Canções de um Outro Mundo
2 Monstro Avermelhado
Notas iniciais
Corri para pegar minha espada de madeira. Eu estava acabada naquela hora, meu rosto doía e estava inchado, e eu havia sujado minha roupa bonita enquanto estava caída às margens do rio. Mas eu não me importava nem um pouco com isso. Eu precisava da minha espada, eu precisava muito!
Eu a peguei do chão com pressa e voltei ao jardim, no lugar onde eu sempre treinei, sendo sozinha ou com meus irmãos. Ou com meu pai. A sua expressão de decepção ao ver a cor da Música... Balancei o rosto, procurando esquecer aquilo. Não era verdade, eu levaria minha espada de madeira até lá e mostraria a eles que eu sou uma guerreira! Eu mereço os dons! Eu iria provar!
Enquanto saía dos limites da propriedade de meu pai, encontrei Luchio um pouco ofegante.
—- Então você estava aqui – ele falou arfando.
—- Luchio! – eu olhei ao redor para ver se encontrava mais alguém da família. Ele estava sozinho – Rápido, irmão, preciso voltar lá! – eu ergui minha espada de madeira – Com certeza com isto o Deus da Guerra irá repensar e me dará seus dons! Venha!
Eu passei por ele, mas ele segurou meu ombro me fazendo esperar.
—- Sinto muito, pequena – ele disse com uma expressão fechada, de pesar... Não! Ele não iria me ajudar? – O orbe da revelação não erra, nunca mudará seu resultado, entende?
Eu abaixei minha cabeça, segurando as lagrimas que ameaçavam voltar. Apertei forte o cabo de minha espada.
—- Então, por que eu ganhei de você naquele duelo? – eu o encarei, com os olhos cerrados, contendo as lagrimas – Se não tenho dons de guerreira... Como eu ganhei de você?
Luchio não falou nada, apenas desviou o olhar. Ele se abaixou para ficar à minha altura e me abraçou. Não precisou falar sequer uma palavra, estava claro para mim. Ele havia me deixado ganhar, ele somente queria me deixar animada. Seu abraço me contou tudo.
Larguei minha espada e o abracei de volta, o apertando para esconder minhas lagrimas.
***
Quando meu Pai voltou em sua carruagem, a vontade de chorar já havia passado... A dor no peito, entretanto...
—- Ariel – ele me chamou com uma voz alta, e um calafrio percorreu minha espinha – Você irá matricular-se em Learity, e começará seus estudos a partir do próximo verão.
—- Learity... Esta não é a academia para magos...? – Eu perguntei, olhando-o confusa.
—- A melhor! – disse minha mãe – Minha irmã mora próxima à academia, você irá morar com ela antes de se mudar para os dormitórios de Learity! Muito legal, não é, Ariel?
—- Mas mãe... Pai... – engoli seco, mas continuei a falar – Tudo estava pronto para que eu ingressasse a Escola Militar de Edendália ano que vem...
—- Eu entendo filha, mas...
—- Não há espaço para Bardos no exército – Lewis, meu pai, falou com uma voz determinística – Você irá para Learity aprender apenas o básico, mas nunca usará o nome Astório como uma guerreira.
Eu o olhei, surpresa... Só podia ser um engano. Meu pai não falaria isto. Ele estaria orgulhoso de mim não importando meu destino.
—- O... O que?
—- Não há espaço para Bardos junto a mim – Ele estava de braços cruzados, olhando para mim de cima. Desprezo.
Eu não sabia como reagir. Não era meu pai, não era.
Peguei minha espada de madeira e apontei para ele, surpreendendo a senhora Leana e irmão Alain, que só assistia. Surpreendendo até mesmo a mim.
—- Eu vou te mostrar, pai! – eu gritei, ignorando os olhos lacrimejando – Eu sou uma guerreira Astório!
—- Minha filha, por favor, não é preciso ir... – Leana tentou interferir, mas meu suposto pai a interrompeu.
—- Então, eu devo te mostrar.
***
Estávamos nos jardins novamente, no lugar onde sempre treinávamos. Porem agora, o lugar era a minha arena, a minha prova. Tomei a distancia de sempre de meu pai, que me esperava em sua instancia de luta. Ele esperava que eu o atacasse, como sempre fez.
—- Vou lhe mostrar, pai! – exclamei, erguendo minha espada a altura do peito, procurando o equilíbrio correto que me permitiria atacá-lo rapidamente.
Caminhei, depois corri. Procurei sua abertura e me desviei, como havia feito no dia anterior. O pôr do Sol nos iluminava intensamente naquela tarde de outono. Eu gritei, enquanto erguia minha espada para o ataque. Porém... um choque profundo me acertou. Um medo primordial surgiu em meu coração.
—- Isto é um dom de guerreiro – ele explicou – "Ameaça"!
Lewis exclamou aquele nome, e, de repente, eu não o vi mais ali. Não, o que eu via era um grande monstro, com presas e garras afiadas, prontas para me devorar. Antes mesmo de conseguir desferir qualquer golpe, caí para trás, paralisada de medo.
—- Este é o "Passo Fantasma" – Meu pai Lewis caminhou em minha direção, ainda parecendo um monstro. Sua imagem se distorcia em minha visão: numa hora estava a direita, outra hora na esquerda.
Era como se esse medo latente estivesse vindo de um exército que me cercava. Eu seria atacada por todos eles ao mesmo tempo. Fechei os olhos instintivamente preparada para o pior, mas o abri instantes depois, quando ouvi Luchio arfando a minha frente, tampando a luz do pôr do Sol.
Ele havia me defendido.
