Camp Semitrouxa
13 Em Nome dos Deuses Pt.3
Quadro de Batalha:
✔Alex (Hades)
✔Andrey (Hades)
✔Batgirl (Dionísio)
✔Bea (Atena)
✔Clara (Atena)
✔Danny (Apolo)
✔Eduardo (Poseidon)
✔Gabe (Hipnos)
✔Gio (Hades)
❌Iamana (Apolo)
✔Isa (Hermes)
✔Jack (Quione)
✔Leeh (Apolo)
✔Lissa (Poseidon)
✔Livz (Apolo)
✔Mands (Apolo)
✔Molly (Deméter)
✔Nai (Apolo)
✔Vic (Hermes)
• • •
"Atenção!", gritou do céu uma voz feminina, "A campista, Iamana, de Apolo, foi eliminada. Agora só restam dezoito de vocês."
E com isso, Eduardo despertou.
O ar que ele puxou foi tão forte quanto se estivesse recuperando a consciência de um afogamento, preenchendo todo o pulmão novamente. Não uma experiência frequente.
Foi de doer o peito e de doer os olhos, pois o sol batia bem na sua cara, o que dificultava abrí-los. Como se não bastasse, a base em que estava não era confortável. Era quente, desnivelada, dura como pedra... Pedra.
— O quê? – se perguntava enquanto olhava ao redor.
Não era nada menos que uma completa imensidão. O chão era coberto por enormes rochas, que tinham a superfície razoavelmente plana, e todas estavam quase que perfeitamente encaixadas umas nas outras, como um quebra cabeça. Não havia sinal de vida, eram apenas as rochas e o céu, que por sinal era de azul majestoso.
A linha do horizonte tremulava por conta do calor, e se estendia por quilômetros, talvez milhas. Talvez não houvesse fim. Tudo era coberto de rocha, e era apenas isso, pedra ao lado de pedra.
— ALÔ! – gritou. O eco retumbou ao longe, crescendo e sumindo até que não mais pudesse ser ouvido.
Algumas sombras enormes feitas pelas nuvens cobriam o solo petrificado. Era como estar num deserto, não havia fim, não havia começo, não haviam bordas nem cantos, não havia ninguém, uma imensidão plana inabitada.
— QUE DROGA! – berrou para ninguém em especifico. Tentou chutar algo mesmo não sendo do seu feitio, porém não havia nada pra chutar. – ONDE ESTÁ TODO MUNDO? – dirigiu-se ao céu. – ONDE ESTÃO TODOS VOCÊS? POR QUE NOS LARGARAM AQUI? – dessa vez, o céu não respondeu.
Então Eduardo entrou em processo de pânico e lhe veio uma terrível vontade de chorar. Geralmente ele apreciava imensidões, pois as mesmas o faziam se sentir pequeno, e no ato o garoto gostava de encher-se para se tornar grande. Mas esta era diferente, esta lhe fazia sentir-se sozinho. Sozinho em meio ao infinito do mundo, tanto espaço para apenas ele, e em vez de cheio, se sentia vazio.
— Tudo bem. – repetiu a si mesmo limpando as poucas lágrimas que se formavam – Eu só preciso sobreviver. Há algumas maneira. Seja esperto.
A paisagem ainda era totalmente vazia, as nuvens completamente brancas, nenhum sinal de chuva. Se não havia porquê ficar parado e esperar, ele teria que correr.
E foi exatamente o que fez.
Seus joelhos dobraram e seus pés aceleraram, correndo sobre as rochas. Algumas eram mais baixas e outras mais altas, algumas tinham pequenas inclinações ou depressões, o que dificultava na hora de saltar, e vou lhe dizer: cair por cima de pedras quentes não era nada confortável, uma situação que se repetiu diversas vezes.
Eduardo desviava de um desnível, pulava e se equilibrava, tentando voltar à corrida no mesmo instante. O menino desviava das pequenas aberturas que havia entre um sólido e outro e em algum momento tropeçava e escorregava.
