Notas iniciais
e depois de um intenso inicio...

E depois de quase duas semanas, Phreia não conversou mais comigo através dos meus sonhos. Eu ficaria mais ansiosa para conversar com um Deus... Se minha vida não estivesse tão esquisita. Logo após a derrota extrema que sofri, eu me despedi de minha mãe e de Alain, que ficou de braços cruzados durante toda a despedida.

Não houve uma festa, não houve qualquer cerimônia. Luchio e Estrid me abraçaram e eu peguei minha pouca bagagem e subi na pequena carruagem, que em nada era parecida com a luxuosa carruagem que meu pai tinha, mas pelo menos eu teria um transporte até minha tia Annabel, irmã de minha mãe, que morava perto da academia Learity.

Esta seria minha nova casa... Por quanto tempo eu teria que morar lá? Ninguém soube responder isto pra mim. Talvez pra sempre.

Eu não tinha mais lagrimas para chorar. A carruagem era desconfortável e a estrada era um pouco sinuosa depois que saímos de Rivermere, não passava tantas carruagens por ali, e esse desconforto durou exatos 11 dias. O cocheiro mal olhou para minha cara durante este tempo todo, sempre descansando metodicamente, armando uma barraca para si mesmo e deixando o interior da carruagem para mim. Somente uma vez disse que havia sido pago adiantado para me levar até a casa de minha tia e me proteger caso necessário. Isso colocou um sorriso em meu rosto, afinal, meu pai ainda não me odiava tanto! Ainda tinha uma esperança...

Fechei a cara, isso foi há alguns dias, e até agora este homem não falou mais nenhuma palavra comigo. Não ligo, hoje era o ultimo dia de viagem, a maior que eu já havia feito em vida. Vi cachoeiras, montanhas que não existiam perto de minha antiga casa. Vi vilarejos diferentes e pessoas novas. Passar grande parte do dia chacoalhando dentro daquele cubículo foi chato, mas, mesmo assim, foi uma boa jornada. O suficiente para me animar um pouquinho. Eu acho.

Acariciei minha espada de madeira, que sempre descansava comigo. No fundo, eu ainda queria que tudo isto fosse um gigantesco engano; quem sabe daqui um ano eu não receba meus dons de guerreira de uma forma tardia. Não, a cada dia que passava, principalmente depois do sonho com Phreia, esta era uma esperança esquecida.

Mesmo assim, eu ainda fiz questão de levar minha espada. Fora ela, não levei mais nada de especial. Ela estava desgastada, Luchio havia detonado ela durante os treinos comigo, mas ainda assim...

Luchio...

—- Estamos chegando, senhorita – o homem mau-encarado e esquisito falou da frente da carruagem, interrompendo meus pensamentos. Ele parou a carruagem um minuto depois, próximo a um casarão – Boa sorte, tá...

Ele falou com um tom... estranho. Não era maldoso, ele parecia ranzinza demais para demonstrar que estava preocupado comigo. Eu ri.

—- Não vai me dizer seu nome? Eu serei uma grande guerreira algum dia, quem sabe eu não precise dos seus serviços – eu cutuquei ele pela abertura da frente da carruagem, antes de descer.

—- Não.

—- Obrigada – disse enquanto descia. A luz do fim de tarde ainda brilhava forte aqui fora.

Acho que eu estava precisando disto. Nestes últimos onze dias, tudo o que eu tive mais medo era ter que passar a viagem inteira sendo interrogada sobre os motivos de eu ter que sair de casa. "Você não quer dar o nome, mas vou guardar muito bem seu rosto, senhor!". "Cabelos castanhos e queixo quadrado com barba. Olhos"— encarei um pouco mais atenciosa —"meio caídos". Ele me olhou de volta e fez uma cara feia, claramente incomodado.

"A-ha!", uma cicatriz na lateral da testa, dois rastros de pele mais clara, eu acho que talvez tenha sido atacado por algum monstro ou animal. "Sabia que não era só um cocheiro qualquer!". Me senti vitoriosa.

