Canção da Sereia
61 O fim é apenas o começo? - Parte 2
Notas iniciais
Lancey
A garota me segue rapidamente. A beijo enquanto empurro pros fundos no bar. A pressiono na parede, enquanto abro a porta de emergência e a levo pra fora. Assim que aporta fecha atrás de nós, eu a empurro pro chão. A garota de cabelos vermelhos me olha irritada, mas sua irá dá lugar ao medo quando ela percebe a mulher de cabelos platinados mais a frente.
Helena se aproxima e coloca a mão em meu ombro.
– Ei mostro. — Ela diz para a garota.
Por um minuto eu tenho vontade de chamá-la de hipócrita, mas, não há necessidade, ela já deve ter captado isso em minha mente. Ainda estamos conectados.
– Suponho que esse seja o fim. — Diz a garota que se apresentou como Mindy para mim.
Helena me olha. Nós temos um acordo. O fizemos na ilha. Ela me deixava ir se eu a ajudasse a pegar os “fujões”.
– Ilha ou... morte? Não tem escapatória. — Helena diz.
– Ilha? Ser controlada por você, eu suponho. Não me parece uma boa alternativa.
– Sem controle, eu juro. Só os quero onde eu possa ver, ou esse é o seu fim.
– Prefiro a morte. — A garota diz e antes mesmo que eu possa dizer algo, Helena está sobre ela, sugando. A garota cai desfalecida no chão.
– Era mesmo necessário? – Digo irritado.
Ela sorri.
– Eu fiz como você pediu, dei uma opção. Que culpa tenho eu se ela preferiu isso...
Ela se agacha ao lado do corpo, coloca a mão sobre a testa da garota morta e diz palavras estranhas. Em segundo o corpo da garota seca e logo os ossos viram uma pilha de cinzas.
Helena caminha para dentro da boate. Seu casaco de pele cinza parece uma capa. Respiro fundo. Eu preciso levar isso até o fim. Eu sei que a parte difícil não é fazer o que estamos fazendo. A parte difícil será depois. Quando acabarmos e eu tiver que lidar com toda culpa que está me inundando.
A sigo para dentro. Tem mais um nessa boate. Ela os sentiu assim que pisou. Um cara e uma garota. A garota já foi. Dessa vez é com ela, então vou pro bar, peço uma cerveja.
Sinto falta de Nora. Sinto falta de Daniel, da faculdade, do meu apartamento. Até de Sardinha. De tudo. Mas acordo é acordo. Me recordo do ultimo dia na ilha.
Acordei em meu apartamento, dormindo no sofá, Helena estava sentava no sofá oposto. Ela tinha cabelos louros bem claros e olhos azuis. Estava linda, mas aquela frieza, aquela crueldade, que eu bem sabia haver em altos níveis nela, não deixava seu redor.
– Estou de volta? — Perguntei confuso.
– Ainda não e nem irá. — A voz era doce e diferente da versão fantasmagórica que eu estava acostumado. Apesar dela falar, minha mente captava suas ideias antes das palavras deixarem seus lábios e com pesar, eu me sentei e levei as mãos ao rosto. Ela estava me colocando contra a parede. Me usando. — A menos que me ajude. Não preciso fazer isso, você sabe, mas estou me sentindo bondosa. Eu posso ser quem eu quiser agora. Inclusive você. Mas, eu preciso caçar os híbridos e você vai me ajudar em troca da sua liberdade.
– Você é a morte, por que precisa de ajuda?
Ela bateu em minhas mãos as tirando de meu rosto e me forçando a encará-la.
– Porque me afeiçoei a você.
– Mentira deslavada. — Disse e ela riu. Parece uma mulher de verdade, daquelas que você poderia se apaixonar apenas com um olhar.
Ela tocou meus ombros e então estávamos num hospital, um que eu conhecia bem. E na cama estava Nora, ferida. É uma lembrança essa.
