Caminho Para Casa
3 Lado a Lado
Notas iniciais
Era noite de inverno e a neve voltava àquela pequena cidade, depois de vários meses. Riza se deitara distante dele naquela noite, do lado oposto em que ele se encontrava.
Os cobertores estavam molhados pela chuva inesperada, e tudo que tinham era um fino lençol, que ele havia cedido para Elizabeth.
Não dormia. Lia um romance qualquer, que estava perdido entre as pesquisas do seu mestre, sentado em sua "cama" e encostado na parede.
Abandonou a leitura para observar a beleza da filha do aprendiz – coberta apenas até a cintura pelo lençol. Tinha de admitir. Ela havia crescido desde que Roy chegara àquela casa.
Agora ela tinha o corpo e os traços de uma mulher – uma linda mulher.
Olhava pela primeira vez seus lábios rosados, nem finos, nem carnudos. Bem desenhados. Tinha um rosto inocente. Apesar de tudo ela era uma mulher – ou menina – muito forte. De rosto inocente e cabelos curtos.
Privou a si mesmo de olhar qualquer coisa abaixo deste. Seus olhos inquietos queriam, mas não olharam o corpo da jovem.
Quando ela se revirava na cama, o segredo reluzia em suas costas, e ele não evitou olhar as curvas desta. Desejou estar deitado naquela cama. Sua mente parecia escapar por entre os dedos, quase que o levou a imaginar o que não deveria.
Mas não evitou a imaginação tomando conta de si, quase levando seu corpo até a cama... Agora já sentia frio, queria que o corpo da filha do mestre o aquecesse...
... "Bobagem!" Pensou em voz alta, abaixando o livro e levando as mãos à cabeça. Suspirou e fechou os olhos. Rezava para que ela não acordasse agora. Respirou fundo e deu um sorriso irônico. Debochando de si mesmo.
"Como pude."
Fechou os olhos por alguns longos segundos, encostando a cabeça no criado-mudo, pensando em qualquer coisa que não fosse Riza adormecida na cama ao seu lado. Falando nessas palavras, eles pareciam até próximos. Parecia até com o desejo muito bem escondido de Roy naquele momento. "Na cama, ao seu lado..."
Maldita mente apaixonada. Ao menor sinal de esperança, já se torna irracional.
Talvez todo o clima pesado daquela semana tenha o impedido de sentir algo daquele tipo. Era sem dúvida uma fraqueza, algo não permitido numa hora tão delicada. Agora ele tinha sido um grande idiota, sim... e esperou aquele sentimento proibido ir embora de sua mente, com calma. Ainda de olhos fechados.
"Roy...?" Ouviu a voz doce quebrar o silêncio habitual da noite naquele lugar. Tudo voltou a fervilhar em sua mente, tudo ao mesmo tempo. Mas não abriu os olhos, pois queria se certificar que não era uma peça de seu pensamento.
A voz de Elizabeth o chamou uma outra vez. A voz dela era tão rara, e geralmente tão fechada, que era quase novo para ele escutar ela daquele jeito. Doce, um pouco rouca, sonolenta.
Abriu os olhos, lentamente, e a primeira coisa que viu foram as orbes castanho-alaranjadas de Riza o encarando, na ponta da cama.
Próximas das dele.
Ela tinha uma das mãos delicadas – e calejadas – no ombro dele, chamando-o, mas retirou assim que ele acordou. Como se sentisse medo.
Elizabeth parecia ter algumas palavras a serem ditas, mas elas ficaram pendendo de seus lábios por alguns longos segundos, nos que ficou encarando o aprendiz.
"Eu ia perguntar se você... sentia frio..."
Riza sentou-se na cama, e lhe estendeu a mão. Tinha nos lábios algo que devia ser o começo de um sorriso.
Ela se encolheu quando percebeu que suas roupas estavam desarrumadas, e suas pernas, quase totalmente descobertas. Puxou apressadamente o lençol para junto de si, e Roy não pode evitar um sorriso torto, ao ver as bochechas da loira visivelmente coradas.
"Eu estou bem." Respondeu, ainda com o sorriso estranho no rosto.
"Mas, se sentir frio... Você pode deitar... Aqui." Ela virou o rosto, tentando esconder. Não era do feitio de Hawkeye demonstrar os sentimentos daquela maneira. "Eu só não quero que fique doente ou algo do tipo."
"Não tem problema...? Para ser honesto..." Respondeu. Ora, na manhã seguinte, partiria para a cidade Central, e se alistaria. Confiava em si mesmo, mas era tão perigoso confiar no futuro, ele era incerto... O que aconteceria a ele e Elizabeth? Não sabia. Então pulou as cerimônias. E levou suas mãos de encontro à mão que Riza lhe estendia.
Igualmente sem cerimônias, a jovem indicou com um gesto que o aprendiz se deitasse na ponta oposta da cama. Apenas o bastante para dividirem o lençol.
Naquela noite gelada, a neve não parou de cair durante boa parte da madrugada.
E em algum momento dela, Roy sentiu um abraço quente, repentino, desesperado. Interrompendo seu sono, aquecendo seu corpo e o dela. Sentiu mãos apertarem o tecido de sua camisa como da última vez, e cabelos lisos roçando em seu peito.
Meio adormecido, meio acordado, Roy acomodou a jovem, envolvendo a com seus braços. Ela chegou a hesitar, mas foi suficiente uma carícia nos cabelos, para que ela voltasse a dormir.
Apenas após certificar-se de que Riza dormia, ele mesmo fechou os olhos e adormeceu.
Mais seguro, porque sentia que ela também estava.
Aprendera com o tempo a controlar as vontades. Mas agora, a única vontade dele era de protegê-la, e fazer com que ela voltasse das trevas em que havia se fechado há algum tempo. Manteve as mãos em seu ombro e nas costas, e de vez em quando, elas se aventuravam a acariciar a face da pequena, brincar com seus poucos cabelos. Permitira-se sorrir, só de olhar a calma daquele rosto, enquanto dormia no abraço do mais velho.
Foi a madrugada mais calma daquela semana. A mais fria. A mais bela também.
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