Candor Lunar - Livro 2
18 Capítulo 17 – Jane Volturi
Notas iniciais
Mais um episodio pra vocês...
À milhas de distância de La Tana del Re, o palácio dos três reis Volturi em Volterra; ao sul da Itália, na Area Naturale Baia di Leranto que pertence a Aro, entre Faro e Nerano... encarapitado no alto de um penhasco, centenas de metros acima do ruído estrondoso do Mar Mediterrâneo, ergue-se o Pináculo da Luz.
Um castelo antigo feito da rocha do próprio penhasco e cercado por morros escarpados e precipícios vertiginosos, encoberto e quase oculto por uma floresta fechada e preservada por lei... o Pináculo da Luz é o palácio de veraneio dos três reis. Sempre que Aro, Caius e Marcus estão entediados da vida provinciana de Volterra, eles partem para o sul e se instalam em seu palácio a beira mar a fim de descansarem suas mentes milenares.
Há muitos anos o comando do palacete foi conferido a Flávius Aurélius que transformou o Pináculo da Luz em um quartel general para os Mercadores da Morte. Num local ermo e de difícil acesso, maquiado sob a restrição governamental de Reserva Ambiental, o palácio era o covil perfeito para uma legião de vampiros; seus túneis subterrâneos conduziam a pelo menos quatro direções distintas e desembocavam próximos a cidades onde, através de turnos e returnos, os soldados da horda se espalhavam para se alimentar de sangue humano.
A rígida disciplina de Flávius jamais permitiu que existisse qualquer suspeita de que vampiros incontáveis habitavam o misterioso castelo rochoso, ali, nos últimos dez anos, Caius reuniu seus novos súditos ao comando do general romano. Tudo isso para subjugar uma única família... ou pelo menos, esta fora sua intenção.
O Pináculo da Luz era recheado de torres e torrinhas que se erguiam como agulhas resplandecentes prestes a perfurar a barriga azul do céu, altas e esguias; boa parte do palácio fora escavada no próprio paredão rochoso e sólido da rocha, inúmeras pequenas janelas davam para o azul do céu e abaixo delas havia apenas a longa queda monumental até as rochas cortantes no oceano, constantemente açoitadas pelos chicotes das cristas alvas e espumantes das ondas.
Era um palácio estranho e diferente do de Volterra, corria acompanhando o largo da encosta sem se fechar sobre si mesmo como o segundo; era como uma
muralha única de torres e a entrada era apenas um largo e amplo pátio de pedras brancas que se fechava num circulo de muros tão altos quanto dez homens em pé sobre o ombro um do outro. Uma maravilha que muitos achavam impossível ter sido construída com mãos humanas, e estavam certos, o Pináculo da Luz foi erguido pelo trabalho incansável de vampiros escravos aprisionados ou punidos pelos Volturi.
No imenso portão que precedia a propriedade, havia duas guaritas de cada lado da entrada e ambas eram ocupadas por dois guardas grandes e humanos; os Volturi não tinham interesse de que qualquer visitante indevido ficasse alarmado pela pele fulgurante dos guardas.
Os dois vigilantes estavam sentados no banco à sombra de um dos telhados de madeira, o calor da tarde italiana lhes sugava qualquer pretensão de movimentos desnecessários, mas aprumaram-se quase que imediatamente quando um Bentley Mulsanne surgiu pela curva fechada da estrada íngreme; o elegante veículo, de um prata tão ofuscante quanto o luar, parou silenciosamente enquanto o guarda se aproximava.
O motorista desceu o vidro o mínimo possível sussurrando algo rápido e o guarda acenou para o companheiro abrir o portão. Era uma distância de pelo menos 15 quilômetros até o pátio do palácio e o Bentley prosseguiu deslizando reluzente sob o sol, serpenteando pelo caminho estreito até que o palácio lhe barrou o caminho, austero e imenso; através de um grande arco aberto no muro principal, o carro entrou e parou frente à imensa porta dupla de carvalho velho.
Enquanto o motorista descia para abrir a porta dos passageiros, uma dúzia de empregados uniformizados surgiu pela porta derramando-se pelo pátio e pelos degraus a fim de receber seus senhores – nenhum deles era vampiro. Havia um homem de idade que parecia ser o chefe dos empregados, trajava um terno cinza claro perfeitamente alinhado em seu corpo esguio, tinha os cabelos de um ruivo desbotado e um bigode fino e aparado sublinhava seu nariz adunco. Os olhos, de um azul escuro, observava ansioso.
Entretanto, não fora os três senhores que desceram do veículo, mas sim três mulheres jovens.
E à luz do sol da tarde, o velho Giuseppe contemplara a beleza absurda de três vampiras imensuravelmente lindas, uma delas era alta e mantinha um porte reto e quase militar, a segunda era baixa e sustentava uma arrogância infinita no rosto de criança... a terceira era ainda mais bela que as outras duas, tinha os cabelos de um castanho acobreado e os olhos dourados e brilhantes causaram estranheza no mordomo.
Chelsea, Jane e Renesmee encararam o homem como um rei observa seu vassalo.
– Senhoras – disse o homem numa meia reverência – A que devemos a honra de vossa visita?
– Dispense a pantomima, Giuseppe – respondeu Jane de forma irascível – Precisamos ver Flávius Aurélius imediatamente.
– Mas é claro, minha senhora, por favor, me acompanhem, pedirei que Mestre Flávius lhes receba no salão.
O Pináculo da Luz não era nem de longe tão luxuoso e glamoroso quanto o La tana del Re em Volterra, afinal, apesar de servir como casa de descanso aos reis, era também um centro de comando e um quartel general. Sua ornamentação era muito mais austera – para não parecer escassa – os móveis eram antigos e sólidos, rústicos e as paredes continham tapeçarias imensas que encenavam batalhas épicas já esquecidas há centenas de anos.
