Camp Half Blood
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Minha última visão foi da Ana me sacudindo enquanto alguns campistas vinham auxiliá-la. As vozes iam se tornando casda vez mais distantes,até que eu mergulhei no inconsciente. Quando acordei, estava na enfermaria, ainda um pouco sonolenta e dolorida. Me remexi na cama e dei uma olhada em redor: Tudo estava excessivamente silencioso, e na mesinha de cabeceira, descansava uma barra de chocolate. Comi-a e voltei a cochilar.
Na segunda vez, acordei com um múrmurio de vozes, e antes de abrir os olhos, já podia distinguir a quem pertenciam. Ouvi a voz impaciente do Raul murmurando "Ela morreu?" e a voz da Joy retrucando "Não,acho que ela entrou em coma". Depois a voz fina e esganiçada da Gigi dizendo "Acho que ela não tá em coma,ela tá respirando", e Juninho reclamando "Quem entra em coma ainda respira,Gigi".
Abri meus olhos devagar, tentando me acostumar com a claridade. Todos me olharam estupefatos e vi que Roniara,Carlos e a dupla inseparável Ana & Higor também estavam lá, mudos e me observando. Sentei na cama e perguntei, num tom irônico:
— O que é isso? Comitê de boas-vindas?
— Não,querida. Estávamos discutindo o seu funeral. — Raul respondeu sarcasticamente. — Mas como você não tinha nada de valioso, eu dei a ideia de te enterrar como indigente.
Revirei os olhos para aquela demonstração de afeto e tentei me levantar. Já não sentia mais nenhuma dor e meu ferimento,que outrora estivera tão feio, agora era apenas uma linha rosada um pouco acima do umbigo. Quando fiquei de pé, percebi que estava usando uma roupa diferente, e olhei em redor. Todos continuavam a me observar. Irritada,perguntei:
— Ok, vocês não estão todos aqui para me recepcionar,então o que houve? — Quando me calei,Gigi olhou para o teto, Ana começou a cutucar as unhas, Juninho tossiu, Raul pigarreou e Higor deu uma cotovelada no Carlos, que falou:
— Er... é que você é a única filha de Hefesto no acampamento, certo?
— Sim,e daí? — Cruzei os braços irritada.
— Daí que você se tornou a conselheira-chefe do seu chalé, e hoje vai ter a reunião do Conselho dos Sete.
— Conselho dos Sete? — Indaguei, levantando uma sobrancelha. Aquilo parecia saído de algum livro do Senhor dos Anéis, e eu queria muito rir.
— Na verdade,são muito mais de sete, só que a Ingrid achou que "Conselho do Sete" soava mais respeitoso.
— Todo mundo aqui acha que ela tirou isso de "O Senhor dos Anéis" — Completou Ronny, com uma careta.
Nessa hora, Romulo irrompeu pela porta, dizendo que a Ingrid estava revoltada com a nossa demora e que tinha mandado me levar,mesmo que eu estivesse em cima de uma maca. Carlos respirou fundo e me perguntou:
— E então,você vai ou não?
— Por acaso acha que eu vou ficar por aqui, vegetando? E deixar que vocês tomem todas as decisões? claro que não. — Respondi e comecei a calçar meus tênis. Fomos andando em direção à Casa Grande. Lá dentro, em uma grande sala de jantar, campistas se acomodavam em uma mesa enorme e longa, em cuja cabeceira estava o Quíron. Nas duas cadeiras ao seu lado, Carlos e Ingrid representavam respectivamente Poseidon e Zeus. Gigi sentou-se na cadeira reservada a Dioniso, Romulo na de Apolo, Gikah em Ares, Raul na cadeira de Hécate, Roniara na de Nike, e o chalé de Hermes era o único com dois conselheiros-chefe: Ana e Higor, que já estavam em suas cadeiras, se acotovelando e sorrindo. Do outro lado da mesa, numa cadeira bem de frente à da Ana, Roniara apenas observava. A cadeira pertencente a Hefesto se situava entre as cadeiras de Perséfone e a cadeira ocupada pela Ana. Sentei-me, e logo a Joy ocupou a cadeira do meu lado esquerdo, curiosa para saber o motivo daquela reunião. Ela me cutucou e sorriu.
