Camp Semitrouxa

10 Quando O Mar Reflete A Noite


(Pov's Jack, Vic e Edu)

[Pov Jack] [Acompanhamento Musical: Decode — Paramore]

Jack gostava da amizade que formara com Luana.

Era bom trocar experiências, e eles trocavam muito. Ela contava sobre as viagens que fazia antes de entrar no Acampamento, falava sobre algumas de suas reflexões, falava loucuras, até porque loucuras era sua especialidade.

Já Jack, falava sobre o que achava dos campistas, sua vida antes do acampamento, e tentava aprender com as loucuras e reflexões de Luana. Afinal, não havia alguém melhor para ensinar sobre a vida, nem mesmo Quiron, que tinha uma vivido por um longo tempo.

Ele nunca imaginava que fosse encontrar alguém que completasse ele como suas facas. E olha que elas completavam bastante.

Flashback On

Mais um dia de aula.

Dias de aula não eram dias bons.

Ao adentrar os limites daquele lugar sujo, Jack sentia seu estômago virar e revirar. Olhar para todos aqueles rostos que lhe devolviam um olhar pior que o seu, lhe dava nojo.

Se ele soubesse que era semideus, teria certeza de que aquele lugar era o ninho dos piores monstros. Mas assim como para ladrões existem policiais, para o fogo existem os bombeiros, para cachorras existem Klebers, para monstros existiam os assassinos.

A cada passo sentia um frio lhe corromper e seus braços arrepiavam. Ele sabia que era sua consciência gritando, mas vez ou outra ela podia escutar:

"Pegue! Pegue eles"

Às vezes seus dedos chiavam e esfriavam ao ponto de ficarem azuis, seu cabelo clareava e sua temperatura baixava. Será que ele tinha um coração frio assim como todos diziam?

Jack achava que sim, só não sabia que seu coração era literalmente de gelo.

— Iai, Jack? — disse uma de suas "colegas" acompanhada de outra – Ontem, antes de dormir, passou sua gilete nos braços? Da próxima vez faça cortes verticais, o mundo agradece.

— Ha Ha Ha.

— Que risada sarcástica, não? Muito sarcástica pra um merda igual você.

— Imagina que legal se de repente um raio cai nessa sua cabeça imunda pra ver se aumenta a inteligência.

— Não cai. Tenho um Deus que me protege.

— Muito religiosa para uma vadia. Pena que seu Deus deve estar morrendo de vontade de fazer isso.

— Cale a boca, pirralho.

— Com prazer, muito melhor que trocar palavras com você.

— Idiota. – virou-se para a amiga revirando os olhos –Vamos desaparecer.

— Vá com Deus, se bem que seu protetor deve ser o diabo.

— Lógico que não, – falou já enquanto caminhava – senão você seria meu protetor.

— Se eu fosse você poderia ter certeza que não duraria muito tempo. – sussurrou e concentrou.

As meninas desfilavam a poucos metros dela até que a que o provocou escorregou e bateu a cara no chão.

— Com certeza não duraria muito tempo. – sussurrou mais uma vez.

Dando meia volta, Jack se direcionou ao seu armário e procurou o material do dia. Após escolher os livros caminhou até a sala onde escolheu um local mais reservado.

Ele estava inquieto, batia o dedo incontrolavelmente sobre a mesa, olhava para as folhas brancas do caderno e pensava em como elas poderias ser preenchidas, escutava todos os cochidos dos colegas de classe que pareciam gritos em seu ouvido, via todos os rostos bonitos que escondiam crueldade.

Jack não era cruel, eles é que eram, não é mesmo? Eles é que eram, eles é que eram, eles é que eram...

— ... Eles que são, eles que são, eles que são, eles que são...

— Sr.Frost? – disse seu professor – Eu já entrei na sala, percebeu?

— Percebi agora, senhor.

— Muito bem. Hoje nos flaremos sobre blá blá blá blá blá....

Era impressionante como Jack perdia atenção de tudo, nunca ouvia os outros, sempre agia por si só, sempre agia com o coração, com a consciência gritando, nunca com a mente. Um segundo de distorção e boom, outro mundo.

— Então Frost, o que nos diz sobre o novo assunto?

— É... Bastante educativo.

— Só isso?

— Só. Quer que eu faça o quê? Repita toda a bobagem que você falou aí? Não.

— Você acha isso bobagem?

— Sim. Pra que aprender sobre deuses gregos e suas formas romanas se essas idiotices nunca reinaram? Ou melhor, nunca existiram.