De cara. Não doía "nadinha".
Sorte que estava de Jeans, como todos os outros amigos, o que prevenia arranhões graves nas pernas, e sapato, que não lhe deixava queimar os pés. Por outro lado a camisa do CHB já estava em frangalhos, preta por conta dos tombos e com dois rasgos, um no abdômen e outro na lateral.
Ele não suava facilmente, mas algumas gotas já escorriam ao lado da orelha, o que irritantemente deixava seu óculos escorregadio, ainda mais no nariz. Os mesmo já estava completamente arranhado na lateral, toda tinta preta tinha saído deixado apenas o material transparente a mostra, sorte a dele que nem a armação nem a lente haviam partido. Seria certamente, algo bastante ruim.
E isso se repetiu por muito, muito tempo. Tanto tempo que o sol que ao inicio estava em pico, já tinha mudado o ângulo em pelo menos 20º.
O filho de um dos Três Grandes não sabia por quanto tempo havia corrido, até porque era péssimo em noção de tempo e se orientava terrivelmente mal em solo. Também não sabia onde estava ou o quão distante estava do ponto inicial. Mas nada mudara.
— É tudo a mesma coisa. – resmungou decepcionado. – N-não existe caminho.
E com isso, desabou no chão coberto por uma nuvem, extremamente cansado.
Seu cabelo grudava na testa assim como sua roupa ao seu corpo, e já não ventava tanto. Por este motivo ele tirou a camisa, exibindo seu corpo nada atlético ao céu. Não que Zeus curtisse muito garotos, mas nunca se sabe. Sua expressão era tão penosa quanto um animal chutado de casa. E graças aos deuses, se é que eles ainda poderiam receber graças, a sensação foi relaxante. Apesar de toda a frustração, foi relaxante.
No mesmo instante, o vento simplesmente soprou. Não era como um SPA nem nada, mas havia sido recompensado pelo esforço. Será?
Ele permaneceu o mais imóvel possível para receber a ventania enquanto apoiava suas mãos na superfície rochosa, que estalou quando ele a tocou. Um som sólido e metálico.
— Ah, o anel. – lembrou-se tentando o retirar de seu dedo indicador. – Você veio comigo? Não tinha nem reparado.
O anel do qual se referia era prateado e brilhante. Nele havia uma daquelas rodinhas com quais giramos com com outro dedo quando estamos nervosos. Havia as inscrições em grego antigo que diziam: O Mar cala e grita, só precisa ser despertado. Ou então: Frango-frito gritará por misericórdia. Ele sempre preferiu escolher a primeira.
— Vamos! – exclamava enquanto ainda tentava arrancar o objeto do indicador – Mas que droga, por que você não sai?!
Bom, o anel não saiu, mas a nuvem sim.
Não era de se esperar que ela se movesse, já que havia ar corrente.
— Aii! – gritou assim que a luz solar o atingiu de frente. Talvez fosse um incentivo dos deuses, porque no mesmo segundo o anel saiu. Ou talvez uma maldição, pois ele saiu com tanta força que foi acabar caindo dentro de uma abertura que se formava entre as rochas – NÃO!
Eduardo correu desesperado e se agachou fechando um olho pra deixar a imagem mais nítida. O anel estava alí dentro, quase caindo para onde quer que fosse dar aquilo.
— Tudo bem, eu vou... conseguir. – balbuceou enfiando o braço na brecha, enquanto suas costas nuas eram torradas pelo digníssimo Apolo – A-arhg – murmurou se esticando, porém, era impossível alcançá-lo. – AAAA QUE MALDIÇÃO! – gritou no momento em que o brilho solar refletiu no metal do objeto que acabou por refletir nos olhos dele. Eduardo puxou o braço de súbito, o que fez ele se rasgar em vários pontos, sangrando quase que imediatamente.
O jovem praguejou algo em grego antigo e viu seu sangue pingando sobre o solo.
