Jack paralisou ao olhar para Gaby.

Ela tinha o cabelo liso e castanho, olhos azuis, pele bronzeada, corpo bem definido (apesar de que as filhas de Ares eram garotas enormes e nojentas) sua voz era doce, como a de uma filha de Afrodite.

–Entrem — ela ofereceu — sei que seria meio irônico falar isso, mas, não repare a bagunça.

O lugar era decorado com espadas e facões pelas paredes, vários posters de Heavy Metal, e digamos... Que a bagunça parecia fazer parte da decoração.

–Bom — disse Gaby enquanto dava uma "batidinha" nas costas de Jack.

"Aquilo não parecia ser uma pancada de menina, mas ok", pensou ele.

–Acho que você tem muito o que fazer — ela olhou em volta — não faça nada de errado, porque se não, você pode sair daqui morto, até mesma eu posso fazer isso. Fica ligado.

Jack não sentiu nem um pouco de medo, apenas não conseguia parar de olhar pro rosto dela.

–O que você tá olhando? Virei atração turística agora, foi? Ao trabalho! Agora vou para a arena, esperar a dupla vencedora de Resgate e Desarme.

Ela saiu, e bateu a porta.

–Droga. Além de não poder participar, não posso ver quem vai ganhar.

–Poderia ser pior — disse Luana — por exemplo, eu poderia estar lá, mas tenho que te supervisionar.

–Pense pior ainda, eu poderia estar lá, mas tenho que limpar o chiqueiro do acampamento.

–Fez por merecer. Comece a arrumar os beliches, depois, polir as espadas. Os produtos de limpeza estão ali no canto.

–Mereço — ele murmurou.

Ele pegou um pano velho, e começou a passar nas espadas.

–Jack.

–O quê?

–Disse que era pra arrumar as camas primeiro.

–AH QUE DROGA, ME DEIXA.

Então, ele largou o pano, e foi em direção às camas, ele puxava as colchas agressivamente, dava bofetadas de vez enquando.

–Jack.

–O QUÊ?!

–Por que você é assim?

–Assim como?

–Assim. Fechado... Irritado...

–Porque é assim que eu sou.

–Você parece... Preso.

–Eu estou preso. Estar aqui, nesse chalé contra minha vontade, estar nesse acampamento idiota, fazendo coisas idiotas, enquanto poderia estar explorando as montanhas geladas do Canadá...

–Isso não é legal.

–O quê?

–Se sentir preso. Acho que todo ser merece sentir a vida, e todas as suas formas de intensidade. Todos os seus prazeres e todas as suas belezas, sem tem muito medo de se limitar. Todos deveriam, pelo menos uma vez na vida, sentir o vento na cara, ver as estrelas e contemplá-las, sentir um frio na barriga de emoção. Talvez, a vida não seja tão generosa com a gente, mas já que estamos aqui, deveríamos nos erguer mais a cada dia, deveríamos colocar o pé pra fora, e mostrar que a cada dia, você tem um caminho a trilhar. Todo ser, deveria ter o direito de poder viver, viver do jeito que deixa confortável, de modo justo, de modo que ele aprecie todas as belezas, e todas as emoções, e que em meio a todas decepções, tivesse um abrigo seguro, no qual pudesse descansar em paz.

–Por que você está falando isso pra mim? Ninguém gosta de mim. Por que você está falando tudo isso, se nos conhecemos à instantes?

–Porque eu quero ser sua amiga.

–E por que você quer isso?

–Jack — Luana suspirou — se você estivesse se afogando, procuraria respirar, ou iria deixar o mar te consumir?

–Iria procurar respirar, claro.

–Se você tivesse uma namorada, se vocês brigassem, e ela virasse o rosto, saísse andando, e você tivesse um meio de consertar isso, você correria atrás dela, ou ficaria parado?

–Correria atrás dela.

