Cama de Gato
16 Provocante
Sentados à mesa, observava enquanto Elias devorar com avidez, o prato de macarrão requentado da noite anterior.
— Está bom. Foi você que fez? — Confirmo com a cabeça. — Tenho uma festa mais tarde, quer vir comigo?
— Não, prefiro ficar em casa, não estou a fim de me arrumar hoje.
— Como quiser — Ele vira o resto da taça de vinho, em um único gole, e a coloca sobre a mesa. — Esse vinho é dos bons.
Não quero falar que foi George que trouxe, apenas sorrio, ele estende a mão e me puxa para o seu colo, sento bem de frente a ele, nossos corpos grudados, começamos a nos beijar, as mãos deles vão para baixo da minha blusa.
— Você nunca se cansa? — indago, com dissimulada inocência, mas ele sabe que estou gostando muito daquilo.
— Não, eu gosto de sexo, principalmente, com você — ele sussurrou, na minha boca, isso me deixa ainda mais acesa.
Esse homem sabe como provocar uma mulher!
Logo depois, estávamos no meu quarto, entre carícias indecentes e beijos enlouquecidos, por um segundo, me libero, vou até a janela e fecho as cortina, mas, Elias as abre novamente.
— Deixe-as abertas.
— Não, você enlouqueceu? Os vizinhos da frente poderão nos ver, na cama.
— E o que que tem?
— Não!
— Vamos fazer o seguinte: a gente apaga as luzes, ficamos no escuro. Eles não poderão ver o que estamos fazendo, mas teremos a sensação, que podemos estar sendo observados. Você nunca fantasiou em ser vista fazendo sexo?
— Não... sim, mas era só uma fantasia.
— Então, será só uma fantasia só que real, ninguém poderá nos ver aqui, no escuro.
Olhei para ele, depois para a janela e, novamente, para ele. Quero me convencer que está escuro o suficiente para ninguém nos ver. Estranhamente, aquela ideia vai me deixando mais excitada, fazer sexo na frente de todos, mas sem ser vista.
Será que alguém perceberia o que estava acontecendo ali? Ficaria tentando imaginar?
Elias percebe minha indecisão, não me dá mais tempo para pensar, quando me abraça e, lentamente, tira as minhas roupas e leva para cama. Enquanto, transamos, imagino ser observada por um voyeur, alguém parado em uma das janelas do edifício em frente, atrás de uma cortina, o que me deixa mais estimulada e um tanto exibida, sou uma outra mulher. Uma mulher misteriosa e sexy, que preencherá as noites solitárias de um pobre homem qualquer.
— Dá próxima vez, faremos com as luzes acesas — Depois, deitados lado a lado, esperando a respiração voltar ao ritmo normal, Elias me fala, um arrepio percorrer minha espinha, em um misto de receio e excitação, ao pensar nessa possiblidade. Será que teria coragem?
— Você é totalmente louco! — falo, sorrindo
— Eu sei! — Ele me dá um sorriso travesso e se levanta, procura sua camisa e tira de lá, o maço e o isqueiro, vai até a janela e acende o cigarro.
Eu saio da cama, me enrolo no lençol, fico ao lado dele, olho para o mundo a minha frente, observo as janelas com as luzes acesas e apagadas, que teriam visão da minha, depois, me volto, para ver o meu quarto mergulhado na penumbra.
— Não se preocupe. Ninguém nos viu — Ele parece ter tanta certeza.
— Não estou preocupada — Não, agora. — Você falou mesmo sério de fazermos sexo, com as luzes acesas?
— Sim, eu falei, mas só quando você estiver um pouco mais segura.
— Segura? Não acho que seja essa a palavra certa.
— Você não entende, que podemos descobrir o prazer de muitas maneiras diferentes, se não tivermos preconceitos.
— Isso está me soando como uma frase de filme de romance sadomasoquista.
Ele riu, de um jeito safado.
— Sadomasoquismo? Podemos experimentar, se quiser.
— Não, obrigada. Estou fora.
— Você é quem sabe, talvez, até gostasse — Ele deu de ombros e apagou o cigarro no peitoril da janela. Preciso me lembrar de comprar um cinzeiro. — Preciso ir. Tenho uma festa hoje, lá na boate. Tem certeza que você não quer vir comigo?
