Canarito

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Quem aí tá ansioso(a) pra esse encon... opa! "consulta"? "Esa carita cuando te cantaba por primera vez" (Cristina - Sabastían Yatra)

Chegava a ser ridículo o quanto eu me distraia fácil durante a manhã seguinte. Mas bastou uma bronca do Dr. Peixoto pra eu voltar ao meu eixo e parar de anotar errado os sinais vitais dos meus pacientes na minha ficha de controle. Precisei pedir que Renato repetisse para mim duas vezes os exames que deveria solicitar.

Mas como era uma manhã de sexta-feira, as coisas precisavam dar um pouco errado. Então eu tive que me paramentar para entrar no centro cirúrgico duas vezes, para levar avisos de sala e reservas de material. Nas sextas-feiras também tínhamos atualização científica, após a visita. O que significou que quase não consegui terminar de resolver minhas pendências até as depois das duas da tarde. Mas no final deu tudo certo e às 13h38 eu estava desejando um bom final de semana bem humorado para a equipe ao sair.

Cheguei em casa e encontrei meus pais se arrumando para sair. Laura também estava em casa, mas Mariana estava na faculdade, sexta era dia de projeto, então ela só devia chegar lá pelas 18h. Minha mãe perguntou se eu queria ir junto, porque ela pretendia visitar minha madrinha depois da consulta. Mas eu disse que tinha uma reunião com Alana mais tarde. Ela me olhou desconfiada, mas saiu sem fazer comentários. Depois do almoço, lavei meu cabelo e esperei que ele secasse de forma decente.

Nahuel: ¿A qué hora es nuestra cita? Quiero decir, consulta? (A que hora é o nosso encontro? Quero dizer, consulta?)

Todo cheio de gracinha… Respondi como se nem tivesse percebido o joguinho.

Cristina: ¿Qué opinas sobre 16h? ¿O estás programado para la visita a Fragata? ( O que acha de 16h? Ou está escalado para a visita à Fragata?)

Nahuel: Excelente. Hoy estoy en guardia. Pero solo necesito presentarme a las 19h. (Excelente. Hoje estou de gurda. Mas só preciso me apresentar às 19h.)

Cristina: Bueno. Nos vemos frente al Farol a las 16h, entonces. (Okay. Nos vemos em frente ao Farol as 16h, então.)

Enquanto meu cabelo secava, ajudei Laura com uma apresentação de slides e li um dos artigos que a Residente me enviou para o caso do Sr. Augusto. Às 15h15 fui me arrumar. Ignorei as dúvidas do que vestir e escolhi algo casual: shorts, camiseta e sandália rasteira (agora em terreno conhecido, não iria ser um erro) e coloquei um elástico de cabelo preso no braço, afinal eu sabia bem como era a ventania naquele lugar. Quando quis ficar apreensiva me lembrei que conhecia bem o Farol.

O museu náutico era uma boa pedida. E também a vista era linda, um dos pôr-do-sol mais lindos que eu já tinha visto, além disso tinha o pessoal do Geração 80.1 que sempre tocava música boa, acústica e de graça atrás do farol naquele horário. Não teria porque ficar sem assunto ou constrangida. Às 15h50 peguei um uber até o Farol que era relativamente próximo da minha casa, então no máximo chegaria com charmosos cinco minutos de atraso. Ficaria tudo bem.

Deixei Laura avisada de que voltaria lá pelas 19h, o que me dava uma vantagem de não levantar suspeitas. Mas fiquei pensando se não seria prudente deixar alguém avisado de onde estava indo. Então, tentando evitar amolação de Mariana e Laura, enviei uma mensagem para Alana.

Cristina: Amiga, vou sair com um carinha que conheci ontem. Vou só até o Farol da Barra. Mas achei melhor avisar alguém. Rsrsrsrsrs Beijos, depois te conto mais! P.S.: pra todos os efeitos, estou em uma reunião contigo. E tô te mandando minha localização em tempo real. Chegando em casa te aviso.

Quando desci do Uber e caminhei até a entrada do Farol comecei a procurar por Nahuel e me dei conta de que não sabia se seria capaz de reconhecê-lo fora do uniforme. Por sorte, lembrei de usar os óculos hoje, então podia analisar as pessoas de longe sem ficar encarando muito. Esperei mais um pouco, olhando o relógio a todo tempo, eram 16h07 e nem sinal dele.

