Notas iniciais
"It may be hard for you to Stop and believe But for you You I'd leave it all Oh, for you You I'd leave it all".

George olhou acusadamente para os pais.

–- Por que foram tão ríspidos com ela? – ele perguntou, indignado. O pai deu de ombros, enquanto observava a TV, e a mãe disse, devolvendo a rispidez:

–- Eu disse que não queríamos conhecê-la.

–- Acho que ela também não estava muito empolgada pra nos conhecer – o pai disse, sem tirar os olhos da TV. George fechou os olhos. Tentou raciocinar com calma.

Ela não tinha telefone. Só tinha uns trocados, como George sabia. Ela não conhecia nada da cidade. Provavelmente, maluca do jeito que era, saíra ziguezagueando por aí. E se procurasse cocaína? Ou pior, e se achasse alguém com cocaína?

George se levantou e foi até o outro extremo da sala. Apoiou as mãos no piano de cauda de ouro, não usado há muito. Ficou olhando pela janela, como se quisesse que seus olhos ultrapassassem a névoa.

Angel estava lá fora em algum lugar. Sozinha.

George já havia prometido que não ia deixá-la sozinha de novo.

Tirou as mãos do piano como se quisesse empurrá-lo. Ficou andando pelo cômodo, passando os dedos pelo cabelo. A xícara vazia de Angel ainda estava em cima da mesa. A mãe de George perdeu a paciência:

–- Depois você acha essa garota!

–- Ela não conhece nada aqui – George protestou.

–- Ué, ela tem dinheiro.

–- Não, não tem.

A mãe riu.

–- Eu disse que namorar alguém do nível dela era problema. Eu disse.

Eu to me fudendo pro que você diz ou deixa de dizer, George pensou. Controlou a língua. Pegou a carteira, em cima da estante, e abriu a porta.

–- Aonde você vai? – o pai perguntou.

–- Procurar ela – George limitou-se a dizer, friamente. – Fiquem à vontade.

Saiu e fechou a porta. Quando chegou à calçada, olhou para os dois lados. A esquerda dava pra uma avenida movimentada. À direita, para um conjunto de ruelas quase vazias. Angel sempre fora um pouco antissocial – aliás, fora isso que o atraíra nela --, então, mesmo que inconscientemente, ela sempre iria pelo lugar onde tivesse menos gente.

Ao chegar ao lugar aonde mais três ruas vinham ao seu encontro, ele parou e observou. Do que Angel gostava? De preto e branco, de coisas antigas, de flores. Havia uma rua com uma floricultura. George seguiu por ali. Parou na frente de uma lojista loura, com olhos verdes opacos.

–- Com licença... Você viu uma garota? Pálida, com cara de morta, cabelo preto liso e olhos castanhos? Provavelmente correndo. Ou chorando. Ou correndo e chorando. O nome ela é Angel.

–- Hum... Ela foi pra avenida, eu acho – a lojista apontou. Parou e olhou bem pra George. – Você não é...?

–- Sou, sou – George disse, impaciente. – Sou quem você quiser, tchau.

E continuou andando. Chegou até a esquina da avenida, e olhou para os lados. Ônibus, carros, motos, ônibus de turismo, bicicletas, motocas, mas nada de Angel. Ele vasculhou cada centímetro com os olhos, até que achou uma forma parecida com ela.

Começou a correr. Na frente dela, havia um homem branco, alto, moreno, com um topete, que entregava um saco plástico para Angel. George quase gelou, mas resolveu chegar sem fazer alarde.

Simplesmente colocou o braço na frente quando o homem ia entregar o saco a Angel. O homem olhou pra Angel, e depois pra George, e disse:

–- A gente tá fechando negócio.

–- Não estão mais – George disse, com uma voz gélida.

O homem fez cara feia, mas se virou e se afastou, levando o pacote. George se virou para Angel. Ela abaixou os olhos, com uma expressão de culpa. Seu rosto parecia estar desmoronando lentamente; seus lábios brancos estavam tão rachados que apreciam prestes a cair. Meu Deus, como George sentia pena dela.

–- Desculpe – Angel disse. George quase pôde ver sua garganta seca.

–- Pelo quê? – ele perguntou.

–- Por ser uma vadia.

George balançou a cabeça negativamente.

–- Me desculpe – ele corrigiu.

–- Pelo quê? – ela perguntou.

–- Por deixar você ir embora.

Angel fechou os olhos. George a puxou pra si. Ela grunhiu, abafadamente:

–- Por que está me abraçando?

–- Porque se você me abraçar tudo vai embora.

Angel pareceu concordar. Mas perguntou:

–- Seus pais estão lá?

–- Eu posso mandar eles embora, se você quiser – George disse. Angel se afastou, com os olhos arregalados. Ela perguntou, estupefata:

–- Você deixou seus pais lá? Por quê?

