Caleidoscópio
4 III - Doppelganger
Notas iniciais
III — Doppelganger
Uma fraca luz se contorcia por espaço na copa das árvores, estava ficando cada vez mais fraca, anunciara o fim de tarde.
— Vincent... – suspendeu-se limpando a poeira de suas roupas – então este é meu nome? – pesou a cabeça sobre o ombro esquerdo.
Vincent ainda estava com a mente conturbada, se não fosse pela sua natureza calma provavelmente estaria entrando em desespero.
Logo os pássaros se silenciaram, procuravam por abrigo. A floresta estava mais calma do que quando acordou. Podia ouvir seus pensamentos.
— Pretende ficar aí o dia todo? – alguém disse – Já estou ficando cansado... Você está fragilizado como sempre – o tom era sarcástico.
O jovem se virou assustado procurando a voz que havia quebrado sua linha de pensamento. Deparou-se com um garoto de estatura mediana, cabelo castanho e olhos verdes.
— Não sabia que se interessava tanto pelo seu próprio reflexo – o garoto se aproximava – Somos irmãos gêmeos, isso é incesto – colocou a mão sobre os olhos enquanto gargalhava.
Vincent não entendia que tipo de situação era aquela.
— O que quer dizer com isso? – indagou curioso.
— Yare yare... Você é sem graça – retirava a mão que cobria os olhos – No bolso esquerdo de sua calça tem um celular, que tal ver seu reflexo nele? – suspirou, estava entediado.
Mais que depressa Vincent puxou o celular do bolso, ao ligar pôde acompanhar a imagem que se formava no nítido vidro do aparelho. O garoto a sua frente era sua cópia exata. Mesmas roupas, cabelo, olhos.
— Então você é realmente meu irmão gêmeo?
— Claro que não bobinho.
Vincent não podia mais ver a pessoa que há instantes estava ali, procurou por toda parte, foi como se tivesse sumido na pausa em que ele acomodou suas pálpebras por alguns segundos.
— Onde você está? – Vincent gritou.
Era inútil, não obteve resposta alguma.
— Preciso sair dessa floresta logo, passar a noite em um lugar como este vai ser problemático.
A dor que o incomodava antes estava suportável, ao menos foi o que pareceu até Vincent cair de joelhos no chão direcionando suas mãos para cabeça como se ela fosse explodir.
flashbackon
— Vá Golem! – exclamou, jogando ao alto uma pokébola.
Era uma mulher de longos cabelos ruivos, trajava um uniforme negro.
— Não vai jogar seu pokémon? – sorriu – Vamos logo, pirralho, não tenho tempo para perder com você – falava cheia de si.
Vincent usava o mesmo uniforme, negro com detalhes brancos, mas algo era diferente em sua aparência, usava um óculos de tom metálico com um visor único de cor preta.
— Você fala tanto... – levantou seu braço direito – Nidoking!
Era uma batalha Pokémon, no que parecia um estádio, mas não havia platéia, muito menos saídas.
— Golem, Rolo Compressor! – a ruiva ordenou.
Seu robusto pokémon de pedra atendeu a ordem, recolhendo braços, pernas e cabeça para o corpo rochoso. Iniciava um movimento giratório que friccionava o chão ao seu redor produzindo fumaça. A visão era espantosa, ele havia direcionado sua rotação em direção a Nidoking.
Vincent não deu nenhum comando a seu Pokémon que permanecia ali, estático. O estádio era grande, poucos holofotes iluminavam o centro que poderia ser descrito como um terreno plano, sem obstáculos.
— O que foi? – disse inclinando o corpo para trás – Não consegue dar uma ordem ao seu pokémon de tanto medo? – a ruiva gargalhava.
Em questão de segundos Golem havia percorrido o estádio e estava a ponto de se chocar contra Nidoking. Este, por sua vez, segurou o corpo de Golem com seus dois braços, absorvendo o impacto. A armadura lilás que cobria as extensões do animal se contraiu.
A fricção era tamanha que era possível ver ondas de calor geradas no contato em que as garras de Nidoking faziam contra a carapaça giratória de Golem. O corpo de Nidoking era arrastado para trás, como se a qualquer momento fosse ser jogado longe pela força do impacto, este se fazia firme.
Aos poucos o movimento cessava, perdia força. Nidoking não parecia ter sofrido muito dano, era realmente um pokémon esplendido.
— Golem! – gritou — Não seja estúpido, solte-se logo! – parecia nervosa com o ataque que acaba de falhar.
Golem liberou seus braços e pernas, logo sua cabeça também ficou a mostra. Segurava Nidoking travando uma disputa corpo a corpo, os dois pokémons eram arrastados por tamanha força, hora para um lado, hora para outro.
— Nidoking, segure-o – comandou.
O grande pokémon lilás segurou firme Golem, havia conseguido a posição que queria, o rochedo estava com a cabeça desprotegida e próxima o suficiente para tomar todo o golpe. Abriu sua mandíbula, focalizando o que parecia energia, uma luz semelhante ao crepúsculo se expandia nela.
