Candor Lunar - Livro 2
23 Capítulo 22 - O Inimigo de meu Inimigo...
Notas iniciais
Na ansiedade pelo fim de ano já... kkk
Abração e boa leitura!
Ang.
A escuridão fazia parte de sua rotina. Nem mesmo o sol quente com seus raios luminosos era capaz de lançar em seus olhos algum resquício de claridade... a sombra o abraçava de forma inexorável impedindo que ele enxergasse qualquer coisa que fosse além de uma escuridão impenetrável. Mas, apesar disso, sua audição estava ainda mais afinada, seu olfato mais aguçado, ele conseguia compreender cada som e distinguir cada odor com ainda mais perfeição do que antes de ficar cego, como se seus outros sentidos sobrenaturais de vampiro estivessem tentando compensar sua deficiência recém-adquirida.
E mesmo sem enxergar, Alec conseguia ver que estava enrascado, pois no momento em que pensou em suas chances de fugir, quando imaginou se conseguiria ser mais rápido para partir em velocidade pelas árvores da floresta... um hálito quente e pegajoso atingiu sua nuca o envolvendo completamente. Alec ouviu quando uma bocarra abriu-se articulando uma fileira de dentes de sete centímetros de comprimento e tão afiados quanto navalhas; o vampiro ouviu o rosnar do lobo que mantinha suas presas a poucos centímetros de sua nuca, prestes a arrancar sua cabeça.
- O que nos diz, Volturi? – disse a voz de Edward Cullen acima dele – Pese bem suas palavras, pois elas podem ser as últimas que pronunciará neste mundo.
Ajoelhado no chão da mata, Alec sabia que estava cercado... havia dois lobos, um deles estava mais afastado do grupo, o outro que parecia maior e mais pesado posicionava-se atrás dele esperando poder matá-lo o mais rápido possível. Ao redor, espalhados, Alec pode sentir o cheiro de seis vampiros distintos, mas como não podia enxergar, apenas reconheceu alguns cuja voz era familiar... Carlisle e Edward eram dois deles, mas o resto não lhe era conhecido.
- Você está louco, Cullen – riu Alec – Acha realmente que eu os ajudaria a trair os Volturi?
- Você está cego da visão Alec, mas não creio que esteja tão cego assim... – retrucou Edward – Nós salvamos sua vida. Seus “companheiros” que tombaram em batalha tão bravamente estavam a poucos momentos de decapitá-lo, eu fiquei seriamente tentado a permitir que eles concluíssem a missão, mas, infelizmente, Carlisle nos proibiu. Então, Alec, nós não estamos pensando em usá-lo como moeda de troca uma vez que nos parece que seus mestres não estão mais interessados em seus serviços.
Por um segundo, Alec teve vontade de responder o tom sarcástico de Edward e atirar as palavras do Cullen de volta em sua cara, mas um gosto amargo surgiu em sua boca... o gosto da verdade. De fato, os Cullen haviam salvado sua vida, ele fora enganado... fora traído. Jane o traíra, sua própria irmã. A lembrança era capaz de amargar ainda mais o seu dia, uma lembrança que surgiu subitamente em suas memórias...
Em Volterra, Alec apenas distinguia o dia da noite pelo soar dos pássaros que crocitavam animados a cada nova alvorada, cada vez mais ele se sentia isolado dos outros no palácio, desde que sua visão se fora definitivamente os Reis não haviam mais requisitado sua presença... e sua vida útil no palácio pareceu terminar quando foi comprovado que seu poder estava reduzido. Agora a única coisa que restava eram as notas solitárias e tristes que ele retirava de seu Stradivárius.
Ainda percorria os corredores silenciosos do castelo solitário sem jamais se aproximar do Salão dos Tronos, aos poucos uma tristeza fria passou a se instalar em sua alma, como uma mão gelada comprimindo seu coração. Depois de tantos séculos, seus serviços estavam prestes a se tornar desnecessários, mesmo Jane não o via mais com tanta frequência.
Certa vez, valendo-se de suas lembranças seculares dos corredores, saiu para os jardins, e somente pelo cheiro do vento percebeu que era noite, fazia dias que ninguém falava com ele e uma tristeza solitária se apegava em suas mágoas carrancudas. Não demorou muito até que o cheiro de begônias e de rosas atingiu seu rosto e ele percebeu que estava caminhando pelos Jardins de Aro. Pressentia as estátuas e os arcos de pedra pouco antes de se chocar com eles e se desviava com uma leve pontada de frustração... até que discerniu o som de água corrente e percebeu que estava próximo à fonte.
Mas, subitamente, ele percebeu um perfume diferente do das rosas que cercavam a fonte, era algo parecido com morangos... e Alec franziu o cenho imaginando o que aquele perfume diferente estava fazendo ali... até que uma voz leve e educada se fez soar sobre o som tranquilo e sonolento da água na fonte.
- Boa noite, Alec.
- Isabella...
- Está perdido?
- Isso é uma espécie de piada de mau gosto?
- De forma alguma, apenas imaginei que com sua limitação... – disse Bella de modo suave.
- Eu estou exatamente onde pretendo estar.
- Entendo.
- Minha situação a diverte? – perguntou Alec impaciente.
- Eu me compadeço de sua situação – disse Bella de repente sussurrando no ouvido de Alec, ele sentiu um arrepio perpassar seu corpo, não fora capaz de ouvir a vampira se mover para trás dele – Até mesmo acho que fomos atingidos pela mesma maldição, não é mesmo Alec? Você perdeu sua visão e eu perdi meu marido... ambos conseguiremos viver com isso?
E tão silenciosa quanto veio ela se foi, Alec apenas sentiu a vampira se deslocar para longe dele, mas a mágoa e o rancor de suas palavras ainda pairavam ao redor de Alec como uma nuvem venenosa e tóxica. A fonte ainda jorrava sua água cristalina, o vento soprava fraco, mas Alec sentia como se a verdade o tivesse socado com força no estômago... conseguiria ele conviver com a escuridão eterna?