Nora estava internada. Nesse tempo nem sabíamos se ela sobreviveria. Daniel havia me deixado com ela. Ele nunca me contou o que havia ido fazer, mas aposto que estava atrás de alguma pista que o levasse até Andrew. Ele estava cego, mataria aquele merda se o encontrasse.
Então, eu me sentei no sofá e fiquei horas e horas a observando.
Me separei de Helena e olhei no canto do quarto. Lá estava eu e é estranho demais se ver.
– Uma reunião, que tal. — Helena disse e eu a encarei, ela estava parecida comigo.
– Não faça...
Ela riu e voltou a sua forma.
– Eu a deixarei ir, se você me acompanhar.
Ela me toca de novo e então estamos de novo na ilha. Caminhamos sem rumo pela beira do mar.
– E se eu disser não? — Assim que ela pensou na possibilidade, eu já sabia sua resposta.
– Então Nora irá me acompanhar. E você... — Ela para de andar e me olha. — Eu posso te deixar preso aqui, e lidar com você quando eu voltar. Se eu voltar.
Ela poderia facilmente me deixar para trás e eu suspeito que ninguém nunca iria desconfiar. Uma bruxa em um corpo metamorfo. Quão mais perigoso e assustador isso poderia ficar?
– Quantos são?
– Dois. Mas, já faz muitos anos que saíram daqui. Quase 50 anos. Pra sua espécie, é tempo o bastante para procriar várias vezes. — Entendi seu ponto. Eu estava condenado.
– Muitos... que talvez mesmo estando com você a vida toda, pode ser que não encontremos todos.
– Vale a pena Lancey? Vale a pena trocar sua vida pela dela?
Ela aponta para atrás de mim e eu me viro. Nora está desacordada, em cima... de mim. Vejo seu rosto bonito adormecido em meu peito. Vale a pena?
– Sim. — Ela repousa a mão em meu ombro.
– Então temos um acordo. Eu o libertarei quando encontrarmos todos.
Estarei, provavelmente, morto antes do fim disso tudo. Helena se esquecia como o tempo funcionava para os humanos.
– Mas... tem algo que eu gostaria de pedir em troca.
Ela me olha e concorda. Está lendo meus pensamentos. Não preciso vocalizar, ela entende minha vontade.
Em um acordo com o diabo, é como me sinto.
Em duas semanas, eu tive que rastrear coisas fora do comum que apareceram na internet. Histórias estranhas, que segundo Helena, se encaixavam. Tive que usar dinheiro, do meu bolso pra pagar tudo, porque a morte é miserável.
Duas semanas, três mortos, dois caras apagados na van que eu comprei. Oh merda ela está me levando a falência rápido demais. Não sei como ela espera continuar essa caçada insana sem dinheiro.
Percebo, pelos pensamentos que compartilhamos que ela acaba de adicionar mais um corpo a contagem negativa.
A mão delicada dela toca meu ombro minutos depois.
– Preciso fazer mais uma parada antes de voltarmos pro hotel.
Tento captar algo, saber o que ela vai aprontar agora, mas não vejo nada. A olho irritado. Deixo dinheiro pela bebida no balcão e saímos. A van está estacionada na rua. Nós entramos, ela no banco do motorista. Tento lê-la mais uma vez. Não consigo.
– Você sabe dirigir? — Pergunto meio alarmado, sem fechar a porta.
– Relaxa, Lancey. Você está com a morte, o que de tão ruim pode te acontecer?
Levo a mão ao rosto, não acredito que ela acabou de falar isso. Fecho a porta e começo a rir. A olho e ela está sorrindo. Bonita. Realmente bonita, mas terrivelmente cruel e letal. Um lobo em pele de cordeiro.
O carro vai pra frente com tudo e então para. Ela ri encantadoramente, até me faz ficar arrepiado.
– Brincadeira! — Ela diz me olhando enquanto morde os lábios.
– Você está bêbada? É possível você ficar bêbada? — Isso explica seu comportamento. — Se sóbria você representa um perigo pro mundo, imagina bêbada!
