Canções De Apartamento
3 03 - Vagalumes Cegos
Notas iniciais
Vagalumes Cegos
Domingo, 17 de março.
– Se abrir os olhos não vai ganhar... – João falou.
Cecília deu mais três passos, sentindo a grama no pé e rindo cada vez mais alto. João estava tampando seus olhos, então ela sentia-se totalmente perdida de vista, mas aconchegada pelo fato de estar recostada no peito dele e envolta pelos seus braços.
– Quando eu vou poder abrir?
Ele cheirou sua nuca por cima dos cabelos e soltou seu rosto para que ela pudesse enxergar a toalha sobre o verde da grama, acompanhada de uma cesta de palha antiga, um violão e um presente fino recostado ao seu lado. O romantismo tinha passado e ficado ali com a visão do Parque da Catacumba. Beleza arbórea e a calmaria, longe do movimento das ruas do Rio.
Não havia um só músculo dela que se mexesse depois que abriu a boca impressionada. Estava maravilhada! Sentiu um aperto lhe contorcer por dentro e um arrepio instantâneo, carregando a expressão nervosa e o riso inusitado para o meio de suas mãos.
– E então, o que achou do seu aniversário em plenas... Nove e vinte da manhã? – João falou olhando o próprio relógio.
Ela lhe fitou o rosto e soltou um riso, ficando mais e mais corada.
– Vai, pode dizer quer você tirou isso de algum livro ou filme americano! – Cecília berrou, esfregando a mão no rosto antes de surtar.
Pulou no pescoço de João de repente e o apertou num abraço, pendurada com as pernas na cintura dele, que não evitou a gargalhada.
– Precisei de duas semanas para pensar em algo que você fosse gostar. – ele murmurou, sentindo o cheiro do cabelo dela e uma necessidade imensa de apertá-la mais e mais.
– Gostar?! – gritou outra vez, soltando-se dele e segurando seu rosto com as próprias mãos – Eu amei! Vou ter um problema no pâncreas de tanto romantismo!
João riu e beijou-lhe os lábios de leve.
– Você não viu nada.
Rapidamente pegou o presente e colocou-o no colo da moça quando ela se sentou, postando-se na sua frente com o violão. Esperou que ela parasse o nervosismo e olhasse direito para o papel de presente para começar a tocar devagar os acordes de uma música que a fez murmurar:
– Moça, certo?
– Abre logo o presente, fraquinha. – João disse, ainda tocando e cantando baixinho – “Eu quero me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro. Morrer de amor, de amor me perder.”
Cecília balançou a cabeça. Ainda estava surpresa com aquilo tudo, todos os preparativos e toda a paisagem... Agora com violão e música! Outra vez, balançou a cabeça. Pegou o presente e rasgou o papel de imediato.
– Eu não acredito... – ela tentou falar, mas as palavras mal saíram da sua boca quando os olhos deram de cara com o papelão meio rasgado e antigo em forma quadricular, enaltecendo o nome de “Antônio Carlos Jobim”. – Um disco. Um LP do Tom Jobim. C-como?!
Terminou de rasgar o papel e viu que ainda havia outro disco atrás. Virou para o outro lado e lá estava o rosto magro de cabelo e barba horríveis de Caetano Veloso. Ela não evitou ficar virando de um lado para o outro e piscando mais que velozmente as pálpebras de tanto susto.
João riu e falou:
– Eu sabia que ia gostar. Consegui com o pai de Ana antes que ele inventasse de dar para ela enfiar numa gaveta.
– Gostar?! Gostar?! Puta que pariu! – Cecília berrou, puxando o violão dele e voando outra vez em cima do seu pescoço. Mas dessa vez, os dois caíram deitados sobre a grama, rindo bobamente. Ele havia batido a cabeça, mas gargalhava tanto que o abdômen começou a doer. Já ela, deitou-se rindo sobre o rapaz e enfiando o rosto no seu peito. – Qual o seu problema? Tem que ser tão perfeito sempre?!
