Candor Lunar - Livro 2

24 Capítulo 23: Charlotte: O Beijo e a Reza


Notas iniciais
Bom dia, pessoas.
Diê costume dizer que eu sou só sei escrever sobre amores impossíveis...ahaha
Mas desconfio que este capítulo confirme a teoria dela.
Boa Leitura.
Ang.

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Jacob Black estava de péssimo humor.

A cada dez passos que dava, um olhar azedo era lançado para Alec; o vampiro, entretanto, não lhe dava importância alguma enquanto trotava suavemente poucos passos atrás de Kaori. A floresta tornou-se levemente espaçosa depois que deixaram a região de Gênova, campos longos espreguiçavam-se por todos os lados em forma de plantações verdejantes, o ar ainda gotejava alguma chuva do céu, mas o azul celeste já tomava conta de expulsar as nuvens escuras para longe.

Carlisle, Jasper e Edward corriam pouco a frente indiferentes à nova companhia; Seth, na forma de lobo, e Garret estavam na dianteira e Charlotte corria parelha a Kaori... Jacob fungava de insatisfação... ele não confiava nem um pouco em Alec, mas era o único que demonstrava, os outros não estavam se importando muito, mas não eram tolos o suficiente para confiar cegamente no ex-Volturi. Havia um plano secreto traçado por eles através do elo mental de Kaori caso Alec resolvesse traí-los, se isso acontecesse, Jacob seria o responsável por destruir o vampiro. Isso explica porque o lobo gigante corria tão perto dele.

Mas isso o deixava de péssimo humor.

Charlotte também não estava feliz. Ela detestava qualquer Volturi que estivesse muito perto dela, mesmo se tratando de um vampiro que havia acabado de deixar a realeza, mas ela temia que Alec estivesse mentindo e corresse contar a Aro que ela estava viva assim como a mãe. Mas seu medo era infundado, afinal de contas, ela em pessoa estava correndo para o abraço escuro da Cidadela dos Vampiros e dificilmente sairia com vida de lá.

“Que os céus me permitam sobreviver a tudo isso” – pensou ela numa prece corriqueira.

Um mal estar lhe tomou quando lembrou-se do que ocorrera a apenas poucas horas atrás, lembrou-se do feitiço proibido que executou, da surpresa de Alec quando percebeu quem ela era... Charlotte se lembrou do pavor que se instalou em seu peito quando tomou consciência de que o destino estava ali tão próximo e tão fatídico. Ela sentia-se fraca, o feitiço proibido exigira muito de suas forças, mas ela não aceitaria de forma alguma que Seth a carregasse por mais um centímetro sequer... seu coração já estava estranhamente estranho sem a presença tão próxima do jovem quileute; a bruxa sentia-se ferida por tudo o que acontecera entre ela e Seth no lago.

Mas o medo a rondava... o medo do que se passara a pouco.

E as lembranças de poucas horas atrás a embargaram de forma amarga como fel.

Ela lembrou de Alec ali, diante de Carlisle e de Edward, esfarrapado e sujo, cego e impotente, desolado, traído e escorraçado de tudo o que ele sempre acreditara ser um mundo eterno, imutável e seguro. Quase era possível sentir pena dele... quase. Mas Charlotte tinha um ódio milenar guardado em seu coração e a presença de Alec apenas a deixou ainda mais irritada, e um tanto temerosa. Era a primeira vez em séculos que voltava a ver Alec. Ele não estava com o olhar indiferente de antes, prepotente e superior, agora era apenas um vampiro desgraçado e fraco, porém, ainda letal.

- O que faremos agora? – perguntara Jasper.

- Vamos para Volterra – sentenciou Edward – Já nos demoramos demais.

- Sim – concordara Carlisle – E agora acho que poderíamos consultar Alec sobre os meios mais seguros para chegar até a Cidadela.

- Isso é irrelevante – declarou o vampiro menino em meia voz, Alec ainda estava relativamente estupefato por poder enxergar novamente através do dom de Kaori – Passaremos por vários pequenos principados que pertencem aos Lordes Vampiros vassalos de Volterra, qualquer um deles pode perfeitamente nos interpelar e avisar os Três... depois disso estaríamos mortos. Agora, se por um milagre chegarmos à Cidadela, bem, há barreiras de detecção que avisam Aro de qualquer intruso em seus territórios; são encantamentos antigos, intrincados, e ninguém pode desativá-los a não ser o Grande Rei.

- Errado – disse Edward – Nós podemos.

- Sério? – riu o Volturi – Então, por favor, Cullen, queira gentilmente me iluminar com tamanho poder. Que eu me lembre vocês não passam de um bando de vagabundos errantes e esfarrapados correndo para a morte certa... como poderiam desativar os feitiços que protegem a Cidadela? Por acaso encontraram algum vampiro feiticeiro? É inútil... somente Aro conhece os segredos destes feitiços.

- A não ser – Charlotte falara numa voz irritada e mórbida – A filha daquele que criou todos os feitiços que protegem os Volturi.