A canção que tocou naquela noite fora ainda mais melancólica.
Semanas passaram e a escuridão indomável não cedia... por dias Alec não havia deixado seus aposentos, por dias não se alimentava e não parecia tentado a fazê-lo; ele se tornara um fardo para seus mestres e sua irmã. Que utilidade teria agora? O que se tornaria além de um fantasma habitando uma torre?
Em um destes delírios solitários, enquanto arrancava suspiros tristes de seu violino, Alec escutou passos leves e despreocupados pelo corredor e logo após isso uma batida na porta de seu quarto, ele, obviamente, não se deu ao trabalho de se voltar para ver quem entrava no quarto... não conseguiria ver quem era, porém, o cheiro da vampira era inconfundível.
- A que devo a honra, minha cara irmã? – perguntou ele com um tom ácido.
- Nossos mestres requerem sua presença, Alec – respondeu Jane numa voz sem emoção, Alec ouviu quando ela sentou-se na cama e sentiu que estava sendo observado com cuidado – Você não notou nenhuma melhora?
- Não. Não enxergo nada e meu poder está instável... como da última vez. Quando testei nos guardas, alguns ficaram cegos, mas ainda eram capazes de sentir o cheiro e ouvir; outros ficaram surdos, mas enxergavam... ou seja, não consigo mais um resultado bom como antigamente.
- Bem, talvez seja o caso de se acostumar com esta nova situação – disse Jane depois de algum tempo em silêncio, era como se ela estivesse pensando ou medindo as palavras – Enfim, nossos mestres têm uma missão para você.
- Uma missão... para mim? – surpreendeu-se Alec.
- Sim, mesmo cego você é capaz de se orientar através da audição e querendo ou não é um líder e uma referência dentro da Guarda, eu estarei indo para o sul com Renesmee e Chelsea para dar algumas ordens a Flávius Aurélius e aquele exército preguiçoso. Você terá uma missão no norte...
- Que seria?
- Verificar as fronteiras, parece que existem alguns vampiros suspeitos rondando nossos territórios e temos que saber o que eles pretendem e quem são. Você liderará um grupo de batedores... será bom para sair um pouco não é mesmo?
- Sim – respondeu Alec, mas ele não gostou muito do tom que Jane usava, ela normalmente não era tão amável assim – Quer dizer que você irá para o sul e eu para o norte? O que é tão importante assim para os Três serem obrigados a perturbar Flávius?
- Algum problema com Vrau Urban segundo eu soube... provavelmente eu não irei me demorar no sul, mas é importante verificarmos as fronteiras norte e os Três não conseguiriam pensar em ninguém melhor para liderar uma missão do que você. Mesmo debilitado você ainda é importante para a Guarda.
Havia algo quebrado na voz de Jane, mas Alec não conseguiu detectar o que era. Cego, Alec não era capaz de encarar as expressões no rosto das pessoas e, com isso, não conseguia definir quando alguém estava mentindo para ele... como era o caso com sua irmã. Por que depois de tantos dias sozinho atirado a esmo pelo castelo os Três resolveram lhe dar uma missão para patrulhar fronteiras? Jane iria para o sul e ele se dirigiria sozinho com um grupo para o norte a fim de inspecionar um boato acerca de estranhos em território Volturi. Alec sabia que Jane escondia algo...
- Ficarei honrado em servir os Três novamente – disse ele por fim.
- Excelente, irmão – entusiasmou-se Jane erguendo-se da cama batendo palmas – Irei preparar tudo, você partirá amanhã ao nascer do dia... será uma ótima oportunidade para provar aos Três que você continua sendo um nome importante em nosso meio.
Não houve manhã para Alec Volturi. Nunca mais haveria manhãs. Ele apenas percebeu que amanhecera pelo cheiro do vento frio que costumava anteceder a aurora e pelo som dos pássaros matraqueando nas árvores. Ainda assim, vestiu as vestes negras da Guarda que Jane havia separado para ele e desceu para o Salão dos Tronos a fim de se reunir com o resto de seus companheiros e para ouvir as ordens dos Três.
No momento em que entrou no salão, Alec ouviu murmurinhos indistintos e em seguida um silêncio pesado, havia muitas pessoas ali e ele não foi capaz de distinguir o número exato devido à confusão de sons. Mas sentiu o leve cheiro de morango dos cabelos de Renesmee, o mesmo cheiro dos cabelos de Bella; assim como distinguiu o cheiro doce do perfume de sua irmã e o tom amadeirado do perfume de Chelsea. Também sentiu o cheiro de morte que os três reis exalavam... algo frio, implacável e imperdoável.
- Alec – disse Caius num voz doce – É bom tê-lo em nossa presença novamente, você andou muito enclausurado em seu amargor, sentimos falta de uma de nossas armas mais letais e fiéis.
- Meus mestres – disse Alec se aproximando de Jane com cuidado guiando-se pela distância do som das vozes – É um alívio saber que ainda precisam de meus serviços.
- Obviamente, obviamente – disse Caius, mas o seu tom de voz era frio como aço e Alec sabia que havia algo mais escondido naquela recepção calorosa – Agora vamos aos acertos finais... Aro?
- Sim – respondeu o Rei Vampiro de seu trono no centro e um pouco mais a frente que os outros dois, a voz de Aro soou a Alec levemente irritada – Jane, Renesmee e Chelsea se dirigirão até o Pináculo da Luz a fim de se encontrar com Flávius Aurélius, a informação desta missão já foi transmitida para as três e não há necessidade de repeti-la. Você, Alec, seguirá para o norte a fim de verificar nossas fronteiras... seu grupo já foi escolhido e está pronto para partir. Algum de vocês possui qualquer dúvida?