— Hoje não.
Ele começou a se vestir, eu o observou, pensativa. Afinal que tipo de sentimentos tinha por Elias? Sem dúvidas, ele era bonito, interessante, sexy e gostoso, mas, ao mesmo tempo, me deixa confusa e insegura, sempre me provocando. Então, ele vai embora e eu fico sozinha.
No sábado à noite, tem aquela eletricidade no ar, todos querem se divertir, se dar bem. Esse é o clima quando entramos na boate dele, mesmo antes da meia-noite, o lugar está bem cheio, há sedução no ar, olhares provocantes, corpos se movimentando sensualmente, os copos nas mãos, música na cabeça, a noite é repleta de promessas.
Vamos para um reservado, com pouca luz, um longo sofá de corvin preto e uma mesa baixa repleta de copos e garrafas de bebidas diversas já abertas. Lá, estão algumas pessoas, algumas famosas: um jogador de futebol já quase no fim de carreira, uma jovem atriz em ascensão, um cantor country com seu velado namorado e mais alguns asseclas. Como sempre, Elias é simpático fala com todo mundo, aperta a mãos, dá tapinhas nas costas e beijinhos no rosto, distribuindo charme e elogios, me apresenta por alto, por fim, sentamos no sofá. Em seguida, uma loura de pernas compridas e vestido tão curto, que quase deixa ver qual é o seu tipo de depilação, senta-se junto a nós, tão próxima que suas coxas nuas grudam com as do meu namorado. Aquilo me irrita, alguém coloca um margarita na minha mão, tomo um longo gole, sem desviar o olho na piriguete, que, praticamente, arrasta o peito no braço de Elias.
— O que essazinha pensa que está fazendo? — sussurrei no ouvido dele, sem disfarçar a minha raiva.
— Se oferecendo para mim — ele responde de modo casual, em voz baixa.
— Então, corte a dela!
— Se você quiser, nós três podemos nos divertir juntos, mais tarde. — Ele me dá um olhar maliciosa.
— De jeito nenhum! Não divido o que meu com ninguém.
— Então, eu sou seu. Gostei disso! — Ele parece, realmente, satisfeito com as minhas palavras e troca de lugar comigo, para desilusão da moça, que, se levanta e vai embora, amuada, fazendo biquinho.
Foi nesse momento é que a grande surpresa da noite aconteceu, pois diante de nós, surge George, com uma roupa, surpreendentemente, descolada.
— George, não sabia que viria! — Levantei em um pulo para cumprimentá-lo.
— Elias me convidou – respondeu e beijou o meu rosto, depois, estendeu a mão para o outro homem.
— Que bom que veio, cara! — Elias aceitou o cumprimento. — Antes de virar um homem sério, nós dois arrasávamos por aí pelas noites, dois bad boys — disse para mim, colocando um copo de uísque na mão do outro.
— Você quer dizer antes de eu me tornar um chato — George brincou, tomando um gole.
— Não consigo imaginar George como um bad boy — digo, depois de tentar imaginar aquela estereotipada imagem dele vestido de preto com cara de mal.
— Sim, mas ele era um tremendo canalha, arrasando os corações das meninas, zoando a noite toda. Se não acredita, qualquer dia, peça para ver as tatuagens dele, são demais. — Elias completa, pressinto uma dosinha de sarcasmo.
— Tatuagens?! Você tem tatuagens, George — Fico pasma.
— Não exagere, Elias. Não era bem assim — George se defende, um tanto sem graça.
— Agora, deixarei sir Lancelot com a minha bela Guinevere, enquanto vou dar uma circulada pelo meu reino e ver como estão as coisas — Elias graceja e sai, distribuindo sorrisos.
— Será que ele não sabe que Lancelot e Guinevere se tornam amantes e traíram o rei Artur? — perguntei a George, enquanto observávamos Elias se afastar.
— Tenho certeza que ele sabe disso. E já que estamos aqui, que tal dançarmos?
Fomos para a pista de dança, nos misturamos com a multidão de pessoas animadas ao som da música.
— Você dança bem? — digo, com sinceridade por cima da música alta.
— Surpresa?
Não tive coragem de confessar que sim.
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