Caminho de Lágrimas
10 Recuperação
Notas iniciais
Dor.Dor,de novo,só pra variar.E mais dor.
Eu podia jurar que era o inferno,por que dessa vez,por mais impossível que isso possa parecer,foi muito pior do que todas as outras.Somadas.
Eu delirava com muito mais freqüência,não conseguia dormir uma hora inteira sem acordar gemendo e gritando,ou tendo convulsões violentas apenas para ser acudida por alguém,que pacientemente cuidava de mim.
Dessa vez eu não conseguia me manter lúcida ou levemente consciente nem por um ínfimo espaço de tempo.
Para mim esse período foi completa e apenas confusão,fogo,e dor.
No fundo da minha mente conturbada eu sabia o que havia acontecido.Snape havia chego,me pego bem na hora em que eu estava praticamente morta,e me salvo.De novo.
E agora ele deveria estar,provavelmente,administrando á poção em mim á cada uns trinta minutos.O que era insuportável.
Ao mesmo tempo que meu corpo estava fraco e debilitado ele estava também saturado de energia e magia.Incontrolável,insuportável.
Eu sentia como se ele agisse por conta própria.Meu próprio corpo me fazia querer gritar e me debater até não poder mais,eu queria ter as convulsões que provavelmente me matariam se não houvesse sempre alguém para me segurar e me impedir de me machucar,por que isso aliviava o excesso de energia no meu corpo.Aliviava a sensação de ser queimada viva,eu precisava liberar aquela força de dentro de mim,ou isso se tornaria tão forte que eu me auto-destruiria.Se eu pudesse,se tivesse controle de mim mesma,teria implorado á Snape para parar de me dar tanta poção.A teoria dele,de que eu podia ter o tanto de energia que eu quisesse,estava afinal,errada.
Passou-se muito tempo assim.A poção foi administrada em mim com menos freqüência e eu diminui bastante os ataques.O único problema é que eu não melhorava,tanto física quanto mentalmente,é difícil até para mim entender isso,mas naquele momento eu tinha exatamente a coordenação motora de uma criança de três meses,e pensava o mesmo tanto que uma.
A memória foi tudo que me restou.Eu não pensava nada,não tinha capacidade para isso,a dor e o desconforto não deixavam,mas me lembro de tudo como se fosse hoje.Essas são provavelmente as memórias mais nítidas que eu tenho.A minha teoria é que como o meu cérebro estava sendo super estimulado e não conseguia lidar com isso,ele concentrava a energia dele na memória e não no pensamento como seria normal.Já o por que eu não sei.
Acontece que no fundo,mesmo que pareça incrivelmente masoquista,eu estava feliz.Alguma coisa dentro de mim,mais antiga que a minha consciência,me dizia que eu merecia tudo aquilo.Acho que o nome disso é culpa.Eu me sentia culpada pro ter tentado me matar.Me sentia culpada pelo trabalho e pela dor de cabeça que estava dando ao Snape,e pela primeira vez em anos,me senti novamente culpada pela morte da minha mãe.
Eu abri os olhos um dia.Snape estava sentado em uma poltrona do lado da minha cama,lendo,isso me deu uma sensação muito forte de deja vú.Tentei me mexer e forçar meu cérebro á entender o que tinha acontecido,mas foi impossível.A única coisa consciente em mim era a sensação de culpa,que crescia no meu peito e ameaçava me sufocar.
Snape levantou os olhos do livro de repente,vendo com uma expressão visível de alívio que eu havia acordado.
Colocou o livro na mesinha de cabeceira e se aproximou de mim repousando a mão,que me parecia extremamente fria,na minha testa.
_Como você esta?Consegue me entender? – Ele perguntou,num tom de voz cansado mas quase gentil,quase.
Na hora eu não pensei nada,não respondi nada.Como eu disse,parecia mais um criança de três meses do que uma mulher de 19 anos.
Ele esperou pela minha resposta um pouco antes de falar.
_Gostaria de saber o que houve aqui.estava esperando você melhorar para perguntar mas parece que isso não vai acontecer tão cedo,acho que vou ter que fazer do jeito difícil então.
Dizendo isso ele se afastou de mim e puxou a varinha das vestes negras,apontando-a para mim.
_Legiliments
Eu me lembrava daquele feitiço,mesmo naquela hora eu ainda me lembrava.Tive a mesma sensação que da primeira vez,ele invadiu minha mente procurando,selecionando as lembranças que ele queria ver.
Encontrou aquela noite então,e me obrigou á reviver aquilo tudo,junto com ele.
Depois de algum tempo,que me pareceu torturosamente longo ele saiu da minha mente.
Para a minha surpresa ele cambaleou e caiu sentado na poltrona,ofegante,parecendo muito abalado.Ele olhou para mim por um momento,não pude identificar sua expressão com certeza,mas parecia algo próximo de pena.
Depois ele saiu do quarto me deixando sozinha.Mesmo por algum motivo querendo me manter acordada eu acabei dormindo e sonhando com aquela noite no beco.
Ele me acordou algumas horas depois,talvez,e me forçou á beber algo,que para minha surpresa não era aquela poção.Essa tinha um gosto doce e um tom azul,assim que ela chegou no meu estomago me senti instantaneamente bem.Suspirei aliviada,a dor ainda era insuportável,mas a poção acalmou minha mente e fez a sensação de culpa sumir.O lado ruim disso é que se eu estava tendo á mesma capacidade de raciocinar que uma criança de três meses,naquela hora suponho que eu havia regredido á um rescém-nascido.Estava completamente grogue,sem controle de nada,nem do meu corpo,nem as minha mente,acho que nunca estive mais vulnerável e o pior é que eu nem sabia disso.Um bêbado com problemas mentais teria mais controle de si mesmo do que eu.
Depois disso eu me lembro de muito pouco,parece que todo meu corpo parou de funcionar,se concentrando apenas na minha melhora,e a única coisa que me lembro são dos cheiros que ficaram gravados na minha memória para sempre.
Canela,almíscar e menta,misturados com de várias ervas que eu não podia identificar,somados ao cheiro característico de homem.No fundo da minha mente perturbada eu sabia de quem era,e mesmo ele sendo á última pessoa indicada para isso,me fazia sentir calma,tranqüila e segura.
Quando eu finalmente me recuperei,a consciência disso me assustou.
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