—- Espero que a gente se veja de novo! Eu sou Ariel, mas acho que você já sabe – eu olhei pra ele, contente por ter marcado bem seu rosto. "Viu só, eu ainda sou esperta como uma guerreira!".

Ele arfou, mas não respondeu nada concreto, sabia ao menos que ele não me odiava. Isso era bom.

***

Pouco tempo depois, sentei-me na sala de estar do casarão de minha tia Annabel. Um empregado havia prontamente me recebido no portão e levado minhas bagagens até outro comodo. A casa não era tão grande como a do meu Pai, era como se fosse uma versão miniatura; jardim que era metade do tamanho, casarão com a metade do tamanho, metade dos serviçais também. Entretanto, a mobília era muito mais detalhada e limpa, na verdade, tudo era extremamente limpo aqui.

Afastei isso da mente, não ligava para isto, mas Ladys geralmente eram orgulhosas demais quando o assunto era status, foquei nas aulas de etiqueta que eu havia tido — todas aquelas que eu não havia faltado para sair por ai balançando minha espada.

Um mordomo estava de guarda na porta de entrada da sala de estar, olhando em volta freneticamente a procura de algo.

—- Obrigada por esperar, Ariel – tia Annabel apareceu pela porta, e o mordomo rapidamente assumiu uma postura mais calma, piscando o olho suavemente. Que estranho. – Gostaria de um café? Está confortável?

Ela estava com um refinado vestido azul, com laços na cintura e em seus ombros. O azul era cintilante, será que ela usava um vestido bonito assim para ficar em casa regularmente?

O cabelo também estava cuidado como se ela estivesse indo para uma festa, com seus fios loiros penteados e cabelo até a altura da cintura. Era como se fosse ela uma princesa, uma daquelas velhas que nunca se tornou rainha.

—- Na verdade, não precisa me trazer...

—- Bertram, por favor, traga para Ariel uma xícara de café – ela olhou rapidamente para o mordomo, que assentiu.

—- Sim senhora – ele disse, e prontamente se dirigiu para a cozinha.

Nossa. Como eu supostamente deveria negar esse café agora?

—- Como foi a viagem, querida? – ela sentou com postura excelente em uma das poltronas – De Rivermere para cá é um longo caminho, você pegou a estrada do litoral?

—- Na verdade vim pela rota comercial – respondi, não tão certa sobre isso. Digo, passei maior parte do tempo dormindo ou pensando sobre nada, já que o cocheiro misterioso não conversava. Mas, do que eu me lembro do caminho para o litoral, não foi o mesmo que eu fiz nesta viagem.

Enquanto pensava em minha resposta, percebi Annabel olhando de uma maneira estranha para mim.

—- O que foi, tia? – perguntei, arrumando minha postura o máximo que eu pude, para imita-la.

Todo esse teatrinho de etiqueta era um pé no saco, pra falar a verdade.

—- O que houve com seu cabelo, querida? – ela perguntou, e eu senti sua voz falhar por um instante.

—- Senhora – o mordomo Bertram apareceu, com uma bandeia limpíssima e duas xícaras de café incrivelmente bonitas e detalhadas também – Aqui está o café.

—- Deixe-o na mesa, sim – ela disse, mas sem traços de simpatia.

Peguei a xícara de café prontamente, para dar tempo de pensar numa boa resposta. Já havia entendido tudo, tia Annabel era ainda mais "Lady" que Lady Leana, minha mãe.

—- Bem, senhora – deixei cuidadosamente a xícara de volta no prato, limpei minha garganta – Eu cortei pouco antes de minha Revelação, porque atrapalhava em meu treino como... Como guerreira, senhora.

—- Entendo. E você já está se aproveitando de seus dons de guerreira? – ela disse, e por um momento pensei que ela não soubesse da verdade.

