Notas iniciais
Editado em: 11/04/2013

Estávamos quase chegando onde estava o carro, quando ela, exatamente nessa ordem, parou, tirou a mão do meu braço num susto e olhou pra mim com o rosto da cor do cabelo:

— Ai, Calderón, me desculpa! Me desculpa... Que vergonha. Estou acostumada a fazer isso com o Marinho... Estou ficando louca.

Pensei exatamente a mesma coisa.

Ajeitei a manga do paletó:

— Eu me senti mesmo... uma criança de sete anos.

Ela encostou a testa no meu ombro, exatamente sua estatura:

— Fiquei sem graça agora.

Passei a mão pelo seu cabelo:

— Estou brincando, fica tranquila.

Entramos no carro. Ela foi dirigindo.

Bastava um assunto morrer entre nós que aquela sensação de desconforto aparecia e me deixava inquieto. Queria perguntar a ela o que tinha feito em todos esses anos e descobrir a procedência do menino, mas a simples possibilidade de escutar o que não queria me emudecia por completo. Bom, o que os olhos não veem o coração não sente, certo? Eu me contentaria com aquilo até quando conseguisse.

Fabrícia percebeu alguma coisa diferente. Disse:

— Você costumava ser mais comunicativo, Calderón.

Sorri um tanto sem graça. Só tinha o diabo de um assunto em mente.

— O que andou fazendo todo esse tempo? — ela continuou. — Soube que saiu da Ecomoda.

— É, sim, mas continuo acionista. Saí da vice-presidência por causa da Betty, sabe como é, nunca nos demos muito bem.

— Sim, eu me lembro... E Betty me disse uma vez que você lhe trazia lembranças muito tristes.

Dei de ombros:

— Isso é uma questão de ponto de vista. De acordo com o meu, por exemplo, ela e o Armando estão juntos graças a mim...

Ela franziu as sobrancelhas, sem tirar os olhos da direção:

— Sério? Nossa, um dia quero saber essa história direito.

— É uma história muito comprida. Daria um bom livro.

— Mas, e agora? Anda fazendo alguma coisa? Tem algum plano em mente?

Essa pergunta soou algo como em latim ou sânscrito. Deixou-me aturdido procurando ligar um som a outro pra formar uma palavra, e uma palavra à outra pra descobrir o sentido da frase. Demorei pra responder:

— Não, nem uma coisa, nem outra. A Ecomoda é uma ótima fonte de renda e eu adoro a minha vida!

— Mas não tem algo de que você goste de fazer?

Dessa vez respondi prontamente:

— Adoro viver minha vida sem preocupações.

Ela sorriu:

— Nesse sentido, você é idêntico à Daniela.

Contra a minha vontade, essa pergunta continuou ecoando na minha cabeça.