Caminho Para Casa
2 Vigília
Notas iniciais
"A minha filha. Ela sabe o que você precisa saber. Procure-a quando eu for embora..."
Já se passaram – se arrastaram, melhor dizendo – três dias desde que seu mestre morrera. Sem saber ao menos como, cuidara de Riza nesses dias, adiara sua volta para a central. O dia da avaliação se aproximava, mas algo ainda o prendia à pequena casa dos Hawkeye, e Roy sentia que era extremamente necessário naquele lugar. Mesmo dirigindo três ou quatro vezes por dia a palavra à filha do mestre, ela parecia precisar tanto da presença dele – aliás, da presença de alguém na casa além dela mesma – quanto precisava comer ou beber. Coisa que a loira não fazia direito há semanas.
Naquele dia, ela caíra pela primeira vez.
A primeira coisa que viu foi a jovem loira, de cabelos curtos como os de um homem, de pé, olhando pela janela suja e pequena do quarto. O quarto onde seu pai costumava passar os dias, fazendo suas pesquisas. O mesmo quarto onde ele morrera.
Tinha nas mãos a roupa de cama, que ela mesma arrumava com alguma freqüência. Os livros ainda estavam desorganizados, e assim ficariam, como haviam sido deixados.
Roy ficou por alguns segundos observando aquela cena, que se repetia várias vezes pelos dias. Como ela sentia falta de seu pai. Não de nenhum carinho, não de nenhuma atenção. Apenas da presença. Poderia ser o que for, mas era o seu pai. E de algum jeito estranho, ele era importante para Riza. Desistiu de entender as saudades que pareciam infundadas. Roy pouco conhecera seus pais biológicos, então admitiu que não poderia compreender totalmente aquele sentimento de perda. Não da mesma maneira que ela.
Só sentiu que deveria entrar no quarto quando ouviu o som abafado de algo batendo no chão de madeira do lugar, e voltou correndo ao cômodo. Encontrou a filha do aprendiz caída no chão escuro, com os lençóis ainda nas mãos, que novamente tremiam.
Sem hesitar, Roy ajoelhou-se e a tomou nos braços, esperando que ela acordasse. Se viu desesperado, e não esperava ficar daquele jeito. Os olhos dela continuavam fechados.
"Elizabeth... Responda!" Disse, elevando a voz e tomando a face pálida de Riza numa das mãos.
Os olhos castanhos dela se abriram, pareciam apagados como de costume ultimamente, mas se abriram. Ela respirava sem parecer viva, mas estava.
Estava mais viva agora, porque, depois de varrer o quarto escuro com o olhar, grossas lágrimas rolaram por seu rosto — e os mortos não têm emoções. A sensação do corpo querendo expulsar tudo aquilo por lágrimas a fez se sentir viva.
"Não faça mais isso com... você, por favor. Eu te peço... Eu não sei o que você sente, mas não... desista assim... Não desista de viver, Elizabeth." Na última palavra, percebeu-se parando de raciocinar. O máximo de contato que tivera com a filha de seu mestre foram olhares. Ela agora estava em seus braços, apertando o tecido de seu casaco com as mãos geladas. Abraçou-a e posicionou a cabeça da jovem em seu peito, deixando que ela chorasse o quanto quisesse. Riza precisava daquilo. Não substituiria ninguém, mas estaria ali até que ela voltasse... à vida.
"Obrigada... Roy." Ouviu ela murmurar, ainda em seu abraço. Tinha se esquecido até mesmo de como era a voz da jovem.
Nada respondeu. Apenas levou-a até a cozinha e disse que precisava comer, quisesse ela ou não. Depois de alguma recusa, ela aceitou algo que poderia se chamar de jantar, feito pelo moreno, e comeram juntos.
E foram dormir, mas naquela noite e nas outras três antes da partida, as coisas foram diferentes.
Dormiram no mesmo quarto. Ela, na cama, e ele logo embaixo, em uma cama improvisada no chão. De madrugada, Elizabeth tinha pesadelos.
E ele prontamente se levantava, e limpava o suor de sua testa, e eventuais lágrimas. Acalmava seu coração com algumas poucas palavras, e sentava na cama até que Riza voltasse a dormir.
Não se incomodava de ficar acordado até que ela dormisse.
Passaram se, com um pouco mais de vida, e até com dois ou três sorrisos de boa noite, ou bom dia... Dois dias.
Melhor, três dias e duas noites.
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