Uma vez que nenhum dos servos se manifestou, Caius os enxotou para suas missões com um aceno de mão brusco, ao notar o movimento do grupo maior, Alec os seguiu para fora dirigindo-se ao portão norte do palácio. Pelos passos notou que eram seis os vampiros que o seguiam e, apesar do desconforto, Alec teve de engolir o orgulho:
- Posso saber a quem foi concedida a honra de me acompanhar nesta missão? – perguntou Alec numa voz cortante, há séculos era um líder, mão direita dos Três e mesmo convalescido ele não permitiria que outros vampiros de castas inferiores pensassem que ele amoleceu ou que estava mais fraco devido ao seu ferimento... mesmo que ele próprio soubesse que não era mais tão poderoso quanto antes.
- Dorian, meu senhor Alec – disse uma voz áspera num tom jocoso que fez Alec sentir um arrepio – E junto de mim estão Robin, Arthur, Totio, Venceslau e Vesgo John.
Alec tentou ao máximo não enunciar seu desgosto... os Três o haviam enviado em uma missão com a escória de Volterra, onde sua irmã estava com a cabeça? Jane era a Capitã da Guarda e foi capaz de se meter com bandidos?
Dorian era um vampiro jovem, transformado na tenra idade de dezoito anos, mal tinha completado oitenta anos de vida imortal... e era um baderneiro tão pior quanto Vrau Urban. Os Volturi usavam o serviço dele e de sua gangue para assuntos sujos onde a Guarda era nobre demais para atuar... Dorian e seus cinco camaradas eram conhecidos como Os Miseráveis. Vampiros sujos e maltrapilhos que viviam nos guetos das grandes cidades caçando informações do submundo para os Reis. Mas agora, usá-los para missões da Guarda? Alec havia decaído tanto que sua presença só era capaz de reunir vagabundos a sua volta?
Alec lembrava-se do rosto de Dorian. Era um rosto jovem, porém embrutecido, com traços fortes que lembravam um ogro, era alto e corpulento e tinha negros pelos densos crescendo pelos braços; usava os cabelos imundos e compridos que possivelmente estariam infestados de piolhos se ele não fosse um vampiro. Seus olhos eram psicóticos e a vermelhidão de suas íris apenas aumentava ainda mais este aspecto bandido, malévolo e sádico.
Seus companheiros eram pouco melhores. Robin era um vampiro gordo e calvo, com uma cara lavada e pouco simpática; Arthur era um irlandês atarracado, forte como um touro e burro como uma porta... mas era muito veloz. Venceslau era um pouco menos louco que Dorian, fora transformado há séculos e fazia parte de uma trupe de saltimbancos antes de se tornar imortal, atirava facas como ninguém... e geralmente atormentava suas vítimas quase fazendo com que morressem de medo. Vesgo John não era vesgo e Alec não sabia direito porque ele tinha este apelido, mas era um homem alto e misterioso, com uma voz possante que ribombava feito um trovão; dentre todos era o menos pior, tinha modos educados e costumava se manter em silêncio o tempo todo, mas era o vampiro especial do grupo... tinha uma espécie de dom paralisante.
Totio se parecia mais com um zumbi do que com um vampiro.
Os Miseráveis eram miseráveis mesmo, feios, maltrapilhos, sujos, mal encarados, mal humorados... literalmente a escória da escória. E agora eram seus companheiros de missão, Alec apenas desejou que os Três não fossem doidos o suficiente para permitir que estes indivíduos fossem aceitos na Guarda... o fedor de Dorian provavelmente faria com que beldades como Chelsea ou Renesmee vomitassem as tripas.
- Bom, me pergunto o motivo pelo qual vocês foram eleitos para me acompanhar – disse Alec demonstrando sua insatisfação.
- É um trabalho melindroso este que vamos fazer, meu senhor – respondeu Dorian – Soube pelas ruas escuras de Veneza que alguns vampiros de má índole estão querendo encrenca nos territórios de nossos mestres...
- Sério? E que vampiros são estes?
- São ligados à seita de Vrau Urban, meu senhor, parece que querem encrenca... talvez sejam apenas uma distração para que seu líder fuja novamente. Não sabemos dizer ao certo, o que sabemos é que estavam rondando o norte e para isso fomos enviados.
- Qual o tamanho deste grupo?
- Parece que são apenas três, meu senhor.
- Três? – riu Alec – E vamos sair em missão até o norte para deter apenas três baderneiros? Faria mais sentido mandar um emissário para enxotá-los... eles apenas falam alto e nada mais, no momento em que são obrigados a lutar fogem; assim são os discípulos de Vrau Urban, covardes.
- Não sabemos nada disso, meu senhor Alec – disse Dorian numa voz cínica – Apenas servimos às ordens da Capitã, mas não precisa se preocupar... nós iremos cuidar muito bem do senhor.
Alec não gostou do modo como aquilo soou, confiava em Dorian com a mesma intensidade com que confiaria em um crocodilo faminto... ele fora obrigado a viajar ao norte com Os Miseráveis cuja reputação era sinistra e agora começou a desconfiar que a missão era um pouco mais do que parecia.
- Eu não preciso de cuidados, servo – rebateu Alec com a voz raivosa – Mais uma insinuação destas e passara a viagem toda sem alguns sentidos sensoriais... agora vamos, quanto antes partirmos antes voltamos e eu me verei livre da presença infecciosa de vocês.
O tempo não ajudou. Pouco depois de deixarem a Cidadela dos Vampiros um aguaceiro despencou do céu inundando o mundo sob um véu de chuva acirrada, o humor de Alec despencou além do que era possível... os viajantes tomaram estradas secundárias por onde poderiam se mover com mais velocidade e desprendimento. O problema é que estas estradas cortavam as zonas rurais e a chuva enlameou completamente as trilhas, não haviam percorrido nem mesmo um quarto do caminho e Alec já estava completamente sujo e molhado e para piorar o som da chuva comprometia sua orientação através do som.
O eco dos pingos reverberava e cobria os outros sons e isso obrigava Alec a se concentrar o máximo que podia para tentar separar e distinguir cada som de forma isolada... cego como estava, sua audição era essencial para poder caminhar. Mesmo o cheiro que o auxiliava na orientação estava encoberto pela chuva inclemente.
