Canarito

3 Capítulo 3


Notas iniciais
"Y empecé mis planes para vernos otra vez" (Cristina - Sebastían Yatra)

Somente quando chegamos em casa e vi que já passava das 20h é que percebi que passamos um bom tempo a bordo do navio, já que o trânsito no caminho de volta estava bastante tranquilo. Nos empenhamos na tarefa de preparar o jantar, enquanto atualizávamos Laura, minha outra amiga e prima de Mariana, que também morava conosco no nosso reduto universitário. Laura havia passado a tarde na faculdade até mais de 18h e não pode ir conosco. Ficou empolgada com toda a história e chateada de ter perdido a chance de dar uma conferida nos marinheiros.

— Cris, deixa eu ver uma foto dele! – Laura demandou, tão curiosa quanto a prima.

— Fica à vontade amiga, pode pegar meu celular. – Respondi enquanto virava a tapioca no fogo.

— Qual é o nome? – Laura perguntou.

— Nahuel. N-A-H-U-E-L. – Soletrei para que ela pesquisasse.

— Eita, que diferente... – ela comentou e, momentos depois... – Vixi, amiga! – Laura falou exasperada.

— O que foi? – retruquei assustada.

— Você não seguiu ele de volta... quer dizer, a conta é privada.

— Mas... eu olhei a conta na hora... esqueci de solicitar pra seguir?

– Acho que sim.

— Cris, você precisa deixar de ser sonsa! – Mariana me repreendeu. – Manda a solicitação aí, Laura.

— Não! – Eu falei. – Vai ficar estranho, não? Mandar depois desse tempo todo...

— Feio vai ser você ignorar e não pedir pra seguir, Cris – declarou Mariana.

– É? – Perguntei incerta, olhando pra Laura.

— Eu também acho. E você ainda vai ter que esperar ele autorizar... Eu já aceitei a solicitação dele, a propósito. – Declarou Laura, abrindo um sorriso.

— Laurinha!!!

— Ué, amiga! Qual o sentido de não aceitar?

Laura enviou a solicitação. E uma vozinha me dizia que elas tinham razão. Outra vozinha questionava o propósito de tudo aquilo. Enquanto comíamos todos reunidos na mesa da sala, assistindo aos noticiários me peguei olhando o instagram algumas vezes, a procura de alguma notificação.

Depois que terminamos e lavarmos todas as louças, nos reunimos na sala para assistir um filme antes de ir dormir. Vibrei pelo dia seguinte ser seria sexta-feira e naquele fim de semana eu não estar escalada na enfermaria, precisava adiantar alguns estudos. Eu planejava dormir cedo, porque devia acordar muito cedo no dia seguinte. E já estava bem cansada.

Quando estava quase pegando no sono, no meio do filme, recebi uma notificação. O Oficial tinha aceitado minha solicitação. Notei que Mariana havia feito uma postagem com muitas fotos e me marcado em algumas e o Oficial Testa em outras. Eu não fazia ideia de quando ela tirára as fotos. Ele havia comentado “Damas muy amables y educadas, un placer conocerte.” Fiquei olhando, sem saber o que comentar de volta. Eu devia responder, não devia? Por fim escrevi “Gracias, oficial Testa, por ser un guía tan amable.”

— Cristina, para de flertar na minha postagem! – Mariana soltou do outro sofá.

— Como e que é? – Perguntaram minha mãe e Laura ao mesmo tempo.

— Ela está aqui, trocando comentários muito melosos com o “Oficial Testa” na minha postagem. Amiga, vai lá pra DM por favor!

— Deixa de ser chata, Mariana. Só fui educada.

— E melosa. – Retrucou Mariana.

— Nada disso.

— Foi mesmo. – Disse Laura abrindo a publicação no celular dela.

— Et tu Brute? – Eu falei em tom ofendido.

— Pronto, além de espanhol agora ela fala italiano também! – Caçoou Mariana.

E eu resolvi ignorar a implicância das duas e de minha mãe, muito feliz por meu pai estar dormindo profundamente no tapete. Fechei a cara para elas e fui para meu quarto dizendo que estava cansada demais para assistir ao filme e precisava acordar cedo.