Ela continua rindo e guia pelas ruas movimentadas de Timaru. Essa criatura das trevas nos fez voar para Nova Zelândia. Ela os encontrou tão rápido que eu duvido seriamente que precisasse procurar. Acho que ela sabe, desde o inicio, onde encontrá-los e eu sou apenas mais um brinquedo em sua mão.
Nós ficamos em silêncio. Olho para trás e vejo as duas figuras apagadas, estão cobertas com uma lona. Já faz dois dias que estão assim. Helena jogou algum de seus feitiços. Me pergunto se não vão morrer de fome apagados desse jeito.
Rodamos por quase uma hora, até que Helena para. O lugar é péssimo. Um cortiço de pouca iluminação.
Não consigo captar nada dela. É como se não estivéssemos mais conectados...
– Já volto. — Ela desce e se perde na escuridão dos becos. É um péssimo lugar. Tem apenas um carro estacionado na frente da van. Nada mais. Pessoa nenhuma. As luzes dos apartamentos e casas estão apagadas. Ta certo que já é quase uma da manhã. Mas é fim de semana, cadê a galera jovem? Os bares? Esse lugar parece mais um covil de bandidos. Inclusive, travo as portas e fecho as janelas. Seria meio complicado se roubassem a van com dois caras apagados.
Dou outra espiada neles, estão inconscientes.
Olho pra frente, a tempo de ver algo pesado despencar em cima do carro da frente. A van treme e quase bato a cabeça no teto com o susto. Olho para aquela coisa ali e percebo ser uma pessoa. Destravo a porta e saio. Nesse instante, um segundo corpo cai. Mas, dessa vez em pé, sobro o outro. Helena. Ela tem um filete de sangue na bochecha, e duvido que seja dela. Me olha intensamente, então volta sua atenção pra pessoa caída em cima do carro, abaixo dela. Ainda está vivo. Mas não por muito tempo. Vejo ela aproximar o rosto do da pessoa, mas não suga. Fecha os punhos e começa a desferir socos e tipo... esse corpo que ela está tem uma força muito superior a de um humano. Ouço ossos quebrarem. Não entendo porque tanta violência. Olho ao redor, tudo escuro ainda. Ninguém parece ter se incomodado com os barulhos.
– Helena. — Eu deveria interferir. Mas, sinto que há algo errado. Ela está me bloqueando. Não me deixa entrar em sua mente e... parece um monstro.
Então ela para e fica em pé.
– Agora você está livre. Ambos cumprimos nosso papel. — Ela diz.
– Não vai... sugá-lo...?
Ela olha pra baixo, pra figura detonada ali.
– Não desse... certas pessoas, Lancey, não merecem seguir em frente. — Ela salta de cima do carro. Seu rosto e mãos cheios de sangue. Entra na van, no banco do motorista, mas não fecha, antes disso ela me diz algo.
– Diga a ela que não precisa mais ter medo. O bicho papão não existe mais.
As palavras despertam algo dentro de mim. Me aproximo do carro e encaro a pessoa morta ali. Ou quase. Juro que vi um olho se mover. Mas, se ainda estiver vivo, não vai longe. É um homem, está de pijama e seu corpo está todo torto, denunciando o tanto de coisas que quebraram na queda. Ou com os socos.
O rosto do homem é irreconhecível. Menos os olhos. Os olhos eu conheço. Eu vi várias vezes a foto dele. Tentava guardar seu rosto, esperando de vê-lo e reconhecer algum dia. O cabelo negro e liso está empapado do próprio sangue.
Agora você está livre. Ambos cumprimos nosso papel– Helena disse.
Eu a ajudaria a pegar quem queria. E ela concordou em me ajudar a fazer algo que eu queria há muito tempo. Matar Andrew.
Willian
Depois daquele café desastroso, Nora começou a me evitar. Ela não sai mais de casa, não me recebe quando vou vê-la. Não atende o telefone e não responde as mensagens ou e-mails.
