Camp Semitrouxa

12 Em Nome dos Deuses Pt.2


Quadro de Batalha:

✔Alex (Hades)
✔Andrey (Hades)
✔Batgirl (Dionísio)
✔Bea (Atena)
✔Clara (Atena)
✔Danny (Apolo)
✔Eduardo (Poseidon)
✔Gabe (Hipnos)
✔Gio (Hades)
✔Iamana (Apolo)
✔Isa (Hermes)
✔Jack (Quione)
✔Leeh (Apolo)
✔Lissa (Poseidon)
✔Livz (Apolo)
✔Mands (Apolo)
✔Molly (Deméter)
✔Nai (Apolo)
✔Vic (Hermes)

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Em um piscar de olhos. Não havia como explicar o que aconteceu.

O verde da grama e das árvores desapareceu assim que os deuses os empurraram ao jogo. A brisa convidativa se fôra, todo o aconchego se estinguiu. Até a dúvida de onde eles estavam era mais calorosa do que a certeza de estar caminhando para a morte. Como as divindades, seus próprios pais, podiam fazer isso?

"Diversão", dissera Ares.

Era pra isso que os campistas serviam? Eles eram apenas brinquedos treinados?

Iamana não parava de pensar nisso.

A claridade era baixa, o que era péssimo, mesmo assim a jovem tentava com esforço atravessar aquela infinidade de troncos mortos cobertos de musgo.

Era assustador. O vento que, ao contrário do da floresta verdejante, sussurrava ao redor era sinistro, quase como se quisesse agarrá-la. Seria muito difícil pra qualquer filha de Apolo, a fonte de energia era escassa, mas essa menina podia fazer mais do que apenas se agachar num canto e chorar por misericórdia. Ela podia ser maior, e provaria isso.

Do outro lado do terreno, Andrey caminhava precisamente entre os obstáculos. Claro que ele não era nenhum filho de Hermes pra fazer as melhores acrobacias, mas seu trajeto ía na medida do possível.

O filho do deus dos mortos não costumava frequentar pântanos nem nada, mas o lugar o confortava de uma maneira estranha. Talvez a falta de luz, o modo como os galhos se retorciam, ou até a infinidade de direções a se traçar. Era difícil, mas ele gostava de desafios, toda oportunidade de subir de nível era uma boa oportunidade.

— Eu sei que você está torcendo por mim, pai, eu sou seu tipo preferido. — ele riu seguro — Alex é bem forte, tenho que admitir, mas ele preza muito pelos outros, é muito fiel e seu senso heróico às vezes me enoja. E aquela outra? O máximo que ela faz é tentar se parecer com uma filha de Íris. — revirou os olhos — Eu até acho aquele bando de gente legalzinho, mas eu não irei morrer nesse jogo, não pra fracassar, não perante os deuses. Mostrarei que uma prole do deus que foi negado pelos seus irmãos tem valor, muito mais que os outros que receberam os méritos.

Ele olhou para o céu de um azul escuro encoberto de nuvens carregadas, mais um sorriso travesso se formou em seus lábios, e prosseguiu.

Enquanto para Andrey o conjunto de sons do ambiente parecia uma melodia, para Iamana parecia a trilha sonora de um funeral.

Ao andar bastante ela ainda não havia encontrado nenhum lugar seguro para descansar, sempre havia um tronco rachado ameaçando despencar, farpas de madeira gigantes, insetos nojentos e até cipós secos que ora ou outra prendiam suas pernas.

Estava insuportável.

— Por quê? — perguntou aos céus. Seu movimento estava bambo por conta do cansaço e da fome, geralmente nas missões eles sempre tinham suprimentos mas o que ela tinha agora? — Nada. Estou sem nada e sem ninguém mais uma vez.

A semideusa se referia a lembranças ruins das quais ela tivera há um tempo atrás, não gostava de lembrar, mas aquilo sempre vinha à sua mente em situações difíceis, nunca para melhorar seu estado de espírito, e sim para... Lembrá-la do que houve quando foi covarde.

Flashback On

Ventava muito.

Era inverno no Canadá e o chão tinha pelo menos meio metro de neve. Os pinheiros se amontoavam ao seu redor e o farfalhar de suas folhas causava uma sensação boa, como se a natureza estivesse recebendo-a de braços abertos, mas não era verdade, ela odiava aquele lugar, só estava alí naquele exato momento pra se proteger e proteger a irmã mais nova.

— O que estamos fazendo aqui? — perguntou Alice — Nem tomamos café ainda, e eu estou com frio! — protestou apertando as mangas do casaco com seus pequenos dedos.

— Eu sei, amor. — Iamana olhou nos olhos dela, sua expressão queria sorrir, mas estava claro que ela morria de medo — Eu também não comi ainda, mas estamos aqui porque... Bom, não tivemos escolha, os caras maus nos encontraram de novo.