Por um segundo Alec não disse nada, ele franziu o cenho sem compreender as palavras ditas por aquela voz melodiosa e estranha, parecia que o vampiro estava tentando buscar no fundo de suas lentas lembranças milenares o conhecimento do tom daquela voz. Alec sabia que já a havia ouvido antes, claro que havia escutado aquela voz há muito, muito tempo... mas de onde e a quem pertencia?

Era uma voz que ele conhecia, uma voz de seu passado... mas de que ano? De que século ou milênio? E subitamente, tão rápido quanto um relâmpago, como um flash de memória veloz... Alec se lembrou.

Lembrou de uma vampira bonita de cabelos escuros como a noite, de rosto em forma de coração e profundos olhos pensativos, uma filha de um grande Mestre Feiticeiro de outrora, um vampiro que era casado com uma bruxa que mais tarde transformou em vampira. Ele se recordava da moça introspectiva e selvagem, indócil, que jamais foi capaz de frequentar a corte, sempre solitária, sempre desconfiada; era uma garota estranha e Alec falara muito pouco com ela, nem mesmo sua mãe visitava os Três com frequência... apenas o pai.

O pai.

Forge...

E a luz fez-se na mente de Alec.

- Charlotte? – hesitou ele, o rosto do vampiro clareando num espanto repentino.

- Ah, então você se lembra? – perguntou Charlotte posicionando-se ao lado de Carlisle para que Alec a visse através dos olhos de Kaori – Você que apenas destrói em nome dos Três Reis? Sim, Volturi, eu sou a filha de Forge, o mesmo vampiro que Aro traiu e destruiu a quase mil anos atrás... e por todo este tempo eu guardei este ódio dentro de mim e estou aqui apenas para destruir os Três. Eu auxiliei meu pai na confecção dos feitiços que guardam Volterra e o território dos Volturi, eu sei desativá-los, assim como lancei um feitiço de ocultação que nos acompanha desde que pisamos na Itália... nós não seremos pegos até estarmos dentro da Cidadela dos Vampiros.

- Como vocês a encontraram quando nem mesmo nós conseguimos? Aro usou todos os recursos que os Volturi dispõe para tentar encontrá-las, mas sem sucesso durante um milênio e agora uma delas simplesmente surge do nada?

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo, Alec tocara num ponto crítico e sensível, seriam segredos demais espalhados ao vento, deveriam eles revelar a origem, a fonte que lhes dirigiu até Salesiana e Charlotte? Em meio ao silêncio um suspiro longo ouviu-se e Carlisle encarou Alec avaliando as intenções do Volturi até que, por fim, falou:

- Erestor, o Velho, nos contou parte da história e nos revelou o paradeiro de Salesiana e Charlotte.

- Erestor... – repetiu Alec em voz baixa.

O Volturi viu, através dos olhos de Kaori, a expressão de assombro em seu próprio rosto quando seus olhos cegos arregalaram-se num misto de surpresa, espanto e descrença; uma bruxa que ele julgava perdida havia se erguido à sua frente e, junto com isso, um fantasma do passado ecoou em sua mente, um fantasma que, assim como a bruxa, ele também julgava perdido para sempre.

E assim, diante daquela situação absurda... Alec Volturi desatou a rir.

Há algumas semanas ele era um dos principais servos de seus mestres, mas, agora, estava cego, praticamente inválido, perdido, traído... e fantasmas do passado voltavam para se vingar dele e de todos que o cercavam.

- Vocês conheceram Erestor? – gargalhou Alec – Um dos mais velhos? O criador de Volterra? O grande responsável pelo exílio de Níneve, Rainha dos Vampiros? Erestor que fora amigo do poderoso Lycos Garoupe, Senhor dos Lobisomens? Este Erestor?

- Erestor que fugiu dos Volturi – atalhou Edward – E é a única parte de sua vasta história que nos interessa, quem ele foi ou o que fez em todos os seus longos milênios de idade não nos diz respeito, Alec. Mas foi este mesmo Erestor que nos auxiliou e que nos permitiu contactar Charlotte e sua mãe para enfim conseguimos concretizar nosso desejo.

Mas se pensa que vamos revelar onde se encontram Erestor ou Salesiana, está muito enganado, Volturi – fuzilou Garret.

Eu não me interesso pelo paradeiro deles – declarou Alec indiferente – A obsessão pelo destino de Erestor e Salesiana sempre pertenceu a Aro e Caius, eu, sinceramente, nunca vi qualquer motivo para procurá-los... não passam de antigas relíquias de um passado há muito esquecido.

Você quer dizer que Aro deixou de nos procurar? — quis saber Charlotte e um leve tremor perpassou seus lábios perfeitos.

Não! Aro jamais deixaria de buscá-los, ele e Caius enviaram vampiros sempre que ouviam qualquer boato sobre algum de vocês; os Três nunca esquecem de nada que seja de seu pessoal interesse. O que eu disse foi que eu, particularmente, nunca me interessei por este assunto.

Ou está se fazendo de desentendido apenas para nos despistar? — questionou Jasper.

