Caleidoscópio
3 II - Dois corações, um mesmo céu
Notas iniciais
II — Dois corações, um mesmo céu
Trevor acordou com o movimento na rua, que por sinal era uma das mais movimentadas da cidade de Vermilion pelo simples motivo de ali se concentrar grande parte do comércio local. Eram quase onze horas da manhã, o delicioso cheiro do almoço sendo preparado nos restaurantes infestou o quarto. O garoto planejava fazer uma caminhada, explorar florestas e cavernas, aquele era seu hobby. Continuou deitado por alguns minutos esperando acordar por completo e então levantou da cama. Dirigiu-se para o banheiro, onde se despiu e tomou banho. Ao acabar, enrolado na toalha, escovou os dentes e fez a barba.
O quarto estava um caos, não conseguia encontrar nada, decidiu arrumar. Levou cerca de uma hora, só então percebeu que ainda estava de toalha. Arrumou-se e desceu para almoçar. Estava hospedado em um hotel simples, pequeno, em um prédio velho. Arroz, salada, peixe assado, não podia reclamar, ainda mais com as diárias tendo refeição inclusa. Após comer, o que não demorou mais que meia hora, iniciou sua longa jornada.
Estava duas horas atrasado. Planejara iniciar ao meio dia. Foi obrigado a apertar o passo, caso contrário não conseguiria completar todo o trajeto que desejava. Saindo da cidade, seguiu por algum tempo pelo campo, pretendia ir de encontro à Caverna Digglet.
— Hey, garoto! – gritou abafado uma mulher trajando branco e rosa, parecia uma roupa de enfermeira.
— Garoto?! – respondeu irritado.
Não que se incomodasse em ser chamado de garoto, mas, aos seus vinte e um anos não esperava que algo do tipo fosse acontecer.
— Ah, me desculpe, não tive intenção de te fazer parecer infantil. Se bem que... – disse a jovem deixando escapar um sorriso.
— Se bem que... O quê? Argh, tudo bem, esquece, por que mesmo me gritou? – falou como se quisesse aparar o assunto.
— É que... – a enfermeira parecia confusa.
— Você não se lembra do motivo de me gritar? – riu fazendo a pergunta.
— Não é isso! – balançou a cabeça em protesto — Sabe, essa madrugada, enquanto eu estava de plantão no Centro Pokémon de Vermilion, pude ouvir um tiro vindo do campo que fica no caminho da Caverna Digglet.
— Caverna Digglet... – Trevor começou a se interessar pelo assunto, qualquer coisa relacionada a caverna poderia ser uma informação útil.
— Eu não sei bem mas, o campo é habitado por diversos pokémons, se forem caçadores podem ter ferido algum deles, talvez algo pior.
Trevor gostava dos pokémons, mas por que motivo iria se por no meio de algo assim? Caçadores sempre existiram e não seria hoje que pokémons deixariam de perder a vida para esse tipo de gente. Apesar de pensar assim, não conseguiu deixar de reparar na preocupação da enfermeira ao supor mil e uma coisas que poderiam ter acontecido. Ele realmente iria ajudar?
— Resumindo, quer que eu vá com você conferir a situação dos pokémons do campo? – concluiu o jovem – Certo?
— Sim! Digo, se você não tiver outro tipo de coisa para fazer... – a jovem olhou com uma expressão piedosa.
— Eu vou... – a voz de Trevor denotava desânimo, desistira de seus planos para aquele dia.
Que tipo de pessoa pede ajuda a um estranho e se deixa tão vulnerável? Ou melhor, que tipo de pessoa aceita ajudar? Trevor nem ao menos sabia o motivo de não ter se importado.
— Bem, não vai dar para passar a tarde com você sem ao menos saber seu nome. – ele tentava tornar o clima menos tenso.
— Lise, prazer. – respondeu a jovem, abrindo um largo sorriso.
Trevor ficara corado, por algum motivo tal expressão deixou sua face quente, virou rapidamente o rosto para outra direção.
— Trevor... e o prazer é todo meu. – estava ruborizado -Então vamos logo! – começou a dar passos curtos, queria esconder seu rosto.
— Ok! – Lise balançou a cabeça em movimento afirmativo.
