carregou até a borda da floresta deitando-a em meio às folhagens fofas, os olhos verdes de Charlotte encontraram o castanho escuro dos olhos de Seth e o lobo se perdeu naqueles dois poços esverdeados... uma imagem de um beijo no meio de um lago se formou em sua mente, mas ele deduziu que seus pensamentos andavam lhe pregando peças.

- Agora você viu de que eu sou feita – disse Charlotte não conseguindo resistir, ela sabia que o melhor era permanecer em silêncio diante do lobo, mas seus sentimentos estavam arredios para com ela mesma.

- Não – respondeu Seth – Agora vi o que você aprendeu, vi que é capaz de manipular a magia e só. Mas eu sei que você não é má, Charlotte, sei que seu coração não pertence às sombras.

- E como poderia saber disso tudo?

- Sabendo...

A bruxa sentiu o perigo daquela voz, sabia que seus lábios rumariam instintivamente para a boca de Seth se ela não se controlasse, o cheiro do lobo, de mata silvestre, a intoxicava fazendo com que seus pensamentos ficassem nublados. Era uma atração estranha. Charlotte sentia como se ela tivesse esperado mil anos apenas para conhecer Seth... que ela havia se tornado imortal para aguardar que ele nascesse e a encontrasse naquele pântano sombrio.

- Vá – exigiu a bruxa – Deixe-me descansar.

Ela fechou os olhos e seu coração ficou triste quando o rapaz se afastou.


Os outros permaneceram ali, num círculo fechado encarando os corpos dos dois homens atirados na relva baixa; Jacob sentiu um mal estar tomá-lo no momento em que encarou o corpo ressacado do que fora, minutos antes, um homem vivo.

- Esta foi a coisa mais absurda que vi até hoje – disse ele num sussurro – E olhe que já andei vendo muita coisa.

- É o que devia ser feito – falou Edward.

- E o que o destino nos obrigará a fazer ou tramar para que saiamos vitoriosos? — perguntou Carlisle – Até que ponto desceremos além de matar um humano, retirar a vida de um homem? Se agirmos como Volturis, no fim, seremos diferentes de Aro, Caius e Marcus?

- Não – declarou Jasper – Não seremos diferentes deles. Seremos apenas vampiros. A batalha no Canadá foi o fim para sua filosofia, Carlisle. Eu sinto lhe dizer isso, mas seu estilo de vida não funciona; não é possível a nós permanecermos vivendo como humanos mesmo que seja isso que queiramos. Nossa família foi massacrada, nossos amigos mortos, não resta nada a não ser sombras e pó; depois desta viajem não seremos mais os Cullen como éramos... somos diferentes agora, fomos mudados pelo rigor da lei dos Volturi e não iremos vencê-los a não ser que joguemos no mesmo nível.

- Temos que sobrepujá-los sendo nós mesmos, Jasper.

- Seremos mortos sendo nós mesmos...

E dito isso, Jasper afastou-se do grupo deixando-os ali admirando o resultado do feitiço de Charlotte.

- Começo a achar que a bruxa realmente tem poder para nos ajudar – disse Jacob.

- Mas este poder cobra um preço – respondeu Kaori desviando o olhar do cadáver.

- Tudo tem seu preço... quanto mais sombrio o plano, mais alto é o preço – enfatizou Edward obscuramente e saiu de perto deles caminhando em direção às sombras da mata.

- Ele está diferente – reclamou Kaori – Algo o está incomodando.

- De fato – suspirou Carlisle – Mas Edward sempre foi muito reservado, seja lá o que o esteja incomodando só saberemos quando ele decidir nos contar.

- Espero que ele não esteja bolando nenhum plano sombrio – disse Jacob.

- Mais sombrio do que esta viagem? — ironizou Kaori.

- Ah, pelo modo como as coisas estão... nós ainda veremos muita coisa louca pelo caminho.


Jacob ajudou Carlisle a sepultar o homem morto. Enterraram-no sob um pé de olmo muito velho que crescia vigoroso ali na mata. Não houve palavras de despedida, nem versos de passagem para o outro mundo, apenas um silêncio prepotente de dois seres poderosos que foram cúmplices na morte daquele homem.