Pense o que quiser, Cullen... — rebateu Alec azedo – Tudo o que desejo é entrar em Volterra e desmembrar minha querida irmã por ter me enviado para a morte

Num primeiro momento, os vampiros permaneceram em seus lugares, Alec olhava a sua volta maravilhado, subitamente distraído por poder enxergar novamente, Kaori percebeu que ele buscava o cenário à sua volta e, então, ela mesma virou os olhos ao redor a fim de que Alec tivesse uma visão mais geral de tudo.

“Você não precisa ficar o ajudando o tempo todo” — disse Jacob na mente da vampira — “Ele ainda é um inimigo em potencial, não podemos confiar nele cegamente, para ser franco seria melhor que quando pararmos eventualmente, você o mantenha no escuro”.

“Mas também não há motivos para não mostrar piedade por um inimigo, Jake” — rebateu Kaori — “Temos que nos mostrar humanos senão não seríamos tão diferentes assim dos Volturi”.

“Credo, Carlisle infectou você com todo o seu papo de humanidade e paz”.

“ E não é o certo a se fazer”?

“ Se Carlisle não tivesse sido tão pacífico durante todos estes anos, não precisaríamos estar correndo para a morte neste momento” — respondeu Jacob. E para isso, Kaori não teve resposta.

Não pretendo destruir as esperanças e planos mirabolantes de vocês – disse Alec de repente, quebrando o silêncio que os cercava – Mas eu sei como funciona os protocolos Volturi, muito provavelmente os Três esperarão a volta dos mercenários para reportar os acontecimentos desta incursão... eles irão estranhar consideravelmente a ausência deles. Principalmente, não irão acreditar que eu consegui matá-los e depois simplesmente fugi.

Ele tem razão – declarou Jasper depois de pensar por alguns segundos.

Isso já foi previsto – disse Charlotte e as atenções voltaram todas para ela – Por que acha, exatamente, que eu pedi a Seth para não matar o seu companheiro?

E com isso, os vampiros ali olharam para o grande lobo sentado tranquilamente sobre um vampiro que havia a muito deixado de lutar. Aquele que chamava-se Vesgo John estava deitado mudo feito uma rocha apenas ouvindo tudo o que era dito ali, ela sabia demais e apenas agora o grupo se deu conta do perigo de tê-lo deixado com vida. Seth, com a língua para fora da boca, olhou para ele... parecia um cachorro gigante sentado sobre um boneco de pano.

- O que quer dizer? — estranhou Alec – O que pretende com ele? Nunca poderá convencê-lo a mudar de lado, e mesmo que o faça, nada poderá garantir que ele o fará verdadeiramente, é um mercenário e só dão voz ao dinheiro... e ao medo. E este vampiro maltrapilho, creia, tem mais medo dos Três do que da morte.

- Quem disse que tentaremos convencê-lo a nos auxiliar, ou compraremos seu silêncio? — riu Charlotte enquanto um sorriso maligno gracejava em seu rosto – Você se esquece de quem sou eu, Volturi? Aprendi com meu pai Forge todos os segredos da magia, inclusive a Magia das Sombras, eu não preciso convencer o seu antigo companheiro de nada, ele fará exatamente o que precisamos que faça.

- Você não pode evocar este tipo de magia – e, por um segundo, uma sombra de medo tomou conta do rosto de Alec – É proibido, por lei...

- Lei de quem? — enfureceu-se Charlotte – De Aro, Caius e Marcus? Os Três auto proclamados Reis dos Vampiros? Os reis que praticamente chacinaram todos os vampiros feiticeiros do mundo porque temiam seu poder? Eu não sigo as leis destes reis, Alec, não sigo a lei dos homens... sigo apenas as leis da magia e da natureza que me concede a força para invocar os feitiços. E o farei agora, aqui na sua frente.

- Charlotte – chamou Carlisle com uma voz firme – Explique.

A Bruxa encarou cada um deles por um momento e depois voltou seus olhos para Seth e, por um segundo, seu olhar vacilou, mas, em seguida, deitou o olhar ao vampiro preso entre as garras do lobo. Voltou-se novamente para Carlisle e quando falou sua voz soou dura como o aço.

- Vocês me dizem que fariam o que fosse necessário para salvar seus entes queridos, é isso mesmo?

- Você sabe que sim – disse Edward rapidamente.

- Precisamos que este vampiro retorne a Volterra com a notícia que queiramos que ele diga, mas viemos longe demais e corremos um perigo muito grande para simplesmente confiarmos em um mercenário qualquer, ele provavelmente nos entregaria de bom grado apenas para fazer o nome com os Três...

- Prossiga – pediu Carlisle quando viu que a feiticeira hesitava em contar o que queria.

- Há um feitiço proibido, um feitiço das sombras, ele seria perfeito para esta situação. Trata-se de um encantamento antigo que é capaz de controlar um cadáver, ele foi proibido justamente porque seu autor teria um poder grande demais sobre os mortos...

“E o que isso tem a ver?” — perguntou Seth — “Algum doido do passado tentou criar um exército de zumbis comedores de carne humana?”

- Nós somos os mortos, Seth – explicou Jasper – Ela não se referiu aos defuntos nos túmulos dos cemitérios, mas aos vampiros. Nós morremos após a transformação, então o que Charlotte está nos dizendo é que este encantamento é capaz de controlar a mente de um morto, de um vampiro, você já pensou no que isso significa?