— Os mesmos que mataram papai na floresta? — seus dentes tremiam.

— Sim, e agora eles sabem onde estamos, então precisamos nos esconder o melhor possível.

— Eu já estou cansada de me esconder, esse pique esconde está durando muito. Nós só fugimos e fugimos toda hora. Eu estou com medo.

— Eu também não gosto dessa situação, mas conseguimos dinheiro pra sobreviver. Nos livraremos disso o quanto antes, eu prometo. Você confia em mim?

— Você é minha irmã mais velha, então acho que confio. — as duas se abraçaram.

— Eu te amo. Amo muito. — declarou apertando o corpo de Alice.

— Eu também, esses caras não vão nos encontrar.

— Não vão.

O momento fraternal durou pouco, até que ao longe um tiro foi disparado e seu som ecoou por vários quilômetros de distância.

— Agora eu não tenho tanta certeza. — mas antes que pudesse reagir sua pequena irmã já estava correndo. — Alice! — gritou como um sussurro. — Que droga. — e então perseguiu-a.

A medida que as duas corriam a neve ía ficando cada vez mais rente ao chão, e ao invés de um som firme ao pisar, ela escutava um baque abafado.

— Alice! Eu acho melhor você... — e antes que concluísse sua sentença, o gelo cedeu e a criança desabou na água congelante — ALICE!

Seu corpo se encheu de adrelina e seu coração pulsou tão forte que poderia ter causado uma avalanche, mas Iamana hesitou em continuar, a superfície do lago congelado já estava trincado. Nenhum sinal de agitação na água.

— ALICE! — mais um tiro explodiu ao longe. Seu sangue ferveu — E-eu... Me desculpe. — ela baixou a cabeça e segurou o choro, em seguida retirou de seu dedo indicador um anel de loja de doces e o jogou na cratera. A água tremulou e o objeto afundou.

Mais um disparo, e este parecia bem mais próximo.

— Eu te amo. — e fugiu para longe do gelo e de qualquer coisa que pudesse-a matar, mesmo que a vergonha por ter deixado sua família de lado estivesse consumindo-a.

Em instantes ela se perdeu em meio à imensidão branca e em sí mesma.

Flashback Off

Era difícil deixar os olhos secos. Aquela imagem era constante, e hoje, ela sempre se perguntava se não podia ter feito algo. Sua irmã poderia estar viva e segura, mas ela foi fraca. Assim como estava sendo agora, se encolhendo como uma criança no escuro.

— Que droga! – gritou choramingando. Seus pés já estavam acabados, mal podia se apoiar em algo sem levar um arranhão.

Era como se tudo estivesse voltando, como se ela estivesse sendo perseguida de novo. Será que dessa vez...

— Eu poderia ser melhor do que eu fui antes? – perguntou ao céu, que rugia em meio a vastidão cinza-escuro, tão vazio quanto ela mesma.

Disso Iamana não sabia, teria que testar seus próprios limites. Mas pra Andrey estava sendo até que fácil.

Ele realmente gostara do lugar. Não era uma moradia e tanto, mas um tempo sozinho ali, sentindo-se mais seguro, era melhor do que conviver com crianças que achavam ser fortes o suficientes por serem metade divinos. Elas não entendiam nada. Eram superficiais demais pra ver o que realmente estava sob todo esse mundo.

Mas ele sabia. Ele via. Ele sentia.

— Isso já está ficando meio chato. – continou andando.

Iamana também.

A medida que os dois caminhavam, ficavam cada vez mais próximos. O terreno antes seco e cortante se tornava agora úmido e esguio. O filho de Hades caminhava com facilidade, já a de Apolo gemia baixo com dores e cansaço.

— Tudo bem, só mais um pouco. – repetia a sí mesma – vai ter água em algum lugar, alguma réstia de sol, comida, qualquer coisa, só continue andando.

E assim foi por algum tempo. Os tênis que usava começaram a ficar sujos de lama e alguns mosquitos apareceram também, o cheiro que surgia do chão era tão agradável quanto passar dois minutos com Isabella de Hermes.

— Pelo menos já está mais... – e antes do término de sua sentença ela travou, tinha algo na sua perna, algo vivo. – Tudo bem, – respirou – calma, calma. – e assim ela devagar foi levantando seu jeans, até que viu em um dos seus cortes no tornozelo larvas entrando e saindo do mesmo, cobertas de sangue. Ela não queria, mas foi impossível, gritou de nojo. – AI MEU ZEUS!

Andrey parou imediatamente. Se ele não estivesse louco – e ele tinha certeza de que não estava – havia ouvido um grito, uma súplica de socorro. E o que agradava mais um filho de Hades do que agonia? Bom, ainda não existem pesquisas atualizadas.

Seu corpo moveu-se precisamente em direção ao som, e nada mais era, em meio a um pântano, do que Iamana.

— IAMANA! – correu em direção a ela – O que houve?!