A noite correu escura e sem vida depois de toda luminosidade sobrenatural que Charlotte havia lançado sobre a clareira, cada viajante estava atirado em um canto com seus próprios pensamentos e só depois de algumas horas foi que Kaori ergueu-se de onde estava e caminhou um pouco para o interior da floresta até encontrar Alec sentado debaixo de uma árvore. O Volturi mantinha os olhos cegos abertos tentando ver o que não podia e ao se aproximar, Kaori ativou seu dom para que a visão de Alec voltasse.

- E desconcertante de certa forma – falou Alec – Você está se aproximando, mas tudo o que vejo é a minha própria imagem aqui chegando mais perto. Ver através dos olhos de outra pessoa nos dá uma perspectiva brevemente distante... é quase uma experiência pós-morte eu diria. Mas sempre é bom ter as imagens novamente em minha mente.

- Quando você viu este feitiço ser realizado? — perguntou Kaori, apesar de sentir pena, ela não ousava sentir simpatia por Alec.

- Há quase mil anos, provavelmente. Não me recordo, não sou bom com datas, nunca fui e nem me interessei por datas. Vi uma vez, mas não foi por Charlotte que este feitiço foi realizado, mas pelo pai dela, Forge. Numa noite enluarada como esta... lembro que fiquei impressionado com o brilho das estrelas próximas, tão próximas que podia sentir o calor delas queimando. Mas detestei a parte dos gritos.

- Estranho isso vindo de um Volturi.

- Claro, por que nós Volturis somos monstros das profundezas, não é mesmo? Não amamos nada e só destruímos... causamos o pavor, somos inaptos a sorrir ou cultivar sentimentos. Só os Cullen são bonzinhos e imaculados. Pare com isso, todos vocês agem da mesma forma, como se o fato de ser um Volturi me faz gostar de ver homens morrendo e gritos pelo ar. Está me confundindo... quem é a sádica é minha irmã, não eu. E, além disso, não sou mais um Volturi.

- Desculpe – disse Kaori sem jeito – Não foi minha intenção.

Alec virou o rosto para a vampira, mas tudo o que viu foi seu próprio rosto a encarar. Havia um quê de surpresa em sua face jovem, acho que pelo fato de alguém ter lhe pedido desculpas de forma tão sincera ou solícita.

- Você é uma criatura peculiar – disse Alec – Não é uma lutadora, parece tão frágil quanto uma menina assustada. Por que os segue para morte?

- Eles me salvaram... devo-lhes ao menos minha lealdade. Posso não ser uma lutadora, mas estou disposta a morrer com eles.

- Honroso.

- Não faça disto uma piada, Alec.

- Como quiser.

- Você disse que Forge havia feito este feitiço antes... para que ele usou?

- Para poder controlar o irmão de um homem poderoso – suspirou Alec desinteressado – Agora olho para estas traições que os Três perpetraram e me sinto enojado. Tantas mentiras, tantos segredos... tantas traições. Eu gostava de Matheu... de Arian também, eram vampiros poderosos e risonhos; mas eu os traí por lealdade aos Três. Vê como a lealdade não é algo fácil?

Kaori pensou em perguntar se Arian seria o filho de Aro, mas decidiu que talvez não fosse bom revelar isso a Alec, ela não sabia se ele realmente havia deixado os Volturi ou apenas estava enganando a todos. Além disso, o Volturi estava perdido em lembranças tristes e ela permitiu que ele as atirasse para fora de sua alma, mas notou que Alec parecia falar mais para ele próprio do que para ela.

- Não, decididamente lealdade não é algo fácil – continuo Alec – Sabe o que Matheu fez depois de liberto do feitiço de Forge e descobrindo que seu irmão Arian já estava aprisionado nas catacumbas de Volterra? Nada... ele podeira ter me chamado de traidor, poderia ter me desmembrado ou cuspido na minha cara, mas a única coisa que fez foi me olhar com aqueles olhos vermelhos e honestos carregados de decepção.

- A lealdade é como a gravidade, sempre te esmagando contra o solo. Eu traí meus melhores amigos e o que ganhei com isso? Fui traído por minha irmã. Ah, eu deveria ter ficado ao lado de Matheu e de Arian... deveria ter dado ouvidos a Bianca. Nós teríamos sido grandes, sabia? Talvez governantes melhores que os Três, mas eu os traí por lealdade aos Reis e agora está tudo perdido. Matheu me ignora completamente a quase mil anos... passa por mim como se eu fosse nada, um mero sopro amargo do passado. Quanto a Arian e Bianca...