- Uma marionete superpoderosa que faria o que você desejasse – sussurrou Kaori em sua voz farfalhante.

- Por isso ele foi proibido – disse Garret – Realmente eu entendo o motivo de o Reis temerem os vampiros feiticeiros se eles eram capazes de realizar este tipo de magia. Poderiam se tornar um estorvo considerável, já imaginaram um exército de vampiros controlados apenas por um bruxo ou bruxa? Faria um estrago, seres superpoderosos e imortais... poderiam dominar o mundo.

- Não é assim – rebateu Charlotte – Nós não somos dominadores, somos estudiosos da natureza, alquimistas, filósofos... jamais consideraríamos realizar este tipo de feitiço para o mal ou para destruir alguma coisa.

- Oh sim, então porque diabos vocês criaram a Magia das Sombras? — perguntou Alec de forma irônica – Apenas por esporte? “Ah, não temos nada para fazer então vamos construir alguns encantamentos altamente destrutíveis”? Vocês feiticeiros ficam nesta de cantar para a lua e dançar pelados ao redor de uma árvore, mas se são tão inocentes assim não deveriam ter criado os Ritos Sombrios. Não se cria uma arma para deixar debaixo da cama. Desculpe, mas esta sua desculpa esfarrapada não cola.

- E você pensou em encantar Vesgo John para que ele vá a Volterra e diga que Alec está morto? — atalhou Carlisle antes que Charlotte iniciasse um bate boca com Alec.

- Sim – respondeu ela olhando feio para o Volturi – O tal Vesgo voltaria aos Três reis e informaria o que quiséssemos, eu sugeriria o seguinte: os mercenários atacaram Alec que conseguiu reagir e matou todos, o único que sobreviveu fora Vesgo John que atirara ele próprio os restos de Alec na fogueira junto com seus companheiros tombados.

- Seria um bom álibi – concordou Jasper – Assim os Volturi não sairiam por aí buscando por Alec e, ao mesmo tempo, o dariam como morto...

- Palmas para a ! – riu Alec, ele mesmo batendo palmas que ecoaram pela clareira – É um bom plano! Agora, minha querida feiticeira, conte aos nossos cavaleiros brancos, conte aos bons moços, aos heróis, aos fabulosos Cullen qual é o preço que esse encantamento cobra.

Neste momento, a bruxa não respondeu. Charlotte hesitou e encarou com raiva Alec que mantinha um sorriso aberto de orelha a orelha, o vampiro parecia se divertir com a encruzilhada moral que estava por vir.

- Uma alma – disse ela por fim.

- Uma alma? — perguntou Edward – Uma alma humana?

- Não, a alma de uma lebre – disse Alec – Claro que é uma alma humana, Cullen, nem você pode ser tão ingênuo assim.

- Seu humo negro não mudou em nada nestes últimos séculos não é mesmo, Alec? — suspirou Carlisle cansado – Charlotte, como este encantamento funciona realmente? E não nos oculte nenhuma informação, por favor.

- O corpo de um vampiro é uma casca vazia, a alma humana há muito já partiu apesar de o corpo continuar vivendo, a alma humana é necessária como tributo para controlar o corpo, assim, ao sacrificar um humano, você estingue uma nova alma e, com isso, é atendido. Ganha controle total sobre o corpo e a mente que está aqui, no caso, do vampiro que queremos usar.

“ Não vamos sacrificar ninguém” — declarou Jacob irresoluto.

- Você me disse que faria qualquer coisa por sua noiva, lobo, e agora está moralmente recusando a única possibilidade de não sermos descobertos antes de chegar a Volterra?

- Você pede algo que vai contra nossos hábitos – disse Edward.

- Ah, por favor, não façam drama – irritou-se Charlotte – Eu não estou pedindo para vocês me trazerem a alma de uma criança inocente, há muitos bandidos, assassinos, ladrões e homens maldosos por aí... escolham um e pronto. O feitiço não especifica se a alma deve ser pura ou não, pra ser franca, desconfio que quanto mais negra for a alma, melhor sai o encantamento.

- Não faremos isso... — começou Carlisle.

- Eu faço – declarou Jasper e antes que qualquer um pudesse protestar ele continuou – Alice é mais importante para mim do que algum bandido solto no mundo, não cheguei até aqui para perder tudo por causa de uma situação improvável como esta. Esperem aqui, eu devo voltar até o entardecer.

“Isso é um comportamento de Volturi, Jasper” — disse Jacob incomodado.

- Cullen, Volturi... eu não me importo mais, tudo o que eu quero é a Alice novamente em meus braços, se eu precisar queimar o mundo todo para conseguir isso... eu o farei.

Acabou que mesmo não concordando com isso, ninguém fez menção alguma de deter Jasper, permaneceram ali, olhando-o partir em passos pesados atrás de uma vítima para o feitiço de Charlotte. As suas palavras reverberavam na mente de Carlisle e o vampiro desejou que o filho estivesse apenas ansioso pela situação.

Mas, novamente, o veneno de Alec foi mais forte que isso.

