Caminho de Lágrimas
27 O Fim - Parte I
Notas iniciais
Boa Leitura.
_ Não, Milorde, mas peço que me deixe retornar. Me deixe encontrar Potter. – Snape pediu, como em um apelo para o Lord das Trevas que o olhava friamente. ‘Seus olhos estão vermelhos’ pensei. Mas como? Eu podia jurar que eram amarelos.
_ Você parece o Lúcio falando. Nenhum dos dois compreende Potter como eu. Ele não precisa ser achado. Ele virá a mim. Conheço sua fraqueza, entende, seu grande defeito. Ele não suportará ver os outros caírem fulminados ao seu redor, sabendo que é por ele que estão morrendo. Irá querer pôr um fim nisso a qualquer custo. Ele virá. – Voldemort estava furioso por algum motivo que eu desconhecia. Ele não demonstrava é claro, sua expressão era a mais perfeita máscara de impenetrável calma. Mas eu o conhecia bem, melhor do que qualquer outra pessoa eu arriscaria dizer.
_ Mas, Milorde, ele pode ser morto acidentalmente por alguém que não o senhor. – Severo parecia internamente apavorado, mas não demonstrava nada além da indiferença impenetrável, mais forte do que de costume.
Lá estavam, dois homens que eu conhecia melhor do que á mim própria, ambos fingindo sentir algo que não sentiam, e ambos perdendo a própria vida em nome do orgulho. A diferença é que um eu amava, e o outro odiava.
_ Minhas instruções aos meus Comensais da Morte foram absolutamente claras. Capturem Potter. Matem seus amigos... Quanto mais melhor... Mas não o matem. Mas é sobre você que eu queria falar, Severo, e não Harry Potter. Você tem sido muito valioso para mim. Muito valioso.
Eu estava encolhida em um canto da parede, meio abaixada para não correr risco de ser atingida em um provável caso de duelo. Eu sentia algo estranho no ar, e não tinha nada haver com a cobra Nagini se enroscando em uma espécie de jaula encantada que parecia preenchida de água flutuando no ar, era como se houvesse mais alguém naquele aposento, talvez dois bruxos, eu podia sentir a magia no ar. Eram bruxos jovens, porém poderosos.
E quanto á jaula de Nagini, era algo que estava me instigando. Desde quando a cobra precisava de tanta proteção? Principalmente quando eu já vi várias vezes o Lord usá-la para missões arriscadas, e agora ele parecia zelar tanto pro ela... Era estranho.
_ Milorde, sabe que só busco servi-lo. Mas... Deixe-me ir procurar o garoto, Milorde. Deixe-me trazer Potter ao senhor. Sei que posso...
— Já lhe disse, não! — exclamou Voldemort, e eu percebi um brilho mais vermelho em seus olhos quando ele se virou, o farfalhar de sua capa lembrando o rastejar de uma cobra, quase pude palpar a impaciência de Voldemort queimando no ar. Um veneno letal para qualquer um que se aproximasse .— Minha preocupação no momento, Severo, é o que irá acontecer quando eu finalmente me encontrar com o garoto!
_ Milorde, não pode haver dúvida, certamente...?
_ ... Mas há uma dúvida, Severo. Há. — Voldemort fez uma pausa, e pude ouvi-lo claramente escorregar a varinha entre seus dedos brancos, com os olhos de Snape seguindo seus movimentos.
_ Por que as duas varinhas que usei não funcionaram quando as apontei para Harry Potter? – Essa era uma pergunta que nem eu saberia responder. Sabia muito pouco sobre a história do Lord com Potter. E apesar de não entender boa parte do que eles falavam, eu podia ver o quão sério e importante era, e podia jurar que a vida de Snape dependia do rumo daquela conversa.
_ Eu... Eu não sei responder, Milorde.
_ Não sabe?
A pontada de raiva que apenas eu pude enxergar nos olhos de Voldemort era assustadora. Isso me deixou amedrontada, Snape estava á um passo de acabar com o resquício de paciência do Lord, e isso seria sua ruína.