Comecei a ficar nervosa comigo mesma por ter levado um bolo quando alguém tocou meu ombro. Nahuel estava parado exatamente na porta do museu, um adesivo de visitante colado na camisa de gola-polo azul. Olhava para mim com um sorriso brincalhão e os olhos quase fechados na claridade.

— Quase pensei que no venia.— Caramba ele era lindo. Sorri e aceitei a mão que ele me estendeu para subir os degraus da entrada. A mão dele também tinha aquela aspereza e firmeza. Mas também era quente e gentil.

— Sinto muito. Não queria me atrasar tanto. Foi por isso que me deixou te procurando lá fora? Vingança? – Ele balançou a cabeça em negação.

Fui na direção do guichê pagar a minha entrada, mas ele me puxou levemente pela mão, fazendo com que eu ficasse de frente pra ele. Estendeu a mão e colou outro adesivo de visitante na minha camiseta, perto da clavícula. Sobressaltei-me um pouco com o toque. Ele ergueu o olhar e me encarou.

— Te estaba mirando. El viento brincando com tu pelo... – Ele esticou a mão e colocou um cacho para trás da minha orelha. — Tan linda...

Senti falta do vento lá fora com o calor que percorreu meu corpo como choque, ao ouvi-lo dizer aquilo com suavidade na voz. Engoli em seco, puxando minha mão educadamente porque ela começou a suar e fiquei absurdamente constrangida.

— Já... viu alguma coisa? Por ai? – Gesticulei pro interior do museu, disfarçando.

— No. Te espere.

— Vamos então. – Eu disse indo adiante, sendo logo acompanhada por ele.

O museu tinha todo tipo de instrumento antigo de navegação, mapas e maquetes de embarcações dos tempos das Grandes Navegações. Nahuel falou bastante sobre o assunto, sempre conferindo para ver se eu estava acompanhando, se estava interessada. Subimos até o terraço que trazia uma vista maravilhosa, com o farol aceso mais acima. O sol ainda estava consideravelmente alto. Então ainda tínhamos tempo até o pôr-do-sol.

— É verdade que um farol nunca se apaga? Mesmo de dia? – Perguntei e ele concordou com um leve gesto de cabeça. – É por isso que os escritores usam o farol para falar de amor e verdade. A luz que não se apaga. A luz que guia.

— Y que necesita cuidado.— Nahuel acrescentou. Aproximando-se um pouco mais de mim ele pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos. Em seguida me puxou para próximo de uma das muretas.

Brancas e largas, aquelas muretas conferiam uma noção da espessura das paredes do farol, quase uma fortaleza. Não era de se admirar que as salas parecessem tão pequenas apesar do edifício aparentar muito grande por fora. A vista era linda. O penhasco atrás do Farol descia, suave em umas partes e íngreme em outras, em direção ao mar, que brilhava sob o sol de fim de tarde, num profundo azul safira. Ver aquilo fazia a gente se sentir tão pequeno diante da natureza.

— Qual é a sensação de navegar? De ficar dias e dias sem ver nada além de água ao redor? – Perguntei para ele, concentrada na vastidão azul adiante.

— Es solitario y aterrador. Pero también pacífico y encantador. — Respondeu.

— Você se sente valente e poderoso ou pequeno e abençoado?

— Pienso un poco de ambos. – Declarou com simplicidade. – ¿Sabes cómo llegamos al puerto? – Neguei sem entender se ele falava sobre como fazer o navio entrar no porto ou outra coisa. – Nosotros subimos a los pallos. Un marinero en cada extremo y uno en el medio. — Arregalei os olhos para ele, só de imaginar aquela altura, o barco em movimento e o vento... Ele riu da minha reação. – Utilizamos equipos de seguridad, por supuesto. Pero es un honor asumir el posto de Gavinero.

Fiquei imaginando a sensação. Devia ser quase como voar. Então provavelmente sentiam-se tão valentes e poderosos, quanto pequenos e abençoados. A brisa soprou mais forte, como uma pequena ventania vinda do mar e jogou meu cabelo em todas as direções e eu passei a mão para tentar arrumar.

Deslumbrada com a vista, nem percebi a aproximação e me assustei com mãos que me seguravam pela cintura, me elevando do chão. Nahuel me segurava acima do chão, muito próximo à mureta e um pavor tomou conta de mim. Ele seria capaz de me atirar dalí, com tantas testemunhas? Que tipo de louco ele era? Agarrei-me ao seus ombros, enterrando meus dedos no tecido da camisa como garras. Se ele me empurrasse ele iria junto comigo!