O hall de entrada era amplo e o interior acompanhava a rocha escavada, era clara e bruta com veios arenosos que resplandeciam à luz do sol como filetes de prata, a escada também era escavada e rústica e as três subiram, uma ao lado da outra, até o andar onde ficava o salão principal de audiência e festas. O salão era mais luxuoso que a entrada, tinha chão de tacos polidos e as paredes eram toda em granito escurecido, o teto fora ornado com tecidos leves de tons claros num rebaixamento que dava a impressão de uma rosa desabrochando.
No final do salão erguia-se um tablado e lá havia um trono de madeira talhada e sólido... sobre o trono sentava-se Flávius Aurélius, senhor do Pináculo da Luz. Trajava uma cota de malhas de aros finos e trançados ricamente com veios de ouro, a placa em seu peito era de metal polido e havia o brasão de sua casa esmaltado na superfície
prateada: um corvo negro de olhos rubros. As grevas e protetores de antebraço eram acobreados e ramos verdes de oliveiras estavam ricamente desenhados. Tinha o cabelo cortado rente, o rosto escanhoado e era tão grande quanto Emett, comparou Renesmee. Não estava com o elmo alto de plumas vermelhas e encarou as três vampiras com o mesmo olhar sério e impassível que sempre envergava, parecia ser um homem que fora feito em ferro malhado e destituído da capacidade de sorrir.
– Senhoras – disse ele sem qualquer emoção na voz – Não me recordo de ter recebido o aviso de que viriam.
– Isso porque não emitimos qualquer aviso, general – respondeu Jane afiada como uma faca traiçoeira – Temos um problema, e precisamos que resolva.
– Que eu me recorde, Jane, eu sou arauto de Marcus e recebo ordens dele... não suas. Por que haveria de resolver os seus problemas? Pelo que sei, é a capitã da Guarda de Volterra, eu não tenho qualquer responsabilidade com problemas oriundos da Cidadela dos Vampiros.
– Ora, até onde eu sei, General – disse Jane com um sorrisinho de escárnio brincando em seus lábios – Você existe exatamente para isso, para fazer o que mandamos e ficar quieto.
– Quem pensa que é, sua vampira insolente? – gritou Flávius Aurélius erguendo-se de seu trono com sangue nos olhos – Eu não sou seu criado, Jane, se pensa que pode entrar neste palácio vomitando ordens para mim ou para os meus homens está muito enganada. Você não está em Volterra, lá ocupa alguma posição... não aqui. Aqui você não passa de um estorvo minúsculo que eu posso esmagar com as solas de minhas botas tão facilmente quanto esmagaria um verme...
Renesmee assistia a tudo silenciosamente, ela sentia a tensão na sala que se erguia entre Jane e Flávius Aurélius, entretanto, não se importou; ela sabia que era perigoso enfurecer um vampiro tão poderoso como o general romano, tinha consciência de que ele era forte o suficiente para matar ela e as duas companheiras... mas não se importou.
Este era o efeito do poder de Chelsea.
Quando estava sobre a influência deste poder, Renesmee conseguia sentir apenas sua afeição e lealdade para com os Volturi... e nada mais. Era como se o mundo
não importasse para ela, como se a beleza das flores ou do céu azul não lhe chamasse a atenção; suas lembranças felizes não lhe eram importantes e suas escolhas deixavam de fazer sentido. Ela simplesmente se tornava extremamente apática e indiferente a qualquer coisa que seus olhos captassem, não sentia raiva ou medo, não nutria esperança ou rancor, não considerava fugir e se salvar... não se importava com a mãe ou a tia presas em Volterra. Tudo o que sabia era que tinha de se manter leal aos três reis... e apenas isso.
Para tanto, quando Flávius Aurélius pisou no primeiro degrau erguendo a pesada lança que descansava ao lado do seu trono, Renesmee nem sequer piscou um olho, Jane era sua companheira agora que fazia parte da Guarda Volturi e pela lógica deveria protegê-la, mas a voz melodiosa em sua mente lhe dizia claramente: Tua lealdade, teu corpo e tua alma pertencem aos Três e apenas a eles.
Jane não significava nada para ela, Renesmee não a odiava ou amava na condição em que se encontrava... por isso, não se interpôs entre ela e o General Romano que estava prestes a decapitá-la. Fora o grito de Chelsea que fez com que os dois oponentes se imobilizassem instantaneamente.
– Eu devo lembrá-los que servimos aos mesmos mestres? – falou Chelsea num tom furioso – Estou farta de ver vocês dois se digladiando como dois tolos, nem ao menos assemelham possuir a idade que possuem; parecem duas crianças raivosas porque um quer agradar aos mestres mais do que o outro. Um absurdo.
– Qual é a urgência? –perguntou Flávius Aurélius carrancudo sem tirar os olhos de Jane.
– Vrau Urban está causando tumulto nas Filipinas – contou Chelsea baixando a voz e tentando se recompor – Ele reuniu uma pequena milícia de vampiros vagabundos e resolveu abdicar uma das ilhas insulares para si; Ponson, no Mar Filipino.
– Vrau Urban? – riu Flávius Aurélius com gosto, voltou-se a sentar em seu trono com a lança ainda à mão – Vocês se deram ao trabalho de vir até aqui para que eu resolva o problema de Vrau Urban? Chega a ser uma ofensa, este maltrapilho mendigo não passa de um mercenário... um vampiro como ele não deveria nem ao menos ser chamado de vampiro. Espero que desta vez os Três tenha tido a sabedoria de mandá-lo para uma pira a fim de que seus delírios messiânicos não nos incomodem mais.
– A Guarda Volturi está desempenhando outra tarefa e se encontra ausente de Volterra – respondeu Chelsea sob o olhar atento de Jane – O que restou dela não pode se dispor a se afastar muito dos Três, assim, meu caro general, resta apenas o senhor para cuidar deste probleminha incômodo.