— Conta outra, tu vai é trocar mensagem com o hermano agora... ai ai! – Falou Laura enquanto eu saía pelo corredor, fazendo minha mãe explodir em risos.

Nunca tive irmãos. Então morar com Laura e Mariana estava sendo uma experiência e tanto. Depois de cinco anos morando fora eu já tinha tido muitos colegas de apartamento, mas nunca um relação tão boa e próxima como eu tinhas com as duas. E elas tinham razão, eu realmente estava respondendo à DM que Nahuel tinha me enviado.

Nahuel: ¿Llegaron bién a casa? (Chegaram bem em casa?)

Cristina: Si, si. El tráfico estaba muy tranquilo. (Sim, sim. O trânsito estaba muito tranquilo)

Nahuel: ¡Que bien! (Que bom!)

Cristina: ¿Y tu? ¿Demasiado trabajo después de la visita o fue lanzado? (E você? Muito trabalho depois da visita ou foi liberado?)

Digitei, apelando para o Google tradutor afinal…

Nahuel: Todos fuimos liberados. Excepto quién estaba en guardia. Íbamos a Rio Vermelho, pero como estaba lloviendo y estábamos cansados, salimos a comer una pizza. (Todos fomos liberados. Exceto quemestava de guarda. Íamos ao Rio Vermelho, mas como estaba chovendo e estábamos cansados, saímos para comer um pizza)

Cristina: Has regresado? (Já voltou?)

Nahuel: Sí. Estoy en el uber, tratando de no dormir. (Sim. Estou no uber, tentando não dormir)

Cristina: Jajaja sé cómo es. (hahaha sei como é)

Nahuel: Estoy casi sin datos para usar el IG, ¿Me das tu número de WhatsApp? (Estou quase sem daos para usar o IG, me passa seu número do WhatsApp?)

Parei pensando a respeito… Deveria passar meu número? Ou… porque não deveria? Como não achei uma resposta plausível, resolvi passar.

Cristina: Por supuesto... +55 71 994411661 ( Claro... +55 71 994411661)

Nahuel: Fácil de decorar (Fácil decorar)

Cristina: Jajaja sí lo es. (Hahaha é sim)

E comecei a me questionar se tinha sido mesmo uma boa ideia. Então fui escovar meus dentes e vestir um pijama. Arrumei minha bolsa para o dia seguinte. Peguei um novo jaleco, já que havia posto o que usara de molho. Arrumei minha cama e coloquei o despertador par as 06h, com uma soneca cinco minutos, porque eu não conseguia me desapegar desse hábito. Era praticamente a melhor parte da minha noite de sono. Pelo menos eu teria umas sete horas de sono. E aí veio a notificação. “Hola, soy la doctora Cristina?” Abri o whatsapp.

Nahuel: Hola, soy la doctora Cristina (Oi, é a doutora Cristina?)

Cristina: Jajaja fue rápido ... (Hahaha foi rápido…)

Nahuel: Era solo un poco urgente. Sabes ... quería saber cuándo tendrías un poco de tiempo en tu agenda. Para una consulta. (Era um pouco urgente. Sabe… quería saber quando teria um horário disponívél na sua agenda. Para uma conulta.)

Cristina: Mire señor ... todavía no tengo una agenda abierta, pero ¿cómo puedo ayudar? (Olha senhor… Eu ainda não tenho agenda aberta, mas como posso ajuda?)

Nahuel: Hoy conocí a esta joven y me recomendó un lugar para visitar, pero la verdad es que me dejó un poco desorientado. Quizás la doctora pueda ayudarme, ¿sabes? Para resolver esta desorientación. (Conheci esta senhorita hoje e ela até me recomendou um lugar para visitar, mas a verdade é me deixou meio desorientado. Talvez a doutora poderia me ajudar, sabe? A resolver essa desorientação.)

Eu não pude deixar de rir. Não me decidi se a estratégia era cafona ou fofa. Pensei um pouco antes de responder. Ele até que tinha um sorriso bonitinho… Respondi então.

Cristina: ¿Qué loco fue eso? (Que lugar foi ese?)

Nahuel: Farol da Barra, creo. (Farol da Barra, eu acho.)

Cristina: Oh sí, sé dónde está. (Ah sim, sei onde é.)