Então ele me depositou com cuidado sobre a borda mais interna da mureta. O corpo se aproximando do meu e os braços ao meu redor como um escudo. E olhou para meu rosto cheio de terror com o uma expressão confusa estampada no seu. Então ele olhou para os lados.

Percebi que um pai segurava uma criança sentada sobre a mureta, com muita atenção, e ela abria os bracinhos para o alto rindo, como se fosse os Gavineros em seus mastros. À nossa esquerda um casal trocava frases sussurradas e carinhos, numa posição muito semelhante à que nos encontrávamos. Do outro lado alguns jovens posavam para fotos. Compreendendo a intenção de Nahuel afrouxei o aperto em seus ombros.

— Lo siento si te asusté... – Nahuel falou baixinho. Deslizei minhas mãos de seus ombros de volta para meu colo, buscando me equilibrar melhor.

— É, me assustou mesmo. – Declarei com um sorriso nervoso. Então ele trouxe uma mão até meu colo, pegou uma das minhas mãos e segurando-a levou até os lábios para beijá-la. – Tudo bem... eu desculpo. – Falei, a voz um pouco mais aguda do que eu esperava.

Ele repousou minha mão onde estava antes e passou o braço a minha volta novamente. Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás sentindo os raios de sol e a brisa. Fiquei observando um tempo, quis tocar seu rosto, seu cabelo... Os lábios brincalhões que pareciam tão macios. Então fechei os olhos, segurei em seus braços e também joguei a cabeça para trás, sentindo a brisa brincando a minha volta, sem dúvidas enchendo meus cachos de nós. Logo escutei, vindo lá de baixo, a batida de um cajon. Abri os olhos e encontrei Nahuel me observando e sorrindo tranquilamente.

— Vamos descer? Tem algo mais quer quero te mostrar. – Ele me puxou com cuidado para o chão.

E ficamos ali parados, respirando bem perto um do outro, por alguns segundos que foram quase perturbadores. Então eu desviei o rosto, um pouco nervosa. Ele olhou pra baixo e segurou novamente minha mão, descemos as escadas até a saída.

Contornando o farol, fomos até o penhasco que descia para o mar. Ali as pessoas já iam se amontoando para assistir ao pôr-do-sol, em meio à ambulantes vendendo bebidas, queijos, salgados e toda sorte de comida. Nos conduzi entre os grupos de pessoas até um espaço perto do pessoal do Geração 80.1, que começavam a se apresentar. Percebi que o grupo estava com alguns músicos novos. Não só Binho e seu cajon e Gilson e Felipe com os violões. Havia também um rapaz com uma gaita e um pandeiro e uma garota com um violino.

— Eles são músicos e cantam aqui quase todos os dias durante o pôr-do-sol. Preparado para ouvir um pouco de música brasileira? – Expliquei a Nahuel enquanto nos sentávamos lado a lado sobre a canga que eu havia trazido na bolsa e estendera sobre a grama.

— ¡No puedo esperar!

E então começaram a cantar “Anunciação”, logo sendo acompanhados pelo coral de vozes das pessoas ao redor e das palmas no ritmo do cajon, numa energia única que eu só encontrava naquele lugar, a música acabando com um solo de gaita. Tudo era energizante e acolhedor: a natureza, a música, as pessoas.

Eu cantava, sem resistência, para os olhares surpresos e de aprovação de Nahuel. E quando o sol foi descendo aos poucos e tocando tudo com uma luz quente, realmente encerrando o dia com uma chave de ouro, eu me recostei em Nahuel e ele acariciou meu cabelo e meus braços, me envolvendo em um abraço aconchegante.

— Presta atenção... Ele some muito rápido, o Sol. É como se caísse no sono de repente. – Sussurrei, recostada na curva do pescoço dele. Nahuel tinha um perfume discreto, mas refrescante como... cedro e um toque de alecrim. Ou talvez fosse a mistura do cheiro dele com o da grama em volta. Nunca fui muito boa com perfumes. Mas era definitivamente agradável.

Enquanto o Sol sumia, as pessoas que cantavam “O Sol” de Jota Quest começaram a aplaudir. Era sempre assim. Uma salva de aplausos a cada fim de dia nesse cantinho do planeta. Observei o sorriso contemplador de Nahuel, mas ele não me soltou do abraço para aplaudir e eu também não me movi.