— Cale-se! Pare de gritar! – ordenou ao seu corpo e correu até a blusa para usá-la como estanque do corte.
"Cale-se, pare de gritar", repetiu mentalmente, vendo que a sentença se assemelhava bastante com a frase cravada no anel. E mais do que nunca, ele realmente parecia um frango-frito gritando por misericórdia.
— Só precisa despertá-lo... – então fechou os olhos e se viu totalmente concentrado.
Seu punho cerrou e um último fio de sangue escorreu pelo machucado até cair no chão. Sua mente estava completamente focada em sair dalí, pegar seu anel, em seguir de volta para o que seria "normal". Ele se concentrou tanto que sentiu uma poderosa energia esvair de seu corpo e povoar o redor. Então abriu os olhos.
Tudo permanecia exatamente igual.
— O-o q-quê..? – caiu por dentro de si mesmo ao observar que nada havia acontecido. Nenhuma palavra saía de sua boca.
A vontade de chorar veio à tona, e diversas, senão todas as lágrimas que seu reservatório guardava, fluíram.
— Eu vou morrer. – sussurrou em meio ao rosto molhado.
Ele tinha certeza agora. Iria morrer sozinho, sem comida, morrer como um desconhecido, morrer sem ser lembrado.
Mas a sensação não durou pra sempre, e milagrosamente, do estreito em que o anel havia caído, surgiu um esguicho de água tão potente quanto um hidrante estourado.
— Deuses... Funcionou. – ele sorriu como um bebê.
O mais incrível foi que não apenas desta rachadura explodiu o líquido da vida, mas de todas as aberturas visíveis e não visíveis. Tudo começou a esguichar, e agora parecia que no ambiente havia bordas, pois ele encheu tão rápido quanto enchemos um copo d'água.
De repente, o filho Poseidon se viu no flutuando no fundo de um grande aquário azul escuro, nem era mais possível ver o sol. Eduardo inspirou até toda água salgada entrar e preencher seus pulmões, passando a respirar normalmente.
Estar sob o mar era diferente. Lá podia-se ouvir ondas sonoras, batidas tão potentes e gostosas de escutar quanto uma boa música eletrônica, e talvez fossem mesmo. Talvez o oceano estivesse lhe proporciando uma experiência vip. Um tour pelo desconhecido. Atlantis.
— Onde eu estou? – agora a pergunta parecia bem mais simples já que ele podia se orientar no mar.
Mas não houve resposta, como uma interferência de rádio no seu cérebro, tudo pareceu indecifrável.
Ele já ía resmungar até que viu seu anel prateado flutuando a sua frente e o agarrou com alegria, pondo em seu dedo em seguida.
— Ótimo. Pra onde vou agora?
O garoto realmente tinha um problema em resolver as coisas sozinho.
— Droga! – alguém berrou.
Eduardo ficou alerta. O grito foi abafado, como alguém gritando embaixo d'água, mas claro que se fosse embaixo d'água ele ouviria perfeitamente, então o chamado não vinha do oceano em que estava mergulhado.
Estranhamente, o barulho também não vinha de cima, era claramente de baixo. Mas como podia alguém estar alí e não estar mergulhado?
Isso já estava lhe dando dor de cabeça.
Decidiu então ir mais a fundo. O desesperado chegava novamente ao encontro das pedra submersas. Curiosamente, agora parecia realmente haver uma borda; uma barreira de vidro desfocado. E a silhueta de uma pessoa transparecia através dela. Ela parecia apoiada no vidro, mas era difícil descrever quem ou como ela estava, basicamente como Eduardo estivesse sem óculos. Então ele se aproximou.
Aproximou o suficiente para que, seja lá quem fosse, olhasse pra ele. Este alguém a princípio se assustou, mas dois segundos depois pareceu entender o que acontecia e pousou sua mão aberta sobre a superfície sólida. O filho do senhor dos terremotos fez o mesmo. Entretanto, ele rapidamente retirou-a, pois o material era deveras gelado. O que significava que era gelo, não vidro.
