Camp Semitrouxa

8 A Profecia É Recitada


Uma angústia misturada com surpresa correu por dentro de Quiron.
–Uma... Profecia?
–Sim! Mas ela fala frases incompletas, e eu — ela gaguejou — eu não entendo!
–Ela ainda está no chalé 3?
–Está!!!
–Vamos pra lá!
Ele se virou para a arquibancada:
–Todos podem ir, contanto que não fiquem dentro do chalé.
Quando Quiron deu o primeiro passo, a multidão de campistas passou a se aninhar no centro da arena para acompanhá-lo até o chalé. O corpo de Quiron queimava: era como se seu coração estivesse bombeando fogo liquido ao invés de sangue, medo ao invés de adrenalina. Todos os seus pensamentos estavam ao ar, ele só pensara em como uma campista podia recitar um profecia, Quiron já tinha ouvido falar, mas nunca viu pessoalmente. Talvez, fosse como todas as outras profecias, mas aquele pensamento estava perturbando-o de uma maneira inexplicável: seu coração batia, o corpo queimava, o medo se espalhava, o corpo tremia. Um ciclo que se repetia a cada segundo, e ele estava lutando contra si para não perder a postura.
–O que aconteceu a princípio?
–Ela estava perturbada — Clara não tirava do rosto a cara de confusão.
–Perturbada?
–Sim — Eduardo interrompeu — durante o confronto com a dupla dois, Gabe do chalé 15 invadiu os pensamentos dela, modelou e repitiu seu pior pesadelo.
–Então, deixou sequelas.
–É o mais provável.
–Mas, o porquê das profecias?
–Não sei, ela é filha de Apolo não é? O deus das profecias. Se ele danificou a mente dela, pode ter feito ela ter o dom de recitar profecias. Pode ser permanente?
–Não sei — Quiron respondeu baixando a cabeça — espero que não. Quando alguém fica com a mente perturbada ao recitar profecias... Isso não termina bem. Como a mãe de Luke Castellan, o antigo campista, filho de Hermes, que se suicidou para salvar o Olimpo da própria desgraça que ele causou.
–Mas e se for temporário? Quanto tempo pode durar, ou... Ou...
–EU NÃO SEI! — Quiron saiu do controle e Eduardo parou de falar.
Ele também começara a se perturbar, não sabia que um simples jogo pudesse acabar assim.
Eles andaram em grupo até o chalé 3, a noite passara a ser quente, suor escorria por Quiron, apesar de estar cantando bastante. Sussurros se ouviam daqui e dalí, o ar estava pesado, energia negativa cobria todo o Camp. O vento trazia consigo o aroma dos morangos, mas isso não ajudara em nada para que Quiron se acalmasse.
Eles finalmente chegaram ao chalé.
–Apenas eu e Clara vamos entrar, aguardem aqui.
Apesar de já saber disso, houve um pequeno protesto na multidão de campistas que se aninhava em frente ao chalé.
–...O brilho desaparece... — Leeh estava deitada na cama de Lissa, todas as camas estavam bagunçadas, estava com roupas limpas e as mãos cobrindos os olhos.
–Leticia? — Quiron a chamou sereno, mas sem tentar tocá-la.
–...A face ergue...
Ela se levantou brutalmente da beliche de cima e pulou sem medo de cair; ela derrubou o tridente em frente a cama de Eduardo no chão, e jogou tudo o que via ao alto.
Ela apertou as têmporas com forças, e respirava forte, como se estivesse correndo à mil por hora. Deitou no chão e bateu os dois calcanhares consecutivamente durante cinco segundos até parar.
–Leticia? — Quiron voltou a perguntar.
Ela gritou: gritou como se estivessem arrancando seu coração, gritou de agonia, gritou de terror.
Quiron fechou a cara. No seu rosto se via as marcas do tempo, tanto tempo de experiência, mas nunca vira algo parecido.
Ele cerrou o punho.
–Gabe — disse com autoridade — reverta o que você fez, entre na mente dela novamente, e faça ela voltar ao normal.
Gabe surgiu em frente ao chalé, sem passar nem um fio de cabelo sequer da porta.
