Cama de Gato
28 Uma tremenda bobagem
— Outra vez? — Ele repete, com ar dissimulado, como se não entendesse.
— Sim, eu ouvi muito bem, quando Elias falou da outra vez. O que significa isso? — Minha voz é dura, não desvio os olhos dele.
— Você deve ter ouvido errado — Ele dá um sorrisinho irônico, que se transforma em uma careta de dor e leva a mão onde o soco o acertou.
— Não me venha com essa! O que você está escondendo? — Eu o encaro com meus olhos em fenda, percebo que ele está ficando acuado.
— Sabrina, eu não posso contar para você, eu fiz uma promessa — George muda o tom, quase humilde.
— Promessa uma ova! Você vai me contar essa história de outra vez, agorinha mesmo. Eu preciso, eu mereço saber, depois do que aconteceu! — Já havia perdido a paciência.
Ele me fita por algum tempo, analisando se deve falar ou não.
— Sim, você tem esse direito. Talvez, se soubesse, não teria acontecido outra vez.
Outra vez! Lá vamos nós de novo!
— Que outra vez foi essa?
George solta o ar com força e desaba na poltrona atrás dele, eu também me sento bem na ponta do sofá, sem tirar os olhos dele.
— Aconteceu com outra namorada de Elias, há algum tempo. Elias filmou, com o celular, os dois fazendo sexo e o filme acabou na rede. Ele se desculpou dizendo que o telefone havia sido roubado, que foram os ladrões que fizeram isso. A moça ficou arrasada, as imagens eram muito mais nítidas que as suas e o sexo muito mais explícito, então todo mundo soube quem era ela.
— Coitada! É ela acreditou nele? Nessa história de roubo?
— Elias apresentou boletim de ocorrência do polícia, testemunhas e tudo, mesmo assim, ela não o perdoou, porque ele havia prometido apagar o filme, imediatamente, e não fez.
— E o que você tem a ver com isso? Por que Elias acusou você, com tanta raiva?
— Não sei, talvez, porque eu dei razão a garota. — Ele deu de ombros.
— E por que não me contou essa história?
— Porque não achei relevante, não imaginei que iria se repetir.
— Você poderia ter me alertado. Achei que éramos amigos.
— Eu tentei, mas...
— Você é mais amigo de Elias — concluo, com tristeza.
— Não é nada disso! Não podia julgar e acusar Elias de algo que ele negava, não seria justo!
Eu não queria ouvir mais nada, estava confusa e muito magoada.
— Vá embora, George. Eu quero ficar sozinha — peço, com um fio de voz.
— Sabrina — ele murmura, abatido.
— Por favor, vá embora.
Parece que ele vai falar alguma coisa, mas desiste, se levanta e sai, fechando a porta.
De repente, como se soubesse da minha tristeza, Sabbath surge de algum lugar e começa a se esfregar nas minhas pernas, pula e se aconchega junto a mim.
— Será que você é o único que não vai me trair? — pergunto a ele.
Nos dias que se seguiram, eu não atendo os telefonemas de Elias e, tão pouco, respondo suas insistentes mensagens, todas declarando sua completa inocência, contudo, não tenho certeza disso. Também, andava um tanto alterada, pois, em todos os lugares que ia, olhava para os lados a procura de expressões e olhares suspeitos e a cada olhar cruzado, ficava imaginando se aquela pessoa assistiu ao vídeo e me reconheceu. Isso me deixava muito nervosa e agitada, usando óculos escuros, andava de cabeça baixa e encolhida, evitando olhar para os lados, para não ser reconhecida, tanto que, mesmo no trabalho perceberam essas mudanças.
— O que está havendo com você, Sabrina? — Ícaro perguntou, irritado, após a segunda vez, que trouxe a peça que ele pediu errada.
— Nada, estou bem.
— Mas, não parece — Ele me olha desconfiado, com certeza, sabe que estou mentindo.
Alguns dias depois, eu estava um pouco mais tranquila, considerando que ninguém veria aquele vídeo bobo, e mesmo que visse, dificilmente, me reconheceriam por causa das imagens ruins, até que Elisa se aproximou de mim, de um modo um tanto estranho, totalmente, sem jeito.
— Queria falar com você, Sabrina — disse, com cuidado, quando estávamos sozinhas.
Meu Deus, ela viu o vídeo! Meu coração acelerou.
— Ah! Claro.
— Eu sei que seu namorado é dono daquela boate bacana, a Fox. — Concordo com a cabeça. — Será que você conseguiria alguns convites para mim, em duas semanas, para comemorar o meu aniversário?
Respiro aliviada.
— Eu posso falar com ele — Não estou a fim de dar muitas explicações sobre a minha vida sentimental.
Então, vem a surpresa, quando a recepcionista aparece a minha procura.
— Seu namorado está aqui, Sabrina — ela avisa.
— Meu namorado aqui?! — Não posso acreditar, que Elias teve essa coragem.
— Está, não consegui encontrar você, assim eu o trouxe até aqui.
— E onde ele está?
— Perto da entrada — ela avisa.
— Não acredito! Você pode falar com ele agora sobre os convites! — Elisa quase pula de felicidade.
— Ah! Agora? Tá! Vou falar com ele.
Sigo a recepcionista, não podia culpá-la por trazê-lo até aqui, sei como Elias pode ser bem charmoso e envolvente.
E lá está ele, bonito e sexy como sempre, dando um sorriso grandioso em agradecimento para a moça por ter liberado a sua entrada.
— O que está fazendo aqui, Elias? – pergunto, em voz baixa para não sermos ouvidos.
— Você não atende meus telefonemas, nem responde as minhas mensagens, precisamos conversar — respondeu no mesmo tom.
— Não no meu trabalho.
— Oi! — Nós dois nos virando para encontrar Elisa logo atrás.
— Oi, Elisa esse, é Elias — falo rapidamente, querendo que ela vá embora, na verdade, quero que os dois desapareçam da minha frente, mas Elisa fica ali parada, com cara de boba, olhando para nós dois.
— Estávamos falando sobre você, ainda a pouco — ela revela, com um sorrisinho.
— Estavam? — Elias faz uma expressão de surpresa.
— É que eu pedi a Sabrina para falar com você, sobre uns convites para a sua boate no meu aniversário.
— E ela concordou? — Elias ergue as sobrancelhas, em dúvida.
— Sim, ela disse que iria conversar com você.
Elias abre um grande sorriso.
— E quando é o seu aniversário, Elisa?
— Em duas semanas. Vinte de julho.
— Está feito, vou lhe dar uns convites e você terá um drink grátis como cortesia, eu mando pela Sabrina.
— Obrigada, Elias! — Ela estava emocionada.
— Agora, se não se importa, posso conversar com Sabrina um pouco, Elisa?
— Claro! E mais uma vez, obrigada, Elias — Ela sai quase saltitante.
Elias se virou para mim, com um sorriso malicioso.
— Quer dizer, que você ia falar comigo.
— Não, só não queria contar a ela sobre o que acontece na minha vida, que você me transformou em estrela de um vídeo pornô.
— Eu já disse que não fui eu! Mas acho que descobri quem foi — ele falou um pouco mais alto, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam por ali.
— Não quero conversar sobre isso aqui, no meu trabalho. Aparece lá em casa mais tarde, para podermos falar.
— Você promete que vai me ouvir?
— Prometo.
— Sendo assim, até mais tarde, Sabrina
Fiquei olhando ele sair, sabendo que estava fazendo uma tremenda bobagem.
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