Gideon já recebeu alta. Megan e Kall estão empolgados com a nova busca. Embora, Megan tenha um certo receio.
Por favor sem espíritos e sem monstros milenários que querem fazer sacrifícios, dessa vez.– Ela me disse na última vez que nos vimos.
George está triste com a perda de Steve e Mason. Até sugeriu que voltássemos a ilha pra pegar a bolsa e o corpo do nosso amigo. Claro que, ir caçar híbridos de sereias com humanos é uma coisa. Mas, voltar pra ilha de Helena...
Estou na porta da casa dos pais de Nora, de novo. Dessa vez a verei, de qualquer jeito.
Toco a campainha duas vezes, antes de Daniel aparecer de roupão.
– Oh... Willian. Não te esperava... de novo.
– Olá, Daniel. Eu preciso ver a Nora.
Ele suspira.
– Vou perguntar, de novo, se ela quer te ver.
– Não. Eu posso subir? Eu estou partindo, gostaria de me despedir.
Ele me estuda por um momento. Então se afasta para que eu entre.
A casa deles, como esperado, é cheia de detalhes que lembram o mar. Os quadros que enfeitam a parede são desenhos de algas e na sala tem um aquário imenso cheio delas e alguns peixes bem raros. Eu já estive aqui umas cinco vezes desde o café. Consegui observar muito da casa.
Daniel me acompanha até as escadas, sobe comigo. Nós paramos numa porta no começo do corredor. Ele bate duas vezes.
– O quê? — A voz de Nora diz.
– É o papai, meu anjo. Abra aqui por um minuto.
Barulhos do outro lado e então a porta é aberta.
Uma Nora sonolenta me recebe. Ela olha pra mim assustada, então pra Daniel, que levanta as mãos e se afasta.
– Portas abertas. — Ele diz da escada, então desce.
– Ele sempre quis dizer isso... — Ela fala, então se afasta, me dando espaço pra passar.
O quarto de Nora é diferente. Não é como eu imaginai. Tem algumas algas em aquários, mas para nisso. As paredes são pintadas de azul, cada parede de um tom. Em uma delas tem pinturas de nuvens e um sol. Um dia ensolarado. Outra o por do sol no mar. Em outra apenas estrelas e em uma delas, a mais escura, a lua e vários rabiscos. Poesias, poemas. Quem é essa garota?
Duas prateleiras altas cheias de livros. Uma mesa com computador e um prato de biscoitos do lado. Nenhuma roupa não chão. Nada fora do lugar. Não que ela seja bagunceira, já estive em seu apartamento uma vez. É organizado, mas isso tudo... não parece com a garota que esteve comigo na ilha.
A cama é de casal e ela senta na beirada. O gato assustador dela sai de debaixo da cama e vai pro seu colo. Me sento a seu lado.
– Por que está me evitando? — Pergunto olhando pra ela agora. Um pijama amarelo, shorts e regata e os pés descalços. O cabelo dela está solto e longas ondulações caem sobre seu ombro e costas. No entanto, seu rosto está amassado por, provavelmente, estar dormindo antes.
– Você mudou de ideia sobre ir? — Ela pergunta olhando para os pés.
– Não...
– É por isso.
Ele acaricia o gato com uma mão e pousa a outra do lado do corpo. Aproveito e seguro, entrelaço nossos dedos.
– Olha, eu sei que parece assustador agora mas...
– No café... — Ela me interrompe. — Você disse que ficar em terra te sufoca. Nada disso tem a ver com os híbridos, não é? É sobre você e sua incapacidade de ficar longe do seu amor. O mar.
– Não é dessa forma...
– Se eu não tivesse contado sobre os híbridos... — Me interrompe de novo – Você teria encontrado outro motivo.
– Esta errada... — Digo a ela, mas não tenho tanta certeza. — Disse muitas coisas estupidas naquele dia. Eu pensei melhor.