–Eu não posso — falou com exaustão, os olhos profundos — estou cansado demais, preciso dormir, restabelecer as forças. Não consigo mais retirar poder de mim mesmo, seria loucura.
–Loucura foi o que você fez com ela!!!!!
–Eu não imaginei que...
–VOCÊ NÃO IMAGINOU NADA. SAIA DA MINHA FRENTE AGORA, ESTÁ CASTIGADO A LIMPAR O CHALÉ 5 POR DUAS SEMANAS, AO INVÉS DE JACK.
–MAS O QUÊ?
–CALE-SE!
Quiron pousou a mão sobre a face, seu rosto expressava tristeza, arrependimento.
–Eu falhei — quase sussurrou, com a voz rouca — mais uma vez.
Leeh estava no chão, molenga e esparramada, lágrimas saiam de seus olhos, quando ela abriu parte do olho, Quiron viu que o globo estava quase que por completamente branco.
–Talvez não — Clécio irrompeu a multidão — eu estou descansado, sou filho de Hipnos, talvez possa tentar.
Quiron olhou de várias formas pra ele, mas seu olhar dizia claramente:
"Eu não queria arriscar, mas você é minha única opção".
–Vá em frente — ele acenou com o braço, permitindo a passagem do semideus.
O som do lago e do vento eram os únicos alí, além do murmurar da filha de Apolo.
–Me ajude a levantá-lá — ordenou Clécio.
Quiron o fez.
Ele a posicionou em pé, reta, Quiron segurava em seus braços para contê-la.
Clécio segurou na cabeça dela, pressionando a palma da mão na têmpora esquerda, e os dedos na cabeça. Ele fechou os olhos.
Nada aconteceu no momento, todos olhavam para aquela cena com a expressão assustada e vazia, engolindo em seco, e com um frio correndo pelo corpo.
–Consegui — Clécio e Leeh falaram em uníssono, como se fossem um só — "Quando o sol dorme, a luz cessa
O brilho desaparece e a magia nasce
Tudo que se foi faz-se novo
E a face ergue, surgindo da desgraça".
As palavras fizeram estremecer tudo e todos.
Os dois se calaram, Quiron a soltou, e Leeh desabou. Uma onda de choque passou de Clécio à todos os campistas. Quiron abriu os olhos, e Clécio, assim como Leeh, desabou, mas ele conseguiu segurá-lo à tempo.
–Levem-nos aos seus respectivos chalés, e os dêem ambrósia e néctar, deixem-nos repousar, até que possam acordar.
–Alguém me ajuda aqui! — gritou Lissa enquanto apoiava Clécio em um dos ombros.
Gaby, a filha de Ares, tomou Clécio no seu outro ombro, e juntas, caminharam ao chalé 15.
Clara e Eduardo ergueram Leticia, e a levaram ao chalé 7.
O ar pesou ainda mais, os campistas se dispersaram, e a noite para eles, tomou fim.

Quando o dia nasceu, tudo voltou (pelo menos pareceu voltar) ao normal.
Os campistas saíam de seus chalés aos poucos, a manhã brilhava, os vales verdejavam, o ar estava puro, mas as palavras pareciam ainda assombrá-los.
Carlos andava em direção ao chalé de Hermes, com um sorriso no rosto.
Ele bateu a porta.
–Isa?
Ninguém respondeu.
–Isa?... Te trouxe um presente.
De repente, Carlos ouviu alguem abrir uma série de fechaduras na porta, era Neris.
–Presente? Quero. Agora. Por bem, ou por mal.
–Epa, vai com calma garotão. A Isa tá aí?
–Você quer dizer a minha irmã?
–Quero dizer minha namorada.
–Não, não está.
–Onde ela foi?
–Foi pra put...
–CARLOS? — uma voz feminina gritou.
–ISA?
O barulho de passos apressados encheram o chalé, se duvidar, alguns campistas foram pisoteados.
Ela o abraçou pelo pescoço e o trouxe até ela, deu um beijo, um beijo quente, pelo menos para os dois, ele a envolveu com o braço esquerdo, e a apertou contra ele. Ela parou o beijo e recuperou o fôlego.
–Nossa — ele ajeitou o cabelo — não te vejo desde ontem, soube de uma briga sua com o filho de Quione e só, o que houve?