Os Miseráveis o acompanhavam em silêncio, mas hora ou outra Dorian soltava no ar uma piada de mau gosto ou uma observação depravada sobre alguma coisa qualquer, Alec sentia náuseas de pensar no que Jane estava planejando em tê-lo escalado para uma missão junto com estes vermes asquerosos. Mas ele estava pronto para mostrar que ainda era útil para Volterra.
Cobriram de forma muito lenta o caminho e quando a noite caiu foram obrigados a parar nos arredores de Florença... normalmente Alec era abrigado na casa de Lordes vassalos dos Volturi. Em Florença morava Baruc de Bergerac, um Lorde vampiro com mais de trezentos anos de idade, habitava uma bela e aconchegante casa de campo próxima a Florença, mas Alec conhecia os modos refinados de Baruc e jamais teria coragem de conduzir Os Miseráveis até a casa dele. Provavelmente o Lorde jamais tornaria a olhá-lo com bons olhos depois disso.
Para tanto, resolveu parar num ponto onde a mata era mais densa e os olmos antigos cresciam muito próximos uns dos outros proporcionando alguma proteção da chuva fria... Dorian e seus companheiros não reclamaram de permanecerem ao relento debaixo da chuva, provavelmente estavam acostumados a pernoitar em lugares quase tão ruins quanto a floresta vazia. Alec, por sua vez, recostou-se contra o tronco de uma nodosa árvore e acomodou-se no solo fofo da mata, puxou o capuz de sua capa sobre o rosto e deixou-se permanecer ali escutando a chuva caindo com um som gorgolejante e sonolento sobre as folhas das árvores.
Seu descanso consistiu nisso, não precisar ficar atento a todos os sons, e a chuva caindo lhe proporcionou uma paz momentânea, mas, entretanto, quando a madrugada se aproximava, a chuva tornou-se tormenta e os pingos d’água engordaram a ponto de varrer tudo a seu caminho. Praguejando, Dorian propôs que eles subissem nos galhos das árvores uma vez que o solo da floresta estava se tornando um rio corrente carregando tudo em seu caminho... Alec não gostou da ideia.
Cego ele não podia ver os galhos das árvores, com a chuva estrondando ao seu redor ele também não podia ouvir direito os sons da noite... assim, para não ser obrigado a pedir ajuda a algum de seus companheiros (e consequentemente parecer fraco), Alec cravou as mãos no tronco da árvore e começou a escalá-la cuidadosamente, com apalpadelas cuidadosas ele descobriu um galho mais grosso e se colocou sobre ele com um salto. Voltou a acomodar-se contra o tronco da árvore e se perdeu em pensamentos, embalado pela chuva e pelo vento impiedoso.
A aurora trouxe mais chuva e mais vento e a vida de Alec se tornou ainda mais penosa, o tempo o estava castigando com açoites da natureza, ele custava a se orientar pelo som e mais de uma vez sentiu seus pés deixando a trilha da estrada e tocando o mato que cercava o caminho... ele jurou ter ouvido certa vez uma risadinha de deboche vindo do grupo que o seguia, mas não se deu ao trabalho de parar e brigar.
- Estamos próximos às fronteiras do norte onde os intrusos andam rondando – declarou Dorian em voz alta para que Alec o escutasse em meio à chuvarada.
- Teremos de vasculhar toda a área ou você tem alguma ideia de onde eles se encontram? – perguntou Alec.
- Sim senhor, nós temos uma ideia de onde eles estão acampados...
- Onde estamos exatamente? Estamos próximos deles?
- Estamos pouco ao sul de Milão, teremos que nos desviar mais para nordeste agora a fim de encontrá-los.
- Ótimo, não vamos nos demorar... – disse Alec desanimado.
Alec permitiu que Dorian se move primeiro a fim de segui-lo na direção correta, assim que amanheceu completamente a chuva diminuiu e transformou-se numa garoa pegajosa... as estradas rurais continuavam lamacentas e movediças e Alec tomou novamente a dianteira agora com mais vigor uma vez que a garoa permitia que ele se orientasse melhor; sempre que enveredava muito para fora da estrada, o som do vento no mato rasteiro o colocava novamente no caminho certo.
Mas ainda assim, ele percebeu o quão séria era sua situação, sem enxergar ele corria apenas pela coragem de se manter vivo, mas sua audição nunca seria o suficiente para mantê-lo ao lado de Jane na Guarda Volturi. Mal conseguia ele se mover pelas trilhas lamacentas, como poderia se proteger numa luta? Se ao menos o seu poder estivesse completo ele ainda teria chance de destruir oponentes, mas nem mesmo com isto ele contava mais... seu poder estava limitado.
O que aconteceria quando eles encontrassem o grupo ligado a Vrau Urban? Será que os esfarrapados de Dorian cuidariam do problema sem ele? Ou para piorar, será que ele iria apenas atrapalhá-los? Se Alec dependesse de outros vampiros para lutar suas lutas... então realmente seria preferível que ele fosse morto de uma vez a ter de servir de estorvo até mesmo para escórias como Os Miseráveis.
Eles haviam coberto mais alguns quilômetros quando, de repente, a garoa deu uma trégua e uma ventania feroz atingiu os viajantes... e justamente este vento foi o emissário de más notícias para Alec, este vento foi o mensageiro de mau agouros... Foi este vento que fez Alec parar de repente.
Pelo cheiro de resina, e pelo som das copas das árvores, Alec percebeu que estava próximo a uma floresta, percebeu que era uma clareira pelo modo como o capim crescia ali, mais alto onde o sol batia com mais vigor sem a proteção das árvores. Mas fora o cheiro que o vento trouxe que lhe fez parar abruptamente...
- Algum problema, meu senhor? – perguntou Dorian pouco mais atrás, Alec notou pelo som dos passos que Os Miseráveis haviam parado ao seu redor... silenciosos como sombras na noite.