— Nunca é muito tempo.

— E isso é muita perca de tempo.

— Você é muita perca de tempo, Sr.Frost.

— Tá. – revirou os olhos.

— Agora vá perder seu tempo na diretoria, vamos, vá!

Jack se levantou lentamente e encarou o professor com um sorriso sarcástico, além de fazer bom uso das sobrancelhas arqueadas.

— Eu te mato com o olhar e você nem percebe, agora volte a dar essa aulinha de merda.

O mestre da sala pareceu estar prestes a explodir, porém, Jack agarrou a maçaneta de modo ágil e puxou a porta com toda sua força.

O professor lutou para abri-la, mas algo o impedia. Jack não havia trancado a porta, então o que havia acontecido?

Sua boca secou. A fechadura estava congelada. Ele não parou pra pensar o que havia ocorrido, apenas virou-se e caminhou para a diretoria como se nada tivesse acontecido.

— ABRAM! ABRAM ESSA PORCARIA! – gritava o professor, sua voz falhava às vezes.

Jack fingia não escutar nada.

Ele imaginava que os berros do mestre seriam como folhas farfalhando no outono ou até como chuva de inverno batendo na janela, imaginava que poderia ser belas flores brotando na primavera ou o bom barulho do mar no verão, embora ele não fosse fã de calor.

— Frost? – questionou com as costas viradas para o menino.

— Sim, diretora.

— Que surpresa! – virou-se. Com a postura ereta, vestido cor nude, e a face rígida a diretora pôde continuar. – O que aconteceu dessa vez?

— Aula de história, mitologia grega e romana, cha-tis-se.

— Você acha uma chatisse? Mesmo?

— Na verdade, eu acho uma alucinação. Quem criou a mitologia deve ter fumado umas boas ervas.

— Mas os deuses gregos são reais.

— Ah é? Como sabes?

— Ora! – deu risadas curtas e pausadas – Veja por aí! A mitologia grega está por todo lugar! Nas praças, nos escritórios... – a mulher olhou no fundo dos olhos de Jack e ele pensou ter visto sua íris brilhar em dourado – ... É só olhar no fundo dos olhos. A mitologia está na alma, está no sangue.

— A mitologia está no sangue?

— Claro que está. – a diretora virou-se novamente para reagrupar papeis e mais papéis.

— No sangue... – Jack fitava as costas da mulher como um lobo encara uma presa fácil. – NO SANGUE! – uma estaca de gelo se materializou em sua mão e foi fincada próxima ao pescoço da diretora.

Nada aconteceu por um breve momento. A mulher com vestes elegantes permaneceu parada enquanto muito sangue escorria de seu ferimento, jorrando hora ou outra.

— A mitologia está no sangue, mas não é exatamente retirando o sangue que se retirará seu poder. Um herói permanece de pé até a última gota, um monstro permanece de pé até a última caça. E você, Jack Frost, você é MINHA PRESA.

Quando a diretora virou-se novamente seu rosto não era o mesmo. Seus dentes pareciam afiados e seus olhos pareciam se encher de chamas. Ela parecia possuída e ao mesmo tempo liberta.

— TE FAREI EM PEDAÇOS, SEMIDEUS. ESPERO QUE ESTEJA PRONTO PARA APODRECER NOS ASFÓDELOS!

— EU NAO... E-EU N-NÃO ESTOU PRONTO PRA SEI LÁ O QUE. EU NÃO T-TÔ.

— QUE SEJA! ARRRRRHG!

A criatura avançou em Jack com garras prontas para rasgar sua pele fria, porém, houve uma surpresa. Ao longe ouviu-se um grito, não um grito de horror, parecia mais um grito de guerra.

No meio do nada, apareceu correndo em sua direção uma menina que Jack nunca havia reparado.

— Deixe ele em paz, aberração! – ela retirou de sua jaqueta uma adaga e a atirou no garganta do monstro. A adaga saiu pelo outro lado. – Deixe ele ter pelo menos tempo de se preparar. – tocou em seu cinto, e este se transformou num chicote, que enroscou na cabeça da criatura e a arrancou fora, transformando a diretora num monte de areia.

— ALEEEEEEEEEX! – gritou a garota antes mesmo de Jack reagir. Um cara aparentemente mais velho que ela apareceu logo em seguida.

— Vamos logo, Alex, temos que ser rápidos.

— Tem certeza!? O garoto não tem treinamento! – advertiu ele – Não vai resistir a uma viagem nas sombras.

