Camp Semitrouxa

6 Pesadelos Se Despertam


Eles correram, correram muito, a principio, pareciam sem destino exato, mas se tratando de Luana, em tudo havia uma surpresa.

O ar estava relativamente quente, o horizonte estava alaranjado, a lua se preparava para aparecer, e Jack ainda sentia no fundo a sensação de liberdade.

Eles se aproximaram do fim do Riacho Zéfiro, e Luana parou, fitando o solo, como se aquilo fosse um local em especial de todo o acampamento, talvez fosse pra ela.

Ela se ajoelhou, e tocou o chão, fechou os olhos por um instante, e ficou parada, sem realçar nenhum sentimento. Ela abriu os olhos.

–Vamos Jack — ela convidou — se sente ao meu lado.

Ele o fez.

–Por que estamos aqui? — perguntou Jack.

–Por que estamos aqui...? Bom, estamos aqui, porque o destino nos trouxe aqui, porque todas as suas decisões te levaram aqui, estamos aqui porque devemos estar.

–Mas o que esse lugar tem de especial?

–Bom... Ele tem uma forte influência sobre mim — ela acariciou o solo — uma caixa de lembranças, uma fonte de maravilhas, um ponto que nos permite ver o dislumbre da vida.

–Que lembranças?

Ela fez um sinal de não, balançando a cabeça, não queria compartilhar, talvez Jack estava sendo invasivo demais, por tão pouco tempo de amizade.

–Apenas lembranças que não podem ser esquecidas.

Ela tirou seu colar de contas de dentro da camisa: seis contas, seis anos de sobrevivência.

Ela parecia calma demais, Jack havia passado um ano e não havia se acostumado, aliás, ele estava enlouquecendo.

–Jack, você já viu as estrelas, alguma vez na vida?

–Já.

–Mas eu digo... Você já parou para vê-las? Já parou pra pensar sobre como foram criadas? Como podem ser tão pequenas aos nossos olhos, e ao se aninharem, são lindas? Estrelas são lindas por si só, mas em conjunto ficam sempre mais bonitas, quando estão em família.

–Quando estão em família...

–Isso Jack, isso que eu quero dizer, todos somos lindos individualmente, mas em família somos mais, e a partir de hoje, você faz parte da minha família.

Ela sorriu de lado, e segurou a mão dele, apertou, e alargou o sorriso.

Jack se sentia mais completo.

–Obrigado — ele disse.

–Hum... Pelo quê?

–Por me dar recordações. Agora, quando eu tiver que sair daqui em missão, batalhar pelo acampamento, ou ir de vez, vou ter boas recordações.

–Jack... As boas recordações só estão começando, você vai ter muito mais pra guardar — ela falou enquanto batia na cabeça dele.

Ela se deitou e começou a encarar o céu, mas olhar de um jeito diferente, como se cada pedaço do céu, fosse um pedaço de si.

–Se deite Jack — ela fechou os olhos — deixe esse lugar falar com você, deixe seus sentimentos saírem e se misturarem com o ar, se ilimite.

E ele fez isso.

Ele olhou para o céu rosa e laranja da tarde, o sol estava quase desaparecendo, as nuvens se movimentavam devagar, o vento balançava seus cabelos, o doce som do silêncio lhe trazia boas energias, como se aquele lugar deixasse-o em paz, como se limpasse toda a sujeira interna, como se preenchesse todo o vazio.

Jack fechou os olhos.

Quando ele viu apenas trevas, não sentiu medo (até porque ele não tinha medo), se sentiu mais seguro, tudo fazia mais sentido, apenas ele e os sons, o som do acampamento, o som da voz de Luana.

–Esse lugar é mágico não é? — ela perguntou com animação.

–É. Na verdade, qualquer lugar pode ser incrível quando estamos bem, e com pessoas que gostamos.

Jack não viu, mas imaginou Luana abrir um sorriso.

E eles ficaram ali, por um tempo, apreciando a maravilhosa sensação da amizade, do elo.

–Jack — sussurrou ela — olhe, as estrelas apareceram, e você congelou tudo.

Quando ele abriu os olhos, viu o céu novamente.

Ele estava azul claro no horizonte, e vinha escurecendo, até ficar azul escuro, e futuramente, negro, ascendendo todas as suas maravilhas.

Também viu, parte do solo e da grama congelada, ele teve que se desculpar.

–Ah, desculpa, sabe... Quando eu fico feliz, o meu redor esfria, pra me deixar mais confortável.

–Entendo, acontece comigo às vezes, claro que não congelo a grama, mas cada um tem seu modo de se sentir confortável.

–Ah, e obrigado também por me livrar daquela limpeza.