– Entretanto – continuou ela um pouco mais relaxada – Mestre Aro conhece sua força e também considera um desperdício ter de enviá-lo para cuidar de um problema tão ignóbil quanto Vrau Urban. Assim, ele permitiu que o senhor destacasse um soldado em que confia para cuidar deste problema.
– Vocês poderiam ter-me mandado uma mensagem, não havia necessidade de terem vindo até o Pináculo.
– Estivemos em Cecina para orientar a missão da Guarda, eles seguiram para o norte; acredite General, não viemos tão ao Sul apenas para lhe trazer uma mensagem, ainda temos assuntos de mestre Caius para resolver em Benevento.
– Ah, Mestre Caius ainda está tendo problemas com o filho daquele senador que desapareceu em Volterra? – riu Flávius Aurélius num tom estranhamente insolente – Eu sempre lhes preveni para tomar cuidado, mas parece que vocês não se importam com os turistas que visitam a Cidadela... demorou até acontecer isso. A morte do filho de um figurão vai nos causar problemas ainda.
– Mestre Caius não teme qualquer autoridade humana, Flávius – Vociferou Jane.
– Mas me digam – continuou o general fazendo de conta que Jane não dissera nada – Quem está comandando a Guarda no norte se Jane está aqui?
– Alec – respondeu Chelsea percebendo um estranho brilho nos olhos do general.
– Alec? – riu Flávius Aurélius – Mas o que teria Alec a comandar estando cego? O que ele fará, coordenará seus subordinados pela audição? Ou será que Alec despertou um sentido extra de sonar... como um morcego? Bem, bem, isto é interessante, e que missão é esta que a Guarda Volturi está desempenhando no norte?
– Nada que diga respeito a você, general – disse Jane, o título de Flávius Aurélius fora escarrado num tom ácido e sarcástico.
– Interessante – disse ele – Eu não me lembro de qualquer perturbação ao norte, talvez tenham enviado Alec apenas para esticar as pernas, não é mesmo? Ouvi
dizer que sua angustia por ter ficado debilitado e pela quase total nulidade de seu poder o deixavam muito entristecido; para falar a verdade, dizem que ninguém mais em Volterra suporta as canções tristes e depressivas que ele andava arrancando das cordas de seu violino.
– Pois tem escutado coisas demais – rugiu Jane – Eu adoraria descobrir quem é o passarinho que lhe diz tantas coisas que acontecem em Volterra para poder torcer-lhe o pescoço até que a língua falastrona salte para fora. Por que tem tanto interesse no que acontece ou deixa de acontecer na Cidadela dos Vampiros?
– Ora, minha querida Jane – respondeu Flávius Aurélius com a voz falsamente doce – Eu também sou responsável pelo bem estar dos Três, e tudo o que acontece ao redor deles me é interessante... digo, todas as decisões... e as armações daqueles que os cercam.
Jane deu um passo em direção aos degraus que conduziam até o platô onde sentava-se Flávius Aurélius, mas antes mesmo de dar ao general um motivo para lutar, Chelsea agarrou o braço da companheira encarando-a com reprovação. Jane lançou-lhe um olhar furioso, puxou o braço com brusquidão, mas deixou-se ficar no mesmo lugar encarando Flávius Aurélius em desafio.
– Estamos todos do mesmo lado, general – disse Chelsea – Seria prudente que não se esquecesse disto. Agora, seríamos imensamente gratas se o senhor nos cedesse aposentos para passarmos a noite, apesar de Jane e eu não dormirmos, Renesmee necessita descansar como o senhor bem sabe.
Flávius Aurélius desviou o olhar para Renesmee, ali, parada, bela e esguia em seu traje negro da Guarda Volturi; o general tinha um brilho estranho no olhar quando admirou a menina, teatralmente coçou o queixo liso num sinal claro de que pensamentos imperscrutáveis vagueavam por sua mente antiga.
– Mas é claro – respondeu por fim – Longe de mim negar hospitalidade à companheiros de causa, principalmente a esta bela menina... tão peculiar quanto bela. Meu servo lhes acompanhará até seus aposentos.
A um sinal leve do general, Giuseppe, que aguardava no fundo do salão, se aproximou com pressa e aquiesceu brevemente ao amo pedindo gentilmente para que as três vampiras o acompanhassem. Jane ainda permaneceu por um momento
encarando Flávius Aurélius com um olhar tão afiado como as rochas do penhasco centenas de metros abaixo, mas em seguida virou-se fazendo a delicada e curta saia plissada flutuar além da altura das coxas e caminhou para junto de Nessie e Chelsea.
Por alguns minutos, o general romano permaneceu imóvel em seu trono, absorto em pensamentos até que uma sombra esgueirou-se pela porta principal e caminhou até a beira do trono; pouco antes de chegar aos degraus, caiu sobre um joelho inclinando a cabeça respeitosamente.
– Meu senhor?
– Preciso que faça algo por mim, Willian.
– O que ordenar, meu senhor.
O rapaz ergueu os olhos para contemplar o general; as pupilas rubras faiscaram ao sol da tarde que entrava tímido pelos imensos vitrais que se espalhavam por toda a parede atrás do trono formando uma verdadeira cúpula translúcida. Era um vampiro de aparência jovem, quase uma criança, com longos cabelos ruivos e cacheados; os lábios eram finos e de uma palidez delicada e recatada. Tinha um aspecto quase andrógino e feminino, a voz era moderada e baixa e o tom infantil podia ser notado com facilidade. O rosto era belo e angelical apesar de que uma feia cicatriz branca cortava-lhe o lado esquerdo do rosto desde o alto, passando pela pálpebra até atingir a maçã do rosto e tocar-lhe de leve os lábios.
– Eu não confio em Jane Volturi – revelou Flávius Aurélius em voz baixa.
– Ela é a Capitã da Guarda Real, meu senhor – respondeu Willian enfatizando o óbvio.