— Temos que tentar. Vamos Jack, segure minha mão.

— C-como você sabe meu... Ah, esquece. – atrapalhou-se. Deu a mão logo em seguida.

— Vamos, Alex, rápido.

— Se você pede...

Alex pareceu ser levado à outra dimensão, no mesmo segundo, Jack também não soube onde estava. Os três mergulharam na escuridão.

Flashback Off

— JAACK! – gritou Luana.

— S-sim!?

— Acorda, cara. Cê tava dormindo?

— Na verdade, estava viajando um poucos nas lembranças, já que estávamos falando de lembranças.

— Você é um bocó. Eu poderia dizer que você é o melhor amigo de todos, mas às vezes parece estar com a cabeça no mundo do Olimpo. Então, você é quase o melhor amigo.

— Só isso resta para esse quase sumir?

— Não. Resta você deixar de ser um imbecil às vezes. Eu amo os idiotas, odeio os imbecis.

— Eu não preciso ser amado.

— Ahrg. Vai começar a dramatizar? Se for é só me dizer que eu saio, está começando a ser imbecil.

— Preciso de boas notícias pra expandir as idéias.

— Hum... – Batgirl permaneceu pensativa olhando pela janela os campistas esbarrarem uns nos outros. – Ficou sabendo que Alex, Andrey e Iamana voltaram?

— Sério? Quero vê-los.

— Podemos ir vê-los, mas antes preciso dar uma palavrinhas com um amigo meu.

— Tudo bem...

Jack viu Batgirl se afastar, gritar com o nada e retornar.

— Agora podemos ir. – ela o agarrou pelo braço, e juntos, saíram para dar boas-vindas aos velhos amigos.

[Luana pouco caminhou até perceber que Jack já não poderia compreendê-la.

— Narrador! É você mesmo! Eu exijo um lindo pov meu no próximo capitulo ou lhe arranco os dentes! Ta avisado. – e voltou-se à Jack.]

• • •

[Pov Vic] [Acompanhamento Musical: Dead To Me — Melanie Martinez]

Victória não se sentia bem.

Seus olhos ardiam, sua boca secava, seus membros doíam. Era a pessoa mais desconfortável do Camp.

Leventar da cama era complicado.

Com esforço, conseguiu abrir a pequena cortina da janela de seu chalé e percebeu que o céu estava diferente, sua entonação era escura, sem vida, como se o mundo inteiro houvesse morrido.

A filha de Hermes decidiu se levantar. Suas juntas estalavam, suas pernas tremiam e seu corpo estava frágil, era como se Vic tivesse sido transformada numa folha de papel. Ao dar os primeiros passos afora, ela viu que as mudanças eram perturbadoras, árvores haviam sido arrancadas, chalés estavam em pedaços, a fogueira exibia uma chama quase que totalmente apagada.

Vic sentia medo, uma negatividade a rodiava, uma tempestade de angústia parecia cercá-la. Como ela suportaria uma tempestade se acabara de se tornar papel?

Mas ela viu alguém. Um perfil ganhava forma ao longe, Vic correu em direção à ele o mais rápido que podia sem se machucar gravemente, cada passo parecia arrancar um pedaço seu.

Ela apressava-se, o vento era contrário e isso dificultava sua caminhada, folhas secas batiam em seu rosto, ela tropeçava em pedras, o mundo parecia atacá-la, parecia ricochetiar todos os seus erros.

Vic via que a figura ao longe, que agora já não estava tão longe, enconbria-se com uma capa e um capuz preto, e ela segurava alguém.

— Oi? – não houve resposta – Quem é você? Quem se esconde por debaixo desta capa?

O anônimo não respondeu, o que intrigou Vic, mas não tanto quando ele soltou a pessoa de seus braços, e esta caiu morta no chão com o pescoço quebrado. Vic reconhecia os traços desta pessoa, e quase caiu junto a ela quando percebeu de fato quem era. Seu sorriso vacilou.

— M-M-M-Mands! – sua voz quase desapareceu – O que você fez com ela, desgraçado?! Mands! Mands?! MANDS! ME RESPONDE!

O anônimo riu, abriu os braços e ofereceu que Vic olhasse ao seu redor.

Tudo parecia ter sido revelado, como ela não havia visto?

O corpo de Isa estava jogado, Jack permanecia imóvel sem uma perna, Eduardo estava com uma estaca cravada no peito, Livz tinha pálpebras e lábios costurados, Leticia estava com a coluna quebrada, Bea não tinha globos oculares, Nai parecia derreter. Havia corpos carbonizados, decapitados, fuzilados, todos estavam mortos.