- Sabem de uma coisa – disse ele distraído – Este cara daria um ótimo Volturi.

Charlotte atirou para Alec um ultimo olhar gelado e saiu a passos pesados na direção contrária a que Jasper havia se dirigido, ela passou por Seth e encarou os olhos caramelo do lobo, por um segundo, imaginou que o quileute a questionaria sobre o feitiço das sombras que realizaria; pensou que seria criticada por saber magia negra, mas tudo o que Seth fez foi lhe dirigir o pensamento através do dom de Kaori:

“É verdade que vocês feiticeiras dançam nuas ao redor de uma árvore?” — perguntou ele com a língua ainda pendendo da boca.

Charlotte nem se deu ao trabalho de responder, apenas revirou os olhos e deixou-se cair no solo molhado da floresta em em meio a um conjunto de folhagens robustas procurando se esconder dos outros... porque, de uma forma estranha, se sentiu culpada.

Pela fresta que as folhagens formavam, a bruxa espiou enquanto Carlisle e Edward conversavam com Alec; Kaori e Garret se sentaram ali próximos enquanto Jacob partiu para as árvores a fim de voltar à forma humana... Seth continuava sentado sobre Vesgo John. Ela sentiu seu coração se apertar por um instante e não compreendeu o que aquilo queria dizer, ou melhor, sim, ela sabia o que significava.

A sua frente estavam os Cullen de olhos dourados... eles pareciam de uma espécie diferente da de Charlotte mesmo que continuassem sendo vampiros, mas os Cullen eram algo a mais, eram tão altivos, tão especiais, tão tranquilos em sua coragem determinada e pura; Carlisle era o exato oposto de Aro, exalava uma aura de paz e sabedoria e Charlotte sentia isso mesmo sendo muito mais velha que ele, era como se o patriarca da família Cullen fosse um ser de luz capaz de transformar a todos ao seu redor em seres melhores do que eram.

A feiticeira recordou-se da cidade que eles socorreram anteriormente, os Cullen atiraram-se velozmente para auxiliar aqueles desconhecidos apenas porque Carlisle lhes ensinou que a vida humana deve ser preservada... e isso acabou inspirando Charlotte e ela se sentiu bem ao auxiliá-los nisso. Ela crescera em meio à magia, sempre prestando mais atenção às coisas concernentes à natureza do que ao mundo dos vampiros; dedicava-se a ler e aprender e nunca a conviver com os seus, e alimentava-se de humanos apenas porque lhe davam a vida através do sangue.

E agora, depois de quase mil anos exilada num mundo de sombras surge a oportunidade de ver o sol novamente... surgem estes estranhos vampiros de olhos dourados caminhando pelo mundo na companhia de lobos gigantescos cujos corações eram recheados de honra, amor e destemor.

Isso a estava mudando tanto a ponto de ela se culpar por utilizar um feitiço sombrio? Mas era necessário! Qual outra escolha tinham? Ela pensou que todos a julgariam, que aquele menino por quem sua atenção parecia sempre voltar a julgasse, mas ao em vez disso, ele, como sempre, lhe fizera uma pergunta estúpida... sem se importar com as sombras que a cercavam.

“Eu preciso me purificar” — pensou ela consigo mesma — “Clarear minha ideias para fazer o que preciso fazer mais tarde”.

Assim, ergueu-se da mata e recuou pelo caminho por onde tinham vindo em direção ao rio que cruzou o caminho deles anteriormente, alguns quilômetros seguindo a margem rumo ao sul, o rio se tranquilizava consideravelmente e formava uma pequena e calma lagoa de águas turvas. A bruxa moveu-se como o vento e não tardou a encontrar o lugar que buscava, ali, encarou as águas com olhos distantes...

“O que está acontecendo comigo?” — pensou Charlotte.

Depois, mecanicamente, despiu-se e sentiu o calor do sol aquecer seu corpo nu, a pele faiscando como uma constelação de micro estrelas, os cabelos negros esvoaçando ao sabor da delicada brisa que soprava. A bruxa, então, caminhou além da margem e tocou com os pés as águas geladas do lago, vagarosamente entrou no rio até que as águas escuras a submergiram por completo.

Ali imperava o silêncio.

Ali ela era capaz de ouvir os próprios pensamentos. Por que o lobo prendia tanto sua atenção? Por que motivo ela sentia este comichão no coração? Não apenas com relação a Seth, mas aos Cullen também... era como se eles fossem a luz depois de tanto tempo sem ver qualquer claridade na desolação tristonha do Pântano.

Ela amara seu pai Forge assim como amava sua mãe Salesiana. Mas eles sempre a mantiveram isolada de tudo, nunca participou da vida dos vampiros em Volterra... era conhecido que os vampiros feiticeiros sempre se mantinham afastados para estudar a natureza ou o cosmos... a agitação dos centros e dos reinos lhes tirava a atenção. E agora, Charlotte percebeu que, mesmo com mil anos de idade, perto dos Cullen e dos quileutes sente-se como uma menina carente... ela quer ser como eles.

Mas eles não me aceitariam, não me aceitariam porque eu sou uma feiticeira e eles ainda não sabem que grande parte dos feitiços que eu criei junto de meus pais são sombrios, destrutivos e malditos.” — pensou ela.