— Quem...? – falaram em uníssono, com a voz do desconhecido ainda abafada.
Eduardo encostou sua mão novamente no objeto, encarando a face desfocada de seu vizinho. Estava terrivelmente silencioso, até as batidas oceânicas haviam se calado.
Numa reação natural, o quatro-olhos fechou a mão e deu um soco no gelo, que rachou aqui e alí.
— Ótimo. Afaste-se, eu vou tentar romper isso. – disse.
E assim a pessoa o fez.
O sobrinho de Zeus (e ele não tinha orgulho de usar isso como referência em seus currículos) ganhou distância, e como um torpedo, ganhou força na água e colidiu contra a estrutura fria, abrindo um buraco na mesma e entrando seja onde fosse. Ele só sabia que era bastante frio.
O mais engraçado, é que no momento que ele invadiu o local, sentiu como se o mar o puxasse de volta, mas em vez de entrar novamente no Atlantis, colidiu com a parede de gelo, que não havia ruptura e dessa vez não se quebrou.
— Eduardo! – agora a voz era clara.
— Quem...? – dizia em meio aos murmúrios – Jack?
— Sim. Agora levante-se daí.
— Nem uma ajudinha? – Jack se recusou. – Tudo bem mas onde...? – ele olhou em volta. Estava caído no chão e não havia sinal nem de buraco na parede ou de inundação, que era o lógico a acontecer. – Por onde eu entrei?
— Por aqui. – disse apontando pro chão.
— Impossível. – contestou – Eu surgi de uma parede, sabe, vertical. E você estava em pé.
— Na verdade eu estava deitado, até que te vi, uma espécie de... Lago congelado?
— Não. – negou com a cabeça – Era um deserto de pedra que se encheu de água e virou um oceano muito profundo.
— Você está ficando louco.
— Louco? – ergueu uma sobrancelha – Louco é você que diz que eu surgi do chão sendo que era uma parede lateral e eu estava em pé. Não tem como eu estar em pé, quebrar uma parede e continuar na base. A não ser que...
— O "mundo" em que você estava estivesse de lado.
— C-como...?
— Talvez a gravidade funcione diferente aqui. Divididos por barreiras. Cada barreira com suas próprias leis da física.
— Pera. – estava tentando acompanhar o raciocínio – Está me dizendo que é como se estivéssemos dentro de vários cubos, e cada cubo desse estivesse com a base virada para uma direção, e para nos deslocarmos teríamos que encontrar as bases e simplesmente... Quebrar?
— Bom, sinceramente eu não sei. Mas é uma boa teoria.
Eduardo respirou fundo.
— Considerando que eu esteja certo, há outra barreira por aqui?
— Deve haver... Talvez... Uma no centro.
— No centro de onde?
— Daqui, ai deuses como você pode ser tão bocó? – falava enquanto ajeitava seu cabelo que caía sobre o rosto – Isto é como um labirinto, sabe, de Dédalo, mas é de gelo, e não sei se tem vida própria, creio eu que não.
— Excelente, se tem uma coisa de que não precisamos é estar correndo por uma coisa viva.
— E o que te faz pensar que eu não vou te matar a qualquer instante? – riu.
— Nossa cena tocando as mãos no gelo foi muito romântica pra você me matar.
— Me poupe garoto. – revirou os olhos e sacou um canivete.
— Wow. – Eduardo deu um passo pra trás – Eu realmente achei que você não fosse me matar.
— Eu não vou te matar seu otário. – debochou cravando a lâmina na parede – Vou marcar uma trilha enquanto andamos, ou você quer andar em círculos.
— Não, eu não quero.
— Certo, então vista uma camisa de uma vez.
— Ahn? – o garoto questinou-se até se lembrar que havia tirado a camisa e usado-a para estancar o corte – Ah. – ele desenrolou-a de seu braço e não havia mais nenhuma cicatriz – A água. – riu baixo.
— O quê?