- Por que nós viramos para o lado errado? – perguntou Alec lentamente.
- Perdão, não estou entendendo.
- Dorian, você me disse que deveríamos seguir para nordeste a fim de encontrar o acampamento dos aliados de Vrau Urban, mas você me enganou... nós viramos para noroeste em direção a Gênova... e eu quero saber o por quê.
- Como descobriu isso estando cego como um morcego? – perguntou Dorian numa voz jocosa.
- O vento... o vento trouxe o cheiro do mar, primeiramente eu pensei que pudesse ser Veneza, mas este não é o cheiro do Mar Adriático e sim do Mediterrâneo, o que significa que nos dirigimos na direção oposta e nos aproximamos de Gênova. Vou perguntar novamente, Dorian... o que pretende com isso?
- Eu sinto muito, meu senhorzinho Alec – riu Dorian e Alec ouviu enquanto os vampiros o cercavam por todos os lados – Mas não nos foi ordenado que soubesse o plano, apenas que morresse de forma indolor.
- Como?
- É exatamente isso... foi nos ordenado sua execução. Você se tornou dispensável, Alec. Cego como está e com seu poder minguando você não tem mais qualquer serventia para os Volturi. Mas seria muito ruim para a lealdade dos servos do castelo se você fosse simplesmente descartado assim... eles poderiam considerar muita ingratidão dos Mestres, assim... seria muito mais cômodo você morrer em uma missão. Como um herói.
Alec não se moveu. Uma mão cruelmente gelada apertou seu coração. Ele fora enganado. Traído. Jane o traiu, ela é a Capitã da guarda, é a quem dá as ordens, quem as executa... a missão era uma farsa, não havia qualquer invasor nas fronteiras norte, ele foi enviado ali com uma mentira para ser morto longe de Volterra... longe de casa.
- Então foi por isso que Os Miseráveis foram escolhidos para esta missão, não é mesmo? – Alec perguntou numa voz morta enquanto ouvia os vampiros o cercando – Afinal, nenhum guarda de honra aceitaria a tarefa de assassinar um companheiro. É uma lei Volturi: os componentes juramentados da Guarda Volturi não entram em conflito entre si, não desejam os bens e riquezas dos outros, não cobiçam os companheiros dos outros. Só mesmo ratos de esgoto como vocês poderiam aceitar a incumbência de me matar.
Dorian riu alto e Alec se virou para eles. Estava cercado. Ele sentiu uma súbita fúria tomar-lhe, agarrando-o com um abraço de fogo, depois de séculos servindo aos Três, depois de milênios ao lado de Jane servindo como seu protetor e irmão é isso que ele ganharia? Uma morte vergonhosa à surdina?
- Como eu disse, Alec – disse Dorian – Foi-nos recomendado que você morresse sem dor alguma, por isso seja bonzinho e nos permita desmembrá-lo rapidamente... Robin, o fogo.
Algo se estilhaçou pouco atrás de Alec e ele sentiu chamas crescerem no capim molhado, mais frascos foram atirados para impedir que as chamas se dissolvessem sobre o solo úmido da clareira. Os Miseráveis deram um passo cuidadoso à frente e Alec riu.
- Então ainda temem um vampiro cego? – gritou ele em desafio – Eu posso morrer hoje, mas garanto que algum de vocês me acompanhará. Venham, covardes imundos... mas não se esqueçam de quem eu sou.
E tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Alec ouviu lâminas sendo suavemente desembainhadas, soube então que Venceslau havia decido fatiá-lo aos pedaços com suas facas de circo... com um impulso, Alec atirou-se para frente no mesmo instante em que acionava o seu dom. A clareira foi tomada por um névoa invisível que causou um leve torpor nos vampiros atacantes; eles sentiram como se um tampão tivesse sido colocado em seus ouvidos, seus olhos adquiriram um tom nevoento e seus olfatos foram afetados... mas não permanentemente.
E Alec descobriu isso da pior maneira possível.
Antigamente, seu poder era capaz de incapacitar qualquer oponente e tirá-lo permanentemente de combate, suas vítimas perdiam o olfato, audição e a visão... suas peles amorteciam quando o tato também era anulado. Agora, porém, o máximo que Alec conseguia com seu dom era reduzir os sentidos dos outros e isso nem de longe o ajudaria contra seis oponentes... principalmente estando cego.
Nem bem havia se deslocado, Alec ouviu as facas afiadas de Venceslau uivando pelo ar como dois cometas velozes, antes mesmo de tocar em seu primeiro oponente, as lâminas cravaram-se em suas costas com a força de um coice; Alec sentiu a dor excruciante varrer seu corpo, mas não se deixou cair. Ele seguiu o som de onde a voz de Dorian saiu e quanto percebeu que se aproximava dele, lançou-se no ar contra o vampiro, os dois pés de Alec uniram-se e se chocaram com força contra o peito de Dorian atirando-o para longe.
Quando tocou o solo novamente agachou-se de imediato e desviou por sorte de um golpe de Arthur que mirava seu rosto... uma vez mais ele ergueu-se e cravou um potente golpe no corpo do adversário afastando-o de si. Mas mais uma lâmina uivou no ar atingindo-o na coxa e cravando-se fundo em sua carne de mármore. Alec vacilou por um momento e fora atingido por um golpe nas costas, caiu pesadamente no chão e tentou levantar-se com rapidez, mas não conseguiu. Outro vampiro o agarrou pela nuca e laçou um braço poderoso ao redor do seu pescoço mantendo-o imóvel.
“Isso é péssimo”, pensou consigo mesmo, “sem meu dom eu não sou páreo para eles, serei morto sem o menor esforço”.
- Deixem-no imóvel – berrou Dorian se aproximando – Vamos começar o esquartejamento, mas deixem a cabeça por último, este cretino tem de sofrer por ter resolvido reagir...