— Está melhor, Mary?
— Claro, achou que um cortezinho de nada iria me matar?
— Na verdade, depois que você queimou minhas flores,eu torci pra no mínimo você ficar um mês de cama. — Ela sorriu maleficamente. Vendo minha cara chocada,ela riu alto. — Brincadeira, Mary. Eu até ajudei a Samara quando ela estava te curando. Eu levei água e fiquei observando.
— Ahn... Valeu por isso,eu acho.
Naquele momento, o Quíron pigarreou e todos fizeram silêncio, exceto Gigi, que precisou levar um grito da Gikah para se calar. Depois desse pequeno contratempo, Quíron começou:
— Bem, nós convocamos o Conselho dos Sete, para discutir um assunto sério. Deixemos que Rebeca explique. — Da cadeira de Hades, Rebeca levantou-se timidamente,parecia um pouco nervosa por falar em público, mas respirou fundo e começu:
— Bom,é que recentemente meu pai... Quero dizer, Hades, entrou em contato comigo por meio de um sonho. E disse que seu elmo foi meio que... Roubado.
Houve um longo silêncio, quebrado por um "cri,cri,cri" do Higor. Raul franziu a testa e perguntou:
— Tá, mas o que é que isso tem a ver conosco? Foram o Higor, a Ana ou a Giullia, por acaso?
— EEEEEI! Não roubaríamos algo de tão baixa utilidade, não ponham a culpa na gente. — Ana respondeu e cruzou os braços,visivelmente irritada. Raul continuou:
— Bem,se não foi ninguém de Hermes, isso não tem nada a ver conosco. Hades deve estar ficando gagá e não sabe onde guardou o elmo. Portanto,eu não preciso cansar minha beleza aqui com vocês, certo?
— Errado,Raul. — Ingrid falou, pela primeira vez desde o início da reunião. — Aí é que nós temos a ver, pois Hades mandou que Rebeca fosse em missão achar o elmo.
— Me poupe, vamos mandar pessoas para uma missão só pra achar um adereço de Hades? Ele pode muito bem fazer outro ou ficar sem nada,é melhor. — Ele rebateu.
— A questão é que sem o elmo, a morte não tem como trabalhar, porque perde parte dos seus poderes, e a proteção natural do Tártaro, fica mais fraca, além dos monstros se reconstituírem mais rápido, e isso sempre dá problemas pro Acampamento, além do fato de Hades ter ameaçado nos atacar.
Gikah deu um murro na mesa e gritou:
— DANE-SE HADES! ELE QUE APAREÇA AQUI E EU MESMA MANDO ELE PRO INFERNO!
— Gikah,ele já mora no inferno... — Joy retrucou e recebeu um "não pedi sua opinião" da Gikah. Carlos falou:
— Okay,parem vocês duas, e se acalmem. — E continuou,virando-se para Rebeca. — Você quer a missão?
— Não. — Rebeca respondeu firmemente. — Eu não me importo com o que acontecer ao meu pai.
— Certo, sua vontade será respeitada. — Carlos disse seriamente. — Bem,não vamos nos meter nos assuntos do Mundo Inferior então. A reunião está encerrada.
