Cama de Gato

33 Aquele plano maluco


Eu tinha inventado aquele plano maluco, envolvendo um monte de gente, para pegar o suposto culpado daqueles vídeos terem parado na internet. O cenário não podia ser outro senão a boate de Elias, pois se ele não era o culpado, com certeza, seria o pivô de tudo aquilo, sendo assim, não tinha jeito, eu precisava me encontrar com ele, mesmo que minha mão tremesse com vontade de esbofeteá-lo e meu estômago embrulhasse, toda a vez que o via, me fazendo relembrar daquela cena bizarra: ele nu sendo chicoteado por minha ex-amiga Elisa, então, eu respirava fundo, decidida a continuar com o meu intuito de descobrir como aqueles vídeos foram parar na rede.

George foi demais, conseguiu o pessoal especializado em vídeo de segurança para realizar o planejado.

— Você e Elias terminaram mesmo? — ele me perguntou, quando voltamos para o nosso prédio, no carro dele, na véspera do dia combinado.

— Sim, e dessa vez não tem mais volta.

— Foi tão sério assim?

— Digamos que foi incompatibilidade de estilos.

Ele sorriu. Nossa! Como eu gostava de vê-lo sorrir! Mas, não seja boba, Letícia o está aguardando no apartamento dele. E dela que ele gosta, que esperou todo esse tempo até ela regressar, para ficarem juntos. Desde o começo, eu sabia que nunca teria nenhuma chance com ele.

Enfim, sábado à noite, com toda a farsa combinada, os participantes já conheciam os seus papéis. Tudo devia parecer natural, por isso, Elias foi me pegar lá em casa, para me levar a boate, e eu tinha me arrumado muito bem, do tipo arrasador, um vestido bem curto preto, sandálias de saltos altíssimos, precisava impressionar. E impressionei.

— Você está linda, Sabrina! — Elias me deu um olhar sonhador, assim que entrei no carro.

— Não venha com essa, Elias! Isso aqui não é para você. É para os nossos planos. Vamos acabar com isso logo! — respondi de maneira fria, ele se calou, deu a partida no carro e seguimos rumo a Fox.

— Você não vai me perdoar?

— Não!

— Mas, eu não ia transar com ela, juro!

— Ah! Não iam transar! Então, está tudo bem — falei, com ironia.

— Mas, Sabrina...

— Chega desse assunto! Vamos nos focar nos nossos objetivos. Se tudo der certo, acabou, não precisamos mais nos ver, depois dessa noite.

Ficamos em silêncio. Recebo uma mensagem de George, confirmado que ele e Letícia já estão lá, em posição. Tudo ia bem.

Ao chegarmos a porta da boate, Elias entregou o carro ao manobrista e segurou a minha mão, fiz menção de soltar.

— Você não quer que tudo pareça natural? — ele me perguntou, direto, sacudi a cabeça e segurei firme a sua mão, entramos sorridentes, falando com um monte de gente, parecia mais uma noite normal.

No bar, pediu um uísque para ele e uma gim tônica para mim.

— Tome! Você vai precisar! — disse, me entregando o copo. Tive que concordar com ele, mais uma vez.

Durante o resto da noite, dancei muito, fingi que me divertia, mas, estava bastante tensa, olhando a minha volta. Elias me abraçou para dançar comigo.

— O que pensa que está fazendo? — sussurrei, brava, no seu ouvido.

— Representando — E me beijou, um daqueles beijos de deixar zonza, para todo mundo ver.

— Acho que está na hora — digo, sinto minha boca seca e o coração disparar.

— Vou mandar uma mensagem, para que George fiquei aposto — ele fez isso. — É hora do show!

Respirei fundo, quando Elias segurou a minha mão e me puxou para o fundo da boate até o conhecido depósito. Ele abriu a porta para entrarmos e a trancou, depois. Ficamos parado no mesmo lugar de antes, bem diante da câmera de segurança, esperava que o nosso voyeur assistisse tudo.

— Pronta? — ele sussurrou, mesmo sabendo que não podíamos ser ouvidos, mas, com certeza, podíamos ser vistos.

— Sim — disse, sem certeza, mantendo meu telefone escondido na mão, para receber notícias do andamento do plano.

Assim, ele caiu de joelhos, rastejou até mim, levantou o meu vestido e se aproximou a sua boca da minha pelve. Aquilo era muito constrangedor, só de imaginar que George e Letícia estavam assistindo aquela cena. Mas, espera aí! O que ele está fazendo? Segurei o cabelo dele com força, obrigando-o olhar para mim, o fazendo gemer.

— O que está fazendo?

— Representando. Você quer que o criminoso acredite, não quer? — responde, na maior cara de pau.

— Mas, não precisa ser tão real assim — rebato, irritada.

— Você quer que seja o mais real possível. Precisamos ganhar tempo para os outros — Fala, junto ao meu sexo.