— Nada. – respondeu vestindo o uniforme do acampamento, que continuava rasgado, e agora com sangue seco – Vamos.
O filho de Quione começou a caminhar enquanto riscava as muralhas de gelo com a faca. Sua feição não dizia muito, mas parecia preocupado e determinado. Ele queria, assim como eu, desesperadamente sair dalí.
— O que você tem feito desde chegou aqui? – perguntou Edu.
— Caminhado. – respondeu sem tirar o olhar da frente, que parecia estagnado em um ponto qualquer – Procurando uma saída... Ou alguém.
— Hum. – afirmou calado – E por que acha que eles estão fazendo isso?
— Você ouviu o que disseram. Isso é praticamente um reality pro Olimpo. Você sabe, todos sabemos que os deuses não se importam de verdade com a gente. Somos apenas seu exército, que batalha quando nem mesmo eles tem força o suficiente.
— E-e...
— O pior – continuou o garoto sem se preocupar se Eduardo falaria algo – é que os chamamos de família. Engraçado que todas as famílias no fundo são assim, perversas.
— Famílias não são ruins. Bem, não todas.
— Sorte a sua então, se tiver uma boa.
— O... – quis se segurar, mas não aguentou – O que aconteceu com a sua?
Jack parou de caminhar e passou alguns segundos observando o corredor gelado a sua frente.
— Nada. – foi tudo o que ele disse.
E voltou a andar.
Mas claro que tinha sido nada.
Flashback On
Jack dormia na sua cama pequena enrolado em seu cobertor estampado com nuvens sorrindo.
Ele ainda tinha oito anos.
Era madrugada, uma noite de outono, uma garoa fina caía sobre sua cidade e estalava nas folhas caídas no gramado e no telhado, como uma sinfonia natural. Ajudava ele a dormir, embora preferisse o inverno.
Ele sonhava que estava num acampamento cheio de pessoas, e que, acidentalmente explodia um projeto de um dos ferreiros, sua líder vinha repreendê-lo e por ordem do diretor ele deveria ser supervisionado por uma garota idiota.
Ele gostava do sonho, era surreal e engraçado, além de que todos alí tinham poderes especiais. Mas sua imaginação foi cortada quando a porta da sala bateu.
— Não, não! – ele pôde ouvir o grito de sua madrasta ao longe. Ela era especial pra Jack, conseguia substituir sua mãe que nunca esteve presente.
— NÃO ADIANTA CORRER, VADIA! – uma explosão de cacos de vidros se espalhou pelo chão no outro cômodo.
Jack imediatamente correu até a porta e girou a tranca duas vezes como segurança. Ele ousou tirar a chave e tentar espiar pela fechadura, mas logo em seguida um tiro uivou alto.
Sua mão tremeu na maçaneta. Tudo que conseguiu fazer foi abaixar e esconder-se sob a cama. Não havia mais gritos de Helena.
Tudo permaneceu quieto por um tempo curto mas assustadoramente longo. Passos começaram a ecoar ao longe do corredor e se aproximarem conforme os segundos passavam.
— Quando o frio chegar, – cantarolava a voz – a neve irá florescer. Quando a lareira queimar, o abraço de sua mãe irá lhe aquecer.
A maçaneta girou, mas a porta certamente havia sido trancada.
— Mas aquecer como? Se ela é a deusa gelada? – continuou – Nem o poder da nevasca esfria o coração da mãe por sua ninhada. – ele cantava aquela música toda noite para lhe fazer dormir. Dessa vez era diferente, pois se dormisse não acordaria mais.
Com um chute a porta se estraçalhou, e por baixo da cama o garoto viu botas de couro marrom cobertas de sangue.
— Papai chegou. – anunciou de maneira tão doce que o filho de Quione quase saiu correndo para abraçá-lo. – Onde está o meu menino? – questionou dando passadas lentas – Será que está aqui? – e atirou – Não, não está. Será que está aqui? – e disparou novamente. – Ou será... – a madeira rangeu quando o pé do homem virou na direção da cama. O peito do menino bateu tão rápido quanto a bad do autor que vos escreve – ...que está... – disse se ajoelhando – ...AQUI?! – e enviou um olhar diretamente a face assustada de Jack.