– Willian... — Ela levanta os olhos pra mim agora. — Você falou algo que eu, sinceramente, já esperava de você. Mas, admito que vê-los caçando algo igual a mim me assusta. Quando você encontrar o que procura, quanto tempo levará até que venha atrás de mim? Ou se não encontrar. Sempre terá uma criatura reserva...
Suspiro e passo a mão no rosto.
– É essa parte que eu me arrependo. Eu tenho essa... dúvida, dentro de mim. Estou cansado de nunca achar nada concreto. Essa é a primeira vez que umas das viagens dá certo e...
Ela me solta e fica em pé, assustando o gato que se esconde em baixo da cama. Ela se afasta. Escolhas erradas de palavras.
– Dá certo...? Duas pessoas mortas. Um membro da sua equipe e um amigo seu. Nós quase morremos. Como pode dizer que deu certo?
Merda. Estou a perdendo.
– Não foi isso que eu quis dizer. — Me levanto e fico a sua frente, toco seu rosto. – Me expressei mal. Isso é tudo. — Ela não parece convencida. Me afasto dela e paro na frente de uma das estantes de livros.
– O que eu quis dizer é que minhas pesquisas nunca deram em nada, até agora. Eu sei que o que descobrimos não pode ser divido com o mundo. Mas... meu lado cientista está tão... ansioso por descobrir e ir atrás. Mostrar ao mundo.
– Willian, se você não mudou de ideia, o que faz aqui então?
Ela está me expulsando.
Olho os livros, que são bem variados. Como todo o resto da decoração. Tudo aqui é diferente da Nora que conheci. Eu não sei quem é essa garota. Eu nunca conheci a dona deste quarto. Nora é uma desconhecida pra mim e eu pra ela, no fim das contas.
Me viro pra ela. A encaro.
– Eu só queria me despedir.
Ela baixa a cabeça por um momento, quando a ergue tem os olhos cheios de lágrimas. Eu a puxo pro meu peito com minha mão boa e beijo o topo de sua cabeça.
– Tivemos um bom tempo juntos. — Lhe digo.
– Sim...
– Eu espero que seja feliz, Noralys Ryle. E que... — Ela levanta os olhos pra mim um sorriso fraco nos lábios. Os olhos vermelhos. — E que essa tristeza que te rodeia, possa ser dissolvida de alguma forma.
Encosto minha testa na sua e toco seus lábios com os meus.
Uma coisa que me dou conta nisso tudo, ela tem razão. Se não fosse os híbridos, seria outra coisa. Eu não nasci pra ficar na terra e, hoje, ela não pode vir comigo pro mar. Precisa lidar com seus demônios antes disso. Talvez, algum dia, nós possamos nos encontrar de novo e quem sabe, ela possa me acompanhar. Mas no seu tempo.
Me separo dela um pouco.
– Eu prometo a você que nunca, nunca, virei atrás de você... por sua cauda.
Ela sorri e concorda.
– Se cuida. Tente manter sua alma e seu corpo juntos. — Ela diz séria.
O que dizer sobre isso? Apenas concordo com ela. Tomo sua mão e levo aos lábios.
– Adeus Noralys.
– Adeus Willian.
E assim, eu me despeço dela. Da garota que me encantou desde o primeiro dia. Mas não posso ficar. Apesar de gostar dela, meu amor não está na terra.
***
Nora
Acho que meu pai acha que estou doente. Tenho ficado dias e mais dias trancada em meu quarto. Ele me disse que trancou minha matricula na faculdade. Acho que é um alivio. Eu adoro aquele lugar, mas agora, tudo que eu preciso é distância do mar.
Faz alguns dias que Willian partiu. Ele me mandou uma mensagem essa manhã. “Ainda vivo e com minha alma”.
Não achei graça, mas tudo bem.
Estou deitada em minha cama agora, com Sardinha. Minha mãe passou mais cedo no quarto e me disse que ia ao mercado. Meu pai ainda não deu as caras. Tenho medo que quando ele venha, traga enfermeiros do hospício pra me internar. Eu não poderia reclamar, não é? As vezes eu acho que estou mesmo pirada. É informação demais em minha mente.