— Não assim — digo, segurando seus cabelos, mantendo a cabeça dele longe o suficiente de mim.

— Considerei isso, como um bônus, pelo que eu fiz para você

— Eu já disse não!

— Sendo assim, por favor, um pouco mais de ação, Sabrina. Tenho uma reputação a zelar.

— Você é um babaca! — murmuro, mas ele tem razão, precisamos ser convincentes, então, começo a interpretar, jogando a cabeça para trás, fingindo que estou ofegante, mereço até um prêmio pelo meu desempenho. — Acho que já deu tempo suficiente — falo, quando recebo uma mensagem de George, fico aliviada, porque tudo acabou. — Podemos ir agora.

— Mandamos bem, Sabrina. — Elias fica de pé e limpa a boca com o dorso da mão, sem sair do personagem, e eu o encaro com o olhar em brasa, não estou disposta a brincadeiras.

Saímos de lá, direto para o escritório de Elias, onde foi montado um pequeno centro de comando, George e Letícia estavam sentados atrás da mesa, diante de dois computadores, um transmitia do depósito, enquanto outro transmitia cenas da sala de segurança da boate, onde colocamos uma câmera escondida. Os dois ergueram os rostos para nós, visivelmente, espantados com o que viram a pouco.

— Você dois foram muito convincentes — George falou, em um tom um tanto sombrio.

— Sabrina é uma excelente atriz — Elias respondeu, com um sorriso malicioso.

— Pare com isso, Elias! Vocês conseguiram? — perguntei, de um modo sério.

— Ah, sim! Conseguimos! — George voltou a realidade, sorrindo, vitorioso. — Vejam isso!

Nós nos aproximamos dos computadores, quatro cabeças juntas, quando passavam as cenas simultaneamente. Em uma das telas, Elias ajoelhado na minha frente, enquanto agarrava os seus cabelos, me contorcia e fazia caretas.

— Pode desligar isso, ou melhor, apagar, por favor? — peço, impaciente.

— Eu estou achando bem legal — Elias brinca e eu o fito com os olhos em fogo, ele se retraí.

— Olhem para a outra tela — George chama a nossa atenção, quando um homem entra na sala da segurança da boate, com alguns monitores transmitindo o movimento do lugar, e dispensa o funcionário que está lá dentro, já sozinho, mexe nos controles e uma das telas muda para a cena do depósito onde estávamos antes. — Ele chegou quase no mesmo momento em que vocês dois entraram no depósito, dispensou o outro cara que estava lá, devia estar vigiando.

— Você sabe quem é ele? — pergunto a Elias, que se concentra no perfil.

— É Rafael, ele trabalha como chefe da segurança — Elias parecia surpreso. — Cretino!

— Esperem que tem mais! — Letícia nos alertou.

Logo em seguida, uma mulher apareceu em cena e se aproximou de Rafael, os dois ficaram observando, na tela, aquela cena entre mim e Elias. Então, ela sorriu feliz e beijou o homem, de modo ardente.

— A loura! — gritei, reconhecendo, imediatamente, a mulher.

— Que loura? — Letícia se voltou para mim, esperando uma explicação, e eu olhei para Elias.

— Acho que Elias pode explicar melhor — respondo, de modo seco.

Elias coça a cabeça, procurando as palavras certas.

— Acho que o nome dela é Vanessa. Ela vem sempre aqui, acho que para conseguir, digamos, companhia e, de vez em quando, me prestava um favorzinho, sabe como é, quando eu estava muito estressado, me ajudava a relaxar.

— Eu nem quero saber como — digo, enojada coma a ideia.

— Mas, nós nunca transamos. Como direi, ela é boa com a boca, em troca, eu a deixo entrar de graça na boate e dou um drink de cortesia — Elias tenta se justificar.

— Muita benevolência da sua parte — eu falo, cheia de sarcasmo.

— Poupe-nos dos detalhes sujos — Letícia vocifera, de modo seco.

Naquele momento, estamos unidas, somos duas mulheres traídas pelo mesmo homem.

— Mas, por que ela faria isso? — George questionou.

— Vingança! — Letícia e eu respondemos em uníssono.

— Por quê? Eu não fiz para ela — Elias estava mais confuso.

— Será que vocês homens não entendem mesmo? Ela queria você, Elias. Então, colocou aquele vídeo na rede para afastá-lo de mim, pensando que assim poderia ficar com ela. Mas, em vez disso, você começou a namorar Sabrina, então, ela fez o mesmo. Simples. — Letícia explicou.

— Ela deve ter se envolvido com Rafael, para que a ajudasse na sua vingança — completei.

— Nunca imaginei que as mulheres pudessem ser tão maquiavélicas — Elias estava definitivamente pasmo.

— E eu nunca imaginei, que um homem pudesse ser tão sem-vergonha — falo, olhando diretamente para ele.

— E o que faremos agora? Entregamos o caso para a polícia? — George perguntou, de maneira objetiva.