— O-O que você pretende fazer?! – se assustou prevendo a resposta – Golem recolha sua cabeça devolta para a carapaça, rápido! – gritou histérica.
— Hiper Raio!
Antes que Golem pudesse fazer qualquer coisa teve sua cabeça abocanhada por Nidoking, já era tarde para tentar se defender do golpe, certamente iria sofrer dano integral.
Uma luz forte tomou a cena da batalha, seguida de uma explosão.
— GOLEM?! – a ruiva tampava o rosto com os braços, precisava se proteger das ondas causadas pelo impacto.
Golem estava caído ao chão, nocauteado com apenas um golpe.
— Humpf, pelo visto você ganhou outra Ironhill – disse enquanto puxou uma Pokébola em direção a Golem.
— Por que tirou a Pokébola? A diversão mal começou – Ironhill começou a sorrir.
— O que você quer dizer com isso? São batalhas de um round, meu Pokémon foi nocauteado, não tenho mais nada para fazer neste estádio – explicou.
— É uma pena, porque parece que meu Nidoking ainda não terminou – o sorriso malévolo continuava estampado no rosto.
Nidoking rugiu ao se aproximar do oponente nocauteado, parecia frenético.
— Nidoking, não te deixaram brincar muito da última vez, não foi? Imagino que você ainda esteja frustrado com isso – conversava com seu Pokémon – Acontece que eu também estou. – o sorriso se estendeu a gargalhadas, tão frenéticas quanto os rugidos de Nidoking.
— Você é estúpido ou coisa parecida?! – disse estupefata.
Nidoking iniciou uma sessão de golpes com seus braços, estava literalmente tentando moer o corpo maciço de Golem. A besta inspirava medo, os golpes incansáveis renderam uma sensação de insegurança por parte da treinadora ruiva, algo estava fugindo do controle.
— Pare! Você já ganhou a batalha, isso não tem sentido! – perplexa com a cena tentava usar argumentos para impedir tal violência.
Nidoking levantou Golem, o pokémon de pedra estava realmente debilitado, com um de seus membros apoiou-se no corpo esférico do oponente, enquanto com o outro, puxava o braço do mesmo. Era visível a força que estava colocando, Nidoking tremia fazendo isso.
— Por favor, alguém segure esse demente! – a ruiva clamava por ajuda.
Ironhill caminhou em direção a mulher, passando ao lado dos dois pokémons sem sentir o mínimo receio, eram passos calmos e ritmados. O jovem certamente não estava assustado com a mutilação que estava prestes a acontecer.
— O-O que foi? – a ruiva estava assustada.
— Não deveria deixar tão evidente o quão patética você é... isso desanima as pessoas – debochava Ironhill.
Com um movimento rápido a mulher esbofeteou a cara do jovem.
— M-me desculpe! – tentava reparar o que havia feito.
Ironhill virou novamente seu rosto para frente.
— Desculpada – segurou o rosto da mulher, que ficou sem ação.
Havia se distraído e esquecido seu Golem, olhou pelo perfil de Ironhill e viu a cena que antes era de batalha. Seguiram-se gritos desesperados, ela chorava com a face presa pela mão de Ironhill, não conseguia fechar seus olhos, suas pálpebras não respondiam.
Sua mente acabara de ser consumida pelo medo.
— Esse gosto é realmente exótico – disse enquanto percorria a maçã do rosto de sua oponente com a língua.
Logo atrás Nidoking havia mutilado um dos braços de Golem que agora, mesmo inconsciente, se contorcia de dor. Nidoking se incomodou com os movimentos aleatórios de seu oponente, ou melhor, seu brinquedo.
— Yare yare... Eu já me cansei disso — Ironhill disse vendo a expressão de sua adversária – Nidoking, termine o que começamos.
A cauda de Nidoking refletia uma coloração metálica, fez uma investida rápida que acertou o corpo de Golem.
As luzes do estádio se apagaram.
flashbackoff
— O-O que foi isso?! – Vincent volta a si.
— Esse foi você – sua companhia também havia voltado – Ironhill – disse, colocando uma de suas mãos na cintura enquanto apoiava a outra na nuca.
Vincent se levantou, estava irritado, não sabia o que tinha visto, mas aquilo o deixou perturbado.
— O que diabos eu estava fazendo naquele estádio!? – perguntou – E que tipo de massacre foi aquele?! – estava se descontrolando.
— Ah, aquilo? Deveria se preocupar com o que aconteceu com a ruiva irritante... – caçoava — O espetáculo estava ficando interessante — aplaudia.
Vincent instintivamente retirou da cintura uma arma, apontou em direção do seu outro “eu” e disparou. O barulho ecoou pela floresta assustando alguns pássaros já adormecidos.
— Não sei bem quem sou eu, não sei bem quem ele é – Vincent suspendeu seu queixo – Mas eu não vou permitir que algo assim aconteça novamente – suspirou, certo do que disse.
Suas lembranças não importavam mais.
— Me chamo Vincent, apenas Vincent.
O véu da noite repousou suavemente sobre a floresta de Viridian.
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