O relógio de seu pokedex marcava quatro horas. Por um extenso período de tempo ambos procuraram pokémons debilitados. Estava exausto. Será que os caçadores realmente teriam deixado algum pokémon ferido para trás? O campo era enorme, ligado a uma estrada bifurcada.
— Trevor! – Lise disse com a voz tremula.
— Hm? Encontrou algo? – atendeu preocupado ao chamado de sua companhia.
Seus olhos se direcionaram para uma velha armadilha desarmada, havia sangue em suas lâminas. Mais a frente havia um grande cão estendido no chão, imóvel, sem vida. Era um Arcanine. Sentiu um aperto em seu coração, nunca tinha visto um pokémon em tal estado. Enquanto se aproximava pôde notar o ferimento causado pelo tiro, que arrancou a vida do grande canino, notou também que a chuva da noite passada limpou o sangue do corpo do animal, mas uma poça se formara ao seu redor, o cheiro era insuportável.
— Trevor... – Lise estava com um tom choroso em sua voz.
O rapaz queria poder fazer algo, seus punhos fechavam com a pressão que colocou em seus dois braços. Lise se aproximou do corpo sem vida, e foi advertida por um rosnado.
— O que foi isso?! – disse a jovem enfermeira espantada.
De trás do corpo do Arcanine, saiu um pequeno Growlithe. Mancava, em direção aos dois jovens.
— Um filhote?! – Trevor se surpreendeu.
Apesar de estar com um ferimento preocupante em sua pata esquerda, o filhote se colocou em uma posição ofensiva, parecia querer defender o corpo frio ao seu lado.
— Agora entendi, a fêmea avançou para cima dos caçadores na tentativa de proteger seu filhote, e como resposta, foi baleada. – Lise segurava lágrimas que a qualquer momento iriam descer sua face.
A enfermeira se aproxima do pequeno Growlithe e estende seus braços na tentativa de acolhê-lo. O Growlithe estava nervoso, avançou em direção a mão da estranha que tentava se aproximar de sua mãe.
— Growlithe! – Lise parecia desesperada para ajudar o pokémon ferido, mas não conseguia imaginar como o levariam ao centro.
Trevor, que até então estava parado, sem reação, se aproximou do filhote.
— Cuidado Trevor, apesar de filhote, um Growlithe já possui dentes afiados e fortes, você pode acabar se machucando. – advertiu Lise.
Ele não respondeu, permaneceu calado enquanto se aproximava do pequeno pokémon que parecia ficar cada vez mais irritado. Estendeu seus braços até o pequenino, que revidou com uma mordida.
— Trevor! – gritou Lise
Sua mão sangrava, o filhote realmente havia mordido com força suficiente para feri-lo. Ele estendeu a outra mão até o corpo do pequenino.
— Sua mão... – Lise agora estava preocupada tanto com ele quanto com o Growlithe. Trevor se levantou cabisbaixo.
O filhote parecia ter perdido o que lhe restava de forças e desmaiou com seu maxilar preso a mão do jovem.
— Vamos logo. – Falou seco.
Lise não disse mais nenhuma palavra, sabia que não poderia cuidar do ferimento do filhote ali, não tinha levado nenhuma ferramenta, não esperava encontrar um pokémon tão debilitado.
O sol estava se pondo quando Trevor e Lise chegaram no Centro Pokémon de Vermilion.
— Rápido! Preciso de uma maca o mais rápido possível! – gritou Lise abrindo espaço no meio das pessoas que repousavam no centro.
Trevor deixou o filhote com Lise e os outros integrantes do Centro Pokémon, sua mão ainda sangrava, não conseguia mover direito alguns dedos. Ver que o pequenino ainda teve força para fazer tal estrago o deixou... Feliz? Encostou-se a um canto, ainda cabisbaixo deixou derramar lágrimas. Sabia o que era estar sozinho. Em sua cabeça despertaram lembranças, sua mãe, seu pai, o acidente que mudou as coisas. "Ainda vamos explorar todo o mundo!", sua mãe sempre dizia isso nas viagens de família, seu pai era um homem sério que inspirava confiança. Os dois trabalhavam como agentes turísticos, aquela fora a única forma de conseguir conciliar um sonho de juventude com seus deveres de adultos. Queriam explorar todo o mundo, queriam conhecer a tudo e a todos, levando seu filho para se maravilhar com as mais diversas paisagens. Acreditavam que existiam muitas coisas belas a serem vistas, que a vida seria pacata e tediosa se não pudessem explorar o mundo.
