Cama de Gato

15 Até onde permitirei?


Quando entrei em casa, sentindo me confusa com tudo que aconteceu, dividida em relação a Elias, mas parei, ao me deparar com Sabbath, sobre a mesa da sala, observando atentamente um inseto contra a janela. Espero para ver sua reação, ele fica imóvel como uma estátua, esperando o melhor momento e, de repente, salta para dar o bote, quase capturando sua presa, que voa para longe. Frustrado, o gato observa sua caça fugir pela janela. Dou de ombros, às vezes, não dá certo mesmo

Vou para o meu quarto e tiro o vestido, verificando o estrago, não foi tão ruim assim, talvez, eu mande a conta da lavanderia para Elias. Aquele homem era louco, sem noção, fazendo o que quer, me levando ao extremo. Como pode, transarmos no banheiro do restaurante com a família dele toda ali? Não posso negar que foi perigosamente excitante. Testando os meus limites, até onde ele vai querer chegar? Até onde permitirei?

Estou no trabalho, quando recebo uma mensagem de George, na quinta-feira, no começo da tarde.

“Jantar lá em casa, hoje à noite? ”

“ Que tal na minha casa? “ Proponho, com coragem.

“Você vai cozinhar? ”

“ Sim, se quiser se arriscar”

“ Sou um homem corajoso. Levo a sobremesa”. Sorrio para a tela.

— Mensagem do seu namorado? — Elisa pergunta, ao ver minha cara de boba.

— Não, do meu vizinho.

— Quer dizer que você tem dois homens, Sabrina! — Elisa faz cara de falsa surpresa.

— Não é nada disso – respondo, rindo. — George é apenas meu amigo, como eu contei, dividimos a guarda do gato.

— Amigo? É estranho a amizade assim. Ele é gay?

— Não, acho que é só solitário, a namorada está fazendo um curso no exterior, por isso, gostamos da companhia um do outro.

— E seu namorado sabe disso?

— Claro que sabe, eles são amigos. Foi George que me apresentou Elias.

— Pode ser, mas continuou achando estranho.

Elisa nunca entenderia a minha amizade com George, além disso, ele era completamente apaixonado por Letícia, não tinha espaço para outra mulher, a não ser uma simples amizade.

Naquela mesma tarde, pensei até passar em um restaurante e comprar algo para o jantar, mas não seria justo, já que me comprometi a cozinhar, então teria que me arriscar. Passei no supermercado e comprei o necessário, poderia fazer algo básico, tipo uma massa à bolonhesa. Era só tentar me lembrar como a minha mãe fazia, mesmo que nunca estivesse por perto nesse momento. Poderia consultar um site para aprender. Contudo, não foi tão simples como esperava.

Assim que cheguei em casa, levei as sacolas para a cozinha, coloquei uma panela com água no fogo, depois, fui cuidar do molho. Tomates. Picar? Amassar? Passar no liquidificador. E agora, alho e cebola. Odeio picar cebola! Outra panela. Óleo ou azeite? Azeite. Um fio. Será isso? Como vou saber se está quente. Acho que já está, coloco o alho e a cebola que chiam, ficando douradas. A carne!

— Sabbath! — grito, quando vejo o gato em cima da mesa, comendo a desprotegida carne moída crua. — Não! — Eu o tiro de lá, espero que não fique doente.

Ah! Não tem outra, vai ter que ser essa mesma! A cebola está queimando. Jogo o resto de carne sobre a cebola um tanto tostada demais, mexo e coloco sal e pimenta, deixou dourar um pouco e jogo a suco de tomate.

Será que coloquei sal na água do macarrão? Melhor não arriscar. Boto a massa dentro da água fervente. O molho começa a borbulhar, mexo para não queimar.

Será que o macarrão já está no ponto? Cuidado para não ficar muito mole. Isso é muito complicado.

Acho que já está bom.

Recebo uma mensagem,

“Tudo certo para com o jantar? ”

“ Sim”. Digito, olhando a bagunça na minha cozinha.

Não quero perder tempo, escorro o macarrão, acho que ficou mole demais. Coloco em uma travessa e jogo o molho em cima, um pouco de queijo ralado. Olho para a minha obra, em nada parecida com a foto que eu vi no site. Só espero que esteja bom. Corro para arrumar a mesa, depois, cuido dessa confusão na cozinha.

A mesa posta bem a tempo, pois a campainha toca. Coloco os fios de cabelo no lugar antes de atender. Reparo que as mãos dele estão carregadas.

— Trouxe uma sobremesa, é sorvete, e um vinho — disse ao entrar, me entregando.

— Obrigada.

— Correu tudo bem?

— Tudo. Por quê?

— Sua blusa.

Olho para baixo e deparo com minha blusa toda respingada de molho.

— Vou trocar. Abra o vinho para nós — proponho, antes de sumir pela porta do quarto, me esquecendo completamente do caos que está a minha cozinha.

Quando retorno, encontro George com duas taças na mão. E me entrega uma.

— Ao seu jantar! — Ele ergue a taça em um brinde e eu o acompanho.

Durante a refeição, percebo que não ficou tão ruim, o macarrão está um pouco sem sal, mas nada que o saleiro não resolva, mas o vinho estava delicioso. Confessei a ele, a minha peripécia para preparar o jantar, até mesmo a parte que Sabbath comeu um pouco da carne crua. George riu, falando que o gato ficaria bem e deve ter aproveitado a refeição roubada. Ele me contou alguns dos seus erros na cozinha, rimos muito. Por fim, falei sobre o jantar com a família de Elias, evidentemente, pulei a parte do sexo no banheiro.

— O pai dele é muito rígido e crítico. É difícil agradar o velho. Por isso, acho que Elias desistiu, há muito tempo, tomou seu próprio rumo e, mesmo se dando bem com a boate, o pai o considera um fracassado, fala que isso não é trabalho de pessoa de bem — George revelou, fiquei chocada. — E como vão você dois?

— Eu não sei, relacionar-se com Elias não é muito fácil.

— Eu sei. Letícia me contava, quando estavam juntos, como ele era inconstante.

Ela contava tudo para ele? Eu preferia que ele não falasse aquele nome, nesse momento.

— Nós não nos falamos desde a noite do jantar de aniversário. Ele ficou meio aborrecido comigo.

— Não se preocupe, qualquer hora ele aparece bem ali, na sua porta, como nada tivesse acontecido.

Por fim, George insistiu para me ajudar arrumar a cozinha, mesmo eu dizendo que não precisava. Mais uma vez, lembrei-me do que Elias disse sobre George, que ele seria um par ideal, Letícia é uma garota de sorte.

E como George previu, na sexta à noite, sem nenhum aviso, Elias aparece bem na minha porta.

— Você não tem uma festa ou algo assim? — Não disfarço a minha irritação ao vê-lo.

Ele ergue as mãos como se rendendo.

— Só mais tarde. Posso entrar? — Assinto com a cabeça e saio da frente para lhe dar passagem, ele para bem na minha frente. — Eu sei que fui um cretino com você. Por favor, me desculpe.

— Certo. Mas, nunca mais faça algo assim comigo.

— Nunca mais. Vamos esquecer, está bem? Fizemos as pazes?

— Sim — confirmo com a cabeça, ele me abraça e me dá um beijo.

— Estou com fome, por acaso, você tem comida aí?

Rio e reviro os olhos. Ele é mesmo impossível.

— Tenho um pouco de macarrão que sobrou do jantar com... de onde à noite.

— Para mim, está ótimo.

— Tenho um pouco de vinho. Você quer? — digo, indo para a cozinha esquentar o prato dele.