Canções De Apartamento

6 06 - João e o pé de feijão


Notas iniciais
O capítulo ficou grande, triste e chato... Não gostei muito, mas espero que vocês peguem leve já que fazem anos que eu não posto hahaha. Canções voltou, galera!

Quarta, 3 de julho.

Cecília jogou o papel em cima do balcão da pia do banheiro e se olhou no reflexo do espelho. Que espelho horrível, estava completamente manchado. Que cara horrível, ela estava inchada e vermelha na pele. Que sensação horrível, a cabeça latejava e as pernas estavam ainda bambas.

Por um instante, pensou em sair dali e voltar para casa. Não havia motivo, tinha ficado derrotada com tudo aquilo. Sentou-se então dentro do box do banheiro e ligou o chuveiro, deixando a água cair sobre sua cabeça e se permitindo chorar como queria desde o início.

Saiu dali com a roupa encharcada, mais de uma hora depois, com várias tentativas inúteis de ligar para Ana. A melhor amiga não atendia de maneira alguma. Ligou outro número e quase chorou outra vez por isso.

– Daniel? Posso falar com você?

Sábado, 29 de junho.

– E então, você vai pro São João comigo? – Cecília perguntou ao telefone, escutando apenas um “sim” fraco e rouco de João. – Vai passar aqui ou eu te pego?

– Eu vou depois, vou levar a Ana no aeroporto. – ele respondeu devagar.

– Ao aeroporto. – corrigiu rapidamente.

– É. Ao aeroporto.

Cecília olhou através da janela de seu quarto e piscou ferozmente os olhos enquanto via os carros passarem.

– Está bem então, nos encontramos lá mais tarde.

Os carros passaram e passaram, mas ela manteve-se imóvel enquanto segurava o celular e o jogava de uma mão para outra. As luzes da rua se acenderam e alguns alarmes soaram. A melodia do Rio e uma leve brisa embalaram o rosto esbranquiçado da moça, que por pouco não cochilara pendurada no parapeito.

Cecília passou a tarde divagando no ócio do calor, inquieta e desesperada para sacudir a poeira de cima do próprio corpo. Fez-se de surda, entretanto, todas as vezes que a mãe chamara e deixou-se levar pela batucada do vizinho.

A mãe a chamou outra vez. Naquela noite aconteceria uma festa junina típica do clube no qual as amigas de Dona Clarice participavam. Como resultado: a família de Cecília sempre era convidada e bem-vinda. Naquela noite, como surpresa para alguns, a moça estava acompanhada de João. Ana viajaria para Salvador para encontrar alguma parte perdida de sua família, por isso não acompanhava os dois.

Tudo tinha clima de festa no clube quando chegaram, e pouco a pouco a morena animou-se com as companhias divertidas e mais velhas, agradecendo principalmente por não precisar se preocupar nem deixar sua mãe preocupada com os irmãos. Os três estavam ajudando numa pequena barraquinha de tiros que Dona Joana, uma das organizadoras e amigas de Dona Clarice, havia preparado.

Com tanto brilho e tanta animação, era difícil encontrar quem não se animasse! Um rapaz, filho de alguma das senhoras da mesa, chegou até a convidar Cecília para dançar.

– Vá, minha filha! Tenho certeza que o João não vai achar ruim. – Dona Clarice falou animada.

– Mas eu não sei dançar. – ela riu e levantou-se por impulso de momento e insistência de todas as senhoras da mesa. – Não estou nem um pouco acostumada com essas coisas.

Ela foi rodopiada e jogada de um lado para o outro. Riu, brincou e quando a música já tinha mudado, o tal rapaz tentou levá-la para outra dança. Por um instante ela pensou em continuar ali, era um cara legal e uma situação divertida.

– Tem certeza? Só mais um pouco...

Cecília negou com a cabeça e voltou-se para sentar novamente na mesa. Foi quando deu de cara com João, que chegava devagar e curvado, mantendo uma expressão não apenas serena, mas também quieta demais.

– Olá e boa noite, Cecília. — ele falou, seguindo na sua direção e sorrindo sereno.