Pouco depois que o sol se foi, antes do crepúsculo, nós nos levantamos. Eram 17h53 e ele precisava voltar para a Fragata, para assumir o posto na Guarda. Enquanto descíamos do topo do penhasco do Farol em direção à orla, andávamos de mãos dadas. Lá em baixo paramos numa tapiocaria para pedir algo para que ele pudesse comer no caminho de volta ao porto.

— E então? Gostou da música? – Perguntei, de frente para ele que me puxou para um abraço. Beijou o topo da minha cabeça e depois encostou os lábios perto do meu ouvido.

— Me gustó. Pero me gustó más escucharte cantar, mi canarito. — Ele sussurrou e senti como se os raios do Sol que acabava de se pôr inundassem as minhas veias.

Então a moça chamou, avisando que o pedido já estava pronto. Insisti em pagar dessa vez e ele não criou confusão. Pegou o celular para chamar o Uber, eram 18h07. Quase sem me dar conta, toquei de leve sua mão e ele apagou a tela do celular antes de confirmar a corrida. Passou um braço pela minha cintura e me puxou para perto, olhou em meus olhos e então me beijou. Suavemente, com gentileza, pedindo permissão.

Sentindo um arrepio me percorrer diante daquela atração inesperada, tomei consciência do quanto eu estava esperando por aquele beijo e cedi àquele momento, cruzando meus braços em seu pescoço. Sua boca era quente, com lábios macios e sorrisos brincalhões enquanto ele me convidava a aprofundar aquele beijo, os braços em volta de mim, seguros. Aquela proximidade dos nossos corpos era estranha e, ainda assim, familiar. No que pareceu uma fração de segundos, ele se afastou com delicadeza e alguma relutância.

Escorreguei minhas mãos para o peito dele, e sob o tecido senti os mesmos músculos discretos mas fortes dos ombros e dos braços, bem como o coração dele que batia tão acelerado quanto o meu. Eu me peguei desejando tê-lo beijado desde aquele momento no alto do Farol, ter aproveitado mais aquele toque, chateada por já estarmos nos separando, conseguia sentir minha pulsação acelerada em meus ouvidos.

Desviando o olhar de mim por um momento, Nahuel voltou a acender a tela do celular para confirmar a corrida e, enquanto esperava o carro chegar, me abraçou forte. Aninhei minha cabeça em seu ombro, e senti sua respiração quente próxima ao meu ouvido quando ele falou.

— Entonces, doctora. ¿Que me dices? Todavía me siento desorientado a tiempo. ¿Ya sabes? Parece que solo han pasado unos segundos desde su llegada.

— Desculpa, não sei como podemos resolver isso. Talvez eu esteja com o mesmo problema. – declarei, desesperançosa. Nahuel acariciou meu rosto com as costas da mão.

Então o uber chegou e, antes de ele entrar no veículo, deu-me outro beijo rápido. Promentendo me mandar mensagem mais tarde e desejando uma volta para casa em segurança, ele entrou no carro e se foi. E eu desejei que ele não se atrasasse e nem arrumasse problemas.

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Voltei pra casa, chegando com tranquilidade antes das 19h, meus pais ainda não haviam voltado da casa de minha madrinha e eu fui tomar um banho, cantando “Anunciação” como um canarinho. Quando saí do banho dei de cara com Laura e Mariana, sentadas na minha cama, com olhares questionadores.

— O que? – Perguntei enquanto vestia um dos meus camisetões de malha, molinhos e soltinhos.

— Você tá muito bem humorada. – Observou Mariana.

— E vestindo rosa. Você quase nunca veste rosa. – Declarou Laura que era a rainha do rosa. E realmente eu não tinha muitas peças cor de rosa, mas por algum motivo resolvi vestir o meu camisetão de malha cor de rosa. Dei de ombros como se não fosse nada demais. Afinal, não era nada demais.

— Qual o problema, gente? Eu nem sou uma pessoa mal humorada assim pra vocês acharem isso tão estranho. – Elas se entreolharam. – Vocês já comeram? Estou com fome. Muita fome. E isso sim pode azedar o meu humor.

— Fiz torta de queijo e presunto – Disse Laura.

— Huuum!!! Eu sabia que tinha sentido um cheirinho especial quando cheguei. – Declarei indo em direção a cozinha e sendo seguida pelas duas.

— Não comeu nada na casa da Alana? – Inqueriu Mariana.