Nahuel: ¿Puedes ayudarme? ¿Puedes verme allí mañana? (Pode me ajudar? Pode me encontrar lá amanhã?)

O que eu deveria responder? Bem que eu estava com a sexta a tarde livre. E minha mãe tinha uma consulta com a nutricionista. Mas eles tinham implicado tanto com a história toda do navio… eu não quería dar mais motivo de piada. Por outro lado… que mal faria? Eu podía aprender um pouco mais de espanhol. Apesar de que digitando, e recorrendo ao tradutor aqui e ali, era bem mais fácil.

Cristina: Solo puedo por la tarde ... (Só posso à tarde…)

Nahuel: ¡Perfecto! Estoy programado para el turno de la mañana ... (Perfeito! Esto escalado para o turno da manhã…)

Cristina: Veo que al menos con el tiempo todavía estás orientado, aunque tenga dificultades con la orientación en el espacio ...(Vejo que pelo menos no tempo o senhor ainda está orientado, mesmo que tenha dificuldades com a orientação no espaço…)

Nahuel: De hecho, realmente perdí la noción del tiempo con esta dama. ¿Es grave? (Na verdade, realmente perdi a noção no tempo na companhia dessa senhorita. É grave?)

Que atrevido… Pensei, calculando o que devia responder, para não ficar escrevendo e apagando e dar na cara que ele tinha se dado bem. Ou talvez ele achasse que eu estava procurando uma forma educada de rejeitar. Era melhor responder logo. Simples.

Cristina: Bueno ... no se ve muy bien. Pero no te preocupes, veré qué puedo hacer mañana. (Bom… não me aprece muito bom. Mas não se preocupe, verei o que posso fazer amanhã.)

Nahuel: Bueno. Muchas gracias por la atención. (Okay. Muito obrigada pela atenção)

Nossa… ele ficou sério de repente.

Cristina: Buenas noches, señor Testa. (Boa noite, senhor Testa)

Nahuel: ¿Has ido? (Já vai?)

Cristina: Necesito dormir. Me levanto temprano mañana ... ¿todavía en el uber? (Preciso dormir. Acordo cedo amanhã… Ainda está no uber?)

Nahuel: No. Anclado aquí en la proa. Hace mucho calor aquí. (Não. Escorado na proa. Faz muito calor aquí)

Cristina: Lleva un tiempo acostumbrarse. (Leva tempo para se acostumar.)

Nahuel: Entonces, ¿cómo se necesita practicar para bailar bien? (Assim como é preciso práica para se dançar bem?)

Cristina: Jajajaja ve a descansar, Señor Testa. Es importante curar la desorientación. (Hahaha Vá descansar Senhor Testa. É importante para curar a desorientação.)

Nahuel: Puedo ser un paciente terco. (Eu posso ser um paciente teimoso)

Cristina: Estoy viendo. (Estou vendo)

Nahuel: Espero que mañana haga un hermoso día, Cristina. ¡Dulces sueños! (Espero que amanhã faça um dia bonito, Cristina. Bons sonhos!)

Cristina: Yo tambien espero. Que duermas bien, Nahuel. (Eu também espero. Durma bem, Nahuel.)

Pelo amor de Deus Cristina, vai dormir e deixa de suspirar e ficar viajando. Desligei o celular antes que uma nova notificação aparecesse. Fechei os olhos e virei para a parede no mesmo momento que minha mãe entrou no quarto e acendeu a luz.

— Não dormiu ainda, né? – Ela pressionou a mão nas minhas pernas. – Tá enamorando aí?

— Credo, mãe! Nem sei se você pode usar essa palavra assim. Limites! – Eu reclamei, escondendo um sorriso no travesseiro.

— Sei. Vê se aproveita, boba. Não fica grilada com a “profecia do coroa do barco”. – Ela falou, enquanto entrava no banheiro. Levantei o rosto com uma expressão horrorizada.

— Mainha, pelo amor de Deus, que dialeto é esse? Eu hem... – E voltei a me acomodar. Precisava mesmo dormir. Então me concentrei na minha respiração e tentei evitar todos os pensamentos que gostam de distrair o sono de chegar até mim.

Notas finais
Gente, estava pensando... Querem que eu coloque imagens dos locais ao longo da história? Ou com o que está escrito é suficiente?