Diferente de seus pais, Trevor se incomodava, queria apenas viver uma vida normal, sem ter que mudar de colégio três vezes por ano, sem ter que se desprender de seus amigos e de suas casas a cada nova viagem a trabalho.
flashbackon
Era outra irritante viagem em família, seus pais conseguiram alguns dias na Ilha de Cinnabar, enquanto conduziam um grupo de turistas para as maravilhas do local, com o vulcão (que dava nome a ilha) e o clima tropical, a cidade sempre se via infestada de turistas no verão.
— Mas pai... – Trevor dizia exausto, recolhendo algumas mudas de roupa.Iriam navegar pelo Arquipélago de Seafoam, seus pais ouviram de um morador local que, durante o fim do verão, Goldeens usavam as águas da região como ponto de encontro para então partirem pela Rota 19, a caminho do oceano aberto.
Estavam empolgados, poder ver um grupo enorme de Goldeens fazendo sua viagem para o oceano, as Ilhas de Seafoam e quem sabe de quebra não avistavam algum Seaking! Eram pokémons maravilhosos, faziam jus ao seu nome, verdadeiros Reis dos Mares.
— Sabe, os Seakings viajam por todos os oceanos do planeta, dos mais frios e desolados até os mais quentes e tempestuosos. – Falava orgulhoso o pai de Trevor.
Era de manhã, exatamente oito horas. Trevor foi acordado aos gritos de animação de seus pais.
— Francamente... Ver um monte de peixes e algumas pedras grandes no meio do nada!? É isso que eles entendem por empolgante? – o adolescente ainda parecia inconformado.
Pegou sua mochila com roupas, comida e um videogame portátil, que guardou escondido de seus pais. Não iria suportar tanto tempo vendo escamas e mais escamas. Partiram em um iate da empresa para qual seus pais trabalhavam, nem grande, nem pequeno. Passaram-se alguns minutos, já não era possível avistar a Ilha de Cinnabar, entravam na Rota 20.
— Olha, já dá para ver algumas ilhas! – a mãe do jovem disse, ao ver algumas das ilhas que compunham o arquipélago. Seu pai parou a embarcação. Estavam entre as ilhas do arquipélago e, a qualquer momento, veriam o enorme cardume de Goldeens. Enquanto isso não acontecia, poderiam fazer um lanche e apreciar a vista.
— Goldeens... – o garoto apesar de desanimado, não queria estragar a viagem dos pais, se fez um pouco empolgado ao ver barbatanas brotarem da água. Tudo parecia correr perfeitamente bem, mas as barbatanas que apareciam aos montes na água não eram de Goldeens, muito menos de Seakings. Sua coloração e formato eram diferentes.
— São... Magikarps? – disse surpreso o pai de Trevor, quando sua face foi tomada por uma expressão de pânico.
O pai do garoto ligou o motor do iate, pediu que entrassem na cabine e se segurassem. A mãe de Trevor também estava agindo de forma estranha, segurava o filho nos braços dentro da cabine, onde podiam avistar o enorme cardume de Magikarps formando um tapete nas águas do arquipélago. Alguns Magikarps começaram a brilhar, não era uma rota de Goldeens que buscavam o oceano aberto, era o lugar em que os Magikarps se encontravam para evoluir, a água quente do fim do verão e a segurança das ilhas que dificultavam a navegação, eram condições perfeitas para isso. Trevor não conseguia manter seus olhos abertos, a claridade era imensa, o tapete que antes era vermelho e amarelo foi tomado por uma luz incrivelmente forte que dentro de segundos, desapareceu. Trevor abriu seus olhos.
— Mas já?!? – gritou seu pai.A água borbulhava, o garoto começava a ficar assustado com o que acontecia.O que antes havia desaparecido voltou, mas não eram mais inofensivos Magikarps e sim ameaçadores Gyarados.