–Então, é isso que eu quero lhe dizer. Se você é um problemático, em meio a tantos outros, por que você não procura um jeito saudável de fugir, ou até mesmo, se entregar a tudo isso?

Jack pensou.

–Se você é um delinquente — ela continuou — seja mais, se isso for te fazer bem. Se não, tente achar uma forma de fugir disso, tente achar uma forma de se libertar, tente sentir as emoções da vida, sem se limitar por completo. Se você é um estressado, ótimo, seja um, mas seja um estressado que apesar de não gostar do que a vida lhe oferece, saiba viver, apesar de tudo, porque é derrotando os nossos medos internos, que você consegue ter ânimo pra enfrentar os medos do mundo. Se você não se preparar por dentro, não estará preparado por fora, e assim, não saberá viver.

–E como eu deveria me libertar?

–Apenas você sabe. Libere algo que está preso, que você engasgou, e não consegue dizer, libere um sentimento que está preso. Só aí você vai estar tirando um peso. Vai sentir seus ombros mais leves, e então, você vai estar preparado pra vencer seus medos.

–Eu não...

–Quer saber, vou te levar num lugar, esqueça limpeza do chalé por hoje, vamos nos liberar, vamos nos ilimitar.

Luana segurou na mão dele.

–Você vem?

–Sim — disse ele abrindo um pequeno sorriso.

Eles saíram do chalé, a tarde já caía, o sol estava próximo a se pôr, eles correram, correram sem uma direção exata, e seguiram, pra onde o coração mandasse.

Jack sentiu o vento no rosto, sentiu o frio na barriga, sentiu como se estivesse a pular de uma montanha sem medo, de se arriscar, sem temer mal algum.

Era esse o "modo Luana" de se viver. Não se limite. Se entregue, se jogue, e não tenha medo de cair.

–-------X--------

Todos ficaram boquiabertos.

A luta parou, Gio estava sendo encarada, principalmente por Mica, a qual, agora, era sua irmã.

–Filha... De Hades? — Gio perguntou baixinho.

–Sim — respondeu Mica — minha irmã. Bom — ela suspirou — é bem legal estar aqui, nesse momento, e tals, mais eu preciso derrotar vocês. Prazer, irmã, seja bem-vinda à família.

O olhar assassino voltou ao rosto de Mica, tão de repente, que Gio sentiu medo, ela podia mudar de feição rapidamente, podia assustar qualquer criatura, apenas com sua presença.

"Um dia eu serei assim", pensou Gio.

Então, Molly voltou a agarrar Gabe com plantas, formando espinhos, e este, tentava achar um modo de agarrar sua espada, o que por enquanto, estava bem difícil.

–Você não vai suportar muito, menina — disse Gabe, pondo sonolência na voz, tentando fazê-la adormercer.

Então, o solo estremeceu novamente.

Figuras começaram a brotar do chão úmido, destruindo alguns morangos, e levantando suas espadas, rangendo em guerra.

Gio tentou não se desesperar.

Ok.

Ela tinha feito uma fissura no chão.

Ok.

Agora vinham novos esqueletos.

Nem tanto ok.

E ela tinha que livrar deles.

F-E-R-R-O-U.

Ela se concentrou bastante, tentou pensar em tudo que sabia sobre Hades, tentou se ligar com o mundo inferior.

Enquanto isso, Molly gastara bastante energia com Gabe, então ele tomou uma atitude. Fechou os olhos, e em dois segundos, havia virado um pássaro.

Era um pássaro de pequeno porte, pássaro doméstico. Ele levantou vôo, e assim, conseguiu escapar das plantas que o prediam. Ele deu três voltas em torno dela, e voltou ao corpo normal ao chegar bem próximo dela, não teve como reagir, ele a tocou.

Assim que Molly foi tocada, sua visão fugiu da realidade, como se tudo tivesse desmoronado, e se recriado em outro lugar.

Ela estava num extenso campo de trigo, e lá estava Deméter, encarando-a com seu doce olhar.