–De nada — ela riu — aliás, já que quebramos as regras, o que você acharia de quebrar um pouco mais?

–Como assim?

–Bom... Que tal irmos para a final de Resgate e Desarme?

–Você tá falando sério? — ele ergueu as sobrancelhas.

Ela assentiu.

–VAMOS — ele se levantou rapidamente e limpou a roupa batendo as mãos, abriu um sorriso de orelha à orelha — não lembro do último dia que sorri tantas vezes.

–Vamos. Ah! E se comporte.

–Eu juro — ele cruzou o dedo.

–Jura pelo Rio Estige?

–Pelo Rio Estige.

Os dois correram para a Arena, e dessa vez, Jack procurou se limitar.

–-------X--------

Leticia e Clara andavam com olhos de águia.

Tudo calculado: ataque surpresa, luta à distância, corpo à corpo, envenenamento, hipnotismo, dentre outros...

A tarde caía, faltava pouco tempo pra anoitecer e elas ainda estavam com duas chaves à menos.

–Hoje à noite, nós iremos erguer aqueles troféus — disse Leeh — tenha certeza.

–Se Zeus quiser.

–Se Zeus quiser não, iremos ganhar de um jeito ou de outro, já chegamos longe, estamos com mais da metade das chaves. Se fosse filha de Atena, faria a porcentagem de chance que temos de perder. Mas com certeza seria abaixo de 1%.

–Você é bem confiante, mas não podemos confiar demais, tudo em excesso é uma arma perigosa, às vezes pro inimigo, às vezes para si mesmo.

–Até que você tem razão, mas vamos ter esperança, tudo gira ao nosso favor.

Leeh observou.

–Droga. Se o sol se pôr, e ainda estivermos no jogo, vou me cansar mais rápido.

–Temos que nos apressar então, eu não faço ideia de quem poderemos batalhar, o quanto mais rápido melhor.

Ela assentiu, com os olhos semicerrados, a sobrancelha arqueada, o sol da tarde batendo na sua cara, lhe dando as últimas forças do dia. Em breve, Leticia estaria frágil, e elas estariam com um ponto fraco, penetráveis.

–Vou enviar Una para verificar a área, precisamos de vista aérea, ela nos manterá informada.

–Faça isso.

Leeh verificou a aljava, contou o número de flechas, fez a contagens das flechas venenosas, flechas de fogo, flechas de luz, flechas duplas, tudo num número exato, para que a jogada fosse precisamente calculada.

–Sobre a Bea — Leeh iniciou um novo assunto — você foi até esperta. Mas acho que ela foi mais burra, do que você sendo esperta. Hum... Não tem medo de que ela, digamos... Se volte contra você? Afinal, você se aproveiou da boa vontade dela, e vocês são irmãs.

–Não. Ela sabe que em batalha, somos todos voltados uns contra os outros. Ela sabe os códigos de batalha como uma boa filha de Atena, ela entenderá o motivo.

–Se você diz...

Ela riu, como se duvidasse de Clara, Leeh achava que Bea não deixaria barato, pelo menos, se isso acontecesse com ela, ela não deixaria.

–E como você derrotou tão fácil aquele filho de Poseidon? Não achei que seria tão fácil.

–Filhos de Poseidon não são monstros. Se você usar os elementos certos, e deixá-los sem forças pra invocar a água, pronto, acabou.

–Tá. E como você fez isso?

Ela olhou para Clara como se ela fosse uma idiota.

–Você ainda não entendeu? Eu usei meu calor.

–Aaaaaah — ela pareceu finalmente entender — então você usou seu charme?

–Não uso charme, não sou filha de Afrodite.

–Mas todos sabemos que as filhas de Apolo tem um dom natural pra isso, Apolo é o deus mais gato, os filhos puxam isso.

–Ne verdade, eles não tem sorte no amor, nosso pai é muio mulherengo, geralmente, nós acabamos não nos contentando com uma pessoa só.

–Mas eu não estou falando de amor, estou falando de olhar, de sedução, vocês, apesar de não serem filhas de Afrodite, tem um certo ponto nesse quesito.

–Boa explicação, talvez eu tenho um ponto nesse quesito... Ou um pouco mais.

–Me conta como foi.

–Como foi o quê?

–Você... O filho de Poseidon...

Quando Leeh estava prestes a falar, um pássaro passou muito perto do seu rosto, um corvo.

–Que droga — disse ela espantando o animal — continuando, eu esquentei o ambiente, ele desidratou, sentiu um calor forte, e não teve força pra invocar a água do Riacho Zéfiro, então eu desarmei ele.

Ela esqueceu algumas partes claro, ela usou muito mais que um simples poder. Como Clara disse, ela usou parte do charme, usou seu olhar.