A batida na porta me assusta.
– Nora, tá acordada? To indo trabalhar.
Me levanto apressada e abro a porta, exatamente quando meu pai está dando as costas.
– Oi, meu anjo. — Ele me abraça apertado. — Vai ficar em casa de novo?
– Sim...
Ele concorda e beija minha testa.
– Está bem. Sua mãe volta logo. Qualquer coisa me liga.
Concordo e ele me solta, se afastando para as escadas.
– Pai... — Eu o chamo. O coração já batendo forte, como em todas as vezes que eu toco no assunto. — Lancey ligou?
A expressão que ele faz já responde minha pergunta.
– Não querida. Nada.
– Ok...
Ele desce as escadas e se vai, me deixando ali, incomodada, triste...
Meu pai não sabe onde Lancey está. Ninguém sabe, aparentemente. Nem mesmo sei se ele está vivo. Eu fico pensando em como ele estava diferente quando voltamos. E se ele não fosse ele? E se quem veio conosco foi Helena? E se ele estiver preso naquela ilha maldita?
Percebo que estou segurando meu fôlego e então o solto.
Se Lancey estiver preso na ilha, não acho que eu possa ajudá-lo. Como eu posso fazer alguma coisa quando só em pensar no mar, meu corpo fica tremulo. Não, isso é bobagem. Lancey não está na ilha. O problema é que eu tento encontrar desculpas para ele ter me abandonado. Mas, eu sei, se alguém abandonou alguém não foi ele, fui eu. Por medo, eu não o escolhi.
Ando até o fim do corredor e olho pro jardim. A piscina parece convidativa, está tão quente. Me dirijo até lá. Sardinha está por perto, posso ouvir o miado dele. Entro na água, de roupa mesmo, não me importo.
Conforme meu corpo vai afundando, eu vou enchendo de pânico, como se algo pudesse me puxar ali. Respiro fundo, eu preciso vencer meus medos. Preciso sair dessa. Mergulho e então deixo meu corpo boiar. Fecho meus olhos e me concentro em ficar imóvel. Então eu ouço, o leve som da água sendo movimentada.
Não é nada.– Digo a mim mesma.
Tem sido assim em todo lugar que tem água. Nem na banheira eu estou livre. Esses ataques de pânico começam e a única certeza que eu tenho é que algo vai me pegar. Mas hoje, eu cansei de sentir medo. Eu continuo imóvel. Sei que nada vai aparecer, é só minha mente...

Afundo quando algo garra meus ombros e minhas pernas. Pânico toma conta de mim.
Merda, merda, é Helena. Só pode ser ela.
Então sou levantada, bem alto. Respiro com dificuldade e cuspo água. Olho pra baixo pra encontrar um par de olhos cinzentos me encarando, com um sorriso de vai de orelha a orelha. Meu coração parece prestes a sair. Quando seus braços começam a me abaixar, de volta para água, fico cara a cara com ele, que está vestido.
– Ei, garota chata. — Ele pisca pra mim.
– Seu grande viado de uma figa... — É o que eu posso dizer no momento. Eu o abraço apertado e ele corresponde. — Onde você estava, maldito? Você prometeu que não ia a lugar nenhum.
Forço minhas unhas em sua pele, pra deixar bem claro que não estou brincando.
– Desculpa... — Sinto seus lábios tocarem meu pescoço. Esse simples gesto me aquece toda. E por um momento eu não tenho medo de mais nada. Só estou... feliz.
Nos separamos alguns centímetros, o suficiente para poder nos olhar.
Como eu senti falta dele. Como senti falta desses olhos, desse sorriso malicioso e de seus braços em mim...
Enrosco meus dedos em seu cabelo, os puxando com força.
– Oi... — Digo.
Ele gargalha. Doce som.
– Oi...
Chega de palavras. Eu o puxo pra mim, encontrando seus lábios com os meus. E isso é tudo que eu preciso. Me sinto inteira de novo. Me sinto... livre.
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