Canção Da Morte

7 Capítulo 7 - Entre deuses e humanos


Porque as pessoas são tão idiotas? Íllias não parava de se perguntar isso enquanto carregava algumas crianças em seus braços. Tinha chegado bem a tempo de impedir uma catástrofe, tudo porque ao invés de se unirem para trabalharem melhor, dois homens discutiam para saber qual dos dois iria salvar as crianças que estavam presas dentro do templo de Athena, que devido ao ataque do exército vermelho teve suas portas destruídas e a passagem obstruída, prendendo algumas crianças que tinham se escondido lá dentro.

Aqueles dois homens estavam a ponto de começar uma briga, quando Íllias chegou, ele não acreditava que aquele pequeno conflito tinha motivos tão banais. Tentou conversar com eles, mas não foi ouvido, pelo contrário, foi enxotado dali. Parecia que ambos preferiam discutir ao invés de socorrer as crianças.

Íllias usou de inteligência e enquanto os idiotas debatiam sobre quem era mais forte e mais heroico, ele golpeou os dois com uma grande velocidade, fazendo com que caíssem no chão desmaiados. Foi até a entrada do templo e com um único golpe destruiu as pedras que bloqueavam a passagem. Entrou e tirou as crianças de lá, antes que aquele lugar viesse ao chão devido à batalha, que mesmo de longe podia ser ouvida. Ao sair deixou as crianças em um lugar seguro e começou a retornar para o lugar onde seus amigos estavam, porém foi impedido por um grupo de pessoas que estavam entrando na cidade. As mesmas pessoas que tinham sido salvas por ele e os outros no dia anterior. Elas pareciam querer ir até o lugar onde a luta era mais intensa, queriam assistir ao “espetáculo”, como elas mesmas diziam.

- Sinto muito, mas vocês não podem ir até lá. – Disse Íllias.

- Quem você pensa que é? Você não pode nos dizer o que fazer ou não fazer! – Um homem respondeu do meio do grupo.

- Ouçam o que eu digo. Aquele lugar é muito perigoso! – Ele tentou adverti-los.

- Escute moleque, eu vou até lá e nem você e nem ninguém vai me impedir. – Disse o homem dando alguns passos a frente.

Íllias viu que não conseguiria convencê-los com suas palavras, concentrou-se e imediatamente uma luz azulada começou a surgir ao seu redor, reuniu seu cosmo em sua mão e golpeou o chão, uma fenda se abriu logo abaixo de seus pés, uma grande fenda que impedia qualquer um de atravessar.

- Se quiserem mesmo passar, terão que passar por cima de mim primeiro. – alertou as pessoas, que agora o olhavam com um olhar de ódio.

Íllias sabia que nenhum deles poderia passar por ali, a largura da fenda era muito grande, até mesmo ele teria dificuldades de pulá-la e mesmo que alguém conseguisse passar ele poderia derrubar o templo de Atena que estava logo atrás dele e usar como um obstáculo para aquelas pessoas. Claro que isso seria uma ofensa contra a deusa, mas ela devia preferir salvar as pessoas do que um de seus templos, afinal, ela possuía dezenas deles.

- Vejam! Ele disse que nos salvaria um dia atrás, e agora se opõe contra nós! Esta até disposto a nos machucar. – Disse uma mulher que estava entre aqueles cidadãos.

- Entendam uma coisa: Ás vezes é preciso machucar algumas pessoas de quem gostamos, para evitar que elas se machuquem ainda mais no futuro. – disse Íllias, pensando em quais seriam os motivos que levaram seus pais a abandoná-lo. – Em algumas situações, precisamos causar um dano menor pra prevenir um maior.

- Realmente. Mas certos danos são inevitáveis. – falou um homem jovem que se destacava entre todas as pessoas daquele grupo, um homem de cabelos ruivos e sorriso maligno.

- Tão inevitáveis quanto os danos que eu vou causar em você, deus maldito! – uma voz grossa e firme vinda de trás de Íllias falava com aquele homem.

Íllias virou-se para trás e viu uma figura muito misteriosa em pé na entrada do templo de Atena, ela usava uma capa que ia dos pés a cabeça. Um capuz caía sobre sua face, permitindo ver somente sua barba grisalha. Pelo seu porte físico, podia-se perceber que era forte, muito forte.

- Eu achei que somente os irmãos tinham vindo pra esse mundo. Entretanto, posso ver que você aproveitou a oportunidade e veio também, não é? – disse o homem encapuzado, enquanto andava na direção do tal deus de cabelos ruivos.