–Bom, eu passei dois dias construindo um presente pra você, mas quando terminei, aquele idiota o destruiu, então passei o dia na forja tentando consertar. E consegui.
Ele ergueu algo na mão direita que estava coberto por papel alumínio.
–O que é?
–Veja.
Ela agarrou o presente, e começou a retirar o papel alumínio que o envolvia, ele era dourado e soltava um brilho enorme. Quando Isa viu do que ae tratava, tomou um susto: um Caduceu. Médio, de bronze, mas envolvido em ouro, com asas e duas serpentes de ouro entrelaçando em seu cabo.
–Que lindoooo!!!!! — Isa o abraçou com força, sem querer largar do presente.
–Bem lindo mesmo — Neris encarava o presente de forma ameaçadora.
–Você ainda está aqui?
–Estou, por quê? Atrapalho, senhor da sedução?
–Atrapalha.
–Legal.
–Já pode sair se quiser.
–Quero ficar. Ficar com você delícia — disse encarando Isa — deixa, nada de incesto.
–SAI LOGO NERIS — gritou Isa.
–Tá, calma. Não precisa gritar — ele ergueu os braços na altura do pescoço e levantou as mãos sinalizando defesa.
Ele se retirou.
"Finalmente", pensou Carlos.
–Seu presente é lindo.
–Não é só lindo — disse se gabando — é maravilhoso.
–Ah, é...
–Ele é uma arma, Isa. Uma arma.
–Arma?
–Sim. Deixe-me mostrar.
Ele tomou o caduceu da mão dela, e ao apertá-lo com força ele se estendeu, encostando no chão, quase do tamanho dele.
–Nossa, incrível.
–Não é só isso amor.
Isa revirou um pouco os olhos, mas não deu uma volta completa.
–CARLOS E ISA — falou Carlos — DESPERTAR!
As duas serpentes de ouro se desenrolaram do bastão e foram ao chão, deslizando.
Isa ficou boquiaberta.
Carlos começou a mexer o Caduceu em vários movimentos, e conforme eles, as serpentes de ouro deslizavam, retrocediam, subiam na parede do chalé e diversas outras coisas.
–Se essas coisinhas forem bem usadas, podem até matar — ele disse na maior inocência do mundo.
–Mas como eu uso isso afinal?
–Se conecte com o Caduceu, o resto, você aprende sozinha.
"Ajudou bastante", pensou Isa.
–Obrigada, pelo presente. E Carlos...
–Sim?
–An... Nada.
–Diz.
–Nada. Tchau.
Ela bateu a porta na cara dele.
–Ué, não entendi nada.
Isa se jogou na cama.
Seus pensamentos pareciam um turbilhão: ferviam e remechiam com toda intensidade possível.
Nesses últimos dias ela... Se sentia diferente. Ela passara a admirar mais as belezas do acampamento, todo final de tarde via o sol se pôr, e pensava na vida.
Ela gosta muito do seu namorado, e ele se esforça por ela, mas ela não sente mais a mesma coisa. Como se toda aquela emoção tivesse morrido, se todo a chama tivesse se apagado. Ela queria viver uma emoção de verdade: sair novamente do Camp, sentir o ar de fora, os perigos, os frios na barriga, queria se sentir livre de novo, mas ultimamente tudo não passava de uma volta por aí.
Ela ganhara um presente novo, e bom, mas odiava a forma de como Carlos se vangloriava pelas suas invenções. Ela queria dar um tempo, dizer chega, socializar mais, furtar mais, pregar mais peças nos outros, mas pelo sua aproximação com Carlos, parecia ter se afastado de Vic, e ela, se chegado mais com Mands.
Há muito tempo, ela queria sair do Camp, mas não pra se livrar dos outros, e sim, pra se livrar do peso.
–Que tédio — ela disse em voz alta.
–Igualmente — falou Gio enquanto entrava no chalé.
–Gio?
–Talvez você esteja surpresa em me ver aqui, mas creio que a primeira noite no chalé de Hades não é fácil pra ninguém. Então eu voltei, pra ver como tá todo mundo, senti saudades.
–É legal saber que você se importa.