George suspirou.

–- Pode ser difícil para você parar e acreditar, mas por você eu deixaria tudo.

George quase pôde sentir Angel parar de respirar. Ela piscou, uma duas, três vezes, até balançar a cabeça negativamente.

–- A gente podia desaparecer hoje à noite – ela disse. – Rua abaixo.

–- Sim – George concordou. – A gente podia.

Os dois voltaram a andar. Angel estava cambaleante e hesitante, mas George mantinha o braço em volta de sua cintura. O sol batia diretamente em seu rosto, mas ali costumava fazer tanto frio que aquele pequeno filhete de luz parecia ser a melhor coisa do mundo.

George sabia que Angel estava se sentindo uma merda.

–- Você tem um cigarro? – ela perguntou, por fim.

–- Tenho – George admitiu. – Mas não é pra você.

–- George!

–- Você tem que parar de fumar, mas eu não.

Angel estendeu a mão e tirou do bolso da camisa de George o maço de cigarros. George não a impediu. Ela tirou um cigarro do maço e colocou na boca. Colocou a caixinha de volta no bolso dele, e ficou fitando-o, com os olhos castanhos, e um cigarro apagado pendurado na boca.

Por fim, George cedeu. Tirou do bolso o isqueiro, e acendeu. O fogo tremeluziu, e George inclinou-o na direção do cigarro de Angel, que não fez o mínimo esforço pra nada. Ela puxou a nicotina para seus pulmões, e manteve-a neles por um longo tempo.

George observou a ponta do cigarro queimar. Angel não sorria, mas em seu olhar havia um tom de provocação que fazia George perder a compostura. Ele deixou o isqueiro na mão, enquanto Angel tirava o cigarro da boca. Ela disse:

–- Eu não devia voltar pra sua casa. Seus pais não gostam de mim.

–- Eles não entendem – George respondeu. Tirou o cigarro da boca de Angel e colocou na sua, inalando a fumaça. George admitia que a presença de Angel o acalmava mais que aquela cartela de cigarros. Ele continuou: -- Eles acham que eles perderiam muito se você pegasse na minha mão.

–- E você? – Angel indagou, sem tirar o cigarro da boca de George.

–- Por você – George disse, endireitando a coluna. – Eu perderia tudo.

Angel tomou o cigarro de George, que deixou os lábios entreabertos. Angel inalou profundamente o cigarro, e George ficou olhando o toco queimar. Angel jogou a bituca no chão, e virou o rosto para George.

Soprou a fumaça em seu rosto.

George sentiu a fumaça envolvê-los.

–- Isso ajuda a relaxar? – Angel perguntou.

–- Você ajuda a relaxar – George disse.

Finalmente, estavam no portão da casa de George. A mãe dele tinha aberto as cortinas, e se podia ver a TV na sala. George deixou Angel ir primeiro, mesmo que ela estivesse tremendo um pouco. Ela parecia querer correr pra fora novamente, mas dessa vez George não deixaria.

Abriu a porta. Angel entrou, mas ficou encostada na parede de dentro, fitando o teto. George fechou a porta, e gritou:

–- Pai? Mãe?

–- Aqui – ouviu o pai responder, em algum lugar na cozinha.

–- Você achou aquela garota, George? – ouviu a voz da mãe. Em seguida, ela entrou no cômodo, vasculhando na bolsa. Sem olhar para George nem para Angel, ela continuou: -- Você devia deixá-la, sério, filho.

George pigarreou. A mãe levantou os olhos. Olhou para Angel, depois para George, e fez cara feia.

–- George, você devia limpar esse lugar de vez em quando – disse, voltando para a cozinha.

George olhou para Angel. Ela estava séria, olhando para George, sem expressão. Ela começou a fitar inexpressivamente a janela da sala.

–- Não quer que eu vá pra outro lugar? – perguntou ela, em tom baixo. – Talvez fosse melhor.

–- Não precisa – George disse, igualmente baixo. – Eles vão acabar gostando de você.

–- De uma vadia?

George colocou uma mão na parede, ao lado da cabeça de Angel, se apoiando.

–- Você não é uma vadia – ele disse.

–- Nem telefone eu tenho – Angel retrucou.

–- Eu conheço várias pessoas que não tem telefone.

–- Quem?

George não respondeu. Ao invés disso, se aproximou de Angel, e deu-lhe um beijo no canto do lábio. Ela ainda cheirava a cigarro. George enganchou a mão livre na de Angel, se afastando e arrastando-a consigo para a cozinha.

–- Olha quem está aqui – George disse, perto do pai. O pai levantou os olhos, olhou para Angel, depois voltou a olhar para o celular, e disse:

–- Bom.