- O que posso fazer? Seria um desperdício de tempo não vir brincar um pouco com essas marionetes — ele apontava para as pessoas logo atrás dele – Faça seu melhor, velho. – falou o deus, andando até a abertura que Íllias havia feito no chão, ele parou exatamente em cima dela, ficando suspenso no ar, sem cair no buraco.

- Seu tempo aqui acabou e você irá retornar para a Zona Cósmica agora Anteros. – respondeu o outro, ainda com sua capa e capuz.

Íllias percebeu que ambos iam começar uma luta e um sentimento de raiva cresceu dentro dele, cada vez mais forte. Ele não queria que aquele “velho” derrotasse o “seu inimigo”, queria ele mesmo ser o responsável pela queda de Anteros.

- Afaste-se! – Íllias entrou na frente do homem que saía do templo de Atena em direção ao suposto deus. – Eu mesmo vou derrotá-lo.

- Saia da minha frente garoto. Antes que você se machuque. – Advertiu o senhor barbudo, com uma voz bem mais séria.

- Se eu precisar derrotar você para lutar com ele, eu vou! – Íllias sentia cada vez mais raiva.

- Você não percebe? Ele é Anteros, o deus da discórdia. Ele é quem está criando confusão entre as pessoas e é ele que está fazendo isso com você! – o homem tentava convencer o jovem rapaz.

- Eu não me importo com quem ele é, nem com o que ele pode fazer! Quando eu acabar com ele, ele não poderá fazer mais nada! – disse o menino de forma arrogante.

- Pois bem, vá em frente. – O velho saiu de sua frente e deixou que ele passasse.

Íllias abriu um sorriso e começou a caminhar na direção do deus, depois de dois passos sentiu uma mão pesada e forte segurar seu ombro, viu-se girar no ar duas vezes nas mãos do velho homem, até que voou para dentro do templo, pouco antes de ser solto conseguiu puxar a capa do senhor e enquanto estava voando para dentro do prédio viu uma armadura dourada cobrindo o corpo daquele homem e um capacete com dois chifres sobre sua cabeça. Não pôde ver mais que isso, porque bateu com a cabeça em uma das paredes e caiu desarcodado.

- Agora é conosco, deus da discórdia. – disse o cavaleiro de ouro correndo contra seu inimigo.

Anteros ultrapassou a barreira criada por Íllias e foi de encontro ao velho guerreiro de Atena. Socos e chutes foram trocados por ambos, seus golpes tinham uma força incrível, e mesmo com seus mais de quarenta anos, o cavaleiro de ouro permanecia resistente na batalha.

- Vejo que esses anos não fizeram nenhum mal a você, Aldebaran. – Anteros debochava de seu oponente.

- Você me prejudicou muito no passado, mas agora eu farei justiça. – Aldebaran retrucou.

O cavaleiro era realmente resistente, os golpes do deus não pareciam afetá-lo e ele continuava de pé, continuava atacando com a mesma força de seu adversário. Sua armadura reluzia sob o brilho da lua, dando a ela um brilho intenso. Seu capacete tinha chifres altos e afiados como os de um touro.

- Essa batalha está muito enfadonha, vamos ficar aqui durante muito tempo até que você admita sua derrota. – Anteros falou.

- Ou até que você fuja com medo. – Aldebaran respondeu.

- Mesmo com todo seu poder você não pode me vencer, você nem é o Cavaleiro mais poderoso.

Depois de falar isso Anteros se afastou e ergueu uma de suas mãos, logo começaram a surgir guerreiros para lutarem por ele, mas não eram guerreiros comuns. Quatro Cavaleiros de Ouro apareceram diante de Aldebaran, seus nomes eram: Azore de Peixes, Magnus de Aquário, Ichiro de Áries e Aoshi de Câncer.

- Cavaleiros de Atena, matem esse velho! – Anteros ordenou aos seus novos aliados.

- Impossível! Você não tem poder para controlar a mente dos meus amigos cavaleiros. – Aldebaran exclamou.

- Mas eu não estou controlando-os. Eles estão fazendo isso por livre e espontânea vontade. – o deus falou.

Rapidamente, Peixes e Aquário atacaram o velho cavaleiro, mas Touro antecipou seus movimentos e afastou-se alguns metros. Eles voltaram a correr para atingi-lo, porém não chegaram a percorrer metade da distância.

- Grande Chifre! – gritou Aldebaran enquanto observava um touro de quatro metros de altura levar os dois cavaleiros para longe, carregando-os em seus chifres.