— O que... – sussurrou com a voz de quem estava prestes a chorar – Por que... Por que vocês fez isso com eles?! – as lágrimas escorreram em seu rosto e molharam sua roupa, seu coração não batia mais, Vic não consiguia permanecer-se de pé. O anônimo sorriu novamente.

— Porque eu os odeio. – respondeu e retirou o capuz. Nem as lágrimas de Vic conseguiram rolar de tanto medo. O anônimo revelou seu rosto, e este, era idêntico ao da própria Vic. – Nós os odiamos, somos iguais. Eu te odeio também.

— Não... Não... – sua voz vacilou.

A outra Victória pegou uma adaga e apreciou-a, seu brilho bronze hipnotizava. Com uma extrema rapidez ela a esfaqueou e retirou seu coração.

— Este é seu eu. E ele está morto.

* * *

[Acompanhamento Musical: Cool For The Summer — Demi Lovato]

Vic se despertou sem fôlego.

— O que foi? – perguntou alguém.

Ela não estava preocupada em reconhecer vozes ou rostos, só queria respirar e se aliviar, seu coração estava à mil.

— O que foi? – tornou a repetir.

— Foi... Foi só um sonho. – respondeu com a respiração ofegante.

— Sonhos tem muitos significados, principalmente para semideuses. Nunca é apenas um sonho.

— E-eu sei... Mas quem... – quando filha de Hermes focalizou a visão, viu um garoto sentado em outra cama, tinha pele escura, barba rala e usava óculos. – ANDREY?! ANDREY É VOCÊ MESMO?!

— Claro que sou eu, você acha que uma delícia dessa pode ser outra pessoa? Me abraça logo que eu não apareço todo dia. Se quiser sarrar também...

— CALA A BOCA, IDIOTA! – Vic se levantou e agarrou Andrey com toda força – Quanta saudade, caramba!

— Eu também estava, embora tenha que manter meu título de "não me importo".

— Eu hein, mal chega e já tá irritando.

— Eu sei que você adora quando te irrito. – ele enviou um olhar enigmático, uma mistura de sexy e sarcástico, Vic gostava disso.

— Às vezes nós temos que manter o título de "não me importo".

— Frescura. Isso se chama falta de pegada.

— Mas você acabou de...

— ISSO, se chama falta de pegada.

Vic riu. Uma risada baixa, quase imperceptível, contudo, por dentro estava pulando. O sorriso sem vergonha dele deixava-a feliz, e isso trazia boas lembranças.

— Posso garantir que a Mands me pega muito bem.

— E ela é o homem da relação?

A líder do chalé de Hermes revirou os olhos.

— Se fosse pra haver "o homem da relação" não seríamos casal lésbico. Somos duas garotas, já não é o suficiente? Ou ainda tem mais perguntas idiotas?

— Na verdade, tenho. Vocês fazem muito barulho?

— Quando o clima tá mais hot sim, o que é quase sempre.

— Interessante... – Andrey pareceu pensativo – Por que comigo você não fazia tanto barulho?

— Porque com você não era tão excitante. Mands sabe usar pontos estratégicos.

— Ah, mas eu sei. Quer experimentar?

Andrey puxou o rosto de Vic e beijou-a como se já estivessem prestes a fazer sexo. Por incrível que pareça ela não recuou, e sim, continuou o beijo para ver se Andrey melhorara ou não.

Realmente ele beijava bem. Vic continuou naquela brincadeira, e foi beijando, beijando, até que Andrey agarrou sua bunda com as duas mãos e deixou que ela subisse nele, enquanto deitavam-se na cama. Andrey tirou o short de seda e a blusa fina com qual Vic estava e desabotoou sua calça, Vic puxou-a e enfiou sua mão dentro da cueca dele, tocando no pertence de Andrey que, bem, já estava armado.

O parceiro de Vic se levantou da cama e trancou a porta do chalé, em seguida, ficou por cima dela e começou a beijá-lá no pescoço, depois por entre os seios, descendo devagar e fazendo sua língua viajar pelo corpo dela.

Não demorou muito para que Andrey começasse o serviço com a boca enquanto Vic gemia baixinho, segurando na cabeceira da cama para se conter.

— Quem não é tão excitante mesmo? – disse enquanto a lambia e se preparava para a segunda parte.