Aquele sorriso retorceu a espinha da moça antes que ela o saudasse também.

– Boa...

– João, querido! – Dona Clarice berrou, chamando o rapaz. Os dois jovens a fitaram enquanto ela apressava-se com outras duas senhoras – Esse aqui é o namorado da minha filha, João. Vamos, Cecília, apresente o rapaz para as suas tias.

Ela sorriu sem graça e percebeu que ele não se alterara. Apesar de sentados lado a lado, estavam quietos entre si. Não davam as mãos mesmo que estivessem, vez ou outra, próximas. Nem mesmo a mecha do cabelo dela que caia, ele notava – e aquilo a afetou de alguma maneira. A música tocava e todos riam e comiam, mas os dois pareciam não interagir normalmente.

Aquilo não era normal.

– É dia de São João! – uma das mulheres berrava bêbada na mesa.

Não é, Cecília pensava, foi há dias atrás...

– Dia de São João! – outra dizia animada.

São João, diziam uns. São João, diziam outros.

– Dia de São Ninguém... – Cecília murmurou, pensando que nenhuma pessoa ali escutara, entretanto ao virar o rosto, percebeu que João a observava.

– Ninguém? – a voz dele ecoou rouca.

Ela desviou o olhar do rapaz e manteve a concentração no nada que se estendia a sua frente. João chegou a imaginar que aquela reação se dava ao seu nome. São João, ele pensava, era São João e não havia motivo para aquilo. Talvez para ela já não fossem ninguém juntos.

Nunca há motivo em nada do que Cecília faz, o rapaz pensou e levantou a cabeça, recostando-se nas costas da cadeira com mais folga.

Dia de São Ninguém, a frase martelou outra vez. Dia de São Ninguém o fez pensar em algum motivo especial para ela o ter dito.

– Então, Cecília! Fale mais sobre como está a faculdade! – o outro rapaz, o que a puxou para dançar momentos antes, falou. – É tão diferente encontrar alguém que faça comunicação social que eu tenho que perguntar como é!

– Está indo bem. – ela disse e em seguida suspirou. Tomou um gole no refrigerante que havia em cima da mesa e o olhou calmamente. – Não é tão diferente assim encontrar graduandos de jornalismo.

– E o seu boy? O que ele faz?

João deu um sorrisinho de lado com a afirmação.

– Matemática. – respondeu rapidamente. – E você, dançarino?

Cecília arregalou os olhos e bateu os cílios como se eles fossem voar.

– Fazendo uma pós. Terminei ciências atuariais. – o rapaz falou, encarando João.

– Humm... – João murmurou antes de virar-se para Cecília com um sorriso que distoava de seu olhar apertado e sério – Vamos dançar, Cecília?

Ela assentiu com a cabeça, soltando um rápido “Ta”. Levantaram-se mais devagar do que o próprio João queria, ela ainda estava hesitante. A música que deveria girar e rodopiar os dois entre risos, deixava de existir em seus ouvidos, tornando a cena da dança de namorados toldada e opaca. Os dois juntos eram lindos, mas os olhares que não trocavam tinham ácido e melancolia.

Por um longo instante, João se viu pensando em como mudar aquilo. O amor seria suficiente para conquistá-la? “Reconquistá-la” foi o que ecoou na mente do rapaz. Estavam assim por culpa dos dois.

As músicas mudavam e eles andavam pela festa do clube de mãos separadas, até que se encostaram – a mão quente dela e a mão magra dele – e se separaram em questão de milésimos. Pararam e se entreolharam naquele instante.

– Vamos sair daqui? – Cecília perguntou, mordendo o lábio inferior e olhando de canto.

– Vem, eu te levo pra casa. – João falou. Percebeu que o olhar dela estava triste embaixo de uma mecha de cabelo que tinha uma bela mania de cobrir sua maçã do rosto. Ele sorriu e passou a mecha para trás da orelha da moça. – Você está cansada não está?

Estava e, por isso, assentiu com a cabeça.

