Call Girl in Busapeste
3 Folhas.
Angel gostava do sol.
Gostava mais da neve, mas o sol era reconfortante. Especialmente quando baia na cabeleira despenteada de George, que insistira em arrastar os pais para o parque, também. Naquele momento, ele passava um doce que Angel não conhecia num pão de forma. Havia colocado seus óculos ridículos, com lentes em tom sépia e uma armadura transparente.
Angel não conseguia não ficar maravilhada. Passava os olhos das árvores para George, depois para as árvores novamente. O sol inundava todos os lugares, infiltrando-se entre as nuvens e roubando espaço no céu. Tudo parecia brilhar naquele momento. Era bem melhor do que mergulhar em uma garrafa ou do que se engasgar com pó, isso Angel tinha que admitir.
–- Angel? – George chamou. – Quer chá?
–- Hum-hum – Angel disse, sem tirar os olhos das árvores.
–- Com leite?
–- Não, obrigada.
–- Quantos cubos de açúcar?
–- Um.
–- Dois, então – George concluiu.
Angel olhou pra George. Ele estendeu uma xícara para Angel, que agarrou a xícara com as mãos tremulas. George se permitiu um sorriso para Angel antes de virar-se para os pais:
–- E vocês?
–- Não quero nada – a mãe disse, sem olhar para George. O pai mexia no celular. George arrancou o aparelho da mão do pai, que protestou:
–- Era importante.
–- Isso também é – George rebateu. Jogou o celular dentro da cesta, entre um pote de geleia e uma térmica de café. O pai praguejou, e George disse: -- Quem quer amendoim?
–- Você é alérgico – a mãe repreendeu.
–- Sou. Mas vocês não.
–- Nós somos, George. Somos sim.
–- Ah. Mas a Angel não é.
Angel se encolheu.
–- Você trouxe por minha causa? – ela perguntou, baixinho. George estendeu uma barra de amendoim pra ela.
–- Claro – ele disse. – Qual é, eu sei que você gosta.
Eu gosto é de você, Angel pensou. Apenas pegou a barra de amendoim e mordiscou. Viu a mãe de George crispar os lábios, então fechou a embalagem e depositou-a novamente na cesta. George suspirou.
–- Eu to tentando fazer funcionar, mas vocês não colaboram – ele reclamou.
–- Não é nossa culpa se você traz gente dessa laia pra um passeio em família – a mãe rebateu. Angel tremeu.
–- Não é um passeio em família – George corrigiu. – Eu odeio passeios em família. E mesmo que não odiasse, continuaria sem ser um passeio em família. E a Angel está aqui.
–- Um piquenique em família, então.
George virou o rosto. Angel afagou sua mão. Ele relaxou um pouco, e ela disse, devagar:
–- Acho que você podia levar seus pais pra conhecer a cidade. Eu vou ficar bem. Prometo.
–- Nós já conhecemos a cidade, meu bem – a mãe de George rebateu. George ignorou, e disse:
–- Não. Não vou deixar você sozinha aqui.
–- Eu não vou fazer nada – Angel protestou.
–- Não, não e não. Se a gente for passear, você vai junto.
Angel se aproximou de George, e murmurou:
–- Mas eu só estrago tudo.
George se afastou dela, e disse:
–- Não. Não estraga, não. Você deixa melhor – George começou a enfiar as coisas na cesta. – Vamos.
–- George – Angel protestou. – George, eu estou indo embora.
–- Não, não está – George rebateu. Sem olhar, estendeu a mão e apertou a de Angel, permanecendo ali.
Angel não pôde fazer nada.
* * *
Angel não queria ficar muito próxima de George para não piorar a situação, mas George insistiu e Angel acabou cedendo. Porém, ficou olhando para o outro lado. Dizer que as árvores estavam em tom sépia seria um exagero, mas elas estavam mais bonitas do que qualquer outra árvore que Angel se lembrava de ter visto.
George falou alguma coisa, mas Angel não escutou. Estendeu uma mão e puxou um galho, arrancando algumas folhas. Levou-as até o nariz. Tinham aquele peculiar cheiro de infância, um cheiro que era uma mistura de inebriante com ácido. O melhor cheiro que Angel podia ter sentido.
–- Angel? Amor? – George chamou.
–- Hum? – Angel grunhiu em resposta.
–- Você está me ouvindo?
–- Não.
George riu. Angel olhou pra ele. Alguns resquícios de folhas caíram no cabelo louro dele, que se agitava na brisa refrescante. Angel sorriu. Até podiam parecer um casal normal, equivalente. Só parecer.
–- Eu vou te levar pra conhecer uns amigos que moram aqui – George disse.
Angel olhou pra ele, embasbacada.
–- Não – ela negou. – Não, George, você não vai.
–- Me impeça – George provocou.
–- Não faça isso. Eu não quero conhecer ninguém.
–- Pare com isso. Eles vão amar você.
–- Não vão.
–- Seja uma boa garota.
–- Eu vou levar maconha pra casa deles.
George riu alto. Depois, olhou para as folhas na mão de Angel.
–- Mas me diz: essa maconha aí é boa?
Angel sentiu um misto de irritação e de riso se formando nela. Optou por dar um tapa no braço de George.
–- Estou falando sério. Não quero ir – ela disse.
–- Você não tem escolha – George explicou.
Angel não respondeu. Não iria e pronto. Não entraria na casa de um desconhecido simplesmente porque um garoto muito lindo pelo qual ela era apaixonada a arrastara até ali. George a cutucou.
–- Quer um sorvete? – ele perguntou, acenando para uma barraquinha.
–- Não – Angel retrucou.
–- Pois eu quero – George disse, puxando Angel junto. Ela se concentrou em ignorar George, mas conseguia ouvir claramente quando ele pediu um sorvete de baunilha. Se virou, para Angel, e perguntou: -- Qual você quer?
–- Nenhum – Angel retrucou.
–- Chocolate, então – George decidiu.
–- Não gosto de chocolate.
–- Tem razão. Menta é melhor.
–- George...
O sorveteiro entregou os sorvetes para George. Ele os entregou para Angel, enquanto vasculhava os bolsos. Angel queria enfiar aqueles dois sorvetes na cara de George, mas não teve coragem de manchar aquele rosto bonito.
George pagou e se virou para Angel. Tomou o sorvete de baunilha da mão dela. Lambeu uma vez, e deu uma risada seca.
–- Acho que com sorvete as coisas ficam melhores – ele comentou.
Com você as coisas ficam melhores, Angel pensou em dizer. Mas apenas engoliu um pedaço de seu sorvete, tremendo quando o frio lhe atingiu os dentes da frente. Olhou para George. Ele ria de língua pra fora, provocando os pais, que apenas fecharam a cara e o ignoraram.
Ele se virou para Angel novamente.
–- Vamos pra lá hoje a noite? – George perguntou.
–- Não vamos – Angel retrucou.
–- Vamos, sim. Eu vou te obrigar.
Seu filho da puta maravilhoso, Angel pensou.
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