Caminhoneiros&Greves (ou histórias para meu filho)
1 Capítulo I: Cigarro e Histórias
O ano é 2054, e o que antes era chamado de Brasil, hoje chama-se Confederação Anárquica. Desde a greve dos caminhoneiros, ocorrida há trinta e seis anos, o país quebrou, deixando de reconhecer-se como unidade federativa, tornando-se terra de ninguém. Os países adjacentes tentaram intervir com exércitos, forçando os brasileiros a formarem uma nova conjuntura, que nunca antes foi experimentada no mundo: A anarquia.
— Que saco. — Álvaro fechou o livro, bufando. Seu pai ergueu o olhar dos mapas que traçava para observá-lo.
— O que foi, pirralho? — Indagou Gabriel ao notar a inquietude do primogênito.
— Ler é difícil.
— Quando eu tinha sua idade, eu lia aos montes. — Deu de ombros. — Era mais fácil do que dirigir caminhão.
— Você não tem dislexia, pai. — Revirou os olhos, apoiando a cabeça na mão. — E também não sabe dirigir caminhão.
— Claro, eu sou maquinista. — Abriu um sorriso debochado. — E também sou geógrafo. — Passou a mão na barba por fazer. O filho não parecia divertir-se tanto com seus comentários. — Já chegou na parte em que os caminhoneiros tomam conta do Distrito Federal e o resto do Brasil começa a reconstruir sua malha ferroviária?
— Não, e sinceramente acho que começo a odiar história.
— Prefere filosofia?
— Matemática.
— Você é realmente meu filho?
Fez-se silêncio. Gabriel levantou-se de sua cadeira e se aproximou da do filho, pegando nas mãos o livro de história. Observou com atenção a edição especial em capa dura escrita pela ACH — Associação de Caminhoneiros Historiadores -, e refletiu.
— Pai? — Chamou o garoto.
— Sim? — Respondeu o adulto, envolto de devaneios.
— O que está pensando?
Gabriel devolveu o livro e ajeitou os suspensórios da roupa, puxando um maço de cigarro do bolso. Seu semblante estava inspirado, despertando curiosidade no filho.
— Acho que vou lhe contar a história em outro ponto de vista. — Pegou um cigarro. — Se você estiver disposto a ouvir, claro.
— E de que ponto de vista você está falando?
— Do meu, claro. — Acendeu o cigarro. — Teria outro melhor?
Álvaro, em resposta, apontou para o livro.
— Você puxou essa grosseria da sua mãe. — A fumaça saía esparsa na medida com que falava. — Agora, ouça com atenção, porque não irei permitir interrupções.
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