Cama de Gato
34 Bom demais!
— Polícia?! — Não havia pensando nisso antes, o que faríamos se descobríssemos a verdade.
— Vocês sabem no que isso poderia implicar? — Letícia questiona, um tanto perturbada com a ideia. — Que todo mundo iria saber o que houve, não quero reviver tudo aquilo de novo.
— Mas, tudo ficará por isso mesmo? Eles ficaram impunes?— George rebate.
— Eu entendo a posição de Letícia. Também, não quero que isso aconteça, todos saberiam que sou eu naquelas cenas.
— Mas, assim esses crimes nunca serão punidos — George argumentou com calma.
— Posso demitir Rafael e proibir a entrada da Vanessa, mas só — Elias considera, dando de ombros. — E talvez... Acho que é melhor vocês irem, agora.
— O que você pretende fazer, Elias? — Aquele olhar estranho dele me chamou a atenção — Por favor, não faça nada ilegal, que possa se arrepender depois.
— Não, eu e resto do pessoal da minha segurança só pretendemos ter uma conversa bem séria com aqueles dois, mas, posso garantir que sem violência, será apenas um susto, para que nunca mais façam algo parecido.
— Por favor, não, faça nenhuma bobagem, Elias — George recomendou.
— Pode deixar, será só uma conversa, jamais colocaria a Fox em risco.
— E quanto a filmagem de nós dois no depósito? — Eu me recordo.
— Não se preocupe, já vou apagar — dizendo isso, George digita algumas teclas. — Pronto, essas já não existem mais.
— Que pena! Queria guardar de recordação — Elias faz uma cara de pesar e eu o encarado, zangada.
— Vamos! — Decreto.
Mas, antes de sairmos, Letícia para bem diante de Elias e o olha dentro dos olhos dele.
— Desculpe-me por não ter acreditado em você, Elias.
— Apesar de falar que não fui eu, o tempo todo — ele respondeu, sustentando o olhar, aquilo estava ficando muito intenso.
— Eu, realmente, lamento — ela abaixa os olhos e se vira.
Saímos, deixando Elias para trás.
— E agora? Sente-se melhor, sabendo que não foi Elias, que fez aquilo conosco? — perguntei a Letícia, dentro do carro de George, de volta para casa.
— Na verdade, eu me sinto muito mal, por tê-lo acusado injustamente, mesmo ele afirmando inocência.
— Agora, é tocar a vida em frente. Virar essa página — George tenta animá-la. — Podemos comemorar!
Comemorar o quê? Pois, apesar de Elias ser inocente nos casos dos vídeos, o safado traía nós duas com outra mulher.
— Não quero comemorar, estou cansada e viajo para a casa dos meus pais, amanhã bem cedo. — Letícia informa, quando chegamos ao nosso prédio. — Se vocês dois quiserem, fiquem à vontade?
É isso mesmo? Que estranho!
— Não, prefiro ir para cama, foram muitas emoções para uma única noite — respondo.
Espera aí! Se ela for embora, quer dizer que vai levar Sabbath com ela! E eu nem vou poder nem me despedi. Meus olhos se enchem d’água.
— Boa noite e boa sorte, Letícia. Até a próxima, George. Valeu por tudo. — Eu me despeço apressada, no elevador. Entro no meu apartamento, corro para o meu quarto, me jogo na cama e choro a noite toda.
Nos dias que se seguiram, não tenho notícias de ninguém, volto a aparente vida normal, antes de conhecer George e Elias, exceto por não olhar mais na cara de Elisa, que toda vez que me vê, foge ou fica encolhida em um canto. No trabalho, ninguém sabe o que aconteceu, assim não entende porque deixamos de ser amigas.
Passaram-se dias, semanas, mil anos, retorno para o meu apartamento vazio todas as noites, ainda tenho a ilusão de encontrar Sabbath dormindo no sofá, tanto que não consegui tirar os objetos dele de lá. Ao mesmo tempo, penso que George está bem no andar de cima, bastavam alguns degraus para chegar até ele. Somente, espero que esteja feliz ao lado de Letícia. Talvez, possa descobrir onde ela mora e visitar Sabbath, qualquer dia desses.
Naquela noite, estou meio deprimida, mesmo sendo véspera de feriado, nem quis sair com meus amigos, fui me deitar cedo, dormia um sono sem sonho, quando senti alguma coisa espetar o meu dedão, encolhi o pé, então algo peludo roçou em mim, dei um pulo assustada, corri para acender a luz, olho para a minha cama.
— Sabbath! Como conseguiu chegar até aqui? — Eu me aproximo e seguro o gato, com carinho — Senti tantas saudades!