Andrey tirou a cueca e fez Vic ter mais alguns minutos de tesão. Ele tinha movimentos precisos alternando a velocidade, beijava a filha de Hermes e xingava um pouco, mas não tão alto para não chamar a atenção de curiosos do exterior do chalé. Andrey respirava ofegante e suava, assim como Vic, que já estava chegando ao ápice. Ela o fez aumentar a velocidade, e os dois acabaram com aquilo ao mesmo tempo.

— O que achou? – falou ainda sem ar.

— Você melhorou. – respondeu Vic – Aprendeu a não só usar um pinto. Foi bom.

— Eu sou delicioso, pode admitir.

— Não começa, por favor.

Os dois vestiram as roupas e fitaram um ao outro por um curto período de tempo.

Alguém bateu na porta.

Vic destrancou-a e abriu, era Mands.

Mands, pensou ela, agora eu me lembrei dela, que merda!

— Oi Vic! – deu um selinho nela, mas antes de Vic responder, Mands percebeu a presença de outra pessoa. – Quem é esse?!

— É-é...

— Não se lembra de mim, Mands? – interrompeu Andrey – Sou Andrey, ex namorado da Vic, ex parceiro de transa. Bem, – sussurrou ele – nesse caso talvez nem tão ex assim.

• • •

[Pov Edu] [Acompanhamento Musical: Sorry — Justin Bieber]

A porta quase bateu na sua cara.

Leticia realmente era muito bipolar. Às vezes feliz, às vezes triste, uma mudança radical em questão de segundos. Isso não incomodava tanto Eduardo, ele sabia lidar com isso, e a convivência ajudava.

Sempre que chegava perto dela não conseguia esquecer a sensação de estar derretendo, como no dia dos jogos, mas acabava por não ser uma sensação ruim.

— Edu! – uma menina gritou ao longe.

— Sim?!

— Aqui! Sou eu! Lívia!

— Ah! Oi Livz! – ele caminhou em direção à ela, que por sinal, não estava muito longe do chalé 7. – Tudo bem?

— Tudo sim, só um pouco cansada. Gabriel pega muito pesado às vezes.

Eduardo segurou o riso. A imagem dos dois se pegando passou rapidamente pela sua cabeça, e nela eles batiam os dentes e tentavam varias vezes, mas não conseguiam. Sim, era meio tosco.

— Ele foi para o chalé 7 ontem? Nem percebi.

— Na verdade, quando aconteceu foi mais tarde, e não foi no chalé. Se bem que ficamos um tempo lá dentro e Danny não parava de falar sobre o treinamento de vocês, chegava a ser irritante.

— Pena que tivemos um imprevisto e não iremos mais treinar.

— Sério? Nossa, que chato.

— Verdade, estou esperando Leticia se trocar para podermos ir andar por aí ou fazer qualquer coisa de interessante.

— Então Leticia é o imprevisto? – Livz riu.

— Não exatamente.

— Como? Como não exatamente?

— Eu não deixei de ir treinar com ela apenas por causa de Letícia.

— Ah não? E por que mais?

— Bom... – engoliu em seco. – Tá. Foi por causa da Letícia.

— Engraçado. – deu um pequeno riso e ficou pensativa.

— Engraçado?

— Sim! Antes vocês faziam tudo juntos, mas agora... Agora parece que você só da atenção pra Leeh. Enquanto Danny falava do treinamento os olhos brilhavam, acho que você passou tanto tempo com Letícia que ela estava ansiosa com um dia contigo. Mas você cancelou, – ela riu – que engraçado.

— Eu... – engasgou. As palavras estavam presas, nada saia de sua boca – Eu não tinha pensado por esse lado.

— Claro que não. – blefou – Sabe por quê? Porque meninos são burros. Tão burros que com tanta coisa melhor no Chalé 7 vão procurar logo quem? Danny, Leeh...

— Leeh e Danny são muito boas. – se atreveu a falar.

— Você acha? Então nunca deve ter provado coisa boa de verdade.

— Eu nunca provei elas.

— Então não está longe.

— Somos só amigos.

Lívia revirou os olhos a ponto de girá-los para a posição inversa.

— Eu já conheci muita gente trouxa, mas olha... Acho que temos um campeão.

— Eu não sou trouxa!

— Não? Então prova.

— Provar como?

— Te desafio a beijar uma das duas. Ou as duas, você que escolhe.

— O QUÊ?

— É isso aí. Se ganhar eu te beijo. Se perder... Se perder vai ter que correr pelado pela arena.

— E por que Hades você acha que eu faria isso?