– Qual o meu problema?! – ele falou, tentando manter a cabeça firme para olhar no rosto de Cecília, mas sem sucesso. Bateu a cabeça no chão outra vez e olhou para cima – O problema é um amor, Cecília.
Ela tentou se esgueirar para encontrar o rosto do rapaz, ainda em cima dele e riu um pouco antes de falar:
– Amar não é um problema e nem sequer desculpa para um. Então não adianta falar assim.
Devagar, Cecília rolou para o lado dele. Ambos estavam deitados em cima da toalha, enxergando as árvores que os cobriam dos raios de sol e sentindo o cheiro que a chuva deixou nas plantas e na areia.
– Já posso voltar a tocar violão para você? – João riu-se, tentando se levantar – Eu não tenho nada, além disso, preparado, entende?
Ela assentiu com a cabeça ainda deitada e João a fitou. Passou a mão sobre seu rosto como costumava e se inclinou outra vez para beijar-lhe a testa, em seguida voltando a mirar seu olhar claro e belo.
– E o violão? Não vai mais toc-
– Cecília, eu vou repetir que eu te amo. – ele a interrompeu, fazendo com que seu sorriso desmanchasse e seu corpo retorcesse – Eu te amo demais.
A última vez que o dissera, estavam saindo do apartamento de Ana, em frente ao bloco B. João a puxou para perto e murmurou no seu ouvido devagar, enquanto todos os outros amigos passavam para o lado de fora. Passaram um instante ali parados, silenciosos. O único problema foi que ela não disse o mesmo, apenas o abraçou forte e sibilou que não queria responder naquele segundo, mas que não queria deixá-lo ir embora.
Outras vezes, estava sempre ameaçando falar novamente que a amava, fosse através de músicas ou quando saiam juntos. Cecília sempre encontrava uma maneira de se esgueirar. Ela não dizia as palavras, mas ele tinha certeza de que retribuía o sentimento... Por isso, ria e repetia as mesmas três palavras.
– Você realmente quer que eu responda, não é? – Cecília murmurou antes de sentar-se.
– Quando você quiser responder. – ele riu, como sempre fazia, e pegou o violão para tocar devagar uma música já do seu meio – “Que é que tu vê, que é que tu quer, tu que é tão rainha? Branquinha, carioca de luz própria, luz só minha. Quando todos os seus rosas nus. Todinha. Carnação da canção que compus”.
– Caetano... – ela disse para si mesma e baixou o olhar.
Um suspiro e um sorriso inevitável de canto que qualquer um gostaria de esconder, mas que João viu sem que ela percebesse. Ela admitiria logo, ele pensou.
A manhã em Catacumba se estendeu devagar, contando principalmente com a comida que Ana e João haviam preparado em especial. Ele explicou não ser o melhor cozinheiro e pediu ajuda para sua prima. Deitaram-se outra vez na grama e ali ficaram, vez ou outra Cecília o abraçava e comentava algo sobre como seria a noite.
João chegou a imaginar como Daniel reagiria ao ver os dois juntos daquela forma depois de tão pouco tempo. Não fazia nem dois meses desde que se viram pela primeira vez, e ele estava ali declamando amor não pela primeira vez (não era levado a sério nem mesmo por Ana). Nada comentou com Cecília, apenas beijou sua cabeça.
– E o estágio? Ontem eu vi seu nome nos créditos do jornal. – João brincou.
– Anda na mesma, uma hora eu estou ajudando a redigir uma reportagem, outra me jogam pra produção com combinação de imagem e áudio. Parece que vou parar na rádio daqui pra Maio. – ela gesticulava bastante enquanto falava, fazendo graça. Parou um instante e lembrou-se de algo, virando-se com a barriga para baixo e um braço por cima do rapaz – Seu professor ligou ontem?! E a viagem?!
Ele suspirou e colocou o cabelo dela para trás da orelha.