Mas seus olhos não eram os mesmos, certamente não eram. Seu pai era descendente de uma família de caçadores do sul, e pelo que sabia todo mundo de lá herdara a visão castanha de seu avô de algum grau. Mas naquela noite em especial o brilho no olhar do homem agasalhado era de um dourado tão forte que fazia a pobre criança semicerrar as pálpebras.
— P-p-papai. – gagueijou.
— Não se assuste. – Jack ouviu o som da arma sendo destravada – Vai ficar tudo bem.
Em um segundo, o semideus sentiu um cano metálico frio tocar a lateral da sua cabeça. Depois disso, foi impulso.
Jack empurrou seu pai, que com seu toque ficou imóvel, como se estivesse congelado. Ele arrancou a arma da mão do homem, saiu do seu esconderijo e rapidamente, lembrando do que o mesmo o havia ensinado, atirou. Foram tiros na cabeça, no tórax, nas pernas, até mesmo no piso. A boca aberta de seu progenitor formou uma lagoa de sangue, que escorreu, assim como dos diversos furos em seu corpo.
Jack largou a arma horrorizado com o que ele mesmo acabara de fazer. Sem pensar duas vezes, pegou seu urso de pelúcia favorito, e, ao pular da janela, correu pela chuva pra onde quer que seus sentidos o levassem.
Flashback Off
Eles já haviam caminhado um pouco desde que o semideus da neve se recordara da experiência e fazia uma cova abrir-se em seu peito.
— Você já parou pra pensar que podemos estar em qualquer lugar do universo? – Eduardo quebrou o silêncio.
— Bom, acho que sim. Os deuses disseram que criaram esse campo. Eles podem tê-lo feito em qualquer parte do mundo.
— Imagina se estamos em Dubai, ou na Irlanda, ou no Egito. Imagina se conhecêssemos Rá ou Tot.
— Você imagina demais. – suspirou.
— Desculpe se alguém aqui tem alegria no coração. – ironizou.
— Como assim? – Jack parou.
— Tipo, quando a pessoa tem humor ou...
— Não. – interrompeu – Isso não. Estamos sem saída. – à frente deles havia mais um muro de gelo.
— Bom, considerando que estamos num labirinto...
— Não. – cortou novamente – Isso está errado. Esse é o caminho certo. Não devia haver interrupções aqui. Eu sinto.
— E o que fazemos agora?
— Se eu soubesse talvez estivesse fazendo algo, não é mesmo? – ralhou – Pare com essas perguntas idiotas.
— Calma. Por que não quebramos?
— Quebrar? Você tá maluco?
— Já funcionou ou vez, por quê não outra?
— Se eu fosse você eu não...
— Pra trás. – anunciou recuando – Três... Dois... Um!
O filho de Poseidon jogou seu corpo contra a barreira, que, quase no mesmo instante se despedaçou revelando a continuidade da passagem.
— Viu? – gabou-se – É totalmente segur... – e então o piso se estilhaçou e ele despencou na escuridão.
— EDUARDO! – Jack gritou assustado. – EDUARDO?!
Nenhuma resposta. O garoto havia desaparecido.
— Oh deuses. – choramingou, mesmo não sendo de costume – Mas que droga, que droga, que droga, QUE DROGA! – deu pisões com força no chão mas repreendeu a si mesmo por isso.
— Cocaína ou Crack? – perguntou uma voz ao longe.
— Ahn? – ficou alerta – Eduardo?!
— Claro que sou eu! – gritou.
— C-como...?
— Eu também não sei.
— Onde... – engoliu em seco – Onde você está?
— Sob o labirinto. Mas ao mesmo tempo, sobre ele.
— Como é possível?!
— Tem que pular pra descobrir. – riu.
