Cama de Gato
27 Despedaçada
O tempo que se seguiu foi relativamente tranquilo, seria a bonança que antecedia a tempestade?
Minha relação com Elias estava mais estável, ou seja, continuamos indo as festas e a boate, ele chegando à minha casa em horários absurdos e fazendo sexo nos lugares mais inusitados, porém, eu me sentia mais íntima dele, já que o conhecia um pouco melhor. No entanto, de vez em quando, me pegava pensando naquele beijo de George, um arrepio subia na minha espinha, mas, sacudia a cabeça para afastar essa ideia e seguia em frente, considerando que eu estava com Elias e George gostava de Letícia, aquilo só foi um terrível equívoco, sendo assim, para que não se repetisse, nossos jantares no meio da semana foram extintos, para minha total tristeza, pois o bom senso venceu, não dava mais para ficar perto dele, como se nada tivesse acontecido.
Muitas vezes, eu queria encontrá-lo, sem querer, no elevador ou na portaria, mas, nunca mais. A única ligação entre nós dois era Sabbath, que continuava indo e vindo sem nenhum constrangimento, alheio às nossas adversidades.
Foi aí que, inesperadamente, a tempestade começou a se armar no horizonte, acabando com a calmaria da minha vida.
Naquele começo de noite, voltava para casa, relembrando com saudades os meus remotos jantares com George, nossas boas conversa e aquele beijo...
Não!
Quando recebo uma mensagem dele, pedindo para conversar comigo com urgência, estranhei, já que desde o beijo, nós não nos falávamos.
“Estou em casa agora, se quiser pode vir”, respondi, curiosa, imaginando que fosse mais um pedido de desculpa ou algo parecido.
Não demorou muito e a campainha tocou, quando abri, lá estava George ainda com a roupa social de trabalho e um ar tenso, eu o convidei para entrar.
— O que houve? Aconteceu alguma coisa com Sabbath? Ele está doente? — perguntei, angustiada.
— Não, Sabbath está bem. Só que... Eu não sei como começar — Ele respirou fundo, passou a mão pela nuca e trocou o peso de pernas.
— Pelo amor de Deus, George, me diga logo o que está acontecendo!
— É melhor, você se sentar — Antes da minha resposta, ele me guiou para o sofá e sentou-se ao meu lado. Esperei, sem desviar o olhar, com o ar preso no peito. — Hoje, eu recebi um vídeo. Sabe, um daqueles vídeos que os homens ficam mandando uns para os outros.
— Não, eu não sei.
— São vídeos de sacanagens, sexo, mulheres peladas, essas coisas bobas.
— Vídeos de sacanagens? Eu não estou entendendo, porque isso é tão urgente.
Ele passa, novamente, a mão nos cabelos e engole em seco, vejo seu pomo de adão descer e subir.
— É que você está nesse vídeo, Sabrina.
— Eu em um vídeo de sacanagem?! Isso é algum tipo de brincadeira, George? — Eu rio do absurdo.
Ele sacode a cabeça em negação.
— Não, estou falando sério.
— O quê? Não, não é possível. Deve ser alguém parecida comigo.
— No começo, eu também achei que fosse, mas... Elias está com você.
— O quê?! Deixa eu ver isso!
— Você tem certeza?
Em resposta, estendo a mão, ele tira o celular do bolso, digita o código e me entrega. O aparelho parece queimar a minha pele, trêmula, trago para frente dos meus olhos. As imagens são ruins, em preto e branco, granulada, não dá para identificar bem as feições dos rostos. Mas, claramente, dá para identificar um homem ajoelhado diante de uma mulher com a cara entre as coxas delas, é evidente o que estão fazendo. E a mulher sou eu mesma. O vídeo termina, estou em estado de choque, quando entrego o aparelho para o seu dono.
— Quem mandou isso para você?
— Não sei, foi um cara do trabalho, que recebeu de outro cara, sei lá quem começou. Mas, fique tranquila, Sabrina. Não dá para ver quem está nesse vídeo, as imagens são muito ruins.
— Você soube que era eu — murmuro.
— Porque conheço muito bem você e Elias.
— Então, outras pessoas também poderão. Ele me disse que a câmera não funcionava, que não tinha problema. — Sentia completamente despedaçada pela mentira, por ser traída. Imaginava os meus amigos, minha família, minha mãe vendo aquilo. — Quem você acha que faria isso, colocaria esse vídeo na rede?
Como uma trapaça do destino, antes de ele responder a campainha toca, imagino quem seja, pois, lhe permiti entrada livre no prédio. Abro a porta e dou de cara com Elias, ele se espanta com a minha aparência, mas não fala nada, eu lhe dou passagem. Atrás de mim, George se levanta e os dois homens se encaram por um tempo. Não falo nada, só olho para Elias, cheia de raiva.
— Você já sabe? — Elias pergunta, timidamente.
— Sobre vídeo, sei. E você já sabia?
— Eu assisti, há alguns dias. Recebi de alguém.
— Porque não me contou — Minha voz se eleva alguns tons.
— Tinha esperança que você não descobrisse. E por isso que ele está aqui? — Elias pergunta, olhando para George, de modo duro.
— Isso não vem ao caso. Foi você quem fez isso? — rebato.
— Não! — Elias gritou.
Respiro fundo e tento manter a calma.
— Então, quem foi?
— Sei lá! Pode ter sido um empregado insatisfeito ou alguém que não goste de mim.
— Por que falou que aquela câmera não funcionava?
— Eu não sabia que haviam consertado. Você acha mesmo que deixaria isso acontecer se soubesse?
— Não sei. Realmente, eu não sei em que acreditar, nesse momento. Só quero que você vá embora da minha casa — digo, derrotada.
— Você tinha que fazer isso, não é mesmo, George? Tinha que vir correndo contar para ela, mostrar como é bonzinho. O sempre prestativo e perfeito George! — Elias me ignora e se volta para o outro homem, falando entredentes.
— Ela tinha o direito de saber. — George retruca, sem alterar a voz.
— Para quê? Para sofrer? Para chorar nos seus braços e você tirar proveito da situação, outra vez?
— Você queria esconder dela?
— E você quis fazer tudo, outra vez, bancando o herói?
— Você está enganado, Elias. Só não sou um cretino.
Outra vez? Que outra vez? Antes que abrisse a minha boca, o punho de Elias voa em direção ao queixo de George, que cambaleia, zonzo com a surpresa, mas, se recompõe rapidamente, pronto para revidar, porém, eu me precipito e me posto entre os dois, impedindo que agressão continue.
— Parem com isso! — berro, em plenos pulmões, estendendo os braços para mantê-los separados. — Vai embora, Elias.
— Sabrina? — Ele me olha, atônito.
— Vá embora, esfria a cabeça, a gente se fala depois — Sou firme, não vou mudar de ideia, assim, após uma última olhada, ele se vira e sai pela porta.
Quando a porta se fecha, eu me volto para George, que massageia o queixo dolorido, paro bem na frente dele, cruzo os braços e ergo o queixo, desafiadora.
— Agora, só nós dois. Você vai explicar direitinho essa história de outra vez.
Fale com o autor