Em resposta, o gato mia, reclamando no meu afeto exagerado. Minha primeira intenção foi escondê-lo para não o entregar a sua dona, porém, não seria justo. Mas, não sei onde Letícia mora, só havia uma alternativa que seria procurar por George. Faria isso no dia seguinte bem cedo. Voltei a dormir, junto com o gato, na minha cama.
No dia seguinte, mais cedo do que imaginava, acordo com a campainha, demoro entender o que está acontecendo até ir atender. Olho pelo visor e vejo George no corredor, com roupas casuais, barba por fazer e ar preocupado, mais lindo do que nunca.
Segure a onda, Sabrina!
Então, me lembro do gato, abro a porta, assim, como eu, ele parece um tanto inibido.
— Desculpe por acordar você tão cedo, em pleno feriado, mas eu estou procurando por Sabbath.
— Ele está aqui em casa — confirmo. —Você não quer entrar?
Diga que quer, por favor.
— Não quero incomodar.
— Você não está me incomodando, eu estava apenas ... dormindo. Mas, agora, já estou bem acordada. Quer um café?
— Um café seria ótimo.
Saio da frente para lhe dar passagem, ele dá alguns passos à frente e entra, ficamos olhando um para o outro, calados por algum tempo, escolhendo as palavras.
— Eu descobri como Sabbath fugia do meu apartamento, pela janela, andando pelos peitoris, então mandei colocar tela, não queríamos incomodá-la mais. Eu não sei como ele escapou, outra vez.
— Vocês não me incomodam de jeito nenhum. Aliás, eu gosto de ser incomodada por vocês, quer dizer, pelo gato.
— Eu não queria mais, depois de todos os problemas que causamos a você.
— Você não me causou nenhum problema, muito pelo contrário, eu senti bastante a sua falta.
— Eu, também, senti a sua.
Então, eu me lembrei.
— O que Sabbath está fazendo com você, pensei que Letícia o tivesse levado?
— Não, Letícia voltou para Austrália. Ela conheceu alguém por lá e estão bem, por isso, perguntou se eu queria ficar com Sabbath. Eu disse que sim.
Estava chocada.
— Eu lamento tanto por você, George. Depois, de esperar por ela tanto tempo.
— Não foi bem assim — ele falou, sem jeito, passando a mão na nuca.
— Não?
— Essa história entre mim e Letícia foi não foi nada demais, começou por causa de Elias, para afastá-lo dela. Ele ficou obcecado, querendo provar a inocência dele. Mas, há muito tempo, somos mais amigos do que namorados, ela me falou da pessoa que gostava e eu... bem, falei de você.
Meu queixo literalmente caiu.
— Quer dizer que era tudo mentira?!
— Mais ou menos, nós ficamos juntos por um tempo, depois, que ela e Elias se separaram, mas não deu certo entre nós, no entanto, para efeito continuávamos juntos. Eu quase confessei a verdade, um monte de vezes, então, você começou a ficar com Elias, assim, achei melhor deixar para lá. Por sinal, você e Elias voltaram?
— Não! — Sacudi a cabeça com veemência. — Eu não vejo Elias desde aquele dia, na boate.
— Eu pensei que vocês ficariam juntos, outra vez, depois, daquela cena no depósito.
Sinto o meu rosto queimar, um tanto tímida.
— Aquilo! Pode se dizer que foi interpretação de verdade, sou uma boa atriz. — Dou um sorrisinho sem graça.
— Fico feliz que seja uma boa atriz.
— Então, você falava de mim para Letícia? — pergunto, de um jeito malicioso.
— Sim, falava bastante.
— Bastante? — murmuro.
Ele sacode a cabeça afirmativamente, dá um passo à frente, fica tão perto de mim, que me arrependo de não ter escovados os dentes.
— Fico feliz que você esteja sozinha, Sabrina — fala tão próximo a mim, que posso sentir o seu hálito cheirando a menta. — Porque assim eu posso fazer isso.
E gruda sua boca na minha. Um beijo deliciosamente quente e apaixonado, tirando meus pés do chão.
Não acredito que isso esteja realmente acontecendo! Será que estou sonhando? Não, eu tenho certeza que estou bem acordada, beijando George, outra vez.
Enquanto isso, deitado, no sofá, Sabbath nos observa, impassível, como se dissesse: Finalmente. Depois, fecha os olhos e volta a dormir.
Notas:
Nunca mais encontrei com Elias e, sinceramente, espero que ele seja feliz do jeito dele.
Letícia está bem contente com seu australiano bonitão e, de vez em quando, trocamos umas ideias.
Felizmente, Elisa foi trabalhar em outro lugar, porque não suportava mais olhar para aquela cara de sonsa dela.
E como podem imaginar, eu e George estamos juntos, o que está sendo muito, muito bom! Na verdade, bom demais! Não sei porque esperamos tanto tempo por isso. Continuamos com a guarda conjunta de Sabbath, talvez, devamos arranjar alguma companhia para ele.
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