Os músculos de Jack enrijeceram. E se aquele não fosse mesmo Eduardo? Se fosse um truque do lugar? Ele cairia para a morte também?
— Venha! Rápido! Não podemos perder tempo, ou eu seguirei sem você!
— Espere! Eu... – ele tentou analisar as opções. Não havia trilha a frente, ela foi partida. Não conseguiria criar uma passagem com seu poder pois logo estaria exausto – Pelo sangue do Olimpo, eu vou ter que pular.
— Vamos logo com isso cara! Você sempre falou que queria estar morta, se for pra ser essa é a oportunidade.
— Idiota. – sorriu de lado – É, quem sabe. – e fechando os olhos, unindo toda sua coragem, saltou no breu.
• • •
Despencar era sempre uma sensação horrível.
Principalmente quando se desabava do nada ao nada. Jack via o labirinto se tornando pequeno ao longe, e todas as suas esperanças se esvaindo.
— Ótimo. Eu realmente vou morrer.
Bom, em algum momento da vida dele, ele realmente iria morrer. Mas não seria agora. O menino sentiu todo o ar a sua volta se inverter, como quando se vira de cabeça para baixo uma ampulheta, e despencou mais uma vez, para a direção contrária.
— AH! – gritou quando bateu contra a placa de gelo.
A pancada foi forte.
— Tudo bem? – preocupou-se Eduardo rindo.
— Tudo. – levantou com a cara embeada (emburrada) – Onde estamos?
— Como eu te expliquei, sob e sobre o labirinto, a gravidade se alterou de novo.
— Então estamos embaixo dele?
— Sim. Agora vamos correr porque acho que mais pra frente tem uma entrada pra superfície novamente.
— Pelo martelo de Hefesto, – Jack entrelaçou sua mão na do garoto – nunca mais suma assim.
— T-tudo bem. – sorriu – Agora vamos, sabe, correr por aí. – corou.
Ele assentiu com a cabeça e os dois partiram numa busca pela entrada de volta.
• • •
Até eles encontrarem a abertura durou pelo menos vinte minutos – ou pelo menos eles achavam que havia durado. Os dois não haviam se soltado desde então.
O buraco que dava passagem era quadrado e se assemelhava a uma portinhola de calabouço, mesmo no fim das contas não havendo porta nenhuma.
— Entre. – Eduardo já estava cansado desse jogo – A gravidade deve inverter ao normal de novo.
Jack invadiu o local e foi parar de cara na parede esquerda, que agora era o chão. O que provavelmente fazia da passagem uma janela.
— ...Ou não. – o outro fez o mesmo e esbarrou no semideus caído.
O ambiente era igualmente gelado e cheio de corredores novamente.
— Eu desisto de tentar entender esse lugar. – bufou Edu.
— Eu já desisti há tempos.
— Você é um fracote. – riu.
— Quê? Claro que não.
— É sim.
— Não sou, idiota.
— Então prove.
— Tudo bem. – e ainda deitados no chão, o filho de Quione agarrou a gola da camisa em farrapos do amigo e o beijou.
Eduardo ficou de olhos arregalados e demorou pelo menos uns três segundos pra processar o que estava acontecendo. Até que finalmente, se rendeu ao beijo.
A boca de Jack era gelada e macia, ele apertava forte seus lábios como se estivesse quase em desespero. Não era pra menos. Para acalmá-lo, o garoto passou sua mão aberta entre seus cabelos e agarrou sua nuca, acariciando com os dedos. A respiração dos dois ofegava com a umidade congelante.
— Chega. – sentenciou friamente o que tomara atitude – Temos que procurar uma saída.
— É-é. – respondeu o outro num pigarro – Vamos.
Eles novamente entrelaçaram as mãos, dessa vez com mais força, e voltaram a trilhar sua fuga.
Não havia muito o que descrever, eles só corriam e desviavam por entradas e mais entradas, foi sempre assim, e nenhuma barreira se destacava da outra. Quando haviam becos sem saída, os dois o quebravam e caíam para novamente abaixo do labirinto, procurando outra abertura. Isso se repetiu por bastante tempo.