–Pera. Essa frase teve um duplo sentido, você quis falar isso pessoalmente não é?
–Não, quis dizer se importar com todos.
–Tem certeza?
–Tenho.
–Pode me contar o que quiser. Agora que sei que sou filha de Hades, tenho mais que certeza que minha boca é um túmulo.
Isa riu.
–Essa piada foi nível Vic.
–Jura? Me lembre de nunca usá-la.
–Com certeza — ela riu ainda mais — você estava ontem no chalé 3 quando ocorreu a profecia não é?
–Estava sim, por quê?
–Se Quiron decidir que terá uma missão... Acho que vou correr atrás.
–Uma missão? Não parece perigoso?
–Parece. E estou exatamente indo atrás de perigo. Chega de viver uma vida tediosa, se joga. Luana me disse isso uma vez, e tenho pensado desde então.
–Bom, eu cheguei a pouco tempo, não tenho pressa pra sair daqui, tenho que aprender muito.
–Eu estou totalmente eufórica.
–Não. Eu vou mandar as sombras invadirem sua alma e blá blá blá.
As duas riram e pararam, continuando o sorriso.
–Você poderia continuar indeterminada.
–Eu? Não, prefiro ser determinada, posso saber quem eu sou.
Isa olhou para a janela.
–Saber quem eu sou... Acho que me esqueci, no decorrer dos dias.
–Que papo é esse? Se anima! Vai beijar seu namorado, transar se necessário, vai se divertir! Sai dessa depressão que não te pertence.
–Eu ganhando um conselho desse de uma filha de Hades? Brincadeira hein.
–Eu sou filha de Hades, não o fim do poço, para tá.
–Desculpa.
–Deixa isso pra lá... Quero me divertir. Você vem?
–Não quero sair hoje...
–Se você não vinher, eu te dou um tapa.
–O que você quer me mostrar?
–Um garoto.
–Mas eu...
–Um garoto pra mim, vem ver, quero saber se ele é bom o suficiente. Quero um conselho.
–Geralmente, quando as pessoas querem um conselho, já sabem o que querem, e esperam outra pessoa confirmar para ter certeza.
–Dane-se. Vem comigo.
–------X-------
Bea, Danny e Nai juntavam montes de folhas.
–Qual a necessidade disso? — Bea perguntou.
–É o almoço de Quiron, não reclama.
Todas riram.
–Quiron tinha que me almoçar — Bea sorriu — folhas não são gostosas.
–Tá bem atiradinha, né? — disse Clara interrompendo a conversa.
–Atirada é a... Ninguém te chamou na conversa.
–Ninguém precisa me chamar pra aparecer.
–Uii, to sentindo cheiro de treta.
–O único cheiro que eu sinto aqui é esse seu cheiro de macaco molhado — Clara ofendeu Danny.
–Como é que é?
–Não sou gravador pra repetir tá.
–Ah querida, mas eu tenho o maior prazer de repetir minha mão na sua cara.
Clara riu.
–Tá rindo do quê? Sou palhaça por acaso?
–Se a carapuça serviu...
–AAAH CHEGA.
Danny avançou alguns passos e pegou com força no cabelo de Clara.
–Você — ela deu um tapa — aprende a me respeitar.
–Para sua louca.
–Se não sabe brincar, não desse pro play.
Clara tentou se soltar de Danny mas não consiguiu.
–ME SOLTA.
–Você que pediu.
Danny jogou ela de cara na pilha de folhas.
–Danny — disse Nai — lembra daquela aranha que tinha nas folhas?
Clara gritou como um gato na água.
Ela começou a pular e bater as mãos pelo próprio corpo em desespero.
–BEA ME AJUDA!
–Ajudar? — Bea riu — ah claro, você me deve uma.
Bea segurou os braços dela, e os contorceu nas costas de Clara, encostando ela numa árvore.
–Se você acha que eu vou deixar barato, amorzinho, espera só.
Bea se preparou pra acabar com a raça dela, mas foi interrompida: um garoto atravessou ao lado do pinheiro de Thalia, cambaleando e espalhando as folhas.
Bea soltou Clara rapidamente.
–Quem é você? — as três perguntaram.
–Bom, desde que eu me lembre, me chamo Abner.