— Não, Mari. Estávamos trabalhando e Alana não tinha nada em casa para preparar. Saiu para ir na padaria assim que eu saí de lá. – Falei enquanto enfiava pedaços de torta na boca. Realmente estava muito boa e eu estava com muita fome. – Deliciosa, Laurinha!

— Obrigada...

— Terminou seus slides?

— Quase...

— Se quiser ajuda... – Então meu celular apitou com uma notificação.

Nahuel: De guardia. No puedo creer que ni siquiera hayamos tomado una foto. Estoy sacando tu instagram por sentir tu ausencia, canarito. (Em guarda. Não acredito que não tiramos sequer uma foto. Estou estalqueando seu instagram porque sinto saudade, canarinho.)

E eu evitei sorrir feito boba por causa dos olhares inquisidores de Mariana e Laura. Queria responder, mas a sessão de observação começou a me dar nos nervos.

— O que foi? – Perguntei, apagando o celular.

— Você viu o marinheiro hoje, Cris? – Mariana, sempre direta, perguntou. E eu desisti de ficar negando, porque não tinha motivo para isso.

— Sim... – Eu disse de má vontade, como se não fosse nada importante.

— Traidora, mentirosa! – Esbravejou Laura. Muito ofendida por eu tê-la deixado no escuro mais cedo. – Mariana disse que era isso, quando ela chegou, e eu não quis acreditar. Cristina, você é horrível! E louca!

— Quanto drama, Laura... – Mariana interveio. – Mas você foi mesmo ridícula se achou que eu não iria descobrir, Cris. Eu sou uma jornalista afinal.

— Estudante de jornalismo. – Pontuei.

— Não seja dissimulada. – Mariana rebateu. – Eu farejei isso desde ontem. Aquelas conversinhas no navio... e aqueles comentários piegas nas minhas fotos. Era evidente, meu caro Watson! Até sua emoção cantando “Una flor” era diferente. – Ela apontou um dedo acusatório pro meu nariz.

— Bravo, detetive Cordeiro! Quer uma medalha? – Eu repliquei, fazendo mais uma referência a Jane para ver se calava ela.

— Não acredito que mentiu para mim – Falou Laura, ferida. – Não bastava terem me excluído da história toda ontem?

— Ninguém te excluiu de nada. Você estava ocupada. – Mariana descartou o vitimismo de Laura com um aceno.

— Desculpa, Laura. Eu estava justamente tentando evitar o enxerimento de Mariana. – Que sorriu presunçosa, coma boca cheia de torta. – Perdão. – Disse pra Laura. – Você não. – Sinalizei para Mariana.

— Só desculpo se você me contar tudo. Em detalhes. – Disse Laura fazendo bico, mas com olhos curiosos. Mariana também tombou a cabeça esperando.

— Não foi nada demais, gente, foi só um passeio no Farol. Sempre vamos lá. – Eu tentei me esquivar.

— Isso não é nada como algo que sempre fazemos, Cristina. – Repreendeu Laura. – Não eu e você pelo menos. Não me interessa o que Mariana e Pedro fazem. – Mariana revirou os olhos, ainda comendo torta.

— Desembucha logo, Cris! – Pressionou-me Mariana.

— Tudo bem...

E então eu contei a elas sobre as mensagens de ontem, que elas leram e zoaram como eu sabia que fariam. Minha incerteza quanto ao encontro de hoje. A mensagem que mandei para Alana. O susto que levei na mureta do farol, ao qual elas reagiram de maneiras bem diferentes. Laura rindo da minha reação exagerada e Mariana dizendo que teria dado um golpe na virilha do atrevido. E por fim, o pôr do sol e o beijo.

Guardei a parte do “canarinho” só para mim. Mariana estava dançando pela cozinha estreita como a dona da razão e Laura se abanava e suspirava, com relatos tão singelos. Isso porque ela nem sequer sentiu o que eu senti. Naquele momento, meus pais entravam pela porta da frente.

— Tia Silvia! Venha aqui na cozinha, Cristina tem uma história pra te contar. Ai!!! – Mariana reclamou quando eu dei um chute na canela dela.

— O que é mesmo? – Minha mãe colocou a cabeça pela porta da cozinha. – Tem algum estrangeiro pelo meio?

— Como a senhora sabe? – Perguntou Laura, indignada.

— Eu botei essa coisinha no mundo, ela pode achar que me engana, mas quem se engana é ela. – Declarou minha mãe.

— É verdade então, Ratinha? – Perguntou meu pai, entrando na cozinha. Eu enfiei a cara pela gola da camiseta.