Caminharam devagar pelo lugar, enquanto João apontava para algumas crianças correndo, observando e replicando para a namorada sobre a maneira bonitinha como se vestiam. Ela sorria torta vez ou outra por isso.

Quando entraram no carro, ele ligou de imediato o som para algo calmo, uma música de seriado desconhecida de uma banda do interior do Canadá. Cecília nunca saberia cantar o que tocava, estava distante do que os dois costumavam escutar.

– Que música é essa? – ela riu – Posso mudar?

– Pode, lógico. – João falou devagar, dobrando numa rua que a moça estranhou. – Mas mude logo, estamos chegando.

– Não vai me deixar em casa?

Ele negou com um movimento de cabeça. Chegaram no prédio dele rapidamente, mais rápido do que ele imaginava. A música que ela escolheu, “Teatro dos Vampiros” havia acabado de terminar.

– Precisamos conversar. – João murmurou enquanto adentrava com o carro no estacionamento. – Quer subir?

Cecília hesitou por um instante longo. Entraram no estacionamento antes que ela respondesse um “sim” fraco. Assim, o caminho de escadas tornou-se insuportavelmente longo. Dois lances foram preenchidos por respiração e estalos de saltos no chão. João lembrou-se daquele barulho, parecia o barulho estalado feito no dia em que se beijaram pela primeira vez. Seriam os mesmo saltos ou os pensamentos dele que o faziam querer voltar no tempo?

– Sobre o quer começar a conversar? – ela disse logo após ele abrir a porta e acender as luzes do apartamento. Acomodou-se então no sofá velho marrom enquanto o via abrir as janelas.

– Começar, é? – ele riu, caminhando para a cozinha minúscula do apartamento – Você quer um café? Uma água?

– Não quero.

– Porque não quer lavar a xícara depois? – falou como se caçoasse. Quando Cecília percebeu, ele chegava perto dela com uma xícara grande que havia ganhado de presente da mãe – Tome, estou fazendo cafés gostosos agora.

– Desde quando? – ela sorriu ao falar.

João olhou para o café lentamente antes de respondê-la:

– Já tem um tempo. Ana estava querendo me dar uma cafeteira, lembra?

– Ah, mas isso já tem mais de um mês. – ela disse, observando a xícara.

– Pois é – João falou baixinho – já tem um tempo.

Ficaram quietos por um momento. Ele disse aquilo para lembra-la quão distante estavam, disso a moça tinha certeza.

– Vai precisar tomar muito café no frio do exterior, não é? Do jeito que você gost-

– Cecília, acho melhor nós terminarmos de vez...

As palavras de João deixaram a moça quieta e levaram seus olhos ao encontro dos dele. Estavam se encarando, mas ele não mostrava uma emoção, mantinha apenas as sobrancelhas grossas fixas e as pálpebras baixas no olhar. As palpitações estavam fortíssimas, batendo como um bumbo.

Nada demonstraram no tempo que voltaram ao silêncio.

– Por que diz isso? – Cecília perguntou com um suspiro. Assim como o rapaz, ela não mostrou nada na expressão do rosto, nem deixou transparecer que perdia o tato das mãos ou suava mais. – Sei que tivemos nossos problemas, sei que não estamos bem, mas podemos continuar juntos, não podemos?

– Não podemos, fraquinha. Não podemos. Você não tomou essa decisão na nossa última discussão, por isso estou tomando agora. – João falou, tentando não desviar o olhar do rosto dela – Eu gosto de você e da sua companhia, Cecília. Gosto de cantar com você, de assistir filme, de ir te visitar na redação, de ir pro Boemia do Rei com você, de te levar para ver a praia e até de passear de ônibus com você. Eu amo ver balões com você, deitados na grama e tudo mais. O problema é que se não estamos juntos, começamos a nos distanciar do nada e...

– Não foi do nada, você sabe disso.

– Você criou um ciúme absurdo e eu me ausentei demais da sua vida. Você se ausentou demais da minha também.

Ela desviou o olhar, porém João aproximou-se dela no sofá, depois colocando a xícara na mesinha que havia do seu lado.