– Isso não significa nada. Eu sei que alguns membros importantes da Corte possuem seus próprios interesses.
– O que nos inclui, não é mesmo? – disse Willian com um sorriso leve dançando nos lábios.
– De fato – respondeu Flávius Aurélius com desagrado – Mas nossos interesses são os interesses de nosso Mestre que, por sinal, não confia nos outros dois. Temos que saber o que está acontecendo para que nosso Mestre não fique no escuro; é nossa obrigação mantê-lo informado.
– Entendo, mas meu senhor Flávius, de que exatamente está desconfiando com relação à Jane? Até onde sei, ela e o irmão são os membros mais leais aos três...
– Eles são leais a Aro, não aos Três. E sabemos que Aro, Caius e Marcus possuem pensamentos diferentes, assim, Jane e Alec cuidam apenas dos interesses de um deles... agora, Jane enviou Alec para o norte a fim de tratar de um assunto obscuro. Precisamos saber que assunto é este.
– Nosso mestre desconhece o teor desta missão?
– Marcus sabe, mas não tem certeza – responde Flávius Aurélius com gravidade – E eu não entendo o motivo de ter enviado Alec como líder, ele está cego e o seu dom está avariado.
– Avariado? – perguntou Willian arqueando uma sobrancelha.
– Sim, o poder dele não é mais como antigamente. O fato de ter sido praticamente decapitado trouxe inúmeras consequências para Alec... perdeu a visão e agora seu dom está se tornando inútil também e, consequentemente...
– Ele está se tornando inútil para os Três – completou Willian assombrando – O senhor acha que...
– Desconfio, ou melhor, está é a desconfiança de Marcus. Como sabe, o nosso mestre procura não demonstrar interesse em assuntos menores a fim de manter sua encenação e interesses ocultos dos irmãos, entretanto, esta missão designada por Jane lhe despertou interesse. E quando nosso mestre não pode conseguir as respostas por si mesmo...
– Nós lhe conseguimos – respondeu Willian num sorriso inteligente.
– Exatamente. Por isso, Willian, você viajara em segredo para o norte até encontrar o grupo liderado por Alec a fim de descobrirmos o que Jane está tramando. Aquela maldita é esperta demais e tem muita influência sobre Aro, mesmo que ele não se de conta disso, ele a trata como uma filha.
– Partirei imediatamente, meu senhor Flávius – respondeu Willian levantando-se apressado e deixando o general sozinho novamente.
Enquanto Flávius Aurélius ruminava em silêncio seus segredos obscuros, Chelsea, Renesmee e Jane haviam sido acomodadas em quartos separados na ala mais leste do palácio. Renesmee entrou no aposento amplo que mais parecia uma pequena
gruta escavada na pedra bruta, entretanto, o chão era forrado por tapetes magníficos e o quarto continha móveis finos e elegantes no mesmo estilo encontrado em Volterra. A menina caminhou até a janela e empurrou o vidro com desinteresse, a janela abriu num silvo e o ar marinho, pesado e quente, afogou o quarto num odor salgado; Nessie olhou para baixo e viu as rochas afiadas que culminavam a queda vertiginosa de uns bons quatrocentos metros. O mar rugia em desafio ao paredão rochoso e ondas explodiam em salpicos salgados agitando-se como um monstro de água azulada e profunda.
Depois de admirar o mar por alguns instantes, Renesmee sentou-se na cama e permaneceu ali olhando o céu azul e infinito... sem a capacidade de sentir qualquer coisa a não ser lealdade aos seus captores. Mas isso não significava que ela não era capaz de formular pensamentos... e ideias.
Sozinha ela se lembrou dos pais, da beleza amorosa de Bella e do sorriso resplandecente de Edward... . Renesmee não compreendia porque a família não havia aceitado o pedido de Aro e Caius para que todos vivessem em Volterra, na corte da realeza dos vampiros; por conta desta recusa absurda sua família foi destruída... e Jacob morto.
Ela lembrou-se do lobo sendo apunhalado pela pesada lança de Flávius Aurélius, mas neste estado de controle, mesmo estando frente ao homem que matara o amor de sua vida, Renesmee não sentiu ódio ou desejo de vingança, não sentiu nada. Ela sabia que no momento em que Chelsea a libertasse de seu dom, as lágrimas por Jacob tornariam a molhar seu rosto, entretanto, neste momento, o Quileute não lhe significava nada, ela simplesmente não conseguia formular ou sentir qualquer sentimento que fosse para com ele.
Sabia perfeitamente bem que este estado de indiferença lhe irritaria depois, quando estivesse livre, Renesmee lembrava-se de tudo o que ouvia, fazia ou falava enquanto estava sob o domínio de Chelsea e isso geralmente a amargurava muito. Mas não agora, agora ela simplesmente não se importava. Num pensamento fortuito que lhe assaltou a mente, chegou a imaginar se este estado de torpor não era melhor, afinal, nesta forma, ela não sentia dor alguma, nada poderia lhe ferir os sentimentos uma vez que era tão fria quanto uma pedra de gelo.
Renesmee ficou assim durante todo aquele dia, sentada ali, reunindo lembranças de sua vida anterior e... não sentindo nada com relação à ela; o sol já se punha no horizonte e o quarto ganhava uma tonalidade avermelhada enquanto os raios de luz incidiam diretamente no paredão de rocha fazendo tudo parecer arder num fogo vivo e impotente. O silêncio no quarto era quebrado apenas pelo som monótono das ondas batendo de encontro às rochas... até que ouviu a porta do seu quarto se abrir e sentiu quando alguém entrou.
Virando-se lentamente, Nessie viu Jane Volturi parada ao lado da porta... olhando para ela.
– Incomodo? – perguntou Jane numa voz doce e infantil.
– Provavelmente sim, caso eu não estivesse enfeitiçada – respondeu Nessie sem emoção.