Percebi uma energia mágica mais forte naquele momento, e tentei me concentrar para senti-la melhor. Havia alguém, um bruxo quase explodindo em magia escondido naquela sala, mas quem eu não poderia dizer. Vasculhei o aposento com olhos analíticos sem encontrar nada.
_ Minha varinha de teixo fez tudo que lhe pedi para fazer, Severo, exceto matar Harry Potter. Falhou duas vezes. Olivaras me falou, sob tortura, dos núcleos gêmeos, me aconselhou a tomar a varinha de outro. Fiz isso, mas a varinha de Lúcio se partiu ao enfrentar a de Potter.
_ Eu... Eu não tenho explicação, Milorde.
Snape não estava olhando para Voldemort no momento. Seus olhos negros estavam fixos na cobra movimentando-se em sua esfera protetora.
_ Procurei uma terceira varinha, Severo. A Varinha das Varinhas, a Varinha do Destino, a Varinha da Morte, tirei-a do seu dono anterior. Tirei-a do túmulo de Alvo Dumbledore. – Eu não tinha a menor idéia sobre o que eles falavam, só me perguntava que significado assombroso essa informação teria para fazer um homem como Severo Snape empalidecer daquele modo. Estava completamente inexpressivo, algo que vindo dele significava que estava á beira de um colapso.
_ Milorde... Me deixe ir até o garoto...
_ Durante toda essa longa noite, de vitória iminente, estive sentado aqui — Disse Voldemort, sua voz pouco mais do que um sussurro — Pensando, pensando, por que a Varinha das Varinhas se recusa á ser o que deveria ser, se recusa a agir como a lenda diz que deve agir para o seu legítimo dono... E acho que sei a resposta... – Os olhos vermelhos de Voldemort encaravam Snape. Sem nenhum resquício do brilho amarelo que eu teimava em me lembrar.
Snape ficou calado.
_ Talvez você já saiba, não? Afinal, você é um homem inteligente, Severo. Você tem sido um servo bom e fiel, e eu lamento o que terá de acontecer.
_ Milorde...
_ A Varinha das Varinhas não pode me servir corretamente, Severo, porque não sou o seu verdadeiro dono. A Varinha das Varinhas pertence ao bruxo que matou o seu dono anterior. Você matou Alvo Dumbledore. Enquanto você viver, Severo, a Varinha das Varinhas não pode ser verdadeiramente minha. – Eu estava apavorada. Algo horrível iria acontecer, eu sabia.
_ Milorde! — protestou Snape, erguendo a varinha.
_ Não pode ser de outro modo — replicou Voldemort. — Tenho que dominar a varinha, Severo. Domino a varinha e domino Potter, enfim.
E Voldemort cortou o ar com a varinha. Ela não afetou Snape, que, por uma fração de segundo, pareceu pensar que sua execução fora temporariamente suspensa: então, a intenção de Voldemort se tornou evidente. A jaula da cobra girava no ar, e, antes que Snape pudesse dar mais do que um grito, ela o envolvera, a cabeça e os ombros, e Voldemort falava em linguagem ofídica.
Eu entrei em choque, não conseguia me mover. Ouvi um berro terrível. Vi o rosto de Snape perder a pouca cor que lhe restava, embranquecer, e seus olhos negros se arregalarem quando as presas da cobra se cravaram em seu pescoço, pois não conseguira repelir a jaula encantada para longe, seus joelhos cederam e ele caiu ao chão.
Eu cai junto com ele, mas o baque foi abafado, ninguém pareceu ouvi-lo.
— Lamento — disse Voldemort friamente, sem demonstrar nenhum remorso pelo que fizera.
O Lorde das Trevas virou-se para sair; não havia tristeza alguma nele. Estava na hora de deixar a casa e assumir o comando, com a varinha que agora lhe obedeceria perfeitamente.
Apontou-a para a jaula estrelada que continha a cobra, e ela se elevou, afastando-se de Snape, caído de lado no chão, o sangue esguichando dos ferimentos no pescoço.