Mas Alec não prosseguiu, ficou ali perdido em pensamentos e só depois de alguns momentos pareceu perceber que havia deixado seus pensamentos escaparem de sua mente e de seu coração, ele reassumiu seu tom sombrio e fechou os olhos afundando-se em meio às folhagens da mata. Mas Kaori não conseguiu evitar de perguntar.

- Isso é arrependimento? — quis saber ela.

- Arrepender-se de algo que não pode ser remediado ou desfeito é irrelevante – respondeu Alec com a sombra de um sorriso amargou lhe brotando dos lábios – Eu apenas convivo com isso.

Kaori permitiu que Alec permanecesse com suas lembranças, ela desligou seu dom para deixá-lo nas sombras... mas achou intrigante o que o vampiro lhe contara. Ela ouvira Salesiana e Charlotte mencionarem o nome de Arian, filho de Aro, tido como o mais forte dos imortais; fôra o feitiço de Forge quem selara Arian nas catacumbas de Volterra. Mas agora ela soube o por quê de Alec detestar este feitiço.

Pelo que Kaori compreendera, ele foi usado no irmão de Arian, Matheu, para provavelmente atraí-lo para uma armadilha e ser preso. E Bianca fora a primeira esposa de Aro e que, segundo Erestor, também está presa em Volterra... e todos eles eram amigos que Alec traiu por lealdade aos Três.

Mas se Arian e Bianca foram presos, por que Matheu permanecia servindo os Volturi? Será que também não passava de um refém? Poderia este Matheu se tornar um aliado dentro dos muros do palácio uma vez que antigamente tramara junto do irmão para trair os Volturi?

Kaori não soube responder, pensou em comentar isso com Carlisle e Edward, mas decidiu que deixaria para outro dia talvez... aquela noite já fora tormentosa e exaustiva para todos, mas ela compreendeu que havia muitos segredos em torno de Alec e que ele, talvez, fosse mais do que aparentava ser... mas do que ele próprio considerava ser. Talvez, no fundo, ele não fosse tão mal, só um homem atormentado pelo passado.


O dia despertou com uma leve cobertura de nuvens, mas o sol nascente já banhava de luz os campos verdejantes da Itália, havia um leve suspiro de brisa soprando pela clareira e que trouxe um fôlego renovado para os viajantes. Jacob e Seth terminavam seu desjejum enquanto os vampiros se reuniam ao redor do vampiro enfeitiçado.

Vesgo John estava em pé perante eles como se nada tivesse acontecido, seu semblante era tranquilo e seus modos normais, não parecia que havia sido vítima de um encantamento poderoso, Charlotte se aproximou dele e declarou em voz alta.

- Ouça sua tarefa, meu servo – disse ela numa voz hipnotizante – Voltarás até o covil dos Reis e lhes dirá que Alec está morto, explique que houve resistência e que apenas você sobreviveu. Conte-lhes detalhes da luta e de como Alec sucumbiu nas chamas e entregue-lhes isto – Charlotte depositou na mão do vampiro um bonito broche dourado no formato de um V, o broche que prendia a capa de Alec, o símbolo dos Volturi – Esta é a prova. Depois faça o que lhe mandarem fazer como normalmente faria, mas procure permanecer dentro das muralhas do castelo, uma vez que entremos lá, seu auxílio será requisitado, então fique atento ao meu chamado. E lembre-se, você nunca nos viu e não dirá nada sobre nós a ninguém. Agora vá.

- Sim, minha senhora – respondeu Vesgo John de imediato e partiu sem demora.

- Existe alguma chance de Aro perceber que ele está enfeitiçado? — perguntou Jasper enquanto observava o vampiro se afastar do grupo.

- Não – respondeu a bruxa.

- Mas Aro não é metido com estas artes mágicas? — questionou Jacob desconfiado.

- Aro Volturi não é um Mestre Feiticeiro – disse Charlotte – Ele apenas conhece as palavras que comandam as celas de Volterra, os feitiços de proteção do território e só. Não é capaz de perceber um feitiço desta magnitude. Estaremos seguros.

- Ele não vai parecer um robô o tempo todo, vai? — perguntou Seth.

- Não, criança – a bruxa teve cuidado de parecer impaciente com ele – Ele não se lembrará de nós, agirá normalmente como se tudo o que eu mandei fosse verdade. A realidade para ele é que Alec morreu e que somente ele sobreviveu. A verdade somente seu eu verdadeiro conhece, mas o seu eu real está preso pelo encantamento.

