Notas iniciais
Boa leitura.

Voltando aquela noite de verão, que deveria ser quente, mas que me fazia tremer devido ao vento gelado que parecia querer rasgar minha pele por sobre as roupas finas, eu tentava andar o mais rápido possível para chegar logo em casa, alguma coisa me dizia que algo ruim ia acontecer, e eu não estava errada.

Continuei andando e logo me confrontei com uma escolha. Mais á frente havia um beco que cortava pelo meio de várias ruas,era escuro,estreito e perigoso mas me faria demorar meia hora á menos pra chegar em casa,e eu me vi parada na frente dele,me perguntando para que lado deveria ir.Voltamos agora ao ‘’E se’’.E se eu tivesse pego o caminho mais longo?E se eu não tivesse me embrenhado até o fundo daquele beco e mesmo com as mãos trêmulas e suadas de medo e se eu tivesse voltado?Mas eu não voltei, eu engoli o nervosismo e continuei em frente.

Meu coração martelava dentro do peito,a cada ruído eu me virava para trás assustada e quando eu já podia ver a saída do beco,a rua com todas suas luzes e o prédio onde eu estaria suficientemente segura,ouço um estalido alto e várias vozes na saída do beco.Meu coração parou de bater por um segundo,e eu sem perceber parei de respirar.

_O que nós estamos fazendo aqui? – Disse uma das vozes,que era aguda e estridente – Não vamos achar nada aqui,o Lord das Trevas está ficando impaciente,vocês podem sentir arder não?Precisamos de mais um mas á essa hora não há nenhum levemente prestável na rua,talvez devessemos invadir alguma casa?

_Não Avery,já achamos o que procurávamos – Disse outra voz,essa era grave e tinha um ar de arrogância,e eu observei paralisada quando os três vultos completamente vestidos de preto se viraram para mim.

_Severo,você poderia conferir para nós por favor? – Disse a mesma voz e um dos três vultos se aproximou de mim,empunhando algo que me parecia um galho.

_Legilimens –Falou uma voz grave e extremamente fria.

Por alguns momentos minha mente virou uma confusão total,lembranças que eu já achava estarem completamente esquecidas vieram à tona,eu revivi,em um segundo,todas as surras do meu pai e as humilhações que passei nas mãos da minha madrasta e dos meus colegas de escola,me lembrei de todos os homens que já tentaram se aproveitar de mim e que nunca conseguiram,tudo,tudo passou pela minha mente em um segundo,e quando essa torrente parou eu estava caída de joelhos no chão,com a cabeça doendo horrivelmente e uma ânsia de vomito forte.

_Ela é limpa,acho que serve,espero que essa não morra- Disse a voz fria,que ainda apontava a varinha para mim – Estupefaça – Ele disse e tudo escureceu,a última coisa que eu me lembro é do chão,se aproximando mais e mais do meu rosto até eu apagar.

Acordei algum tempo depois,estava caída e sentia minhas mãos presas apesar de não haver nenhuma corda.Com dificuldade me sentei tentando enxergar os mesmos vultos do beco que andavam e conversavam á minha frente,mas minha visão estava incrivelmente embaçada,e um deles,o da voz fria se aproximou de mim e me segurando pelo pescoço forçou um líquido á descer garganta abaixo.Eu gritei,era horrível,rasgava minha pele por dentro,eu sentia meu estomago queimar como se estivesse em ebulição,então o fogo começou a se espalhar e quando eu senti que não aguentava mais eu desmaiei novamente.

Eu sentia dor.Dor.Dor.Dor e mais dor.Eu não aguentava de agonia.As vezes acordava gritando e sentia que estava deitada em uma cama em algum lugar muito claro,então sentia uma mão,sempre a mesma,que segurava meu rosto e forçava novamente aquele liquido pela minha garganta,eu sentia meu corpo rasgando,queimando,rompendo de agonia.Eu estava no inferno,inferno é a única descrição para aquilo.

Então,depois de algum tempo a dor começou a diminuir e eu pude pensar mais claramente.A mão continuava a me forçar aquele líquido garganta abaixo,mas eu não sabia dizer com que frequência,não sabia dizer nem se haviam se passado dias,horas,ou meses desde que aqueles vultos me encontraram no beco,a única coisa da qual eu tinha noção era da dor constante e insuportável,e da mão que fazia ela aumentar até se tornar insuportável,mas isso acontecia menos,não ardia mais tanto,e apesar de me sentir permanentemente envolta por um torpor que tentava inutilmente me proteger da insanidade eu comecei a perceber algumas coisas.