Alec, num desespero claro, pensou num último golpe... era sua única chance. Ele sabia que seu poder estava dissipado entre seus inimigos, mas não estava conseguindo incapacitá-los totalmente, então, pensou em outra saída. Concentrou-se em não tirar todos os sentidos, mas apenas um; talvez focando em desabilitar um dos sentidos de seus adversários, a sua névoa letal reagisse com mais eficácia... reunindo toda a sua força minguante, Alec se concentrou e por uma sorte do destino... seu plano triunfou.
- Mas que diabos? – rugiu Totio – Eu não estou enxergando nada... este maldito me deixou cego!
Logo o lamento dos outros o atingiram, Alec conseguira cegá-los e agora tinha vantagem, afinal de contas, estava cego a mais tempo e seus outros sentidos já haviam se acostumado com a escuridão total. Além disso, Alec era um vampiro milenar enquanto os outros ao seu redor não passavam de vampiros jovens... sua força e sua experiência em batalha era muito superior aos assassinos que o molestavam.
Com um impulso rápido, Alec tirou os pés do chão e deixou a gravidade, o peso de seu corpo, e a cegarei repentina afrouxarem o abraço de seu oponente, o Volturi escorregou para o chão e rápido como um raio deu a volta em seu oponente e agarrou-lhe os braços por trás colocando os dois pés em suas costas; o vampiro deu um urro de susto e Alec puxou com força e violência até ouvir um estalo alto. Os braços do vampiro foram arrancados de seu corpo e Alec saiu com eles nas mãos como dois bastões dando bordoada em quem estivesse próximo.
Com seus adversários praguejando alto, Alec pode identificar através de sua audição o local exato onde eles se encontravam, com três facas cravadas no corpo, ele se movia com lentidão, mas, ainda assim, tinha a vantagem. Tudo o que precisava fazer era manter seu poder cegando os vampiros... conseguiu encontrar mais um e percebeu que se tratava de Robin pelo tamanho do corpo gordo com que se chocou, sem perder tempo atirou os punhos contra o vampiro jogando-o para longe. Sua intenção era encontrar e matar Dorian antes que os outros o pegassem, pelo menos aquele maldito morreria junto com ele.
Mas, antes que conseguisse realizar seu intento, Dorian berrou uma ordem.
- Vesgo John, seu maldito incompetente, faça alguma coisa... pare o desgraçado!
Alec ainda conseguiu atingir mais um oponente antes de ser pego pelo poder de Vesgo John; sentiu todo o seu corpo amortecer, de repente não tinha mais controle sobre seus membros e caiu ao chão completamente imóvel. O poder do vampiro fez com que Alec se desesperasse por não conseguir mais sustentar o seu dom... um segundo depois sentiu os vampiros cercando-o já completamente livres da cegueira.
- É – comentou Arthur – Apesar de cego e aleijado este cara deu trabalho até.
- Como conseguiu me encontrar estando cego? – Alec perguntou.
- Simples, nós somos maltrapilhos, meu senhor Alec – respondeu Vesgo John com sua voz possante – E o senhor cheira a riqueza com suas vestes novas de Volterra... foi fácil encontrá-lo no meio de tanto mal cheiro.
- Vamos desmembrá-lo de uma vez e atirá-lo ao fogo – rugiu Robin.
- Ao menos me deem uma morte honrada seus vermes – disse Alec desafiador.
- Ah, que se dane – disse Dorian – Façam o que ele pede para podermos nos mandar deste lugar, isto já demorou além da conta.
Vesgo John ergueu Alec com delicadeza e colocou-o de joelho sobre o capim úmido, o fogo ainda crepitava e estava forte apesar da umidade do ar, Alec sentiu quando Arthur, com seu corpo pesado, se aproximou dele colocando um mão ao redor de seu pescoço pronto para matá-lo instantaneamente. Ao menos ele não sofreria muito.
- Um ultimo desejo? – perguntou Dorian.
- Sim, diga àqueles velhos malditos e à minha irmã que eu os espero no inferno – disse Alec.
Assim, Arthur forçou a mão e Alec sentiu sua garganta sendo esmagada, o aperto se intensificou e o Volturi sentiu que sua cabeça iria ser arrancada de seu corpo, subitamente um medo horrível perpassou por seu coração... finalmente, depois de mais de um milênio, ele seria definitivamente morto.
Mas, então, o som chegou até eles.
Era o som de algo se movendo pela floresta, um animal sobre quatro patas, algo grande e veloz, pesado e estranho... vinha amassando o solo fofo da floresta e se chocando contra as árvores numa velocidade espantosa. Alec, acostumado a uma audição mais refinada, percebeu que não se tratava apenas de um, mas dois seres colossais se dirigindo até eles. Os seus captores também notaram, pois Arthur afrouxou o aperto.
- Mas o que diabo é isso? – perguntou Totio desconfiado.
- Você também está ouvindo? – indagou Venceslau.
- Está vindo para cá – sentenciou Robin.
E então silêncio. Os passos diminuíram o ritmo quando se aproximaram da borda da floresta, Alec sentiu o vento em seu rosto novamente e um cheiro forte de animais com pelagem densa e molhada... era um cheiro estranhamente familiar, lembrou-se Alec, como do lobo que os Volturi mantinham preso em Volterra. Ele estranhou aquele fato, mas suas dúvidas tornaram-se certeza quando, numa voz aterrorizada, Dorian gritou em aviso:
- LOBISOMENS!
Alec não entendeu o que estava acontecendo, tampouco se deu ao trabalho de entender, nem bem havia registrado o terror no grito de Dorian quando um corpo peludo e grande chocou-se contra o vampiro que o segurava. Alec tombou no capim fofo e molhado, sua cabeça dava voltas e ele sentia-se atordoado, tanto pela surra que levou como pelo fato de ter usado seu poder além da conta... mas a verdade é que mesmo zonzo ele ergueu-se e voltou a se colocar de joelhos.
- Arthur, que diabo está acontecendo? – perguntou ele.