— Eu... – respirou Edu em intervalos – Estou... Bastante... Cansado.
— Todos nós. – afirmou o outro. Ele encostou na parede mais próxima e percebeu que a pancada causou um som oco.
— Eu só queria logo encontrar essa porcaria do centro.
Jack riu.
— Acha isso engraçado? – levantou uma sobrancelha.
— Eu acho que encontramos o centro.
— O quê?! Onde?! – desesperou-se.
— Bem atrás de mim. – dito isso, com o um chute, o coração de gelo destruiu a parede.
Os dois olharam rapidamente para o local. Eles tinham realmente encontrado.
O centro não era nada mais que quatro paredes (agora três) de gelo, com no meio um altar cravado de pequenos cristais em formato de flocos de neve. Sobre o mesmo, havia uma marreta de bronze celestial, que brilhava divinamente e refletia a luz ao teto.
— A saída. – disseram em uníssono se abraçando.
— Acho que só temos que quebrar o teto e atravessar. – decidiu a cria do mar.
— Sim, essa é fácil. – Jack virou-se de costas para o outro que estava na abertura do centro e agarrou o martelo verificando seu peso. — Até que não é tão pesado.
Logo atrás dele, enquanto dizia isso, a parede do corredor explodiu numa chuva de cacos, o que fez seu coração estourar de medo. Mas o que mais o perturbou, foi o ver o corpo de Eduardo caindo ao lado dele, com uma adaga fincada na nuca. Uma poça de sangue começou a se formar.
— Abati um, pessoal! – gritou uma menina.
Jack virou-se e deu de cara com Clara, filha de Atena. Ela havia rompido a barreira de alguma maneira, e parecia falar com outras pessoas que se distanciavam pelo outro terreno.
— E vou abater mais um. DOUBLE KILL!
O sangue do semideus ferveu. Ferveu tanto que dos seus poros começou a sair vapor gelado, e seu controle foi ao limite. A névoa que se formou no ar deixou Clara pálida e imóvel demais até pra sacar uma faca sequer. O gelo gasoso se infiltrou em suas narinas e seus pulmões, em suas veias e artérias e entrou em processo de congelá-la por dentro.
O filho de Quione derrubou-a no chão totalmente sem cor. Ao seu lado, agarrou a marreta sobre o pedestal e soltou-a para atingir a cabeça da filhota de Atena.
A ruptura por onde Clara entrou se fechou.
Jack desabou no chão, em choro completo e aproximou-se do companheiro. Ele o tocou, estava terrivelmente frio. O seu amigo agora não passava de um corpo, e tudo isso por descuido. Seus braços, pernas e tronco, tudo tremia de decepção. Eles lutaram tanto pra juntos conseguirem escapar, e agora, novamente, estava sozinho.
— Deuses... POR QUE ISSO SEMPRE ACONTECE COMIGO?! – gritou com a voz tão esganiçada afogada nas lágrimas que quase ele mesmo não entendeu o que disse. – O que eu faço agora? – sussurrou com a cabeça baixa.
O teto brilhou e o menino entendeu.
— Tudo bem. Seja forte. – falou limpando o rosto com a palma da mão direita. – Ele iria querer que fizesse isso.
O menino, antes pequeno que matara o pai, agora podia ser forte pra aguentar duas mortes. Jackito levantou-se, agarrou com dificuldade o martelo e posicionou-se no meio do centro.
— Eu sentirei saudades, Edu. Vencerei esse jogo pelo nosso esforço. Se por acaso chegar a morrer, espero que nos encontremos. Mas irei vencer, por nós, e em nome dos deuses.
Jack lançou a marreta pra cima, que abriu um buraco no teto e foi puxada pela gravidade inversa. Ele fechou os olhos e imaginou que tudo estivesse bem, até também sentir seu corpo ser puxado para um lugar que ele não fazia ideia do qual seria.
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