Não houve tempo pra conversa.

A imagem dela se desfez, e o chão estremeceu, o trigo começou a murchar, e ir da cor normal, à preto, até virar cinzas, e ser levado pelo vento.

O campo perdeu a cor, agora, Molly sentia uma sensação diferente, como se a morte habitasse aquele lugar. O solo começou a mexer, como se estivesse vivo, e se transformou numa lama estranha, que passou a engolir os pés dela, afundando-a cada vez mais.

O céu perdeu a cor, o mundo estremeceu, e Molly foi engolida pela terra.

–AH! — ela gritou, voltando à realidade.

Ficou paralisada por um instante, seu coração batia depressa, sua respiração estava ofegante, pôde apenas observar.

Ela viu que Gio convocara um bando de cães infernais, que destroçavam os esqueletos de Mica, porém, ela os atacava com fogo negro, o qual cobria suas mãos.

–Ataquem! — gritava Gio, e então, os cães eram desintegrados.

Ela conseguia ver, que Gio não conseguia controlar seus poderes, era de se admirar que ela já conseguisse invocar aqueles monstros com tão pouco tempo de aprendizado, pouco tempo mesmo.

Molly não tinha dado conta que Gabe a encarava profundamente, até que ele, fez o que Molly temia: bocejou.

Quando isso aconteceu, o corpo de Molly amoleceu, os olhos pesaram, ela não conseguia se manter de pé, não conseguia nem mesmo ouvir o que se passava ao redor, Molly adormeceu.

E adormecer enquanto se luta com um filho de Hipnos é mortal.

Os filhos de Hipnos, após deixarem o oponente sonolento, e depois fazendo ele dormir, podem entrar, influenciar e controlar seus sonhos, transformando eles em pesadelos vívidos para deixarem o inimigo perturbado. Mas, como isso é um jogo, e não uma batalha, isso não aconteceu.

–Molly está desarmada!! — gritou Gabe.

–Ótimo — respondeu Mica.

O fogo negro consumiu seu corpo inteiro, e ela agora, era uma figura estranha e assustadora.

Esqueletos surgiam da terra como as bactérias se duplicam. Não havia chance, não havia como lutar contra ela.

–Eu me entrego — falou Gio largando as armas.

–Temos a chave Mica.

Ela estalou os dedos, e os esqueletos voltaram para a terra, ascendendo em seu rosto, um sorriso perverso.

–Quiron — disse um sátiro escondido nos campos — a dupla 7, Gio e Molly, foi desclassificada.

–--------X--------

Gabriel estava estressado.

Queria ganhar aquele jogo, mas por enquanto, só tinham uma mísera chave, que foi ganha no banheiro.

Ele e Bea, estavam próximos ao punho de Zeus, onde procuravam perdidamente por uma chave.

Estava quente, o vento soprava, e espalhava as folhas pelo chão, os pinheiros se aninhavam em diversas partes, eles ouviam o pior som de todos: o silêncio.

Eles queriam aventura, e digamos que aprisionar um casal lésbico num banheiro, não é a melhor aventura.

"A não ser que elas me chamassem pra curtir junto", pensou Gabriel.

Eles se sentiam fracassados e totalmente perdidos, não sabiam pra onde iam, nem se ainda haveria chance. Até que Bea escutou um passo que não era deles.

–Gabriel.

–O quê?

–Você não escutou?

–Não.

–Então não se mexa, prepare a arma, alguém nos visitar.

Bea falava calma e sem pressa, como se tivesse todo tempo do mundo, como se nada a abalasse.

–AHHHH — gritou Clara, caminhando em direção à eles — meu braço!!!!!!!!!

O braço dela sangrava, sangrava muito, ela estava pálida, e tremendo, Bea não hesitou.

–Clara!!

–Bea! É uma armadilha!

–Não é Gabriel! E mesmo se fosse, ela é minha irmã.