Mas o vampiro não o respondeu, Alec levou as mãos à mão que agarrava sua garganta e a afrouxou com facilidade, só depois de desprender os dedos é que percebeu que segurava nas mãos o braço de Arthur... decepado do resto de seu corpo. Algo gelado desceu pelas suas costas como um dedo ziguezagueante: medo.
Ele ouvia os lobos estraçalhando os vampiros aqui e ali... gritos de agonia e horror e quando Alec achou que estava acabado ele ouviu novamente o silvar do vento onde seis outros corpos cruzavam o descampado em sua direção... Alec conhecia aquele som, era o som de vampiros. “Será que também estão aqui para me matar?”, pensou ele confuso.
Mas os gritos continuaram assim como o som de estilhaçamento, o cheiro da fumaça do fogo tornou-se ocre quando os corpos dos vampiros foram atirados nas labaredas, era como se um rio de cinzas tivesse sido atirado no ar. Alec percebeu que os vampiros estavam morrendo ao seu redor e se perguntou quando seria a sua vez... quando chegaria o momento em que dentes afiados o dilacerariam ou vampiros estranhos atirariam seu corpo ao fogo.
Alec se colocou de joelhos, mas não fez qualquer movimento para lutar, seria irrelevante... seria morto de uma vez por todas independente do que fizesse. Entretanto, quando a demora se prolongou e ele passou a estranhar o fato de ainda estar vivo, ouviu uma voz de mulher gritando alto, e era uma voz conhecida apesar de não ter conseguido identificá-la, mas sabia que era uma voz que não ouvia há muito, muito tempo.
- Seth, não o mate... deixe ao menos um vivo para eu poder usá-lo – disse a voz da mulher que parecia soar do outro lado do campo.
- Agora fique quieto ou vai se machucar – falou a voz de um homem.
- Quem são vocês? – Alec ouviu Vesgo John perguntar, sua voz tremia de dor e de susto e ele parecia ter algo pesado sobre o peito, mas não obteve resposta.
E finalmente... silêncio.
Alec se perguntou o motivo por ainda estar vivo quando ouviu passos leves se dirigindo para ele, eram dois e se aproximavam com cuidado, o Volturi não fez questão nenhuma de se defender ou de esboçar reação, de uma forma ou de outra estava perdido mesmo...
- Então salvamos um Volturi? – disse uma voz jovem – Acho que não fazia parte de nossos planos, não é mesmo?
Alex quase pulou de susto; aquela voz, uma voz jovem e velha ao mesmo tempo e apesar de aparentar cansaço ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
- Edward Cullen? – Alec chamou abismado – Você deveria estar morto…
- Você também, pelo que vimos aqui, não é mesmo?
- O que está fazendo aqui?
- Creio que você possa desconfiar do motivo de nossa presença, Alec – disse Carlisle numa voz tranquila.
- Carlisle – disse Alec – Vocês pretendem libertar Bella, Alice, Renesmee e o lobo.
- Exato.
- Tolos, morrerão antes mesmo de chegar a Volterra.
- Estes vampiros estavam aqui para matá-lo, Alec – disse Edward – O que você fez? Aliás, qual foi o motivo dos Volturi terem desejado sua morte?
- Me tornei obsoleto – disse Alec, ele poderia ter ficado quieto, mas nada mais fazia sentido agora – Estou cego se é que você ainda não foi capaz de perceber e meu poder ficou reduzido depois que seu amigo quase decepou minha cabeça durante a batalha no Canadá.
- Cada um perdeu de alguma forma, Alec – disse Carlisle em sua voz apaziguadora – Mas o que acabamos de presenciar é cruel até mesmo para os Volturi, você não merecia morrer desta forma apenas por ter se tornado desimportante para seus mestres.
- E você conhece o que cada ser merece ou desmerece, Carlisle? – perguntou Alec irritado – Eu sou um inútil, quase não pude chegar aqui com as próprias pernas... teria sido morto sem a interferência de vocês, não sou capaz de lutar e meu dom está minguando. Não faz diferença se eu fui traído por minha irmã ou pelos meus mestres... minha existência não tem mais sentido. Por isso me façam um favor... destruam-me agora mesmo e deem fim ao meu sofrimento.
- Você está confundindo-nos com seus antigos mestres, Alec... – suspirou Edward – De fato, tínhamos algo em mente.
- Você foi traído – continuou Carlisle numa voz afável – E aparentemente o motivo foi que seu ferimento teve uma consequência trágica... mas isso não é motivo para descartá-lo a troco de nada. Por isso faremos uma proposta a você: ajude-nos a entrar e sair de Volterra com minhas filhas e nosso amigo Quil... estenda sua mão a quem realmente luta contra todas estas traições de Aro, Caius e Marcus... depois que conseguirmos isso você será livre para ir aonde quiser, ou se preferir, pode se unir a nós. Aceitamos qualquer um que não seja aliado dos Volturi.
- O que nos diz, Volturi? – disse a voz de Edward Cullen acima dele – Pese bem suas palavras, pois elas podem ser as últimas que pronunciará neste mundo.
- Você está louco, Cullen – riu Alec – Acha realmente que eu os ajudaria a trair os Volturi?
- Você está cego da visão Alec, mas não creio que esteja tão cego assim... – replicou Edward – Nós salvamos sua vida. Seus “companheiros” que tombaram em batalha tão bravamente estavam a poucos momentos de decapitá-lo, eu fiquei seriamente tentado a permitir que eles concluíssem a missão, mas, infelizmente, Carlisle nos proibiu. Então, Alec, nós não estamos pensando em usá-lo como moeda de troca uma vez que nos parece que seus mestres não estão mais interessados em seus serviços.
E ali estava Alec... traído, esquecido, cego e inapto para continuar sendo o que era antes. Por um momento ele pesou sua decisão, séculos dedicados aos Três e em troca ele é descartado facilmente quando se tornou menos útil do que era. Mas o que ele era afinal? Quem era Alec Volturi a não ser uma máquina mortífera? Por séculos fora usado para matar, coagir, aterrorizar, destruir... saberia ele fazer alguma outra coisa?
