Canção da Sereia
60 O fim é apenas o começo? - Parte 1
Notas iniciais
Duas semanas depois
Nora
Sobreviventes do Naufrágio.
Dizia abaixo da foto de Willian e sua equipe no jornal. Depois de duas semanas, ainda falam sobre o terrível acidente que matou Richard Mason e causou um ferimento mortal do Dr. Steve Jones.
Isso é o que os jornais dizem. Eu ainda posso ver Steve se contorcendo no helicóptero e sua mão apodrecendo. Ele aguentou por dois dias antes de falecer, inteiramente podre. Frutos da plantação de Helena.
Sempre que estou caminhando pela ruas, olho em volta e me pergunto se alguma dessas pessoas que me rodeiam é como ela. Me pergunto se tem algum morto andando por aqui em busca de um devorador para libertá-lo. Se estou vendo alguém que ninguém mais vê. Estou presa nesse horror.
Hoje Willian recebeu alta de manhã, ele me pediu para encontrá-lo num café perto do campus. Ele tem sido o único a manter contato comigo dos que estavam na ilha. O visitei nos primeiros dias, mas preferi apenas trocar mensagens ou ligar. Chegou uma hora que eu apenas não podia mais lidar com o mundo exterior. Nem mesmo pude voltar para minha casa. A ideia de ficar sozinha é aterrorizante. Não me sinto segura. Acho que estou a espera de Helena e não consigo respirar aliviada. Eu deveria, estou fora da ilha, de volta a minha vida, mas quem respira aliviada quando a morte promete te buscar?
– Quer que eu espere com você? — Meu pai pergunta. Ele se ofereceu para me trazer quando me viu relutando em aceitar o convite de Willian, pelo telefone. Estou morando com ele e minha mãe, desde que voltei.
– Talvez um pouco.
Ele concorda e passa o braço pelo meu ombro. Entramos no café e escolhemos uma mesa no fundo. Ele pede um café pra ele, eu decido esperar Willian antes de fazer meu pedido. Ficamos em silêncio. Não é como se eu tivesse muitas novidades pra ele.
Eu não contei nada sobre a ilha. Falei a todos que nadamos até ela e estávamos sobre a proteção de Steve, que adoeceu ainda lá. Foram desculpas atrás de desculpas. Mentiras para todos os lados e para todas as pessoas. Exceto Lancey. Ele não mentiu, nem precisou evitar as conversas ou aguentar os olhares de pena. Ele sumiu logo depois do enterro de Steve. Nos deixou com toda a bagunça.
Eu entendo seus sentimentos. Entendo que ele precise se afastar, mas eu não estava pronta para isso. E ainda não estou. Ele não se despediu. Apenas sumiu. Não se faz isso com... a família.
– Acho que sua companhia chegou. — Meu pai anuncia bagunçando meu cabelo. Olho para trás e encontro Willian. Jeans, camiseta e cabelo bagunçado. Ele usa uma tipoia no braço esquerdo e tem uma bolsa pendurada no lado direito.
– Daniel. — Ele cumprimenta meu pai. Aparentemente eles ficaram amigos nesse tempo em que estive trancada em casa.
– A deixo em suas mãos. — Meu pai diz e se inclina para me dar um beijo na testa. Vira seu café e se despede.
– Tenho ótimas noticias. — Ele diz animado ao se sentar.
– Oi pra você também.
Ele para e me olha, sorri e se inclina sobre a mesa, deixando um selinho sobre meus lábios. Isso me incomoda. Sei lá... me sinto como uma mulher casada. Casada a anos. Nem um "oi", nem um “tudo bem?” ou “como vai sua mente?”. Eu não gosto desses sentimentos. Me sinto desconfortável. Mas não digo isso. Faz tempo que não nos vemos. Dias que parecem anos. Talvez isso seja o que esta me deixando de mal humor.
– O que conta de novo? — Tento afastar a atenção que esta se formando.
Willian mexe em sua bolsa e tira alguns papeis.
– Estivemos pensando sobre o que você disse.
Opa opa...
– Estivemos?
– George e eu. — Ele responde animado.
– O que eu disse...
– Sobre... — Ele olha em volta – Os dois que escaparam de Helena.
George nem deveria saber disso...
– Mas, eu contei isso apenas a você, Willian, e pedi que não dividisse. — O lembro.
Foi uma noite antes de Steve morrer, quando eu ainda estava no hospital com Willian. Eu contei a ele sobre isso, porque tenho forte impressão que a tal sereia que George viu o salvando é na verdade um dos híbridos que escaparam.
– Eu sei... mas, ele precisava saber. — Ele me diz calmo, tentando controlar a situação. — Ele tem procurado desde aquele dia. Eu não podia apenas deixá-lo com isso, não depois de chegarmos tão perto, Nora.
Ele está tão animado falando sobre isso. O cientista dentro dele está a toda em busca de respostas, que devem permanecer escondidas pro nosso próprio bem.
– Com base naquilo e algumas pesquisas. George foi realmente a fundo nisso. Olha. — Ele abre um mapa em minha frente. Alguns x marcam regiões próximas. Começam na nova zelandia e seguem pra além. Pro sul. — Nós temos uma direção. — Ele sorri. — E George um barco.
– Fecho meus olhos por um momento, esperando que ele me diga que isso é uma brincadeira.
– E meu encontro? — Pergunto a ele pra sair desse tema indigesto.
Ele sorri e revira os olhos.
– Isso pode muito bem esperar. Dessa vez nós podemos conseguir uma prova.
– Pensei que tivesse desistido disso. Que tivesse percebido o erro que é mostrar isso para a humanidade.
– E eu ainda penso. — Agora ele está ficando irritado.
A garçonete nos interrompe e pergunta o que vamos querer. Peço um suco e ele um café expresso. Quando ela sai, ele volta a me encarar.
– Eu preciso fazer isso, por George, Nora. Esse homem sempre esteve presente pra mim. Ele foi desacreditado por todo lugar que esteve, por dizer a verdade. Eu preciso fazer isso. E quero muito que você me acompanhe.
As palavras de destruição.
– Você quer que eu volte pro mar... depois de tudo isso. — Respiro fundo – Eu nem mesmo voltei as aulas. Elas começaram há dois dias, Willian. Eu não posso nem sair de casa sem ver Helena em cada pessoa que cruza meu caminho. Eu não pude mais entrar no mar. Eu tenho medo de me transformar ou de que Isaac apareça e me leve pro inferno dessa vez. E você, realmente, está me pedindo pra ir para uma caçada? Uma que nós sabemos ser loucura.
– Você sempre soube, Nora, eu sou um homem do mar. Ficar em terra firme me sufoca.
– Ficar no mar me sufoca, Willian.
– Não faz isso. — Ele leva a mão boa pra testa. — Eu perdi dois amigos. Um ainda está no hospital. Eu preciso fazer isso, por eles também. Mostrar ao mundo o tipo coisas que estão escondidas. Não me faça abrir mão de você.
Uou! Abrir mão de mim...
– A sua decisão já está tomada, pelo jeito.
– Mas sua ainda não. — Ele toca minha mão sobre a mesa.
A garçonete aparece com o pedido, anota em um papel e sai.
– Não desista de nós, Nora. — Ele me diz.
Nós? Será que em algum momento houve nós?
– Willian... — Aperto sua mão.
– Não responda agora. Pense sobre isso. Você amava o mar quando eu te conheci. Só precisa descobrir essa paixão de novo.
Concordo com ele. Sim... descobrir... de novo.
Me pergunto o que eles fariam se eu me transformasse de novo. Eles me usariam para mostrar ao mundo que tem razão?
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