Enquanto o animal corria, o velho guerreiro pôde perceber que seus dois adversários se desintegraram no ar, como se não fossem humanos. Se aqueles dois eram cópias, pensou, certamente os outros dois também devem ser.

- Então você acha que pode clonar os cavaleiros de Atena? Mesmo que você possa copiar nossa aparência, nossos poderes e até nosso cosmo você nunca poderá imitar ou copiar nosso coração, nossa força de vontade, nossa responsabilidade. – O Cavaleiro de Touro explicou para seu inimigo.

- Estava apenas testando você velho. Queria saber se você teria mesmo a coragem de lutar contra seus companheiros de batalha. – Anteros disse.

- E porque isso importaria pra você? – Aldebaran quis saber.

- Eu sou o deus da discórdia, seu idiota! Eu gosto de ver a confusão na mente das pessoas, gosto de ver vocês humanos brigando por motivos fúteis, gosto de vê-los entrando em contradição e quebrando regras que vocês mesmos criaram. Gosto de observar como se comportam quando são obrigados a ir contra seus princípios. Fobos é o deus do medo, Deimos é o deus do pânico, mas eu sou diferente, eu não causo apenas discórdia, eu sou o senhor do caos! – Anteros esbravejava para seu oponente.

Quando terminou de falar, o deus deu ordens para seus dois outros servos atacarem o inimigo, porém mais uma vez o touro criado por Aldebaran destruiu ambos os Cavaleiros, dessa vez pisoteando-os.

- Está acabado Anteros. Agora você será derrotado. – Touro falava enquanto se aproximava do deus.

Aldebaran deu alguns passos para frente, certo de que terminaria sua batalha naquele momento, até que não conseguiu dar mais nenhum passo a frente. Seu corpo estava totalmente paralisado, sem movimento algum.

- Achou mesmo que estava acabado? A luta só termina quando um dos dois morre, neste caso, você. – Anteros falava com um sorriso no rosto.

O deus da discórdia estendeu seu braço na direção do cavaleiro, abriu sua mão e levantou-o do chão apenas com a força da mente. Aldebaran viu o brilho na mão de Anteros ficar mais forte e a partir disso sentiu uma enorme dor. Parecia que seus ossos iriam sair de seu corpo. Aquela estranha luz estava puxando-o, mas ele não saía do lugar, apenas uma fumaça escura exalava de seu corpo, aproximando-se de seu inimigo. Seus músculos doíam intensamente, conforme aquela fumaça ganhava mais forma. Não suportou e deu um grito de dor, caindo no chão logo em seguida. Tentou levantar-se, mas estava muito debilitado, conseguiu apenas ficar de olhos, e ao olhar para cima viu sua própria imagem, de pé e vestindo uma armadura idêntica a sua. A única diferença era que seus olhos eram totalmente negros. Aldebaran não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, não de novo.

- O que você fez? – Touro questionou.

- As pessoas sempre acreditaram que possuem dois lados de comportamento, dizem que todo mundo possui um lado bom e um ruim, que se complementam formando um ser. Entretanto, somente algumas percebem que não são duas metades que se completam, mas sim duas personalidades completas e antagônicas, porém depende de sua vontade determinar qual das duas terá o controle sobre suas ações. Eu apenas separei seus dois lados em dois corpos. Você é a parte boa e essa é sua parte má. – Anteros respondeu.

- Assim como você fez com meu pai, não é? Você fez surgir o seu pior, incitando-o a matar minha mãe. E ainda mandou aquele seu escravo para matá-lo depois, estou certo? – o Cavaleiro procurava respostas.

- Exatamente, mas agora nada disso importa. Mate-o Cavaleiro de Touro. – falou o deus para o lado mal de Aldebaran.

A versão má do velho aproximou dele com um sorriso no rosto, parecia estar esperando muito tempo para poder enfrentar aquele sujeito que o impedia de atender seus desejos mais sórdidos. Além da tortura de compartilhar o mesmo corpo com uma pessoa tão “bondosa”, tinha que se acostumar a ser subjugado pelo seu oposto. Ambos eram Aldebaran, ambos foram escolhidos para assumirem o posto de Cavaleiro de Ouro de Touro, então porque apenas um deles detinha o domínio sobre o cosmo e sobre os poderes proporcionados por ele?

Agora tinha em suas mãos a oportunidade de tomar o controle, ter todo o poder em suas mãos. Não iria desperdiçá-la de jeito nenhum.