Haveria motivos para ajudar os Cullen?
Jane o traíra... ela mandara os Miseráveis para matá-lo enquanto resolvia os segredos dos Três ao sul da Itália; ela continuava como capitã da guarda, havia sorrido para ele, o havia seduzido dizendo que ainda era importante apenas para mandá-lo para a morte. E tudo isso, toda esta encenação sobre uma missão... era apenas para ele não causar tumulto no castelo, apenas para morrer quieto obedecendo uma última ordem.
Este pensamento queimou como fogo em suas entranhas... mas ele estava vivo e graças aos antigos inimigos. Mas quando seus amigos tornam-se inimigos... o foco e tudo o mais também não mude de lugar? Não se desloca?
- Estão me pedindo para trair mais de um milênio de serviços e lealdade. – disse Alec.
- Não seja louco, Alec – gritou Vesgo John e ainda havia traços de dor em sua voz – Os Reis vão matá-lo.
- Eles não merecem sua lealdade... – Carlisle afirmou – Este aqui é o seu túmulo, Alec, ou pelo menos era para ser. Eles o mandaram aqui para morrer, será que é capaz de dar mais valor aos Reis e á sua irmã do que a si próprio? Nós não somos o inimigo, Alec... os Volturi são.
- O inimigo de meu inimigo... – disse Edward.
-... é meu amigo – sussurrou Alec completando a máxima – Eu não sou mais útil a vocês do que sou aos Volturi, estou cego e derrotado.
- Bem, para ser sincera, caso você resolve ajudar... eu poderia auxiliá-lo – disse Kaori numa vozinha tímida se aproximando de Alec.
- Esta é Kaori, Alec... ela estava do nosso lado durante a batalha, provavelmente você não se lembrará dela – Carlisle explicou – Ela é uma telepata, pode manifestar e interligar nossos pensamentos como uma rede de comunicação... este tempo todo estivemos conversando mentalmente... e ela tem uma ideia a apresentar.
- Eu consigo passar a uma pessoa as minhas lembranças – disse Kaori explicando seu plano – Lembranças são coisas que você viveu ou lugares em que esteve... coisas do seu passado, assim sendo, vendo seu estado, me pergunto se eu não poderia repassar mentalmente as imagens em tempo real para você.
- As imagens em tempo real? – perguntou Alec sem compreender.
- Espere, eu vou tentar lhe mostrar.
Alec sentiu como se alguma coisa estivesse roçando sua mente, então, antes que pudesse se manifestar, ouviu a voz doce e suave de Kaori dentro de seus pensamentos, “não tema, Alec”, disse ela, “eu não vou lhe fazer mal”.
E para total assombro do Volturi, uma imagem formou-se em sua mente, clara como o dia, vívida como a luz, nítida como qualquer imagem que alguém dotado do dom da visão teria normalmente. Alec mexeu a cabeça de um lado para o outro e abriu os olhos com força, mas a visão não mudou; ele via a si próprio caído no chão de joelhos, seus cabelos estavam emaranhados e suas vestes sujas, seus olhos leitosos olhavam com surpresa para si mesmo. Edward e Carlisle Cullen estavam à sua frente e um grande lobo castanho parado atrás de si... pouco mais distante ele viu outro lobo com uma tonalidade mais clara sentado em cima de Vesgo John.
Só então percebeu.
Aquela visão não estava em seus olhos, mas em sua mente. Aquela imagem não era gerada por ele e sim por Kaori. Ele estava vendo o mundo sob a perspectiva dos olhos da vampira... por mais que movesse os próprios olhos, por mais que movesse seu rosto para um lado ou para outro a imagem não mudava a não ser que Kaori se movesse. Ele via o mundo através dos olhos dela. Era a coisa mais esquisita e estranha que já lhe acontecera em milênios de existência... ainda assim era uma sensação fabulosa.
Ele pensou que ficaria preso em um mundo de escuridão para todo o sempre e agora surge uma vampira capaz de lhe trazer novamente a luz... instintivamente Alec olhou para o céu, mas sua visão não o acompanhou, entretanto, Kaori parece ter compreendido a intenção do Volturi, pois ela mesma olhou para o céu.
E Alec pode deslumbrar uma vez mais o firmamento. Nuvens plúmbeas rumavam pelo céu, mas aqui e ali, fiapos de azul já surgiam e raios de sol furavam as nuvens de chuva para iluminar com calor a floresta encharcada. Foi algo indescritível e o vampiro foi incapaz de conter um suspiro de alívio por poder novamente enxergar, mesmo que não fosse através de seus olhos, mas de olhos alheios.
Ele se voltou para Kaori e viu seu próprio rosto encarando enquanto a vampira o olhava, ele forçou-se a sorrir.
- Obrigado – disse Alec verdadeiramente feliz.
- Alec – disse Edward Cullen estendendo a mão para ele – Qual é a sua resposta?
Alec, através dos olhos de Kaori, viu-se a si mesmo erguendo o braço e segurando a mão de Edward, o vampiro o ajudou a levantar-se colocando-o em pé. Era uma sensação estranha, como se o seu espírito estivesse fora do corpo observando as ações que ele fazia independente de sua vontade... mas era muito melhor do que viver na escuridão, muito melhor do que viver cego. E Alec tomou sua decisão.
- O inimigo de meu inimigo é meu amigo – ele repetiu por fim – Eu irei auxiliá-los em sua busca.
Carlisle sorriu e tomou a mão de Alec entre a sua cumprimentando-o. Alec sentia-se estranhamente em êxtase por estar enxergando novamente e aquiesceu para Carlisle num consentimento mudo.
Edward não deixou de sorrir. “Quanto mais inimigos dos Volturi”, pensou ele, “mais amigos para os Cullen”.
E no fim das contas, a profecia de Salesiana se tornou verossímil.
Um antigo inimigo tornou-se... um aliado.
Notas finais
é meio capenga e tals... mas... hahaha
Próximo Capítulo: Charlotte: O beijo e a reza
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