– Achei que você não fosse desistir de nós. Pelo menos não com essa cara... – Cecília murmurou entredentes, piscando os olhos violentamente. Tinha vontade de chorar.

– Você também desistiu. – replicou o rapaz, passando o cabelo dela para o lado da bochecha. – E está tudo bem. O tempo que passamos juntos foi incrível. Eu senti por você o que jamais senti por outra pessoa.

Cecília mordeu os lábios antes de falar baixo:

– Eu também. Nunca senti por ninguém o que senti por você.

Respirou fundo e engoliu a saliva na garganta seca.

– Você vai encontrar outra pesso-

– Eu nunca senti isso por ninguém. Nunca amei tanto ficar cantando músicas com ninguém, nem escutar violão por tardes e tardes, nem dançar no meio da rua com ninguém, nem falar sobre fitas coloridas! Sabe, você conseguia me ler tão bem, era bom demais para ser de verdade! Por que nós ficamos assim? De repente ficamos!

Ele suspirou e disse:

– É normal desvanecer um sentimento... Você terminou comigo há quinze dias, mas eu não consegui admitir que aquele foi o fim. Nem agora chegamos a um fim, nos veremos com certeza. A eternidade é incerta e o mundo é redondo, voltaremos algum dia aos mesmos locais, não importa quando.

– Você escreveu essa frase? – ela sorriu e fungou, mas não chorava.

O rapaz assentiu com a cabeça. Naquele momento, pensou que ela concordava com o término, que estava triste, mas em menos de uma semana já voltaria a sorrir como sorria quando ele a conheceu. Ela sorria e brincava antes, e naquele dia tinha a expressão nublada como o céu cheio de nuvens escuras e feias. Pensando assim, ele sentiu uma forte dor no peito e uma onda chocar contra sua cabeça.

A sensação de perda de tato já não era mais dela, eclodia agora nos olhos escuros de João que começavam a desviar do rosto de sua amada. Cecília não percebeu aquele rosto lúgubre.

Abraçaram-se depois de longos instantes de suspiros e gemidos tímidos. Esperaram por um bom tempo, jogados no sofá e olhando para o teto, cada um em sua ponta. Abraçaram-se novamente logo após uma ligação da mãe de Dona Clarice, João tinha que deixa-la em casa, já passava de meia noite.

– Então até a próxima...

– Nos vemos semana que vem no aniversário do Luiz? – Cecília disse antes de sair do carro, já estavam na frente do prédio dela. A rádio começava a tocar "Perto do Fim", e o rapaz de imediato desligou.

– Talvez. – João falou com um sorriso. – Boa noite, Cecília.

– Boa noite, João.

Quarta, 3 de julho.

Cecília não tinha notícia de Ana há alguns dias, acabou por ficar ansiosa por revê-la.

Já era tempo de ela voltar da viagem, a moça pensava quando viu o número de pessoas na frente do portão do aeroporto Santos Dumont. Esperava a amiga há mais de 10 minutos dentro do carro.

Mais 5 minutos se passaram para que Ana surgisse com os cabelos negros e lisos esvoaçantes na saída do aeroporto. Cecília buzinou levemente para que a amiga pudesse olhar. Porém, a reação não foi a esperada.

Ana andou depressa com os pés pesados e uma expressão furiosa para o carro, abrindo a porta violentamente e apertando as sobrancelhas finas, dizendo:

– Mas que porra de ligação foi aquela que eu recebi do João?!

– Boa noite, dona Ana.- Cecília resmungou – Olá para você também. Desculpa ter chegado cedo. Ah, desculpa também ter vindo te buscar, ingrata.

– Ingrata é a mãe. Eu não devia ir contigo...

A outra saiu da porta e caminhou entre bufadas para porta-malas, jogando a mala no canto. Cecília levantou-se e bateu o pé, não entendendo a reação da amiga.

– Se não devia ir, por que colocou a mala no bagageiro?! Ana, o que aconteceu?! – Cecília balbuciava sem entender.

As duas pararam quando Ana retorceu o olhar. A outra não saberia da verdade?

– Cecília, quando foi a última vez que você falou com o João? – ela perguntou.