– Ah, pobrezinha de você, minha linda Renesmee – disse Jane caminhando levemente até Nessie e sentando-se ao lado da menina na cama – Sabe, eu não acho justo deixarem você sobre o encanto de Chelsea o tempo todo, mas isso é para o seu bem, sabe? Eu não gostaria de vê-la ferida.
– Não? – perguntou Nessie olhando para Jane, mas seu olhar não continha surpresa ou dúvida, ela apenas fez a pergunta por que sabia que gostaria de saber a resposta depois que voltasse a ser ela mesma.
– Claro que não – tornou a falar Jane, passando as costas da mão de forma delicada pelo rosto de Renesmee.
– Como eu poderia querer que algo tão perfeito como você se ferisse?
Neste instante, Jane tomou as mãos de Nessie entre as suas... a menina notou que a vampira estava vestida apenas com a mini-saia preta e com uma camisa de mangas curtas e notou que Jane parecia ainda menor sem a pesada e escura capa que costumava cobrir o conjunto de baixo quando a indumentária da Guarda era envergada normalmente.
– Eu lhe acho peculiar demais – sussurrou olhando Nessie nos olhos – Você é imortal e humana ao mesmo tempo, seu rosto delicado possui esta cor maravilhosamente viva e você costuma ficar ruborizada quando estamos no sol apesar de sua pele fulgurar menos que as nossas... e eu posso ouvir este hipnótico som de seu
coração batendo – e com isso, Jane pousou a mão entre os seios de Renesmee para sentir o coração da menina pulsando.
– O cheiro do seu sangue é doce como um mar de pétalas de rosa... e este maldito brilho dourado em seus olhos me fascina mais que tudo. Sabe há quantos séculos eu não amo ninguém, Nessie?
Mas Renesmee não perguntou e mesmo no estado letárgico em que se encontrava, sentiu a pele arrepiar-se ao toque da vampira que ela odiava.
– Muitos séculos – disse Jane sussurrando ao ouvido de Nessie – Muitos dizem que eu não fui feita para amar e que sou apenas uma arma de destruição que serve de forma irascível aos nossos mestres... o que você acha disso?
– Não acho nada – respondeu Renesmee com sinceridade.
– Ah, mas sabia que eu sou capaz de amar? – riu Jane tocando o pescoço de Nessie com as mãos geladas – Sou tão capaz de amar quando um humano... ou até mais. Na verdade, eu seria capaz de jurar que o fascínio que você me exerce é até uma surpresa para mim mesma. É muito monótono passar a eternidade sozinha... e de uns dias para cá eu acabei me pegando pensando que não há necessidade disto, não é mesmo? Digo, Mestre Aro deseja a sua mãe, não entendo por que já que sua mãe é uma desengonçada sem graça, apesar de que você, Nessie, não tem culpa de tê-la como mãe.
– O que quer de mim, Jane?
– Eu quero você, Renesmee.
E então, sem que Nessie esboçasse reação, Jane se aproximou com cuidado e deixou nos lábios de Renesmee um beijo delicado; a menina sentiu a boca gelada da vampira comprimindo a sua. Renesmee não sentia raiva de Jane, ou apreço, simplesmente não se importou de ela estar lhe beijando... se era certo ou não, não fazia diferença para Nessie.
Mas a fome de Jane não estava perto de ser saciada, ela sentiu o toque delicado da língua de Renesmee e apertou a menina ainda mais contra seu corpo, com lentidão ela desceu os lábios para a garganta de Nessie e um suspiro lhe escapou quando conseguiu domar o desejo do sangue da menina. Com mãos ágeis desabotoou
a camisa de Nessie acariciando com os lábios seu colo... não conseguiu se conter até que tocou com a língua os seios fartos e jovens de Renesmee.
Nessie se arrepiou com o toque gelado, mas não impediu e sentiu a umidade tocando-lhe entre as pernas, não compreendeu de imediato o que aquilo significava, afinal de contas, não sentia desejo por Jane... não sentia desejo por ninguém. Mas seu cérebro estava amortecido e anestesiado pelo dom de Chelsea e com sua mente desligada, seu corpo não encontrou um bloqueio contra as investidas da vampira... e se comportou normalmente ao estímulo.
Jane ficou satisfeita quando notou que os mamilos de Nessie enrijeceram, no alto de seu delírio prepotente, Jane vinculou isto ao desejo da menina... não ao fato de ela estar anestesiada pelos poderes de Chelsea. Mas Jane estava hipnotizada com Nessie, a pele quente e delicada da menina lhe tomou completamente o controle sobre os desejos, o som do sangue doce correndo nas veias não lhe permitia se afastar e Jane começou lentamente a separar as pernas de Renesmee.
Ela lhe tirou a calcinha cor de chumbo e soltou um suspiro assim que conseguiu o que pretendia... lentamente beijou a coxa de Renesmee que estava descoberta pelas meias altas e em seguida tocou-lhe com a língua nos lábios de baixo... úmidos e quentes.
Renesmee assumiu uma respiração entrecortada involuntariamente quando a língua de Jane entrava em seu corpo com avidez insaciável, apesar de não nutrir sentimentos, era capaz de responder aos estímulos de seu corpo... e agora não conseguia conter os estranhos gemidos que sua boca teimava em liberar. Sabia que quando despertasse para si mesma novamente, sentiria nojo e ódio por tudo aquilo... mas no momento era incapaz de fazer qualquer coisa quanto a Jane Volturi.
– Isso é melhor do que sangue – disse Jane baixinho quando encarou Renesmee com os lábios úmidos do prazer da menina – Acho que jamais vou permitir que você fique longe de mim...
E continuou com o assédio contra Nessie...