- Então partimos – chamou Edward – Nos demoramos mais do que prevíamos neste lugar aberto. Vamos andando.

O grupo o seguiu em silêncio atravessando floresta e campo, mas não utilizaram a estrada por onde Alec veio, durante o dia seria extremamente perigoso, a exposição seria fatal, eles teriam que continuar percorrendo as sombras das matas mesmo que isso os atrasasse um pouco. Garret e Jasper resolveram carregar Jacob e Seth nas costas... era uma sorte vampiros serem poderosos ou o peso dos quileutes os atrasaria, mas apesar de fortes, os lobos ainda eram humanos e a viagem já os estava fatigando além da conta.

Não demorou muito para que Seth pegasse no sono nas costas de Garret.

- Ótimo – lamentou-se o vampiro – Espero que este garoto não fique roncando no meu ouvido.

Charlotte seguia pouco atrás deles e teve que reprimir um sorriso ao olhar Seth dormindo serenamente no balanço suave da corrida de Garret, agora ela considerava muito difícil conseguir manter os olhos longe do jovem lobo.

Kaori e Alec seguiam atrás do grupo, Alec pouco afastado orientando-se através da visão da vampira. Kaori era uma mulher retraída e tímida, porém, contrastando com esta personalidade, também era consideravelmente curiosa... tanto que não conseguiu se conter sobre os assuntos que rondavam sua mente.

“Alec?” — chamou ela mentalmente para que ninguém mais ouvisse a conversa.

“Sim”.

“Você acha realmente que nós morrermos em Volterra?”

“Sim”.

“Nossa missão é tão falha assim?”

“Você está se dirigindo para uma cidade de vampiros... para lutar contra todos eles, acha realmente que há alguma esperança? A única forma de sobreviver é unindo-se aos Volturi... se vocês chegarem lá e se ajoelharem, bem, provavelmente viverão”.

“Jamais faríamos isso”

“Espero que sim, afinal de contas, eu sou um vampiro morto, se vocês decidirem se unir aos Volturi eu não saberei o que fazer uma vez que já tentaram me matar uma vez”

“Eu não deixaria que te destruíssem”

“ E por que não?”

“Porque sei que você não é mal”

“Eu tenho mil e trezentos anos de idade, menina” — debochou Alec — “Consegue imaginar quantas pessoas eu já matei? Quantos vampiros? Quantas traições participei? E você me diz ingenuamente que eu não sou mal?”

“Bem, talvez você seja” — respondeu Kaori timidamente — “Mas não acredito que queira continuar sendo assim, talvez você esteja cansado de ser mal agora que viu que no fim isto não compensa”.

E a isto Alec não teve resposta... então ficou quieto.


Durante algumas horas caminharam até que no final da manhã, quando o sol já erguia-se a pino sobre suas cabeças, Alec os conduziu por uma estrada rural afastada das cidades, a princípio o grupo não gostou da ideia, mas com os quileutes despertos e na forma humana era mais fácil caminhar por ali. Tiveram de adotar um ritmo lento, sete vampiros correndo a toda velocidade provocava um ruído alto como um vento furioso e isso, com certeza, poderia chamar a atenção dos vampiros da região.

Alec lhes informara que a Itália possuía a maior concentração de vampiros no mundo. Ali ficavam os principados dos vassalos dos Volturi, vários Duques, Baronesas e Senhores Vampiros habitavam a região. Então tornou-se complicado caminhar a esmo por ali. A estrada de chão batido mostrou-se deserta como Alec dissera, havia, muito raramente, uma fazendola aqui e ali com sua criação de vacas, cavalos ou plantação de cevada, trigo ou uvas. Era uma paisagem rural, tranquila e linda, apesar de que os viajantes não tinham interesse em desfrutar desta beleza natural.

Quando já haviam percorrido um longo trecho da estrada, Seth começou a cantarolar uma musiquinha, era uma melodia suave e popular na América, e pouco depois sorriu para os outros.

- Estão ouvindo? Alguém está tocando uma gaita de boca... muito legal.

- É mesmo – observou Carlisle – Não estava prestando atenção... deve ser algum morador da região, se encontramos alguém escondam-se rapidamente, debaixo deste sol nossa pele causaria uma impressão bem espantosa.