– Você vai sentir tanto a minha falta, eu sei. – João riu e um milésimo de segundo conectou a idéia para Cecília. Ela saltou com um berro estridente, parecendo uma criança – Vou acompanhá-lo por um ano em Massachusetts! E se tudo der certo, serei efetivado.
– Eu não acredito! Isso é ótimo! Maravilhoso! Quando você vai?!
– De agosto para novembro, quando eu quiser. – ele falou lentamente – Uma boa folga, devo admitir. A faculdade acaba e eu tenho meses para empacotar tudo, pegar meu visto no passaporte e começar a pesquisa.
– Eu queria ser inteligente como você. – Cecília resmungou.
Foi então que pensamento assustador a assombrou. Algo estava prestes a mudar antes mesmo que se iniciasse. Entre agosto e novembro, uma margem grande. Uma dúvida grande.
A noite veio como um sopro. Um vestido carmesim e uns acessórios pequenos estavam no corpo de Cecília quando ela chegou ao bar. Os amigos da faculdade e os amigos de fora brincavam entre si. O garçom chamou logo Luís e os outros frequentadores do bar que riram e elogiaram a moça assim que a viram. Sua mãe estava ali, alegre e solta por causa de bebida que tinha em mãos, algo que de início a própria Cecília não identificou.
O “Boemia do Rei” caiu certo para fugir do movimento das ruas do Rio de Janeiro. O vento batia ali e ficava gostoso. Apesar de pequeno o lugar, havia música ao vivo num palquinho e a comida era gostosa. Todos gostaram e todos comentaram.
Faltava alguém, ela percebeu. Onde estaria João? Olhou para o relógio, já eram nove horas e ele não estava ali. Perguntou à Ana quando ele chegaria, mas ela deu entre ombros. Ninguém parecia saber, senão Carlos quando soltou uma risadinha e levou olhares repreensivos de todos.
Dez horas e ele ainda não havia chegado. Cecília pegou o telefone, mas a ligação deu na caixa postal.
Onze horas.
– Vai começar a roer as unhas? – Ana assustou Cecília quando chegou de surpresa nas suas costas. As duas se entreolharam e Ana não evitou soltar uma risadinha — Todos perceberam que você está inquieta porque o João ainda não chegou.
– Não estou preocupada, ele deve estar chegando. – Cecília tentou falar, mas o movimento frenético das pálpebras negou suas palavras.
– O que foi? Acha que fez algo de ruim para ele não vir? Cecília, eu conheço essa inquietação.
– Não! – ela sentou-se numa mesa qualquer, de maneira que pudesse fugir do olhar “vou conversar com você” que Luís fazia. Ana a acompanhou, e só então começou a cochichar – Hoje ele estava feliz porque vai pros Estados Unidos no fim do ano. Eu contei pra você da surpresa que ele fez no parque.
Ana arqueou as sobrancelhas e disse:
– E você está de boa com o fato de ele ir embora? Se fosse eu, já teria surtado há muito tempo.
Cecília, entretanto, foi capaz de apenas entreabrir a boca e ficar num silêncio desconcertante. Aquietou o queixo e prestou atenção na música que tocava, cantando devagar para fugir de Ana:
– “Te quero só pra mim...”.
– Ei, Cecília, presta atenção no que eu estou falando. – Ana estalou os dedos no rosto da amiga, mas ela nada fez.
Continuou cantando.
– “Você mora em meu coração”.
– Puta que pariu...
– “Não me deixe só aqui, esperando mais um verão”
Mas antes que a música continuasse, o violão parou e Ana puxou os ombros da moça para que ela se virasse rapidamente para o palquinho que estava o cantor.
Seus olhos se arregalaram mais que o normal quando viu o corpo desajeitado de João subir no lugar do homem que tocava violão, pegando o instrumento e olhando diretamente para Cecília. Ele estava curvado, como sempre ficava, mas estava mais bem vestido que o normal com um blazer preto por cima da camisa azul e uma calça jeans. Cecília chegou a perceber que apesar de tudo, manteve o cabelo desarrumado por debaixo de um chapéu Fedora digno de Frank Sinatra ou de mafiosos velhos. Riu por isso e levantou-se de imediato com a mão na boca.