Angel olhou para George como se dissesse: “Eu não vou dizer que te avisei, mas eu te avisei”. George ignorou isso e se dirigiu a mãe:

–- Você não me contou como está tia Mary.

–- Ela está bem – a mãe disse, rispidamente. George percebeu que não conseguiria tirar nada dos pais, então apenas se sentou numa cadeira ao lado da bancada. Fez um gesto para Angel sentar-se junto, mas ela negou com a cabeça.

George estendeu a mão e puxou a blusa de Angel, que se deixou cair na perna esquerda de George. Ele apoiou o queixo no ombro dela, e começou a falar, distraidamente:

–- A gente podia fazer alguma coisa. Almoçar ou jantar – George estalou os dedos, de animadamente. – Um piquenique, talvez.

–- A gente? – a mãe indagou.

–- É. Eu, papai, você e Angel.

A mãe riu sarcasticamente. George viu Angel morder o lábio e abaixar a cabeça. George não ia aceitar uma derrota tão facilmente.

–- Não seria legal, pai? – ele perguntou. – Um piquenique. Pra vocês conhecerem Angel.

O pai não respondeu.

–- Pai? Você não acha que seria bom?

O pai olhou para o filho, depois para Angel.

–- Não muito, George – disse.

–- Por quê?

O pai ignorou a pergunta, e resolveu tentar sair do cômodo. George o parou com um toque no braço.

–- Fala, pai.

–- George – o pai o repreendeu. – Ela não é... Do mesmo nível, George.

Angel entendeu perfeitamente a indireta. Levantou-se do colo de George e saiu do cômodo, trêmula, com a mão na boca. George olhou para o pai, que fitava o lugar por onde Angel havia desaparecido, depois jogou a cabeça pra trás.

–- Meu Deus – disse. – Meu Deus, vocês não entendem nada.

–- Olhe o jeito que você fala – a mãe o repreendeu. George arfou, indignado.

–- Eu? Meu deus, mãe! Vocês não tem motivo pra tratar a Angel assim.

–- Angel? Que ironia esse nome, ein, George. “Anjo”. Uma vadia.

George não era violento, mas ele seria capaz de pular no pescoço da mãe. Ao invés disso, cerrou os punhos e apoiou a cabeça nas mãos. Provavelmente convidar os pais tinha sido uma péssima ideia. Talvez fosse melhor apenas Angel e ele.

Aliás, era no que estava pensando desde que chegaram.

Ele saiu da cozinha. Ele bateu na porta do banheiro, onde Angel provavelmente havia se refugiado.

–- Angel? – ele chamou.

–- Não tem ninguém aqui – Angel retrucou.

–- Ah, certo – George disse. – Então, eu posso abrir.

Ele empurrou a porta. Angel havia se esquecido de trancar, como sempre. Ela estava encolhida na parede, sentada no chão frio, com os joelhos dobrados e as mãos na cabeça. George se sentou de pernas cruzadas na frente dela.

–- Eles só não entendem, Angel – George disse. – Você não precisa se importar.

–- São seus pais – Angel respondeu, sem levantar o rosto. – São mais importantes pra você do que eu. É melhor que eu vá embora, mesmo.

Angel fez menção de se levantar, mas George a parou no lugar. Ela ficou fitando-o. A maquiagem estava borrada. Os lábios brancos estavam rachados, mas isso não era novidade.

George estendeu a mão e enrolou uma mecha do cabelo preto e liso de Angel em seu indicador.

–- Você não vai se livrar de mim tão fácil – George disse. Aquilo fez Angel esboçar um sorriso. – Ótimo. Agora levanta daí e vamos preparar um chá.

–- De camomila? – Angel perguntou, inocentemente.

–- Do que você quiser – George disse. Angel jogou a cabeça pra trás.

–- E se eles brigarem comigo? – ela perguntou. – Estou autorizada a fugir?

–- Se eles brigarem com você – George disse, soltando a mecha de cabelo e encaixando a mão no rosto de Angel. – Eu vou mandar eles pra um hotel.

–- Um hotel?

–- Daqueles bem ruins.

Angel riu.

–- Você é cruel.

–- Sou. Muito. Agora levanta, senão eu vou ser obrigado a te tirar daí a força.

Angel permaneceu no lugar. George se levantou e colocou as mãos na cintura de Angel, puxando-a pra cima. Ele a guiou de volta pra cozinha, onde seus pais continuavam na mesma posição.

George suspirou. Foi até a janela e abriu as cortinas, deixando o sol entrar. A mãe tentava ligar o fogão, mas ela não sabia lidar com acendimento automático. George ligou o fogo pra ela, e se virou para Angel:

–- Vamos fazer um piquenique?

Notas finais
Então :3 Muito piegas? Muito clichê? Tentei fazer os pais do George bem babacas mesmo, só pra dar aquele climão.