— Na-nada. – gaguejou baixando rapidamente sua calça, ela não queria que ele também sentisse nojo. Mesmo não sendo muito intima de Andrey, a campista sentia-se feliz em vê-lo.

— Tem certeza?

— Tenho. – assentiu com a cabeça. – Eu só estava... desesperada.

— Eu entendo. – afirmou abraçando-a, o que deixou a filha de Apolo surpresa e um pouco chocada, antes que finalmente pudesse o abraçar também – Eu estive desesperado, tremi de medo a cada passo.

Ela confirmou contraindo os lábios e o apertando ainda com mais força.

— Graças aos deuses você está aqui.

— Sim, – disse desvencilhando-se do abraço e agarrando seu rosto – graças aos deuses eu estou.

— Nunca achei que estaria tão feliz em te ver, alguém pra ajudar.

— Ajudar? – riu com deboche – Engraçado. Agora você quer ser ajudada, mas não conseguiu ajudar quem mais importava.

— C-como assim? – seu estômago esfriou.

— Ah, não finja que não sabe do que eu estou falando. – ele a encarou firmemente – Não foi lindo? – o filho do deus dos mortos sussurrou no ouvido dela – Ver a maneira com que sua irmãzinha se afogava naquela água gelada, na maneira como sua pele perdia a cor, na maneira que seus lábios se tornavam roxos e seus olhos petrificavam. – ele passou sua mão ao redor do pescoço dela e começou a apertar devagar – Na maneira em que seu coraçãozinho pulsava fraco até parar, porquê sua irmã mais velha não se importou, só pensou em sí mesma.

— Isso... – ela sufocou – isso não é verdade.

— Não é verdade?! – e com força ele a jogou no chão, cobrindo suas roupas e rosto com a lama imunda do pântano – Você é só mais uma vadia qualquer que merece a morte.

— Não, – suplicou enquanto rastejava como um anfíbio – eu preciso de ajuda, e-eu preciso sair daqui.

— Você quer mesmo ajuda? – o brilho em seus olhos era maníaco.

— S-sim.

— Eu conheço alguém que pode te ajudar.

Alguém? Havia mais alguém alí?, pensou Iamana.

Quem mais poderia ajudá-la?

Tudo ficou em pleno silêncio, até que o chão do pântano começou a borbulhar, e de lá, saíram... Dedos. Uma mão.

— O quê..? – sua respiração acelerou tal como seus batimentos.

A mão era pequena, pálida e delicada, caminhava lentamente, quase sem força, e de um de seus dedos, reluzia...

— Um anel. O meu anel de plástico, o mesmo anel que eu... – seu corpo todo entrou em choque – Oh meus deuses, Alice!

— Sim, – a doce voz ecoou na sua cabeça – Alice. O que estamos fazendo aqui? Nem tomamos café ainda, e eu estou com frio. – a voz era pausada e neutra, como a de um robô.

— Alice, e-eu... Eu tive tantas saudades, eu... Oh meus deuses me desculpe. – implorou chorando.

— Eu já estou cansada de me esconder, esse pique esconde está durando muito. – dizia enquanto a mão se aproximava.

— Alice, nós não estamos mais nos escondendo!

— Você é minha irmã mais velha, então acho que confio.

— Alice, por favor, segure minha mão.

— Agora eu não tenho tanta certeza. Que droga. Os mesmos homens maus que mataram papai? A gente só se esconde, eu estou com medo. Eles não vão nos encontrar. Eu te amo. Desculpe.

— Alice, por favor, me ajude. – gritou sem voz.

— Você tem que sentir o que eu senti. – falou a voz mais firme – Tem que se sentir sem ar, tem que sufocar. Tem que procurar alguém e não encontrar ninguém. – a mão agarrou sua perna – Tem que esperar que sua família a salve, mas não vão salvar. – então, devagar, a mão puxou Iamana para dentro da lama.

— Alice, PARE! ME LARGUE! – se debateu Gabs.

— Tem que se sentir sem ar, tem que sufocar. Tem que procurar alguém e não encontrar ninguém.

— ALICE! – seu tórax já estava sendo submerso.

— Tem que esperar que sua família a salve, mas não vão salvar.

— ALIC... – e então sua cabeça mergulhou na podridão e desapareceu.

— Porque você não tem. Desculpe. Eu te amo. Agora eu não tenho tanta certeza.

E assim com Alice, Iamana se foi.

Andrey olhou toda aquela cena... MARAVILHADO. Seu plano saiu melhor do que esperava, estava sorrindo e dando pulos.

— Eu sabia que iria conseguir. Você viu pai? Eu consegui. E isso é só o começo. Eu farei muito, muito mais... Em nome dos deuses.

Adentrando ainda mais a floresta, ele desapareceu, caçando sua próxima vítima.

— Antes de olhar pra frente, olhe primeiro no escuro.