— Porque eu sou gostosa, muitos campistas iriam querer estar no seu lugar. Quero um beijo de um casal em no máximo dois dias, ou então... Bom, você já sabe.

— Mas...

A porta do chalé rangiu e foi aberta. Leeh estava vestida casualmente, com seu arco e aljava, uma camisa do camp com as alças caídas nos ombros, short jeans e um Converse. O cabelo estava preso, seu sorriso brilhava e sua boca já estava com um belo tom rosado (Que boca hein).

— Então Edu, eu... – ela olhou e encarou Lívia e Eduardo por um breve momento alternando o olhar entre os dois – Lívia?

— Sim?

— O que faz por aqui?

— Estou conversando com seu amiguinho, ele parecia sozinho.

— Não está mais. – Letícia fechou a porta do chalé, caminhou até os dois com um sorrisinho nada agradável, agarrou o pulso esquerdo de Edu e o puxou.

— Vamos. Temos muito o que fazer.

— A-ah, claro. – gaguejou o filho de Poseidon.

— Tchau Edu, Leeh.

— Tchau p... Livz – corrigiu-se Leticia.

Eles caminharam com passos curtos e rápidos, como se Leeh quisesse ficar o mais longe possível dela.

— Desculpa. É que eu não quero que você fique muito perto dela. Ela não tem uma fama muito boa por aqui.

— E a sua fama, senhorita Leticia? É boa?

— Quer descobrir? Dizem que sou boa com... Bom, com flechas, e hum, arco.

— E eu? No que será que sou bom?

— Você é bom em me irritar, garoto, tem doutorado nisso.

— E você é ótima em dramatizar, merece um nobel.

— Eu sei que sou ótima, sou filha de Apolo, o que mais posso fazer além de brilhar?

— Nada mais.

— Exatamente. Por isso você anda comigo, não é? Porque eu brilho!

— Você é doida. – Edu riu. Eles pararam de andar e mudaram de assunto – Vamos ver como está o treinamento de Danny?

— Ah, verdade! Vocês iam treinar juntos hoje não é?

— Íamos.

— E por que não foram?

— Porque eu estou com você.

Os olhos de Leticia correram pela face de Edu, pareciam navegar em seu olhar, querendo decifrar algo.

— Eu não preciso de babá. – disse por fim.

— Eu não estou aqui pra ser seu babá. Eu estou aqui porque gosto de estar aqui, com você. Eu também gosto muito da Danny, mas com você é diferente.

— Diferente? Diferente como?

— Bom... E-eu não sei explicar... O calor é diferente.

— Realmente... – o olhar dela passou a observar o ambiente, sem encarar Eduardo ela começou a falar – Nos jogos, quando encurralei você, eu queria te matar. Mas eu não consigui, não sei porquê, o calor passou a arder de uma maneira diferente, eu também não sei explicar.

— Poderíamos tentar entender isso, né?

— E tem como entender, senhor da inteligência?

— Só sabemos se tentar.

— Tentar o quê?!

Edu riu da dúvida dela. O modo como ela arqueava as sobrancelhas e deixava na face a expressão de confusão, tanta confusão num rosto tão bonito. Era como se o mar do Caribe entrasse em guerra consigo mesmo. Mas aí entra o sol. O sol, seu sorriso. O sorriso de curvas perfeitas, o sorriso que conseguia barrar toda aquela tempestade e trazer felicidade, trazer vida. Era tao resplandescente quanto o próprio Apolo.

Se um sorriso estremecia a estrutura de Eduardo, o que um beijo não faria?

— Quando escurecer – voltou a explicar Eduardo – quero que nos encontremos na praia. Vamos sentar na areia e conversar, é tudo tão silencioso... Eu sei que a noite não é seu forte, mas a lua também é bem convidativa.

— Eu pensarei no seu caso, Lorde do Lago, agora temos que ver Danny, lembra-se?

— Verdade! – disse surpreso – Já estava até esquecendo, estamos bem perto.

Os dois continuaram a caminhar, se esbarrando de vez em quando.

Quando adentraram a arena viram que Danny não estava sozinha, havia um cara alto e com cabelos grandes ao seu lado.

— Danny! – gritou Edu.

— Edu? – falou enquanto virava para observá-lo – E Leeh. O que fazem por aqui?

— Viemos ver como você está... – explicou Leticia – Mas parece que está bem acompanhada, hein?

— Alex? – questionou Eduardo – Cara, é você mesmo? QUANTO TEMPO!