Elas andavam próximas à barreira mágica do acampamento, onde se aproximava a Praia dos Fogos, e o corvo voltou a perturbá-las, Leeh o afastou novamente.

Até que ela sentiu uma presença estranha, como se ar tivesse se tornado pedra, como se seus piores medos estivessem observando-a, como se seus pesadelos estivessem passando em seus olhos por rápidos segundos.

Ela não comentou nada, mas olhava constantemente para a face de Clara, querendo descobrir se ela sentia o mesmo.

–A morte é cruel, não é mesmo? — Leeh sentiu um frio pela espinha, ela tremeu com essa voz, mas se conteve.

Clara desembainhou a Katana.

–Não é mesmo? — a voz repetiu.

Não houve respostas.

–Sei que está gritando sim, mas onde está sua voz agora?

O corvo pousou num galho de uma árvore caída.

–A morte é terrível — continuou a voz — e torna a ser aterrorizante pra quem a conhece. Te consome aos poucos, com o medo, a angústia, a miséria, a tristeza, e te leva ao fundo. Eu sei que você a viu, não precisamente, mas a viu em ação, você se lembra? Ou quer que eu desperte suas lembranças?

Leeh sabia o que a voz dizia, estava falando com ela, e sabia o significado de tudo aquilo.

Quando ela era pequena, 10 anos mais precisamente, numa noite de véspera de natal, já estava para dormir, vestida com seu pijama de ursinhos, seu quarto coberto por meias, uma árvore de natal, a janela enfeitada com pisca-pisca, até que ela ouviu uma pancada, um barulho vazio vindo da sala, que ficava logo abaixo do seu quarto.

Ela queria saber o que era, então foi olhar.

Andou devagar até a porta, a abriu, e desceu na ponta do pé pela escada, fazendo o mínimo barulho possível.

Ouvia alguns sons, que não conseguia identificar, e quando focou sua visão no chão, viu uma poça vermelha banhar a casa.

Ela desceu mais.

Seu coração acelerou os batimentos, ela ficou com a pele fria, tremia a cada passo, e quando desceu... Quando desceu... Ela viu.

Seu padrasto estava de costas para ela, estava com a roupa manchada daquele líquido vermelho, que ela deduziu que era sangue.

"Mas já estão matando o peru?", ela pensou.

Quem dera fosse.

Ela se aproximou, e ele virou o rosto

Um sorriso estampava a sua cara, mas não era um sorriso comum, era um sorriso que ela nunca havia visto.

Os olhos esbugalhados, e uma faca na mão, e lá estava, em cima da mesa, sua mãe, esquartejada.

O relógio avisou: 00:00

Chegou o natal, e ela estava RM frente à um assassino, que acabara de matar sua mãe.

Primeiro seu coração disparou, as palavras sumiram, sua pele ficou ainda mais pálida, e ela não lembra ao certo o que aconteceu.

Lembra de ter visto um grande feixe de luz atravessar a sala, e ela fechou os olhos. Quando os abriu, estava lá, no Acampamento Meio-Sangue, onde passou o resto dos últimos anos de sua vida.

Agora, aquela voz lhe fizera lembrar de todos os detalhes, de todas as emoções. Ela suava frio, seu coração disparava, e seus olhos se encheram de lágrimas, o medo se infiltrou em suas veias, e dominou todo o corpo.

Ela estava em pânico.

Mica apareceu das sombras, e agora o corvo havia virado Gabe.

Já era noite, e ela estava parada, sem mexer um músculo sequer.

Gabe a tocou, Clara tentou protegê-la, não sabia o porquê de Leeh estar assim, mas Mica a atacou.

Gabe fez ela ficar com sono, e pôs em prática seu melhor/pior poder.

Ele a fez reviver todo aquele pesadelo de novo, e de novo, e de novo, e de novo...

Ela não aguentava mais, estava prestes a explodir, e começou a chorar, chorar de horror, chorar de terror.

–Para com isso!!!!! — ela gritou em desespero — eu não aguento mais, eu não aguento mais!!!!!

Ela se ajoelhou, abaixou a cabeça, e murmurou.

–Eu não aguento mais

Ela soltou as chaves e as armas.

–Me deixem em paz, não me façam reviver esse pesadelo. Parabéns, vocês ganharam — ela falou enquanto tremia.

Mica desarmou Clara.

–Temos que ir para a arena Gabe, lá finalizaremos o Resgate e Desarme.

Ele olhou para ela e assentiu.

Mica fitou o rosto desesperado de Leeh, e por alguns segundos sentiu pena, mas ela tinha que ser fria pra conseguir ganhar, e agora, estava à um passo da vitória.