Mas eles aceitaram Alec e Alec fora um Volturi” — disse uma voz esperançosa em sua mente.

Mas e quanto a Seth? Por que seu coração milenar de bruxa parecia criar vida quando o menino estava por perto? Ela jamais sentira isso, ainda se lembrou da primeira vez que notou Seth em pé, desafiando sua mãe e ela, no meio da sala de sua choupana no pântano. Alto e forte, belo como um guerreiro de outrora, altivo e corajoso, parecia emanar de si uma aura de pureza e honra, ele a olhou sem temer, encarou-a como se ela não fosse uma bruxa ou uma vampira... ele a enfrentou como se ela fosse apenas uma mulher comum.

E Charlotte passou horas assim, submersa naquela água escura, sentindo a correnteza leve tentando empurrar seu corpo marmóreo para longe, para a foz.. para o oceano e ela sentiu o poder das águas, o poder da natureza fluindo para ele de maneira inevitável... e no momento em que sentiu seu coração em paz novamente, abrandado de todas as suas dúvidas, lentamente voltou para a margem até que as águas a libertaram e ela respirou novamente o ar tenro do final da tarde. O sol raiou em seu rosto, mas ainda havia nuvens despejando uma doce e fina chuva de primavera e Charlotte se deliciou com aquela visão... sol e chuva era uma benção da natureza.

Os pingos despejavam-se espaçados uns dos outros como gotas de prata liquefeita, o brilho do sol refletia no lago enquanto a garoa salpicava a superfície da água com pequenas ondulações suaves... e ali, naquele instante, Charlotte ficou em paz.

Ao menos até notar que havia alguém a observando.

Ela perdeu o fôlego ao vê-lo em pé a olhando. Na forma humana ele a encarava quase com admiração, não lembrava o lobo bobo de momentos atrás, mas sim, o homem feito que a enfrentou em sua casa convencendo-a silenciosamente a a segui-lo para a morte em Volterra.

Seth Clearwater vestia uma camisa xadrez gasta, calças jeans e coturnos de caminhada e para Charlotte pareceu a vestimenta mais perfeita que poderia existir para ele... mas foram os olhos que mais lhe chamaram atenção, olhos furiosamente castanhos, olhos de uma simplicidade absurda mesclada a uma pureza jamais presenciada por ela, ali estava um guerreiro lobo que não parecia temer nada. Ela ouviu o coração do lobo bater mais rápido ao encará-la nua no lago, Charlotte percebeu que a água negra só cobria sua nudez da cintura para baixo, mas não fez questão (por algum motivo que ela não soube explicar para si mesma) de esconder-se. Apenas permitiu que os cabelos negros cobrissem seu colo desnudo... mas não perdeu a olhada rápida que Seth deu ao seu corpo.

- O que você quer? — perguntou Charlotte menos ríspida do que planejara.

- Você se afastou, achei melhor verificar se estava tudo bem.

- Eu sou uma vampira feiticeira com mil anos de idade, criança. Não precisa se preocupar comigo.

- Você está com medo.

A bruxa percebeu que aquilo não fora uma pergunta, será que ela havia demonstrado tanto assim os seus receios? Mas, orgulhosa como uma vampira milenar deve ser, ela aprumou-se e lançou a Seth seu melhor olhar prepotente.

- E como haveria você de saber o que eu sinto?

Mas Seth não respondeu, sem se despir, sem ao menos tirar as botas, ele caminhou lentamente para dentro do rio sem desgrudar os olhos dos olhos da bruxa, caminhou lentamente até ela até parar a poucos centímetros do corpo nu da feiticeira. Charlotte foi obrigada a olhar para cima uma vez que o lobo era muito mais alto que ela, ela sentiu o cheiro de floresta de Seth intoxicar seus sentidos, notou a camisa molhada aderindo ao corpo forte do rapaz e um leve suspiro de desconforto escapou de seus lábios.

- Eu sinto quando você está com medo – disse Seth olhando-a – Sinto quando está cansada, ou quando está com raiva... e sinto quando está confusa. Se você não está segura do feitiço, acharemos outro meio...

- Não há outro meio – disse Charlotte e percebeu que sua voz saía num tom de desculpas – Tem de ser feito. Você não sabe nada sobre mim, Seth Clearwater, eu nasci em meio à magia e boa parte dos feitiços e encantamentos que minha família criou foi confeccionada com intuitos sombrios. Meu coração pertenceu à sombra durante toda a minha vida... antigamente fiz coisas repreensíveis e terríveis em nome dos Volturi, odeio Alec, mas não sou tão diferente dele... meu pai serviu aos Volturi, assim como minha mãe e eu... eu também já fui da Corte deles mesmo não participando diretamente de seu reinado.

- Eu não me importo com o que você foi ou com o que fez, Charlotte, tudo com o que me importo é quem você é hoje, quem decidiu ser a partir do momento em que escolheu nos auxiliar.

