Caminhoneiros&Greves (ou histórias para meu filho)
3 Capítulo III: Café e Herói
Notas iniciais
Depois de roubar cavalos e ajudar um bairro a adiar a fome, chamamos atenção do jornal da cidade, que evidentemente ocultaram nossas identidades para não nos dar nenhum tipo de prejuízo. Admito que me senti um verdadeiro herói sem capa. Nessa mesma semana, quando deveria ser o décimo dia da greve dos caminhoneiros, Michel Temer decidiu utilizar o Exército para remover os caminhoneiros que interditavam as estradas, e alguns estudantes resolveram se mobilizar para ajudar os grevistas, que estavam preparados para montar cerco.
— Uma verdadeira guerra?
— Sim, imagine uma estrada de quilômetros de extensão interditada por dezenas de caminhoneiros, a gasolina a oito reais, em um extremo o exército pronto para usar a violência, e no outro caminhoneiros, estudantes e apoiadores esperando para batalhar pela causa.
— Eles usavam arma de fogo?
Gabriel sorriu matreiro, com hálito de aventura.
— Não, meu garoto Álvaro, eles usavam caminhões.
Havia cinco caminhões estacionados ao longo da estrada, com uma passagem estreita permitida somente para carros comuns em viagem. De resto, tudo interditado. Ao menos três caminhoneiros estavam dispostos a se sacrificar pela causa; entraram nos caminhões, ligaram os motores. O som assemelhava-se a um grito de guerra, mas era apenas o combustível queimando dentro do automóvel. Tiraram do ponto morto, pisaram no acelerador, e dirigiram de encontro à fileira dos militares.
— Eles atropelaram os militares? — Questionou Álvaro, incrédulo.
— Sim, meu filho, com grandes caminhões, vem grandes responsabilidades. — Respirou profundamente e suspirou, dramático. — Mas isso pareceu dar certo, porque parte das forças armadas recuaram, e a outra parte aliou-se aos grevistas.
Foi aí que conheci o Zé, um caminhoneiro viciado em café. Enquanto eu ajudava a trazer alimento para as estradas interditadas, um homem de uns sessenta e dois anos me abordou com um abraço apertado.
“Você está responsável pelos alimentos, não é?” Ele perguntou, com um hálito de quem acabou de acordar de uma soneca de início de tarde.
“Eu mesmo, senhor.” Respondi, tentando não derrubar a caixa de laranjas que carregava. Ele meteu a mão descompromissadamente e pegou uma. Lembro-me de não ter aberto a boca para reclamar, afinal, aquele homenzarrão era quatro vezes o meu tamanho.
“Sou José das Graças, e todos me chamam de Gracioso, mas você pode me chamar de Zé. Estou precisando de café, meu rapaz.”
Concordei, porque não sabia se aquele tom era em gentileza ou ameaça, afinal, sua voz sempre grave não permitia essa interpretação. Não foi tão difícil encontrar café, mas era um grão que estava sendo muito racionado até mesmo entre os trabalhos de Natália. Para conseguir, tive que embebedar algumas pessoas e apostar um pacote de café com elas em um jogo de sinuca. Eu perdi, mas depois apostei minhas roupas e, com tamanho desespero de sair de lá sem nada, acabei vencendo.
Um dia depois dei o pacote de café para o Zé, que ficou extremamente agradecido, e disse que se lembraria de mim. Quando a greve completou treze dias, Zé liderou uma frota de caminhoneiros para invadir Brasília e destruir o que nos sobrava de Estado. Foi então que, com vinte e um dias de greve, o Brasil entrou em anarquia e tornou-se o que hoje conhecemos como Confederação Anárquica.
— Nunca mais vi o homem.
— Ele era um caminhoneiro revolucionário?
— Não, não... Estava mais para um herói.
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