Mas antes que Jane pudesse aproveitar tudo o que seu desejo lhe permitia, ouviu quando alguém se aproximou da porta e quando o trinco de metal se moveu... rápida como um relâmpago de raiva, Jane já estava em pé quando Chelsea entrou no
quarto. As duas vampiras se encaram, uma com raiva e a outra com surpresa; Chelsea encarou Jane que sustentava um sorrisinho sarcástico enquanto limpava com a mão os lábios úmidos. Com um suspiro de reprovação encarou Nessie que se sentava na cama como se nada tivesse acontecido, apesar de ter tido a consciência de fechar as pernas e abotoar a camisa aberta.
– Me explique o que significa isso, Jane – disse Chelsea numa fúria fria como o vento de inverno.
– Exatamente o que você pensa que significa – respondeu Jane com seu habitual ar superior e prepotente.
– Então devo lembrá-la que ela não pertence a você.
– E quem disso isso? – rebateu Jane se aproximando de Chelsea que era pelo menos uma cabeça mais alta que ela – Caius e Aro a querem apenas para manter as Cullen quietas no canto delas apesar de eu achar isso um absurdo, elas são prisioneiras e deveriam fazer o que mandamos, assim sendo, Renesmee pode ficar com quem ela quiser.
– Ela está sob o efeito do meu poder – disse Chelsea impaciente – Sem isso nem ao menos teria permitido que você a tocasse, e francamente, Jane, se aproveitar de uma menina que não é capaz de se defender é baixo até mesmo para você.
– Cuidado com a língua, Chelsea, ou esqueceu-se que eu sou a Capitã da Guarda Volturi a qual Renesmee pertence? Você está aqui apenas para influenciá-la até que seu poder se enraíze e não precise mais ser aplicado.
– Eu vou reportar isso a Mestre Caius – ameaçou Chelsea.
– Faça como quiser – retrucou Jane se afastando em direção à porta do quarto – Se pensa que Aro ou Caius se importam com ela está muito enganada... Aro quer Bella e Caius já está satisfeito pelos Cullen terem sido aniquilados... ou seja, Renesmee será minha.
Jane saiu sem qualquer ruído e acompanhada apenas pelo sorriso sínico nos lábios, Chelsea sentia a fúria queimar-lhe como uma lareira, mas engoliu o ódio e voltou-se para Nessie que a olhava da cama como se nada tivesse acontecido. Chelsea suspirou tristemente admirando o rosto lindo da menina e recordou-se de toda a carga de tristeza que pesava sobre os olhos dela.
– Eu sinto muito... por tudo – disse Chelsea baixinho.
– Ao menos você é capaz de sentir algo – rebateu Nessie indiferente.
– Minha doce criança, não há escolha. Eu me compadeço da situação de sua mãe e sua tia, mas, entenda, bastaria que jurassem lealdade aos Três e toda esta agonia seria extinta. Mas todas vocês se recusam a aceitar o seu destino, entenda Renesmee, vocês perderam tudo e há muitas coisas que desconhece acerca de sua própria família. Havia a esperança de todos terem se salvado, mas, infelizmente, vocês não aceitaram.
Mas Renesmee não lhe respondeu, apenas sustentou o olhar indiferente e gelado e Chelsea suspirou em desalento sabendo que era resultado de seu dom, por um segundo pensou em libertar Nessie, mas desistiu da ideia quando pensou que a menina ficaria desesperada ao recordar do abuso de Jane.
Assim, deixou Nessie e saiu para o corredor com a raiva lhe corroendo as entranhas como uma fogueira incandescente, seus sapatos faziam ecos altos pelo corredor de pedra enquanto ela se dirigia até o quarto de Jane, no final do corredor. A tarde já findava numa tonalidade vermelho-sangue que os raios do sol atiravam com gosto pelas janelas, aos poucos, os serviçais acendiam as tochas nas paredes para a chegada da noite.
Chelsea entrou no quarto de Jane sem bater na porta.
A vampira criança encarou a mulher com um leve inclinar de cabeça e um sorriso afiado nos lábios, estava esticada na cama de forma descontraída e Chelsea estranhou o fato de Jane não tê-la reprimido por entrar em seus aposentos de forma tão brusca e não anunciada.
– A que devo a honra? – Jane falou de modo distraído.
– Você sabe por que estou aqui – respondeu Chelsea num tom azedo – Posso perguntar qual é o motivo de estar de tão bom humor?
– Estou apaixonada...
– Eu não estou brincando, Jane.
– E eu tampouco, Chelsea querida. E não faça esta cara, você acha que eu também não me apaixono? Pensa que sou apenas uma máquina mortífera que realiza todos os desejos dos Reis sem pensar em mais nada? Bem, eu sinto desapontá-la, mas sou uma vampira tão normal quanto você... apenas um tiquinho mais concentrada.
– Renesmee não é um brinquedo para que você se aproveite dela desta forma, sua louca. Ela está anestesiada pelo meu poder, caso contrário, jamais teria permitido que você se aproximasse dela desta forma; você se aproveitou de uma criança indefesa, Jane, e isso foi baixo até mesmo para você.
– Sinto uma crítica se formando nesta sua cabeça insossa, Chelsea? – Jane disse estreitando os olhos – Até onde sei, Renesmee é propriedade de Caius como eu sou; Aro quer a mãe dela e Alice será simplesmente mais uma aquisição... se as três servirem aos Reis como eles pretendem, tudo estará correndo conforme a vontade deles. E até onde sei, os Três nunca interferiram nos relacionamentos amorosos de seus servos, ou seja, eu poderia ficar com Nessie sem qualquer problema.
– Você está louca, Jane? – Chelsea praticamente gritou as palavras – Renesmee é uma menina, uma criança, além do mais acabou de perder o noivo e o pai em uma batalha, você pensa realmente que ela vai assumir qualquer coisa com você? E desde quando você se interessa por garotas?
– Bem, desde que Renly morreu... – respondeu Jane abanando as mãos como se o assunto lhe desse comichão.
– Morreu não – descabelou-se Chelsea – Foi assassinado, você matou o seu marido, ou se esqueceu disto também?
