Caminhoneiros&Greves (ou histórias para meu filho)
2 Capítulo II: Ativista e Carroças
Notas iniciais
Rousseau dizia que o Contrato Social era a marca final para instituir a civilização, porque com isso os cidadãos abririam mão de sua liberdade para dá-la ao Estado, que garantiria a segurança do coletivo. Entretanto, um dos requisitos para que seja analisada moralmente as ações de alguém, é a liberdade. Kant resolve esse problema com sua moral deontológica, que é baseada no dever.
— Você vai me dizer que os caminhoneiros foram imorais ao fazerem greve? — Álvaro franziu o cenho.
— Garoto, eu disse que não ia permitir interrupções. — Tragou o cigarro. — Mas agora que comentou, eu ia chegar na parte em que...
— Vou adivinhar: Foi moral porque eles estavam pedindo o fim dos impostos para o petróleo e imposto é roubo?
Gabriel sorriu para si próprio. Apagou o cigarro no cinzeiro da mesa.
— Gosto desse seu exercício mental, mas vou te deixar concluir sozinho.
Voltando para a história que contava, só gostaria de entrar no mérito de alguns suspeitarem da greve ter sido, na verdade, um locaute. Mas me esquivarei da filosofia e das desconfianças... Eu deveria ter mais ou menos a sua idade quando a greve começou. Não foi algo repentino, já que os caminhoneiros pediam mudanças desde o ano anterior ao começo de tudo, mas nunca obtiveram uma resposta do governo. Entretanto, a agressividade com a qual tudo iniciou e a ameaça de não ter uma data para acabar amedrontou a todos.
Naqueles tempos, meu filho, a Confederação Anárquica, ou melhor, o Brasil possuía muito mais estradas do que nos tempos atuais, resultado de anos e anos de tolos projetos para o desenvolvimento automobilístico. Portanto, era com caminhões que se transportava quase tudo o que mantinha a economia.
— Especialmente comida?
— Especialmente comida.
Eu estava no auge do meu espírito revolucionário, afinal, era estudante de uma federal. Cursava geografia, você sabe. E como todo bom indivíduo que se preocupa com a política e economia de seu país, eu apoiava os caminhoneiros. Eu e todos os outros de minha turma. E o Brasil inteiro, na verdade. Em tempos de Michel Temer, ninguém apoiava o governo. Fora Temer.
— Fora Temer! — Ressaltou Álvaro.
E na época eu estava ficando com uma garota de nome Natália. Negra, com a cabeça raspada, fazendo uma tal de transição capilar, não me lembro ao certo. Mas ela era muito bonita, e não vou me atentar aos detalhes porque o espírito de sua mãe pode nos ouvir.
— Não existe vida após a morte, pai.
— Morre primeiro, me conta depois.
Natália morava em um bairro pobre, e passava dificuldades financeiras por conta da mãe, e nunca chegou a conhecer o pai. Trabalhava em uma loja de sapatos o dia inteiro, e não estudava, mas seu sonho era fazer moda. Nos primeiros três dias da greve de caminhoneiros, ninguém sentiu nenhum efeito diretamente, porém, no sexto, lembro-me dela me ligar de madrugada chorando.
“Gabi” a voz dela era suave, mas firme, como alguém que é acostumado a lidar com dificuldades de todos os tipos. “Espero não ter te acordado”
“Claro que não”, eu respondi, acabando de acordar, “eu estava olhando as estrelas agora e pensando em você, acredita?”
“Não” ela disse, e rimos juntos no celular. “Eu não sei o que fazer, minha chefe disse que o estoque de sapatos não pode ser reposto por causa da greve de caminhões, e que se isso continuar, talvez ela tenha que fechar a loja!”
“Isso significa sua demissão?
“Sim.”
“Mas ela estaria te demitindo por algo que não é justa causa, e então vai ter que te pagar seguro desemprego.”
“Minha carteira não é assinada...”
Continuamos a conversar, tentando encontrar uma solução, mas uma hora e meia de conversa não foi o suficiente para que algum caminho alternativo fosse montado. Dois dias se passaram, chegando ao oitavo dia de greve. Antes de qualquer parecer da chefe dela, os supermercados ficaram vazios. Não havia mais comida, a pouca que ainda restava teve seus preços elevados, e os primeiros a serem afetados com isso foram os mais pobres. Tive muita sorte de vir de uma família classe média.
Naquele mesmo dia, Natália me ligou, dizendo que não tinha comida em casa e tampouco no bairro. As pessoas começavam a perder a paciência, estavam planejando grandes arrastões. Eu a convidei para ficar na minha casa o tempo que ela julgasse necessário, mas ela recusou o convite. Disse que deveria fazer algo por todos. Eu jurava que ela ia apelar para a macumba, mas o que ela fez foi muito melhor. Muito melhor.
— Para de suspense!
Bem, ela me convidou para participar do plano dela, mas disse que se eu topasse não poderia desistir. Como eu estava no auge da revolução, eu não demorei mais do que três segundos para aceitar. Ela tinha um tio que morava no interior, e trabalhava com plantação de pacoval.
— O que é isso?
— Bananal.
— Por que não disse logo bananal ou plantação de bananas?
— Gosto de parecer rebuscado.
Esse tio tinha outros amigos que trabalhavam com plantações e criação de gado, e sua remuneração estava em vender seu trabalho para os supermercados, mas com a greve isso não era possível. A ideia de Natália era roubar alguns cavalos no jóquei da cidade e ir até o interior, onde conseguiríamos uma carroça, compraríamos os alimentos e revenderíamos nos bairros das cidades. Ilegalmente e sem imposto, ou seja, mais barato que nos supermercados. Era ajudar os mais pobres e ainda lucrar com isso.
— E como vocês roubaram os cavalos?
— Isso é história para quando você estiver estudando física. — Riu Gabriel, e o filho o acompanhou.
— Mas deu certo?
— Não somente deu certo como eu aprendi hipismo e Natália tornou-se uma heroína local. — Fumou o cigarro entre os dedos. — Salvou todo o seu bairro da fome. — Sorriu de lado, nostálgico. — Acho que tem uma rua nomeada em homenagem a ela.
— Você também ficou conhecido?
— Sim! E isso nos leva à outra história...
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