Mas então, sua expressão entregou tudo. Olhei para Bertram, e ele estava de olhos fechados, pronto para mais uma ordem de Lady Annabel.

—- Como você já deve saber, senhora – eu disse – Eu, na verdade, recebi dons de Phreia, Deus da Música – falei, segurando a raiva. Não por ter recebido tais dons, mas... Annabel estava claramente tirando sarro de mim, e isto eu não suportava.

Ela queria ver minha derrota, então agora...

—- Mas bem, senhora – eu a olhei... Com outro tom – Como está a vida aqui em Faysea? Grande parte de nossa família mora em Rivermere, ou nos arredores. Mas aqui, na "cidade da magia", eu acho que vou me sentir um pouco solitária tão afastada dos outros. Você não se sente assim, senhora? Solitária? – eu quis falar "Solitária aqui nesse fim de mundo? E dona de casa de um nobre três níveis hierárquicos abaixo de meu pai", mas vamos por partes.

Só o pensamento de dizer isto me fez dar uma pequena risada de canto de boca, o suficiente para perceber que Lady Annabel havia ficado com raiva.

Talvez não tivesse sido uma boa escolha da minha parte...

—- Bem, pequena Ariel – ela disse, piscando algumas vezes, olhando diretamente para a xícara de café na mesinha de centro – Aqui em Faysea têm muitos eventos de diferentes proporções – ela bebericou um pouco de café – Tenho muito o que fazer aqui, por isto não me sinto sozinha. Com certeza você também terá muitos compromissos e responsabilidades aqui.

Responsabilidades?

—- Na verdade, senhora, eu só vim para cá para ingressar em Learity ano que vem e...

—- Era este seu objetivo? – ela perguntou retoricamente – Entendo, bem, se é apenas ano que vem, então significa que você tem bastante tempo sobrando até lá. O que pretende fazer com este tempo? Certamente não vai ir para os postos militares treinar seus dons de espada – ela apertou levemente os olhos, querendo saborear minhas expressões nervosas – Já que você não tem nenhum deles.

Eu gelei, mas resisti para não dar este gostinho a ela. Porém, não podia negar que ela tinha razão. Se eu contar que o processo de matrícula em Learity inclui desde o inicio dos registros até o primeiro dia de aula, eu tenho pelo menos 9 meses sobrando, e eu não havia realmente pensado sobre o que fazer com isto.

—- Então – ela continuou – Tenho certeza que vai fazer bom uso deste tempo.

—- O que quer dizer, senhora? – perguntei, com medo da resposta.

—- Tenho amigas que moram mais próximas ao centro da cidade, e eu ouvi dizer que algumas têm precisado urgentemente de uma... – ela pausou procurando um jeito de falar – Aia.

Eu a olhei, incrédula. Eu, Aia?

—- Senhora, eu sinceramente não tenho experiencia alguma com...

—- Claro que tem – ela falou de forma mais imponente – Afinal, não teve você uma aia sua vida inteira?

—- Bem... Sim... Mas eu

—- Então está decidido – ela disse batendo as mãos rapidamente no colo e se levantando – Em alguns dias me reunirei com minhas estimadas amigas aqui mesmo em casa, trate de se lavar e se arrumar direitinho.

Ela falou determinada, e saiu antes que eu pudesse dar qualquer resposta.

Olhei para Bertram e ele ainda estava de olhos fechados. Talvez... Não... Não adiantaria pedir desculpas para ela, Bertram me diria se isso adiantasse, mas ele estava condescendente. Ir contra Lady Annabel em sua própria casa foi idiota, idiota, idiota!

Afundei o rosto em minhas mãos, vermelha de raiva; de mim mesma, de tia Annabel e até de Bertram.

Resolvi ir para meu novo quarto rapidamente, antes que eu chutasse qualquer um desses caros e bonitos móveis.

Notas finais
essa tia its no easytask, huh.