- Mesmo isso eu faço pelo ódio aos Três Reis, faço por vingança. Eles são os responsáveis pela vida que eu levei nos últimos séculos, você consegue imaginar isso? Séculos de existência atada a um pântano de desolação? Dias e noites sem fim? Se fizermos isso levianamente morreremos, Seth... só o ódio poderá nos salvar...

- Então estou condenado – retorquiu Seth – Pois não estou trilhando este caminho em nome do ódio ou da vingança apenas.

- Eles mataram sua irmã e seus amigos, por que mais você estaria nesta jornada?

- Eu já lhe disse, na sua casa aquela vez. Faço isso por amor. Amor a Bella, Alice, Renesmee e Quil. Faço isso por amizade a Edward e Carlisle... faço isso por lealdade e amor a meu irmão Jacob; eu não vou morrer por ódio, Charlotte, não por vingança, mas por amor.

- Você não tem medo? — ela perguntou e soube que estava parecendo frágil e assustada, algo muito diferente da máscara de coragem e prepotência que geralmente usava.

- Temo não viver o suficiente para fazê-la entender que o amor é muito maior que o ódio ou a vingança. Não temo Volterra, não temo a morte. Mas temo não poder revelar o que é preciso revelar antes do fim; eu me arrependeria amargamente de não poder dizer que você é muito mais do que uma feiticeira ou uma vampira... para mim é muito mais do que isso. Charlotte...

- Não... — ela sussurrou baixinho impedindo que o lobo continuasse o que quer que fosse dizer.

Charlotte virou o rosto desviando-se daquele olhar arrebatador. A chuva caiu com um pouco mais de força e o sol raiou com uma intensidade ainda maior, as gotas de chuva transformavam-se em pingos de luz varando os céus e a superfície do lago... e ali, naquele momento, em meio à mistura de luz e chuva, a feiticeira percebeu que estava perdida.

Apaixonara-se por um lobo.

- Mesmo que não me permita dizer, não deixará de ser verdade – disse Seth.

- É irrelevante, você e eu vamos morrer em Volterra. Foi... previsto.

- O que?

- Minha mãe previu isso, no dia em que partimos no pântano, enquanto vocês aguardavam do lado de fora ela proferiu uma profecia... previu que eu perderia meu coração para um ser elemental de poder imenso, e que ele morreria em meus braços em meio à destruição de uma guerra.

Ela aguardou que Seth ficasse assustado, mas tudo o que o lobo fez foi sorrir.

- E este ser elemental que roubaria seu coração seria eu?

- Não ouse levar isso de forma zombeteira, Seth, não é mais uma de suas palhaçadas de criança, foi uma visão, uma previsão de minha mãe. Você não entende que se for a Volterra irá morrer?

- Em seus braços... — emendou Seth – Significa que sentimos o mesmo um pelo outro, então não seria uma morte ruim, bruxinha, eu aceitarei de bom grado morrer em seus braços.

- Eu não quero que você morra...

- Por que não? — perguntou Seth ainda mais perto dela.

Os lábios sedutoramente tristes de Charlotte abriram-se, mas palavra alguma escapou por eles, aqueles olhos verdes e hipnóticos encararam o lobo prontos a dizer o que a bruxa sentia, mas o medo e a surpresa não lhe permitiram emitir o sentimento que os envolvia.

- Não dizer não fará com que seja menos verdade – repetiu Seth.

- Não vá a Volterra – pediu Charlotte baixinho segurando a mão de Seth submersa na água – Por favor, não vá. Não sei como aconteceu e de onde surgiu este sentimento... não sei o que pensar e não sei o que fazer, mas eu imploro Seth, volte para sua casa, sua tribo, case-se com uma mulher jovem como você e viva para sempre, ou torne-se mortal e morra velho rodeado por filhos e netos.

- Seria uma boa morte – disse Seth – Uma morte tranquila. Mas o homem que não é capaz de escolher seu próprio destino morre amargurado. Previsões e profecias são mais inexatas do que você pensa, Charlotte. Eu sou Seth Clearwater, filho de Harry Clearwater, sou lobo guerreiro da grande Nação Quileute; entoei junto de meus irmãos a Canção de Morte do meu povo e sobrevivi à Batalha das Lágrimas Incontáveis; sou irmão de matilha de Jacob Black e não temo a morte. Não temo inimigo meu. Eu não a deixarei seguir sozinha té os portões da morte em Volterra, Charlote, e se for para eu partir deste mundo rumo aos Campos Eternos nos seus braços, então o farei sem qualquer arrependimento.

Havia um poder nos quileutes e Charlotte o sentiu em Seth. Uma altivez impossível de detectar num vampiro frio, apenas um ser de coração pulsante poderia emanar tamanha coragem e força.

Ela encarou o lobo e sabia que ele não a deixaria só.

E então, ali, no lago chuvoso, Charlotte, pela primeira vez em mil anos, beijou aquele que roubara seu coração.

Seth sentiu o toque gelado da vampira enquanto a bruxa sentiu os lábios incinerantes do lobo aquecerem sua pele de mármore. Ela laçou seus braços ao redor dele, sentiu seu corpo nu em contato com o corpo abrasivo de Seth, o beijo iluminou ainda mais aquela tarde estranha, uma tarde onde o sol e a chuva tornavam tudo claro e cintilante; o lago fora o único espectador do beijo entre um lobo e uma bruxa.