Eu comecei a contar o tempo em sonos,percebi que eu dormia mais ou menos o mesmo número de horas a cada ápice de dor então eu vou usar os sonos como parâmetro do tempo em que eu passei visitando o inferno.

No começo a cada um sono eu sentia o líquido me rasgar enquanto a mão o forçava para dentro de mim.Depois de algum tempo a cada sono eu também sentia que a mão me dava comida,não sei dizer o que era mas sempre me pareceu algum tipo de pasta sem gosto nem cheiro,que descia lentamente pela minha garganta machucada e deixava um gosto permanente de sangue na minha boca.E a cada dois sonos a mão trocava a minha roupa e me dava banho,eu tinha certeza que era um homem que fazia isso,mas não me importava,nada,nada poderia doer mais do que isso,e é claro que eu estava enganada.

Depois de vários sonos dos quais eu perdi a conta eu passei a beber o líquido a cada três sonos.Depois a cada quatro.Então quando a dor se tornou quase suportável,e eu bebia a cada seis.

Um dia então,ou uma noite,eu não tinha a mínima noção de tempo além dos sonos,eu me senti consciente de novo,quer dizer,eu acordava a cada sono mas não conseguia pensar muito bem,eu só sentia,não conseguia me mexer ou abrir os olhos,até engolir a papa sem gosto era difícil e pela primeira vez,no que eu sabia ser muito tempo,eu senti que conseguia me mexer.

Cada centímetro do meu corpo continuava a doer horrivelmente mas já era suportável,então com um esforço Hercúleo eu abri meus olhos e me esforcei para enxergar o quarto á minha frente.

Era um cômodo pequeno e muito branco,sem janelas e bastante limpo,havia no quarto apenas a cama onde eu estava deitada,uma cômoda também branca e uma poltrona confortável que estava logo do lado da minha cama,haviam duas portas,uma eu deduzi ser o banheiro e outra a saída,e haviam vários livros espalhados pelo chão e em cima da cômoda,como se alguém tivesse passado muito tempo ali e precisasse de algo com o que se distrair.

Eu ainda estava ocupada analisando o quarto quando ouvi um barulho do lado de fora de uma das portas que estava bem á minha frente,rapidamente fechei os olhos e me concentrei nas vozes e nos passos de dois homens que entravam no cômodo.

_ Milorde ela está assim á meses,eu tenho diminuído as doses como o indicado no livro mas tudo que ela faz é gritar e se debater,e se não tiver dado certo? – Perguntou a voz estridente que eu reconheci do beco.

_Concordo com Malfoy Milorde.Eu tenho feito exatamente como o livro indica á meses e nada tem surgido efeito...Talvez devessemos abandonar essa...idéia.

_Eu sei que ela tem melhorado Severo– Disse um terceiro homem que eu não havia ouvido entrar,sua voz era aguda e mais fria do que gelo,me fez sentir um arrepio horrível na espinha – Ela está afinal acordada. – Continuou a voz,meu coração pulou e eu achei que era melhor mostrar que eu estava acordada.

Abrindo os olhos eu fitei os homens á minha frente,um deles era alto e tinha cabelos tão loiros que chegavam a ser brancos,pelo que me lembrava era o da voz estridente,ele era bonito porém tinha uma postura extremamente arrogante,o que me fez desgostar dele quase imediatamente.O outro,o da mão,que cuidava de mim desde a noite no beco e que era provavelmente o dono de todos aqueles livros espalhados pelo quarto,era também um homem com postura arrogante e desdenhosa,mas por algum motivo eu gostei mais dele do que do outro,apesar do olhar de raiva e desprezo que me lançava,ele era alto e magro,tinha cabelos e olhos muito escuros e lisos,oleosos.Já o último homem,o da voz aguda,era a coisa mais estranha que já vi.Sua pele era tão pálida que chegava a ser de um tom acinzentado,seus olhos eram amarelos e ele não tinha cílios nem cabelos,seu nariz se resumia a duas fendas no meio do rosto por onde o ar saia e sua boca parecia deformada em um sorriso sádico porém muito satisfeito ao olhar para mim.

O da mão,que se chamava Severo, se aproximou de mim e encostou a mão na minha testa por um momento depois se afastou e avaliou meu estado por alguns momentos,tocando algumas partes do meu corpo e medindo meu pulso.

_Ela parece bem – Disse ele olhando para os outros – Consegue me entender?Consegue dizer algo?

Eu abri a boca tentando falar mas a minha voz não era utilizada a tanto tempo e minha garganta estava tão machucada que tive um pequeno acesso de tosse e cuspi sangue,Severo apontou então a varinha para mim e murmurou alguma coisa.Senti minha garganta parar de arder pela primeira vez em muito tempo.