— Iaí Du? Você cresceu, nossa.

— Não é pra tanto, Alex. – disse Danny. – Aliás, por que se preocuparam em me ver? Vocês não deveriam estar andando por aí?

— Bom... Nós estamos andando por aí. – retrucou Leeh.

— Enfim, – pronunciou Edu – Vocês querem vir passear com a gente?

— Ah...

— Não. – Danny interrompeu – Nós iremos passear S-O-Z-I-N-H-O-S. Cada um fica com quem o merece. Vamos, Alex.

Danny o puxou para longe pelo braço, dando passos fortes e com a expressão rígida.

— E EU VOU CONTINUAR ANDANDO COM A LEEH! – gritou. – Vamos para algum lugar, de preferência um quilômetro longe dela.

— Calma Edu! Pra que tudo isso?

— Estou jogando o joguinho dela. Se ela prefere assim, assim será.

* * *
[

Acompanhamento Musical: The Only Exception — Paramore]

A tarde passou rápido.

As nuvens corriam com o vento pelo céu azul, que mais tarde passaria a ser laranja, os sorrisos corriam com as alegrias, que mais tarde passariam a ser tristezas, as amizades corriam com os laços, que mais tarde passariam a ser rancor.

Se Eduardo ligasse pra tudo isso talvez sua mente fizesse mais sentido. Mas ele não ligava. No momento, só estava interessado no azul, nas alegrias, nos laços. Do que adianta fechar a cara se ao seu lado existe alguém para sorrir junto a você?

Leticia estava ao seu lado para fazê-lo sorrir, para fazê-lo sentir toda a beleza momentânea. E se ela estava ao seu lado, o que mais importava? Bem, só que ela nunca mais se afastasse dele.

E como dizia, a tarde passou rápido. O céu coloriu, descoloriu, recoloriu... Até escurecer. O sol já havia se posto e o sorriso dela continuava brilhando.

A areia que cobria seus pés lhe dava uma sensação boa, confortante, como se estivesse mais próximo do pai. E na realidade estava. O mar ondulava e as ondas quebravam logo a frente.

— Está frio aqui. – falou Leeh enquanto esquentava os braços com as mãos.

— Pra uma filha de Apolo deve estar frio mesmo.

— Você não está sentindo?

— Um pouco. Mas tento não me importar muito com isso.

— Então eu também vou tentar não me importar com o frio.

— Não é tão fácil. – riu. Ele olhou para a areia e sentou em frente ao mar com as pernas cruzadas, parecia distante de tudo mesmo que tão próximo. Leticia fez o mesmo.

— O que houve? – perguntou. A brisa marinha soprava seu cabelo suavemente – Até poucos instantes atrás você estava tão feliz e de repente passou a demonstrar seriedade.

— É porque essa combinação mar, lua, frio... Tudo isso me traz lembranças boas... Mas também traz questionamentos perturbadores.

— Do que você está falando?

Eduardo olhou para os pés e começou a enfiá-los na areia, ele tentava relaxar, mas isso não o tranquilizava.

— Vou contar pra você uma história que nunca contei à ninguém.

Letícia assentiu.

— Eu nunca vi meu pai, sabe, Poseidon, eu já ouvi a voz dele, ainda escuto às vezes, mas nunca o vi. Da mesma maneira, nunca conheci minha mãe.
Ela me amamentou durante os sete meses, e depois... Me levou para algum orfanato e me esqueceu.
Depois de algum tempo eu fui adotado por um casal simples. Eles tinham uma boa casa, tinham cerca de 40 — 50 anos, e tinham muito amor pra oferecer. Eles foram minha verdadeira família, foram meus verdadeiros pais, foram minha verdadeira companhia, até eu ter que deixá-los. Há pouco mais de um ano atrás eles vieram a falecer... Foram mortos por um urso. E eu sigo só desde então.

— Eu... E-eu sinto muito. – o filho de Poseidon assentiu com a cabeça e passou a olhar o céu com algumas estrelas. – Mas qual exatamente são os seus questionamentos?

— Queria saber porquê minha mãe me deixou, se foi por medo, se foi por saber que Poseidon não estaria lá... Queria saber porquê Poseidon nunca me falou sobre isso... Queria saber se realmente foi um urso que assassinou meus pais adotivos. Pode ter sido um monstro.

— Eu não sei se sua mãe te amava, mas dizem que amor de mãe é incondicional. Você nunca parou pra pensar que ela pôde ter feito isso pra te proteger? Quanto a Poseidon, deve ser difícil pra ele conversar sobre isso. Mexe com o passado, mexe com sua estrutura.