– “Te espero, meu bem, pra gente se amar de novo”. – ele cantou no microfone e todos aplaudiram. Sabiam quem ele era e ficaram felizes por Cecília com a surpresa.
– “Mimar você” – quem sabia a letra, cantou em uníssono.
O dedilhado no violão foi natural e apertou ainda mais o coração de Cecília, forçando-a a rir de si mesma.
– “Nas quatro estações. Relembrar o tempo que passamos juntos. Bem bom, viver. Andar de mãos dadas na beira da praia, por esse momento eu sempre esperei.”
O cantor subiu junto e todos aplaudiram, nem mesmo os garçons foram exceção. Até que João entregou o violão de volta ao seu dono e mirou Cecília bem a sua frente, rindo como se fosse começar a chorar.
– De onde você tira essas idéias românticas? – ela balbuciou, consternada e risonha (bipolar como só ela).
– É que eu nasci no tempo errado. – João brincou, enfiando as mãos nos bolsos da calça. – Teria sido melhor por volta de...
– 1940, eu sei.
O rapaz deu entre ombros, falando:
– Eu poderia usar “Só em teus braços” do Jobim como flerte, não acha? Sua mãe provavelmente me odiaria nessa época, ela iria querer que você ficasse com algum advogado, não um professor de matemática.
– Minha mãe ama você! – Cecília riu e passou as mãos sobre seus ombros para abraçá-lo – Ama tanto que me dá até ciúmes.
Ele riu.
– Estou sentindo cheiro de que alguém está prestes a dizer algo importante.
Mas ela não falou, apenas sorriu e apertou sua mão no pescoço dele, puxando para perto. Embriagaram-se no beijo outra vez com João puxando o corpo dela para perto do seu sem força, tendo apenas firmeza em seus braços magros. Ana e outro rapaz passaram do lado e berraram um pouco apenas por brincadeira. Eles não se separaram, apenas cruzaram os olhares com os narizes encostados.
Cecília o abraçou outra vez, aproximando a boca da sua orelha e sussurrando:
– Eu estaria admitindo minha derrota se eu ficasse calada agora porque sei que você vai embora.
Ele franziu as sobrancelhas e afastou o rosto para que pudesse olhar direito para a expressão estranha que Cecília fazia.
– Do que está falando? – João soltou um muxoxo.
– Eu queria ter essa criatividade que você tem para poder dizer que eu te amo.
João sorriu e piscou apenas um olho, como um tique nervoso.
– Repita isso.
– Repetir que eu te am-
Mas antes que ela pudesse terminar, fora interrompida por um beijo do rapaz. Passou um instante na vida real e uma eternidade para que eles pudessem se soltar de novo, escutando que já tocava outra música: “Fly me to the moon”.
– Não precisa repetir. – João falou entre risos – Vai que você cansa de falar, fraquinha.
Ela acenou com a cabeça negativamente.
– Jamais.
Não demorou mais de duas horas para que ele a levasse para seu apartamento entre beijos e abraços. Não estavam bêbados, pois não precisavam daquilo. Estavam felizes, contentes, estupidamente exaltados com as três palavras que repetiam sem parar desde que saíram do bar. Nem mesmo o trânsito da madrugada foi capaz de quebrar o sentido de tudo.
Já era a segunda vez que ela entrava na casa de João, mas não se deu ao trabalho de fitar um móvel sequer. Jogou o salto em qualquer canto e largou o rapaz apenas parar correr e trancar a porta da frente que eles esqueceram aberta.
Por volta de nove da manhã do outro dia, a aula de Cecília havia começado. Entretanto, ela estava ali, numa rua qualquer e violenta do tradicional Catete, acordando abraçada a João e sibilando outra vez as palavras:
– Eu te amo.
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