– Ele me traiu com aquela vampira cadela francesa. O que esperava que eu fizesse? Pedisse o divórcio? Ah, mas me perdoe, agora me lembrei... VAMPIROS NÃO PODEM PEDIR DIVÓRCIO PORQUE NÃO TEMOS DIREITOS COMO OS HUMANOS TÊM.
– E isso lhe dá o direito de destruir a vida da garota?
– Há duzentos anos eu não me apaixono por ninguém – reagiu Jane – Os homens possuem a lealdade de um peixe, basta aparecer um rabo de saia mais interessante que eles correm atrás. Você acha que é fácil para mim, sua estúpida? Eu estou presa neste corpo de menina de treze anos e todos os vampiros não se interessam por mim porque não tenho o corpo delineado de uma mulher; você foi transformada com vinte e sete anos de idade então não venha me dar lição de moral sobre se apaixonar ou destruir vidas.
Por um momento, Chelsea perdeu as palavras, Jane não era de se abrir nem mesmo com o irmão Alec... então nunca era possível saber o que ela pensava ou o que
sentia. A revelação de sua tristeza deixou Chelsea levemente perturbada, de fato, ser imortalizada num corpo de criança não deveria ser muito fácil e Jane sofria por isso; obviamente, vampiros anseiam corpos de mulheres formadas e não de crianças com vozinhas estridentes e infantis... a não ser pedófilos, mas ela desconfiou que Jane não se envolveria com gente desta laia.
Será que a Capitã da Guarda realmente se apaixonara por Nessie?
– Por que Renesmee? – indagou Chelsea.
– E porque não? – Jane respondeu azeda – Aro quer a besta quadrada da Bella, sabe-se lá por que, enquanto o pobre coitado de Matheu se apaixonou por Alice, mas eu até o entendo porque Alice é linda e delicada... o que há de errado em eu me apaixonar por Renesmee? Você sabe muito bem que o gosto muda com o passar dos séculos e eu resolvi experimentar uma garota linda, jovem e sedutoramente próxima de um humano...
– Você não percebe que Nessie não vai querer nada com você?
– Não até que seu dom comece a fazer efeito permanente, então, depois que o coração dela já pertencer aos Volturi, bem, ela poderá escolher ficar comigo uma vez que ambas fazemos parte da Guarda Real.
– E caso ela não aceite – sugestionou Chelsea – Você a matará?
– Não seja trágica, Chelsea.
– Eu não farei parte disso, vou pedir a Mestre Caius para libertar Renesmee do meu poder, a menina já foi punida o suficiente. Eu não vou continuar assistindo ela ser abusada por você enquanto não pode se defender sozinha... o que você está fazendo não é amor, afinal, paixão e amor são recíprocos. O que está fazendo é maldade.
Subitamente, Chelsea sentiu uma leve pressão dolorida em seu ombro direito, como se uma agulha finíssima estivesse sendo lentamente pressionada contra sua pele diamantada, não era propriamente uma dor... ao menos, ainda não. Mas a vampira encarou Jane e notou o olhar ameaçador que pairava em seu rosto infantil, os olhos rubros queimando num ódio incontido.
– Eu proponho que não nos desentendamos, Chelsea querida – disse Jane numa voz cortante – Sabe perfeitamente bem que eu não gosto de ser contrariada...
– E o que sugere? – perguntou Chelsea não se mostrando intimidada pela ameaça mental de Jane – Que eu apenas feche meus olhos enquanto você abusa da menina na minha frente? O máximo que farei é permitir que você aguarde Renesmee decidir de que lado ficar e se ela desejará você como companheira... mas se houver um indício sequer de que você fez com ela o mesmo que esta tarde; darei um jeito para que Bella convença Aro a permitir que Renesmee seja libertada de meu dom.
– Eu não preciso aceitar isso – categorizou Jane.
– Você sabe que Aro planeja tornar Bella sua próxima esposa, não é mesmo? – disse Chelsea sutilmente – Seguindo este raciocínio, Bella será Rainha o que tornará Renesmee uma princesa... e até onde sei, Bella não morre de amores por você, então, neste sentido, eu desistiria de toda esta bobagem. Ou, pelo menos, me comportaria bem, afinal, se por um milagre Nessie também se apaixonar por você, bem, aí sim a coisa não teria qualquer problema, não é mesmo?
– Saía daqui, Chelsea – chiou Jane – Antes que eu despedace você e atire sua cabeça falastrona pela janela.
Chelsea girou nos calcanhares e deixou o quarto de Jane, ela sabia que a vampira não era conhecida por seu temperamento calmo e, além disso, já havia dado o seu recado. O jogo que Jane jogava era tolo, Chelsea não sabia se Jane falara a verdade quando afirmou estar apaixonada por Nessie, mas, se isso se confirmasse, a colega de Guarda estava cega de paixão; Renesmee jamais a quereria, Bella nunca permitiria. E havia outro empecilho básico, as meninas Cullen poderiam até prestar fidelidade aos Volturi para permanecerem vivas, entretanto, jamais chegariam a amar seus suseranos... ou a qualquer um que os servisse.
Mas talvez isso fizesse com que Jane se comportasse um pouco... talvez.
A manhã nasceu radiante. Chelsea encontrou Renesmee no corredor pronta para partir e pediu à menina que avisasse o motorista que estariam de saída dentro de alguns minutos ; assim, desceu até os andares inferiores para se encontrar uma ultima vez com Flávius Aurélius a fim de confirmar as atitudes que o general tomaria com relação ao pedido que fizera.
Encontrou o senhor do Pináculo da Luz em seu trono e percebeu que sua expressão era contemplativa e distante, parecia não se dar conta de sua presença até o momento em que Chelsea lhe desejou bom dia.