– Foi no final de semana que a gente, bem, você sabe.

Ana falou três palavras e o mundo da outra desabou em suas pernas e expressão confusa. Começou a chover, o clima piorava e retorcia seu estômago.

– Não vá fazer nenhuma besteira. – a amiga de Cecília falou ao sair do carro, apesar de não ter dúvidas de que ela iria até lá.

A moça se viu numa situação estranha. Perdeu o tato das mãos novamente, como aconteci quando ficava nervosa e triste. O Catete se aproximava e ela imaginava que subiria as escadas do prédio do rapaz e o encontraria na porta, esperando para abraçá-la e dizer que tudo foi planejado com Ana.

Não foi como esperava.

Cecília se aproximou da portaria e perguntou onde ele estava, mas o porteiro não respondeu. A imaginação dela fez parecer que ele a via com pena, enquanto entregava uma chave. Havia um chaveiro conhecido, era para a porta da frente do apartamento. Não poderia ser verdade!

Correu os lances de escada quase sem respirar, engolindo saliva como se fosse morrer de sede. Ninguém atendeu a campainha. Não havia ninguém.

Não pode ser, ela pensava com vontade de chorar. Não, não, não e não...

– João?! – Cecília falou alto quando entrou no apartamento vazio.

Foi assim que ela a encontrou, parada em cima da mesa que tinha um porta retrato dos pais o rapaz e outro dos dois no Boemia do Rei. Era uma carta num papel branco toda escrita com tinta preta às vezes falha na caligrafia bonita e desenhada que só ele escrevia.

“Querida Cecília,

Que fique bem claro, escrevo esta carta apenas por causa desse seu fascínio gigantesco por tudo que é antigo, velho e belo. Sei que isso não é papel envelhecido e que minha caneta bic não é tinteiro, mas tenho certeza de que você vai perdoar. Eu espero que perdoe, pelo menos. Tudo que eu falo aqui eu deveria ter dito antes (29 de junho), mas, quando percebi, já tinha te deixado em casa sem saber o que fazer nem o que dizer. Sei que não estamos em 1800 e pedrinha, mas só você poderia merecer uma despedida dramática como essa, não é?

Primeiramente, esclarecendo o que eu tenho certeza que você não vai acreditar, meu voo foi no dia 2 junho e você deve ter descoberto apenas agora. Eu deveria ter dito quando nós saímos, mas depois de tudo o que aconteceu, achei melhor não. Sei que sempre reclamei do fato de você deixar as coisas para depois e os nossos problemas para lá, mas ali você me pegou desprevenido, fiquei sem saber o que falar no carro e muito menos quando você entrou em casa. Esta é, enfim, a minha carta de despedida.

Cecília, eu quero pedir desculpas por esses últimos meses e por todo o mal que já lhe fiz – você não vai admitir, eu sei muito bem, então que fique bem claro que eu vou repetir isso na sua cabeça toda vez que você disser o contrário. Quero agradecer também pelo tempo que passamos juntos e frisar que essa carta não é um ponto final, é apenas a minha maneira dramática de te imitar e dizer adeus. Apesar de o relacionamento ter chegado ao fim, nós não chegamos, nós não morremos e nós temos redes sociais infinitas para desejar boas festas, feliz aniversário e etc.