—- O que acha que está fazendo!? – ele exclamou, enquanto se defendia da fúria da espada de treino de meu Pai.
—- Ela deve saber a diferença entre saber usar uma espada, e ter o dom para usá-la – Lewis falou, enquanto eu ainda o olhava assustada – Enquanto ela não entender os motivos, não fará sentido.
—- Ela é só uma criança! – Luchio o jogou para longe, utilizando algum dom do qual eu não conheço – Não a assuste dessa forma.
Ele me ajudou a levantar novamente e segurou minha mão enquanto eu ainda estava sem palavras.
Meu pai tinha razão. Eu entendi agora, enquanto eu não tivesse esses dons, eu nunca seria uma guerreira completa. Não importa o quão bem eu saiba manejar uma espada ou qualquer outra arma que seja, nunca terei o dom. Meu pai estava certo em me tirar daqui. Não chorei, pois não adiantava mais chorar, eu era a única errada dali, eu deveria realmente ir embora e procurar...
Luchio me abraçou, interrompendo meu raciocínio.
—- Não importa o que todos dizem – ele me apertou, bagunçando meus cabelos curtos de "guerreira" – Você vai ser sempre minha guerreira poderosa!
Meu pai passou por nós, sem dirigir mais nenhuma palavra para mim, ou para Luchio. Eu sabia que esta discussão iria deixar Luchio com problemas...
—- Me desculpa por isto, irmão... – eu o abracei de novo, como havia feito antes quando ele veio atrás de mim. Se eu tenho que ir embora e me lembrar com pesar deste lugar, ao menos sempre lembrarei de Luchio com um sorriso no rosto. Este era meu único consolo – Me desculpa por tantos problemas...
—- Não há de quê, baixinha! – ele riu. Eu ri também.
***
Meus dedos deslizaram pelas cordas de metal daquele instrumento. "Isto é um violão, há vários, de variados tamanhos...", uma voz feminina falou comigo, enquanto eu tocava aquilo sentada em um quarto estranho no meio da noite.
Eu olhei para o lado e vi a senhorita Saeki Yume parada, encostada na porta me observando. Sorri, como se tivesse vendo uma velha amiga, embora no fundo eu saiba muito bem que eu não a conhecia, não pessoalmente.
"Desculpa, não me apresentei até agora. Eu sou Phreia, Deusa da Música", me surpreendi de uma maneira que nunca havia acontecido antes, "Mas esta é a forma da senhorita Saeki, eu decidi assumi-la para podermos conversar melhor. Não se preocupe em me considerar masculino ou feminina, alguns deuses se importam com isto, mas eu posso ser como bem entender".
"Entendo", respondi, enquanto ainda dedilhava aquelas cordas do instrumento que nunca havia visto antes. "O que significa tudo isto?", perguntei, "Por que sinto que já a conheci antes, mesmo nunca tendo visto alguém tão distinta como você".
"Compreendo sua confusão, o processo do nascimento é sempre difícil, sempre traumático", a Deusa comentou, enquanto se aproximava e sentava-se bem a minha frente numa cama. "Saeki, esta mulher da qual estou assumindo minha forma agora, era você há muito tempo atrás", ela comentou me olhando fixamente nos olhos. Eu senti no fundo que deveria ter ficado mais surpresa com a revelação, contudo, parecia que eu instintivamente sabia daquilo há muito tempo, tempo demais para que constatar este fato fosse considerado uma surpresa.
"Então, significa que eu já fui uma barda...?", eu perguntei, olhando de volta para Phreia.
"Sim, em sua vida passada, seu nome era Saeki, e você tinha muito talento para música. Cantava, dançava, tocava musicas de todos os tipos. Seu talento era algo impressionante", ela comentou, olhando para cima, como se tivesse relembrando momentos sublimes. "Entretanto, morreu jovem demais... Por isso, decidi agilizar seu processo de purificação espiritual, e te enviar para o primeiro corpo que eu pude conseguir". Ela explicou, voltando seu olhar para mim. A encarei de volta, um pouco confusa com tantos conceitos.
"Significa que, se não fosse você, eu não teria reencarnado neste mundo?", perguntei, tentando entender o que a Deusa havia me explicado.
Saeki me puxou para que eu sentasse ao seu lado e me abraçou suavemente. Por um momento me constrangi, será que esta presença forte e atitude eram características de Saeki ou de Phreia?
"Almas humanas não reencarnam em outro mundo sem um empurrãozinho. Tive que trazê-la para cá, para que eu pudesse ouvir com mais clareza suas melodias; na terra em que você vivia, não conseguia a apreciar direito, sem a interferência de outras divindades", Ela sorriu, "pode se dizer que eu a roubei para mim. Não vai ficar nervosa por isto, vai?", mesmo sendo palavras confusas demais para que eu entendesse, enquanto olhava para os olhos de Saeki, pude perceber que não havia intenções ruins neles.
"Sinto muito, senhora Phreia, mas mesmo que em vida passada eu tivesse tanto talento para música, nesta vida eu quero ser uma guerreira do fundo do meu coração... Acho que seu plano pode não ter funcionado", fechei meus olhos. Não podia fazer nada além de tentar falar com a própria divindade para revogar os dons da Música e me presentear com os dons da Batalha.
"Oh, querida... Há também um outro motivo para o qual eu a reencarnei neste mundo", ela sorriu, segurou meu rosto levemente com suas duas mãos e disse: "Neste mundo, suas canções têm poder".
Eu acordei num pulo, voltando para minha realidade. Aia Estrid preparava mudas de roupas, as perfumando e colocando-as em malas distintas.
É verdade, eu voltei a realidade, e ela era a pior possível.
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