– Seu pedido já foi encaminhado, minha senhora – disse o general sem contratempos – Enviei dez dos meus melhores homens para cuidar do problema de Vrau Urban. Não entendo a necessidade de mantê-lo vivo, mas, ainda assim, eles o trarão são e salvo para ser interrogado pelos Três. Vrau Urban é um mercenário ligado a todo tipo de atos ilícitos, ouvi dizer que ele é sócio de um cartel de tráfico de drogas na América Central...
– Isso e mais um pouco – esclareceu Chelsea – Entretanto, não nos cabe ou convém questionar as ordens dos Três, não me é claro o motivo pelo qual Vrau Urban permanecerá vivo, apenas é nosso dever fazê-lo. Depois disso, quem sabe Aro lhe conceda o prazer de se livrar dele... permanentemente.
– Seria um prazer. Creio que já estejam de partida, enfim, é sempre uma lisonja receber os companheiros de causa em minha humilde morada, mas creio que sua estadia não foi tão apreciada não é mesmo?
– Não compreendo o que está tentando dizer, General.
– Ouvi gritos ontem à noite, desconfio que Jane esteja nervosa com alguma coisa.
– Problema pessoais – respondeu Chelsea – Nada ligado aos problemas dos Três, não se preocupe, ela já esta melhor. Até a vista, Flávius.
– Faça uma boa viagem, Chelsea – desejou o general sem se levantar do trono.
“Você anda muito interessado em tudo... o tempo todo, general”, pensou Chelsea consigo mesma, “mas isso significa cuidado para com nossa causa, ou interesses pessoais seus... ou de alguém mais poderoso?”
Renesmee aguardava no hall do palácio enquanto o motorista trazia o carro para a entrada, não havia qualquer sinal de empregados e o silêncio a transmitia tranquilidade, de alguma forma que não compreendia, gostava de estar sozinha e sabia que Chelsea a mandara para fora a fim de ficar longe das vistas de Jane. Só não compreendeu o motivo pela vampira se preocupar com ela...
Entretanto, pouco depois, ouviu passos leves descendo as escadarias e ao olhar para cima viu quando uma Jane sorridente lhe lançava um olhar luminoso... a vampira se aproximou dela e vagarosamente tomou-lhe uma das mãos puxando-a para um lado mais distante do hall. Jane usava o mesmo uniforme que ela e Nessie tinha certeza de que os três reis eram velhos depravados... as vampiras da Guarda trajavam uma roupa que lembrava estranhamente um uniforme colegial: saias curtas, camisa, meias altas até os joelhos; e tudo isso normalmente estava oculto por uma longa, pesada e escura capa. No momento, nem Jane nem Nessie usavam as capas de viagem que ficaram no carro, num descuido distraído.
– Como você dormiu? – perguntou Jane.
– Bem – respondeu Nessie numa voz desprovida de sentimentos.
Jane, então, encostou delicadamente Renesmee contra a parede e se aproximou dela com cuidado, em seguida deu-lhe um beijo profundo e demorado... Nessie não reagiu e aceitou o toque da vampira, no estado em que se encontrava, o certo ou o errado não faziam sentido para ela. A única coisa que sabia era da lealdade à Volterra.
O beijo de Jane se aqueceu aos poucos quando a pele quente de Nessie aquecia os lábios frios da vampira; ela se lembrou que outrora havia amado alguém cujos beijos eram quentes e doces. Mas fora há muito tempo e este homem agora estava morto, esquecido numa floresta distante... numa vida que um dia pertencera a ela. Sentiu quando Jane passou os braços ao redor de sua cintura e mecanicamente, Nessie lançou as mãos ao redor do pescoço de Jane, aquilo era um beijo e ela se lembrava que beijos funcionavam assim... apesar de ter quase certeza de que nenhuma garota a havia beijado antes.
Depois de um tempo longo, Jane findou o beijo e encarou Nessie com o rosto mergulhado em uma felicidade radiante. Nessie notou que Jane era mais baixa que ela e com o rosto infantil, mas não era uma garota feia, os cabelos pálidos lhe davam um ar estranhamente fantasmagórico em contraste com a pele alva como a neve.
– Estes seus olhos dourados são absurdamente lindos, sabia? – disse Jane num sussurro.
– Obrigada – respondeu Nessie simplesmente.
– Você se importa de eu te beijar assim sempre que desejar?
– Por que eu me importaria, Jane?
– Não sei, porque ainda se importa com sua vida passada, não é mesmo?
– Minha vida passada está morta.
– Você diz isso porque está sob o efeito de Chelsea.
– Sim – disse Nessie.
– Sabia que com o tempo o dom de Chelsea muda a pessoa permanentemente? – Jane falou com um sorriso brincando nos lábios – Logo você não precisará estar sob o controle dela e sua alma será dos Volturi... mas quero que saiba que seu coração será meu, entendeu?
– Sim – respondeu Nessie sem o menor traço de emoção – Entendi.
As duas deixaram a portas duplas do Palácio em direção ao carro, o motorista as aguardava com a porta aberta e Chelsea já estava em seu interior, o sol faiscava na pele das duas que cintilavam como duas estrelas noturnas... Jane um pouco mais.
Nessie se acomodou ao lado de Chelsea que notou quando Jane segurou a mão da menina no momento em que entrou no carro. As mãos enlaçadas daquela forma causaram um mal pressentimento em Chelsea... parecia que Jane conseguia o que desejava, mas ela não falou nada e recebeu apenas um risinho cínico de Jane como bom dia.
O carro deslizou solene pelo caminho rumo à Volterra.
Contendo, em seu interior, uma vampira contrariada.
Uma vampira apaixonada...
… e uma meia vampira prestes a perder a alma... e o coração.
Notas finais
Ja tentei várias vezes depois de ler esse mesmo episodio.
Chocante. É eu sei, Mas... isso não me impede de apreciar a ousadia dele.
Ele é simplesmente fantástico!
Reviews?... ahahaha
Bjks e até a semana seguinte.
Denise Kellner.
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