Bea rasgou um pedaço de sua blusa, e começou a enrolar no braço dela para parar o fluxo de sangue que saía.

–Clara, o que aconteceu?

–A Leticia, ela... Aii... Ela cortou meu braço com uma faca.

–Faca? Faca de onde? Pelo que eu saiba, ela só usa arco e flecha.

–Mas foi uma faca.

–Ok, Ok. E por que ela fez isso?

–NÃO SEI. FOI DO NADA.

–Tem que ter uma explicação!

–Eu tenho uma, ela pirou de vez, endoidou, enloqueceu, esquentou demais, deu treco no sistema.

–Bem típico dela — comentou Gabriel.

Clara observou.

–Tenho que ir, que procurar a Leeh.

–A mais não vai não, não vai mesmo — falou Gabriel — vocês já capturaram chaves, podem ser desarmadas.

–Mas eu estou machucada!!

–Não importa — ele desembainhou a espada.

–Gabriel! — alertou Bea ao retirar sua adaga — não se aproxime dela, deixe-a ir!

–Você ficou maluca?!! Tão burra para uma filha de Atena.

–Eu? Você já olhou seu reflexo na água meu bem?

–Já, e fiquei bem feliz com o que vi. Já você...

–JÁ CHEGA!

Uma pedra pequena voou na cara de Gabriel.

–MAS O QUÊ...?!

–Não fale mais de mim assim!

Então, Bea sentiu algo perfurar sua perna, quando olhou para trás, Clara estava colocando um dardo lá.

–MAS O QUE É ISSO?

–Uma ajudinha. Tipo, suco de maracujá.

Então Gabriel correu na direção dela com a espada prepada, até que algo o bicou.

–AI!

Outra vez.

–AI!

Mais uma.

Quando ele se deu conta, um exército de corujas, pairava sobre ele, corujas furiosas, o que não parecia ser nada bom.

–BEA! ME DIGA QUE VOCÊ ESTÁ CONTROLANDO ELAS!

Clara sorriu.

–Idiota.

Leeh apareceu, com o arco armado com uma flecha em chama, o que não parecia ser vantajoso contra um filho de Poseidon, mas ela pareceu aceitar bem a ideia.

–Clara de ovo, cuide dele.

Ela revirou os olhos, e preparou sua Katana.

Leeh atirou uma flecha à Bea, mas ela não a atingiu, como se Bea estivesse coberta por um campo de força, e ela estava.

Clara atacou Gabriel no peito, mas ele defendeu com sua espada, e fez um jato d'água surgir do chão, e atacar Clara, que ficou toda molhadinha.

Ele maliciou.

Porém, se esqueceu das corujas, e essas, começaram a bicá-lo, todas de uma vez.

Clara pegou sua Katana, e fez um corte na perna esquerda de Gabriel. Ele gritou, mas principalmente, pelas corujas que o devoravam vivo.

Leeh, como sempre, usou seu calor para enfraquecer Bea, ela teria usado todo seu conhecimento em batalha, mas estava dopada pelo dardo de Clara.

Ela não resistiu, caiu no chão de joelhos, e murmurando.

–Eu sempre venço.

Ela arrancou de Bea, a sexta chave, e a desarmou, Clara, fez o mesmo com Gabriel.

–Espero que elas não tenham comido seus olhos.

Clara tentou desarmá-lo, mas ele não se entregou, então, uma coruja bicou no lugar fatal de todo homem, e ele cedeu.

–Vou investir mais nessa técnica — ela disse.

Os dois foram desarmados

O sátiro falou:

–Quiron, a dupla 8, Bea e Gabriel, foi eliminada. Agora só resta duas duplas, que vença a melhor.

Clara e Leeh se entreolharam.

–Fazer os dois discutirem foi uma ótima ideia, filha de antena.

–Atena.

–Que seja, vamos logo, temos duas chaves pra pegar.

Elas correram, e sumiram.