— Starmie! – o pai de trevor lançou uma pokébola para o ar.
Aquele era o grande pokémon de seu pai, um ser aquático e psíquico que aprendera um golpe elétrico, era motivo de orgulho nas conversas depois do jantar.
A estrela do mar girou seus quatro alongamentos frontais no sentido horário, quando chegou em um ritmo estável, passou a girar seus alongamentos traseiros no sentido anti-horário. Faíscas começaram a surgir e logo depois, podia-se ver claramente uma corrente elétrica circulando em volta de Starmie.
— Onda Elétrica! – comandou confiante o pai de Trevor.
Starmie jogou seu corpo nas águas, descarregando a corrente elétrica que parecia percorrer por todas as bestas marinhas. Apesar de ter aprendido o golpe, Starmie nunca o usou diretamente na água, dessa vez sofreu também a descarga elétrica o que o deixou paralizado.
— Starmie?! – preocupado, o senhor Fourleaves passou com a embarcação, aproveitando o atordoamento dos Gyarados.Eram criaturas enormes, deviam medir de seis a sete metros cada, o que era realmente assustador, considerando que ainda eram jovens. A maioria dos Gyarados submergiu, era perturbador demais enfrentar tal coisa logo depois de terem evoluído. Mal se acostumaram com seus corpos, estavam amedrontados.
O pai de Trevor suspirou, puxou a pokébola em suas mãos, estava pronto para chamar seu Starmie de volta quando seus olhos se encheram de terror. Um Gyarados vermelho, bem maior que os anteriores, media facilmente vinte metros, acabara de emergir na água. Mas não era isso que plantou medo em seu pai, Trevor olhou mais atentamente e na boca da grande besta marinha podia-se ver o Starmie, indefeso. A luz de sua jóia estava ficando mais fraca, Starmies são pokémons que transmitem sua condição através de sinais emitidos pela jóia no centro de seu corpo.
— Starmie, Giro Rápido! – desesperado, gritou o senhor Fourleaves.Starmie tentava girar seu corpo, mas as mandíbulas do Gyarados vermelho o prenderam de tal forma que o mínimo movimento parecia impossível.
O brilho da jóia estava realmente fraco, Starmie estava frágil e sem forças.
A grande besta jogou o corpo do pokémon contra a embarcação, ele acertou o painel de controle do iate.
flashbackoff
- Vamos Trevor, não adiantará de nada cuidarmos do ferimento do pequeno Growlithe se não conseguirmos fazer algo a tempo pela mão de quem o salvou. – exclamou Lise. Trevor apenas se levantou e acompanhou Lise, para o que parecia uma pequena sala dentro do centro. Tantas lembranças repentinas perturbaram o rapaz.
— Pronto! Já desinfetei o ferimento e o curativo está feito. – disse Lise, envolvendo o punho esquerdo de Trevor com ataduras.
— Olha, eu não sei de que tipo de coisa você se lembrou, e bem, não vou te incomodar com isso. Pode passar a noite nesse quarto, logo será a hora do jantar, tem um banheiro e algumas roupas no... – Lise foi interrompida antes que pudesse completar sua fala.
Trevor a abraçara forte, ele estava tremendo. Os dois ficaram ali durante algum tempo sem dizer nada.
— Obrigado. – sussurrou Trevor.
— Não se preocupe, é para isso que existem Centros Pokémon! E o curativo não chegou a ser um problema. – Lise disse sorrindo.Ela sabia que não era exatamente a isso que ele estava agradecendo, mas certamente seria melhor não aprofundar no que o deixou mal, ao menos não naquele momento.
— Quando vou poder ver o Growlithe? – ele realmente parecia preocupado com o filhote.
— Logo de manhã. Ele já foi tratado e está sob observação, ao que parece apesar do grande ferimento na perna dianteira, ele não corre perigo, sua mãe o livrou da armadilha antes que ele se movesse mais, o que agravaria sua condição.
— Hm... – o jovem ficou mais calmo depois das palavras da enfermeira.
— Bem, ele também não tomou chuva, a Arcanine realmente foi uma grande mãe... – Lise deixou escapar um olhar triste.
O véu da noite repousou suavemente sobre a cidade de Vermilion.
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