Voldemort saiu imponente da sala sem sequer olhar para trás, e a grande cobra acompanhou-o flutuando em sua enorme esfera protetora. Passou á centímetros de mim, mas pareceu não perceber minha presença.
_ Harry! —Pude jurar que ouvi alguém sussurrar, e sai do meu transe por um segundo. Porém antes que eu pudesse reagir um caixote em um canto da sala foi silenciosamente arrastado e de lá saíram um garoto alto e magricela, de cabelos negros desgrenhados, e uma menina com cabelos castanhos revoltos. Eram eles que estavam lá, no fim eu estava certa. Me encolhi permanecendo escondida pelo feitiço.
Aqueles eram Harry Potter e Hermione Granger, e eu sabia que eles precisavam falar com Snape.
Tiraram a capa que os escondia de bruxos normais assim que se aproximaram de Snape, Harry se curvou sobre ele, observando seus olhos arregalados. Severo segurava a frente das vestes de Potter, tentando visivelmente dizer algo.
_ Leve... isso... Leve... isso... — Alguma coisa além do sangue vazava de Snape. Algo prateado, nem gás, nem líquido, jorrou de sua boca, ouvidos e olhos, e Harry pareceu perceber o que era,assim como eu, mas não sabia o que fazer.
Um frasco materializou-se no ar e foi empurrado em suas mãos por sua amiga Nascida Trouxa. O garoto recolheu a substância prateada com a varinha. Quando o frasco se encheu e Snape pareceu exangue, ele afrouxou o aperto nas vestes de Potter.
_ Olhe... Para... Mim — sussurrou o Snape. Os olhos verdes de Potter encontraram os negros, mas em um segundo a mão que segurava Harry bateu no chão e Snape não se mexeu mais.
Potter foi embora, deixando á mim sozinha com as minhas próprias dores.
Assim que perdi Potter e Granger de vista me aproximei do corpo inerte de Snape. Rapidamente me livrei do feitiço de desilusão e assim que o fiz peguei na mão de Severo e olhei seu rosto.
Seus olhos negros estavam fixos, sem vida. Ele não mais respirava, sua pele estava fria. O sangue agora escorria lentamente e não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Abracei seu corpo sem vida e me encolhi junto á ele. Não haviam mais lágrimas para chorar. Estava acabado, não me restara mais nada.
Nada.
Me desesperei quando percebi que o único homem que realmente amei na vida se fora.
Não ele não podia morrer. Não podia me deixar. Era muita crueldade, depois de tudo, e eu estava sozinha novamente.
_Por favor Severo, por favor, não me deixe sozinha. Por favor, eu preciso de você. – Supliquei segurando seu rosto com as mãos. Soltei-o com delicadeza e posicionei-as no seu pescoço curando as feridas.
Eu sabia que era inútil, mas eu tentei, usei todas as minhas forças para curá-lo, para expurgar o veneno da cobra de seu corpo. Fiz tudo o que podia e o que eu não podia também. E quando não restava mais nada eu finalmente chorei, as lágrimas haviam voltado, e deixei-as pingar no rosto inerte de Severo.
Limpei com magia o sangue no seu corpo, e me recompus rapidamente, colocando uma máscara de frieza impenetrável nas minhas feições.
E como que deixando uma parte da minha alma para trás, abandonei o corpo de Snape ali, e segui á passos lentos, certa do que iria fazer, até o pátio externo de Hogwarts.
Estava quase amanhecendo, e o brilho pálido do sol me saldou melancolicamente enquanto eu saia da Casa Dos Gritos.
Aquele que me tirou tudo que eu tinha, e também o que conquistei, iria pagar. Mesmo que isso me matasse. A morte seria um consolo, quem sabe com ela eu não poderia ficar finalmente em paz.
Notas finais
''Eu cai junto com ele, mas o baque foi abafado, ninguém pareceu ouvi-lo.''Essa frase tem mais significados do que parece, prestem atenção nela.
Fale com o autor