E a cada passo dado, cada metro percorrido, ficava evidente que eles estavam se aproximando cada vez mais do tocador da música... já estavam pensando em sair da estrada e se esconder quando Alec declarou numa voz pensativa.

- É estranho, mas eu conheço o som desta gaita, já a ouvi em algum lugar.

Então, de repente, depois de uma elevação que lhes obstruía a visão, deram de cara com um longo trecho plano onde a estrada se espreguiçava a uma longa distância; à beira do caminho uma plantação de macieiras se erguia exuberante com maçãs rebentando dos galhos num vermelho sanguinolento. Margeando a estrada erguia-se uma árvore frondosa, e em seus galhos, tranquilamente empoleirado e deitado, encontrava-se um vampiro.

Ao menos todos desconfiaram de que fosse um vampiro uma vez que sua pele fulgurava ao brilho do sol, ao ver o grupo o vampiro parou de tocar sua gaita de boca e acenou para eles com um sorriso branco de muitos dentes.

Charlotte, imediatamente, tirou sua tela de teias de aranha encantada, mas todos perceberam que nenhum fio havia arrebentado.

- Isso significa que ele não é um inimigo? — perguntou Seth.

- Não sei – respondeu Edward – Talvez sim, talvez não... como ludibriou sua magia?

- Não ludibriou – disse a bruxa – Talvez seja um vampiro errante que realmente não nos apresente perigo.

- De uma forma ou de outra – completou Jasper – Kaori e Alec devem ficar por aqui até termos certeza de que ele não é um inimigo. Não é bom que reconheçam Alec já que é para ele estar morto. Mas também não podemos ficar aqui parados para não dar na cara.

- Não dar na cara? — riu Jacob – Um bando de vampiros com dois índios gigantes?

- Vamos... — chamou Carlisle.


Com Alec e Kaori ficando para trás, o grupo diminuto caminhou lentamente, iam olhando para o meio das macieiras para tentar identificar algum inimigo, mas não ouviram nada, nem sentiram qualquer odor de vampiro. A melodia da gaita voltou a ser tocada enquanto eles se aproximavam do homem sentado no galho da árvore, o vento trouxe para eles a presença de um segundo vampiro, mas não conseguiram vê-lo e isso os deixou tensos.

Jasper assumiu a ponta direita do grupo enquanto Garret fechava a esquerda, os quileutes ficaram um pouco atrás, Edward seguia na frente e Carlisle e Charlotte no meio da formação. Não dariam chance para um ataque surpresa.

- Ei ei – chamou o vampiro sorridente de cima da árvore quando eles chegaram perto – Finalmente chegaram, eu os estava esperando a algum tempo. Demorou para eu encontrá-los, a chuva quase que apagou seu rastro. Mas não precisam temer, e pode desmanchar esta cara de brabo, moleque – disse o vampiro olhando para Jasper – Eu não sou ameaça pra vocês. Andei conversando com Erestor, meu velho amigo, e ele me falou que vocês viriam para cá. Mas estão atrasados meninos... ah, se estão. Temos que chegar a Volterra até a próxima lua crescente ou a nossa querida bruxinha não conseguirá nos colocar para dentro das muralhas. Ei ei, vamos logo meninos e meninas, não podemos demorar.

E dito isso, desprendeu-se da árvore e pousou no chão sem qualquer ruído; começou a tocar novamente sua gaita iniciando uma dancinha tosca que era mais cabriolamento do que dança. Era um sujeito esfarrapado tocando uma gaita velha e dançando dança de bêbado. Sua voz era melodiosa como a melodia que tocava, entoada como a declamação de um poema.

- Ei ei, vamos logo meninos e meninas... não podemos demorar. A lua deita e o sol nasce, e temos muito chão pela frente... ei ei, vamos logo, não demorem, vamos para a Cidadela dos Vampiros. Mas vamos já.


Estavam todos de tal forma estupefatos que ninguém se moveu. Ali a sua frente estava o vampiro mais estranho que lhes podia aparecer, sorrindo para eles e falando cantando... e o pior, sabia quem eles eram, sabia para onde iam... sabia de Erestor e de Charlotte e pelo visto... os convidava para ir a Volterra.


- Mas quem diabo é você? — perguntou Seth por fim.


- Ora ora, meus amigos – respondeu o vampiro fazendo uma mesura para todos eles – Eu sou Vrau Urban.

Notas finais
Tenham uma ótima semana.