_Sim eu consigo te entender perfeitamente – Eu disse em voz baixa,porém limpa,e não rouca como eu esperava.

_Finalmente – Disse o homem de voz aguda,que parecia mais uma cobra com pernas do que um homem.- Parece que conseguimos,mas eu não entendo Severo,o que você fez de diferente dessa vez?

_Nada Milorde,eu tenho me perguntado o porquê dela ter sobrevivido tanto tempo enquanto todos os outros morreram,mas a minha hipótese é de que só algumas pessoas conseguem sobreviver à transformação,não sei direito o que define isso,ainda,mas parece que demos sorte de encontrar alguém que sobrevivesse

_Pois Severo eu espero que você descubra o por que disso e talvez possamos fazer isso com um bruxo de verdade,já que não queremos manchar nosso sangue e desperdiçar nossa magia com trouxas nojentos como esses – Disse o homem de voz estridente e cabelos brancos,que deveria se chamar Lúcio Malfoy.

_Talvez isso não seja possível Lúcio,essa magia é tão forte que só um trouxa poderia te-la sem destruir a si mesmo e á todos á sua volta,é magia saturada,é o máximo que um ser humano pode ter sem ser destruído,um bruxo,com toda essa magia somada á sua natural com certeza não sobreviveria,e o pior,podia extravasar a magia para cima de todos nós.É uma sorte nós termos total controle sobre ela,uma arma como essa nas nossas mãos garantirá a vitória com toda a certeza Milorde.

_ Sim Severo,eu tenho grandes planos pra ela,grandes planos,é jovem e bonita,vai ser fácil moldá-la ao meu desejo,ela vai ser muito útil,com isso a guerra já esta ganha.

Eu observava eles conversarem sobre mim e o meu futuro,sobre toda a utilidade que eu teria para eles e isso foi me deixando mais e mais irada.Então quer dizer que eu tinha passado por toda aquela dor,e todo aquele inferno para servir de ‘’arma’’ em uma guerra da qual eu nem sabia da existência?E o que eram trouxas afinal?Minha cabeça rodava confusa e cheia de perguntas e sem a menor paciência decidi interferir no papinho deles.

_Dá pra vocês,por favor, pararem de falar sobre mim como se eu não estivesse aqui? – Perguntei e todos pararam de falar e se viraram para mim – Da pra alguém me explicar o que esta acontecendo?

O homem cobra que os outros chamavam de Lord sorriu para mim de uma forma muito sádica enquanto os outros dois me olhavam com desprezo.

_Quer saber o que está acontecendo?Nós lhe demos o maior presente que você poderia algum dia na sua vida possuir,nós te transformamos no ser mais poderoso de toda a terra depois de mim,é claro,você terá tudo o que sempre desejou se me servir bem e será a melhor dentre os melhores,acredite em mim querida,você é especial,diferente,única.E será muito bem recompensada por isso. – Ouvi atentamente enquanto o homem cobra falava,será que ele estava me enrolando ou o que dizia era verdade?Me perguntando o que teria acontecido comigo naquele beco e se eu estava louca de vez,fiquei em silêncio por alguns momentos absorvendo suas palavras.

_E qual seria exatamente esse presente que vocês me deram? – Perguntei com um sorriso irônico – Se você se refere ao...período pelo qual eu passei até poder suportar a dor o suficiente para poder pensar eu sinto dizer mas não quero mais presentes como esse.

_É melhor você ter mais respeito sua trouxa nojenta,veja bem como você fala! – Disse Malfoy.

_Calma Lúcio – Disse o tal Lord com um sorriso estranho no rosto– Ela só esta confusa.O presente do qual eu falo é poder.Magia.Algo que você não tinha até algum tempo atrás,e que agora tem mais do que todos os bruxos mais poderosos do mundo,tirando eu.

_Mas...O que são bruxos?E por quê eu sou trouxa?Como pode existir magia?Que tipo de poder,exatamente,você fala?Por quê escolheram eu para ter esse poder?De que guerra vocês tanto falam?E que tipo de serviços eu devo fazer para você?Eu estou...confusa.

_Acalme-se que mais pra frente explicaremos tudo pra você,por hora apenas durma – Ele fez então um sinal para severo que tirou das vestes um frasco com um líquido branco.Eu não queria beber,já sabia do que se tratava,mas eu ainda estava muito fraca e não pude evitar quando talvez pela centésima vez eu senti minha garganta queimar e minha mente mergulhar novamente na inconsciência.

Notas finais
Reviews não matam,espero que tenham gostado e sugestões são bem-vindas.