— É difícil pra mim.

— Não é fácil pra ninguém. Você acha que todos aqui tem vidas perfeitas? Por exemplo, eu vi minha mãe ser assassinada pelo meu padrasto, tive que viver num lugar desconhecido, descobri ser filha de um deus, descobri ser diferente do restante da humanidade. Eu nunca parei de sofrer afinal, ninguém parou, sempre existe a culpa, a dúvida.

— Pra um rosto de princesa você parece ter muitas cicatrizes.

— E por acaso você é o único que pode ter? – riu – Todos já estivemos à beira do precipício, Eduardo, só não caímos realmente, porquê somos treinados pra isso, para ser fortes. Todos somos iguais apesar das diferenças.

— Você sempre me pareceu forte.

— E sou, todos temos que ser. Só não sei por quanto tempo mais serei.

— Como assim?

— É como você. Vivi longe de quem eu queria estar perto, vivi longe até de quem eu sabia que estava perto. – seus olhos ficaram cheios de lágrimas – Eu também tenho tanta saudade da minha mãe, ela que sempre foi minha única família. Você perdeu dois e ganhou mais dois. Eu perdi três e não ganhei nenhum. – ela chorou, chorou como se Eduardo não estivesse próximo, chorou como se desabafasse para o mar. – Tanta saudade de tudo que eu nunca consigui presenciar. Às vezes imagino como seria se toda essa desgraça não tivesse acontecido.

— Um momento você teria que vir para o acampamento, se você continuasse em casa já teria sido morta pelos monstros. Um momento sua mãe estaria desprotegida novamente.

— Você fala assim porque viveu com alguém. Eu protegeria toda minha casa com um graveto de bronze celestial se fosse pra continuar mais tempo lá. Eu arrancaria o coração dele com os dentes para protegê-la, não sabe como foi difícil crescer com um cavalo te instruindo.

— Mas até que Quiron dá uma boa mãe. – os dois riram juntos.

— Você é tão idiota que consegue me fazer rir quando estou triste.

— Estou tentando animar ambos os ânimos. – então riram novamente.

Letícia tremeu um pouco.

— Ainda está com frio?

— Estou.

— Vem cá. – eles se aproximaram e Eduardo envolveu seu braço ao redor dela deixando que Leeh deitasse sua cabeça sobre o ombro dele – Melhor?

Ela assentiu.

Eduardo voltou seu olhar à imensidão azul a sua frente enquanto ela repousava. O barulho da água e do vento lhe fazia lembrar da sua família de um jeito que nenhuma outra coisa conseguia.

— Seus olhos estão brilhando. – observou Leticia.

— Dizem que nossos olhos brilham quando olhamos para algo que gostamos muito.

— Você está olhando para o mar.

Eduardo virou sua cabeça e encontrou novamente a face de Letícia.

— Também estou olhando pra você.

Ela sorriu levemente. Seus olhos sorriam mais que a própria boca até ela passar a fechá-los lentamente e deixar seus rostos se aproximarem. Leeh tremia um pouco, seus dentes rangiam por conta do frio. Um pouco mais perto, um pouco mais perto... E suas bocas se tocaram.

O beijo foi lento, calmo, Eduardo a trazia para mais próximo de si. Os lábios dela estavam gelados, se moviam de maneira sutil, de modo que parecessem que mesmo o chão se abrindo não haveria nada que a impedisse de beijá-lo. Seu braço estava arrepiado.

A respiração ofegava aos poucos. Eduardo mordeu a boca dela também com sutileza e Letícia pareceu sorrir, até que ela colocou cada mão em um lado da bochecha dele e afastou seus rostos, finalizando com um selinho.

— Como foi? – sussurrou Edu.

— Foi incrível. – ela sorriu.

— Pra mim também.

Ela pôs sua cabeça novamente no ombro de Edu e eles voltaram a observar o mar, os braços dele envolveram-na com mais força.

— Vivi muitas tristezas como já te disse, o abandono da mãe, do pai, a morte dos pais adotivos, minha difícil convivência com os outros campistas, e tudo foi muito ruim. Mas eu encontrei pessoas que pude confiar, e você é uma delas. Agora eu temo que esteja perdendo uma grande amiga. E em meio a mais uma tormenta o sol aparece novamente. Em meio a tanta confusão você se tornou uma exceção. A única exceção.

Ela olhou para Edu e os dois voltaram a se beijar.