Ele parou diante daquele que foi seu companheiro durante tantos anos e o observou. Viu um homem um pouco velho, cansado das batalhas que lutou; viu um menino que presenciou a morte da mãe pelo próprio pai, que sob o poder de Anteros, havia despertado seu pior lado. Enfim, após esquadrinhar a mente e a alma daquele homem, a única coisa que viu foi a si mesmo.

Levantou seu braço direito ao céu e reuniu seu cosmo em sua mão. Mirou o rosto de seu oponente e piscou para ele, num sinal que o outro já sabia o que significava.

Aldebaran que continuava ajoelhado por causa da dor preparou-se para o ataque. Em um segundo ele tinha desaparecido da frente de seu oposto e no outro surgia atrás de Anteros, segurando o deus com os braços para trás, como um policial faz com um prisioneiro.

- Prepare-se para morrer, Anteros. – Aldebaran falou com uma voz fraca.

- O quê? Você não pode me matar! Eu sou um deus! E mesmo que mate, sua versão maligna o matará depois disso! – Anteros respondeu ao Cavaleiro.

- Não se iluda. Vocês deuses podem até ter a imortalidade, mas não nesse mundo. Para estar aqui vocês precisam de um hospedeiro humano, precisam de um corpo para possuir. É por isso que Hades e Atena ainda não despertaram nessa Guerra Santa, porque eles ainda não encontraram seus respectivos corpos, mesmo que saibam quais são. Posso não matar você, mas vou mandá-lo de volta para a dimensão de onde veio, para que permaneça lá até a próxima Guerra Santa. – Touro explicou ao seu inimigo. – E quanto a minha contraparte, digamos assim, você também está enganado. Você acredita que o lado bom e o mal das pessoas estão sempre em disputa, nunca concordando um com o outro. Porém você está errado, muitas vezes a força de vontade, os desejos e os sonhos dos humanos ocupam toda a sua mente e seu coração. Não há dúvida, não há divergência, não há incerteza. Assim como o meu desejo de vingança pela morte de meus pais e minha vontade de vencer todos os meus inimigos. Tanto eu quanto ele compartilhamos esses sentimentos e agora vamos matá-lo, assim como tanto ansiamos durante nossa vida. – Terminou o Cavaleiro de Ouro.

O Touro de olhos negros virou-se para o deus da discórdia ainda com seu braço levantado, correu em sua direção e pulou alguns metros antes, para golpeá-lo com mais intensidade enquanto caía, o ar próximo de seu pulso ficou com uma cor alaranjada.

- Supernova Titânica! – gritou Aldebaran, enquanto socava o crânio de Anteros e via-o se despedaçar após receber o impacto de seu golpe.

Sua mão afundou no chão e várias pedras voaram devido à força usada. Agora restava apenas sua contraparte perante ele, mas seu sentimento de vingança parecia haver desaparecido junto com o deus da discórdia. Os dois se olhavam como se não soubessem o que fazer, sua vingança estava parcialmente concluída, teriam que procurar o homem de armadura negra que havia assassinado seu pai. Mas por agora queriam apenas descansar, pois estavam exaustos depois dessa luta. Porém sabiam que não poderiam permanecer separados, seria muito pior para eles.

Aldebaran estendeu sua mão para seu “gêmeo malvado” e ao cumprimentá-lo sentiu toda sua força voltando para seu corpo, gradualmente, na mesma velocidade que sua cópia desaparecia diante de seus olhos, esboçando um sorriso em seu rosto. Suas últimas palavras foram:

- Bom trabalho!

Mesmo com sua força restaurada, Aldebaran estava muito debilitado, seu esforço para vencer aquela briga tinha sido grande demais, seu cosmo estava quase se exaurindo. Sentiu uma tontura e não conseguiu manter-se de pé, caiu com as costas no chão e não fez o menor esforço para levantar. O céu estava lindo, as estrelas brilhavam de modo intenso, principalmente as da constelação taurina. Deitado podia observar todo o vasto universo acima de si, teve até a oportunidade de ver uma estrela cadente, uma estrela diferente das demais. Essa estrela não tinha uma trajetória de descida, pelo contrário, ela parecia sair do chão e ir em direção ao céu noturno. Aldebaran reconheceu que estrela era aquela, ou melhor, que constelação era aquela que havia despertado.

- Voe Pégaso! Vá salvar o mundo, garoto. – o velho falou com um ar de felicidade.

E dormiu, afinal, todo velho merece um repouso, pensava ele.