Todos os campistas levantaram abruptamente e saíram da Casa Grande, a fim de realizarem suas atividades normais. Comecei a andar sem rumo, aproveitando o sol e o vento fresco do início da tarde. Fechei os olhos e continuei caminhando. O cheiro dos campos de morango chegava até mim,convidativo. O som dos campistas correndo,rindo e conversando ao longe, dava uma sensação de calmaria e tranquilidade. Nunca me sentira tão bem assim antes. Deitei na grama e respirei fundo. Os raios de sol chegavam até mim, cálidos como um abraço, e eu me sentia relaxada e revigorada. De repente, alguma coisa se pôs na minha frente, tapando o sol. Ouvi um baque surdo, de algo muito grande batendo no chão. Abri os olhos, e a um metro e meio de distância de mim, estava o maior cão que eu já havia visto em toda minha vida. Era gigante, com um pelo lustroso e negro, e possuía três cabeças, cada uma escorrendo tanta baba, que encheria uma piscina olímpica. Eu já havia ouvido falar naquela criatura: era um cão infernal,subordinado de Hades.
O cão rosnava enlouquecidamente, e como estava sentada no chão, tudo o que eu podia fazer era recuar lentamente, mas tinha a impressão de que o cão estava prestes a atacar, e quando ele fizesse isso,não sobraria nada de mim. Extremamente nervosa, senti minhas mãos ardendo: era o sinal de que iam começar a se incendiar. Sem tirar meus olhos do cão infernal, imaginei uma bola de fogo na minha mão, e senti um pequeno formigamento quando ela começava a se formar. Esperei o momento certo e atirei a bola de fogo bem no espaço entre seus olhos, me levantei e corri o mais rápido possível, para procurar ajuda.
Quando cheguei ao pátio central dos chalés, me surpreendi com o que vi: monstros horríveis e nojentos atacavam de todos os lados. Um pequeno batalhão de guerreiros esqueleto lutava contra outro batalhão, invocado por Rebeca, que parecia ainda mais pálida. Um pouco adiante, Gikah lutava contra três esqueletos, usando sua lança e desferindo uma torrente de palavrões contra eles. Em outro ponto, Gigi, Juninho, Samara e Romulo disparavam saraivadas de flechas contra um cão infernal. Gigi fez crescer uma videira em torno das patas do bicho, que as partiu facilmente e tentou atacar Gigi. Juninho a salvou,acertando uma flecha na pata do monstro, que continuou avançando. Perto do refeitório, Ingrid disparava uma torrente de raios contra outro cão infernal, e Carlo tentava potencializar os choques molhando o monstro. Aves enormes cuspiam fogo em tudo, e uma delas deu um voo rasante sobre mim, e soltou uma baforada de fogo. Pus as mãos sobre o rosto, instintivamente,mas o fogo passou por mim como se fosse vento, sem queimar um fio de cabelo sequer. A ave caiu alguns metros à frente, abatida por uma flecha do Juninho.
Higor e Ana Paula estavam quase na floresta, escoltando os campistas mais novos e os feridos. Nesse momento, um dos esqueletos subordinados a Rebeca caiu na minha frente, se desfazendo em pó, restando apenas sua armadura e uma espada, que peguei como proteção. Foi quando ouvi um rosnado atrás de mim. Antes que eu me virasse,já sabia que era o mesmo cão infernal que eu havia cegado. Eu estava certa. Se guiando apenas pelo cheiro, ele havia me encontrado, eu estava sem escapatória. Tomada pelo terror, tentei escapar lentamente, enquanto ele farejava o ar. Pisei em algo no chão e o cão percebeu minha localização. Ele saltou na minha direção e eu saltei para o lado, segundos antes dele acertar o lugar onde eu estava. Agindo instintivamente, me joguei sobre o pescoço do monstro, escalei sua nuca, tentando ao máximo me equilibrar e enfiei a espada em sua cabeça. Antes de morrer, o cão infernal deu uma sacudida forte que me atirou para longe.
Caí de cara no chão. Levantei sobressaltada, ainda a tempo de ver Gikah destruindo o último esqueleto, Rebeca desmaiar de exaustão,Gigi,Juninho,Romulo e Samara abaterem a última ave, e Ingrid dar o golpe final no último monstro. Arfando, ela virou para Carlos e falou:
— Verifique os danos,ajude os feridos, e convoque o Conselho dos Sete. Parece que vamos ter uma missão, afinal.
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