O que diriam os ancestrais dos quileutes ao observarem lá dos Campos Eternos um de seus mais poderosos filhos apaixonado por uma vampira pura?

Sam Uley provavelmente estava sorrindo para eles diante da Fogueira Eterna.

Finalmente, a busca de Seth fora findada. Ele apaixonara-se para sempre.

E aquele beijo quente e frio, o beijo impensado, um beijo arquejante, um beijo numa tarde de sol e chuva durou o suficiente para comprovar as palavras que não foram ditas, as palavras que selariam o inselável. Mas durou menos do que Seth merecia, pois, repentinamente, Charlotte afastou-se dele e o lobo observou a dor estampada naqueles faiscantes e sobrenaturais olhos verdes da feiticeira.

- Vá – pediu Charlotte suplicante.

- Mas... eu não quero ir – disse Seth.

- Você precisa ir, eu não quero que meu coração seja seu... se eu não entregá-lo a você pode ser que a profecia de minha mãe não se cumpra e você sobreviva a tudo isso. Eu sou amaldiçoada, Seth, sou uma bruxa, se você e eu ficarmos juntos você perdera sua vida...

- Mas Charlotte... — começou o lobo, mas a bruxa não permitiu que ele continuasse.

- Não, por favor, não diga – ela pediu colocando as mãos sobre os lábios do lobo – Eu não quero que você morra, não quero que morra em meus braços. Eu não quero sobreviver e lembrar de você e do que eu sinto para o resto da eternidade. Se quer mesmo ir a Volterra, por favor, fique longe de mim e terá uma chance de viver. Vá agora... vá.

- Eu vou – disse Seth por fim, sabendo que Charlotte estava irredutível – Mas saiba que eu escolho meu próprio destino... se precisar morrer em Volterra eu morrerei. Mas o farei em seus braços. E farei isso por que eu te a...

E para calá-lo Charlotte atirou-se sobre ele e tapou suas palavras com os lábios num beijo ainda mais fervoroso que o anterior.

- Menino bobo – sussurrou ela olhando-o depois do beijo – Menino bobo. Me perdoe... por favor.

- Perdoar o que?

- Por isso.

E os olhos de Charlotte, de um verde fosforescente, brilharam com ainda mais intensidade e ela afastou-se do lobo que a encarou sem compreender, a água ao redor da bruxa começou a ondular cada vez mais forte e Seth ouviu a voz de Charlotte sussurrando palavras para o ar da tarde.

Oh, forças dos ares que pairam livres,

apaguem as arestas que cicatrizam o tempo...

desanuviem as escaras da alma.

Oh, forças dos que vagam em forma de ar,

suspendam a certeza, empreguem a incerteza.

Ah, deuses das matas, auxiliem-me.

Libertem o meu querido de sua memória recente”

E no fim disto, uma confusão instalou-se nos olhos de Seth, os braços do lobo caíram ao lado de seu corpo e ele deitou para trás lentamente sobre a água como se estivesse adormecendo, Charlotte o segurou antes de afundar e o conduziu novamente para as margens do rio onde o acomodou delicadamente sobre a sombra de uma árvore frondosa.

- Me perdoe – sussurrou ela para Seth – Quando despertar você não se lembrara de nada do que aconteceu entre nós, você lembrará apenas que veio ao rio e não me encontrou e então deitou-se para descansar um pouco e adormeceu. Não se recordará de nossa conversa e muito menos de nosso beijo. Eu não posso amá-lo porque não suportaria perdê-lo... faço isso para te salvar Seth. Me perdoe. Me perdoe.

E, com isso, deixou um beijo delicado nos lábios do lobo adormecido, vestiu-se com pressa e deixou o rio onde perdera seu coração.

Mas, antes de afastar-se demais, olhou para trás onde Seth dormia sob a árvore e sentiu uma fisgada horrível em seu peito, como se seu coração se recusasse terminantemente a deixar a companhia do lobo.

“Forças da mãe terra” — suplicou Charlotte numa reza triste e pessoal — “Dai-me forças para me manter longe dele, ajuda-me a me manter afastada. Eu não quero que a profecia de minha mãe se concretize, não quero perdê-lo, não quero vê-lo morrer em meus braços. Prefiro vê-lo vivo e longe de mim do que perto e morto... mas, oh, mãe dos espíritos naturais, eu o amo. O amo tanto que dói. Amo tanto que tenho medo de amá-lo. Por favor, o proteja de todo o mal que encontraremos pelo caminho”.

E assim, feliz e triste, Charlotte percorrera o caminho até onde os outros a aguardavam.

Sentia uma detestável raiva pelo fato de não poder derramar uma única lágrima por Seth e seu amor impossível.

Mas, apesar de tudo, Charlotte estava determinada a proteger o lobo que era dono de seu coração...

Mesmo que para isso fosse obrigada a mantê-lo longe dela...

… para sempre.

Notas finais
Então, uma hora eu paro de complicar as coisas... eu juro. kkkk
Próximo Capítulo: O Feitiço da Feiticeira.