Lembra-se do segundo dia do primeiro festival que fomos? Não sei se você tem as mesmas cenas que me marcaram em mente, por isso vou dar um sopro de memória: Já estava no fim da tarde quando você chegou e ficou choramingando por ter perdido a maior parte do espetáculo. Tinha ido ao primeiro dia, mas tinha perdido quase todo o segundo. Eu ri e quis fazer piadinha sobre aquilo. No sábado, eu tinha ficado encantado com a maneira como você olhava para o céu, fiz o possível para chamar a sua atenção naquele dia, mas parecia que o nosso progresso – como amigos ou como namorados – não seria rápido. O interesse que você tinha demonstrado em mim no dia em que nos conhecemos com a Ana, não parecia ter evoluido... Por mim, estava tudo bem, sabe? Não era a primeira vez que eu tinha desistido de uma pessoa por causa da falta de interesse mútua. Foi então que, no meio de vários olhares desencontrados (é, eu passei o fim de tarde todo te observando, enquanto você ria com a Ana e trocava duas palavras comigo), eu recebi seu sorriso por uns 2 minutos. Ainda não sei ao certo quanto tempo você passou sorrindo para mim antes de assoviar uma música do Caetano que eu não conhecia. Cecília, então você me falou que da próxima vez chegaria mais cedo e que iríamos nos encontrar novamente, que torcia por isso. Eu te perguntei como você poderia ter tanta certeza, e você deu entre ombros, sorrindo novamente e passando sua mão pálida e quente no meu antebraço. Você falou com a maior calma e categoria que tinha um feeling e voltou a cantarolar.

Onde eu quero chegar com essa lembraça?

Você cantava “You don’t know me, bet you'll never get to know me. You don't know me at all.” É, eu não te conhecia e nunca, infelizmente, te conhecerei completamente. Mas eu quis, sabia? Eu quis te conhecer, eu quis te ter do meu lado para cantarolar, para rir e para que você fosse alguém nos meus dias passageiros, mesmo que fosse apenas uma amiga. Começamos como amigos, não foi? Você é a melhor amiga da minha prima.

“Feel so lonely. The world is spinning round slowly. There's nothing you can show me from behind the wall”.

Cecília, nunca esqueça da música. Não falo dessa, estou falando da música que há dentro de você e desse seu sorriso que prendem qualquer um num mundo distante, na metafísica do pensamento e no embalo do vento. Pareceu que você perdeu essa magia em você nos últimos tempos, por isso que venho (por meio desse drama absurdo) repetir o que te falei naquele festival: “Dá um sorriso e coloca os teus óculos escuros quando for olhar para o céu. Se espreguiça e, se puder, deita na grama. Não há nada mais revigorante.” Você deitou, e eu esperei Ana deitar também para poder fazer o mesmo...

Respira e relaxa, Cecília! Vou te mandar uma foto minha no frio absurdo dos Estados Unidos junto com a caneca que minha mãe me deu.

Não evite falar comigo quando tiver vontade, certo? Não evite abrir a janela do bate papo do facebook. Não evite escutar as músicas que a gente escutava juntos. Não evite ir na Boemia do Rei, o Luís vai ficar chateado se você não for. Não evite rir se a Ana contar alguma coisa engraçada que aconteceu comigo. Não rasgue, por fim, esta carta.

Mesmo de longe, ainda ficarei encantado com as tuas cores e a tua aquarela estampada no olhar. “A mais bela pintura, você traduzida em cor” já dizia Fernando Anitelli. Você nunca gostou de O Teatro Mágico...

Adeus, Cecília. Cuida dessa sua fraqueza para bebida e não me esqueça. Fique longe, mas não me esqueça.

Com todo o carinho que você já conhece,

João.

PS: A Ana deve estar furiosa achando que você que provocou a minha viagem, isso não é verdade. Meus pais já sabem, passe os últimos dias com eles, não precisa se preocupar com isso também. Eu precisei mudar, precisei dessa mudança.

PS²: Esse é o meu sonho. Torça por mim.”

Ela chorou. Entrou no banheiro e se olhou no espelho, chorando. O coração doía e nada poderia secar suas lágrimas, nem mesmo as toalhas de algodão que já não estavam estendidas, nem mesmo sua blusa bonita e amarela de algodão. Ela não conseguiria secar as próprias lágrimas. Cantou então: "Antes de o dia terminar, eu sei que há tanta coisa pra contar, mas é melhor fugir de mim. Sem mais, sem dor, perto do fim.".

Notas finais
Lista das músicas do capítulo: 1. TEATRO DE VAMPIROS - Legião Urbana 2. PERTO DO FIM - Thiago Pethit e Mallu Magalhães 3. YOU DON'T KNOW ME - Caetano Veloso 4. É ELA - O Teatro Mágico Beigos beigos! Espero que gostem haha