— Vocês são tão intrometidos... – Declarei com a voz abafada.

— Deixa de bobagem. – Repreendeu minha mãe, saindo da cozinha.

— Se ele for muito atrevido, você me avise! – Alertou meu pai.

— Pelo amor de Deus, Painho! Eu só vi o rapaz duas vezes. E ele vai partir daqui dois dias, então podem conter a empolgação desenfreada de vocês. Tenha dó. Parecem um monte de adolescentes.

— Adolescente quem parece é você. Saindo em encontros as escondidas. – Rebateu Laura.

— Isso se chama: privacidade, Laura! – Declarei, me levantando para lavar a louça.

— Não vai responder ele não? – Perguntou Mariana – Ele está “de guardia” e esperando, “canarito”. Que é isso minha filha, já tem apelido? – Ela falou boquiaberta e depositando eu celular na mesa.

E lá se foi o detalhe que eu queria guardar. Isso que dava compartilhar minha senha. Ignorei a provocação de Mariana e continuei lavando a louça, dizendo que responderia depois. Mari, saiu para a sala perguntando a meu pai se ele não estava com fome. Então Laura se levantou e começou a guardar a louça que estava seca.

– Ela é bem difícil quando cisma em bancar o Sherlock, né? – Laura comentou.

— Eh...- Suspeirei – Ela tem seu charme, aquela peste. – E nós rimos juntas.

— Então... Ele beija bem? – Ela perguntou, provocativa.

— Sim. – Eu sorri, lembrando. – Pena que foi tão curto.

— Quando ele vai embora?

— Na madrugada de segunda.

— Sinto muito, meu bem. – Disse em tom solidário.

— Tem nada não, amiga. Eu já estou bem ciente disso. Estou só... curtindo o momento. – Pisquei para Laura e ela me abanou com o pano de prato, rindo.

Então em um momento de paz, respondi minhas mensagens. Alana estava pirando porque eu não havia avisado a ela que já estava em casa e demandou explicações. Então eu mandei alguns áudios rápidos para me explicar. Mas não podia ter feito coisa pior. Recebi vários áudios de volta dela surtando e cobrando detalhes. Quanto a Nahuel...

Cristina: Desculpa a demora em responder, tive que resolver algumas coisas ao chegar em casa. Eu... também estou com saudade. Obrigada por hoje, foi uma tarde linda.

Respondi em português mesmo, sem paciência para pensar em espanhol ou usar um tradutor. Ele podia fazer isso por conta própria se precisasse. E acho que não tinha muita coisa para fazer na guarda, porque logo veio uma resposta.

Nahuel: Eu é que devo agradecer. Sem querer me exceder, mas podemos nos ver amanhã?

Claramente ele tinha usado o tradutor, para soar tão formal. Será que eu soava da mesma forma falando em espanhol? Sem querer agir impulsivamente e responder um “Sim, claro, com certeza” fui discretamente tirar uma ideia com Laura e depois com minha mãe. Evitando os mexeriqueiros do meu pai e Mariana.

— Que horas? Se for pela manhã, seu pai vai ao ortopedista a partir das 08h. – Disse minha mãe piscando para mim. – Eu vou estar dormindo o sono dos justos até as 10h. – Ela declarou categórica.

— Vai, amiga! Aproveita, porque essas coisas pra gente são igual ano bissexto: uma vez a cada 4 anos! – Respondeu Laura, me fazendo cair na risada.

Cristina: Preciso ir ao Pelourinho amanhã pela manhã. Podia me encontrar lá. Se não estiver descansando, claro. Imagino que deva ser cansativo ficar de guarda.

A resposta não tardou.

Nahuel: Ótimo para mim. Meu turno termina às 2h30. Vou ter tempo de sobra para descansar. Me avise amanhã quando estiver livre. Bons sonhos e até amanhã, canarito.

Respondi um “Bom turno e bom descanso” com um sorriso bobo no rosto. Suspirei diante daquele caminho sem volta para o sofrimento. Eu detestava me apegar às pessoas tão facilmente, parecia que eu era o ser mais carente de toda a face da Terra! Mas eu simplesmente não sabia lidar com sentimentos mornos.

Notas finais
"Me llevo todo y no me llevo nada Sin ti no hay nada, todo te dejé Sé que es muy pronto para estas palabras, pero las diré" (Cristina - Sabastían Yatra) E finalmente esse título foi revelado... hahahaha O que acharam?