Calderón e o Cupido
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Estávamos quase chegando onde estava o carro, quando ela, exatamente nessa ordem, parou, tirou a mão do meu braço num susto e olhou pra mim com o rosto da cor do cabelo:
— Ai, Calderón, me desculpa! Me desculpa... Que vergonha. Estou acostumada a fazer isso com o Marinho... Estou ficando louca.
Pensei exatamente a mesma coisa.
Ajeitei a manga do paletó:
— Eu me senti mesmo... uma criança de sete anos.
Ela encostou a testa no meu ombro, exatamente sua estatura:
— Fiquei sem graça agora.
Passei a mão pelo seu cabelo:
— Estou brincando, fica tranquila.
Entramos no carro. Ela foi dirigindo.
Bastava um assunto morrer entre nós que aquela sensação de desconforto aparecia e me deixava inquieto. Queria perguntar a ela o que tinha feito em todos esses anos e descobrir a procedência do menino, mas a simples possibilidade de escutar o que não queria me emudecia por completo. Bom, o que os olhos não veem o coração não sente, certo? Eu me contentaria com aquilo até quando conseguisse.
Fabrícia percebeu alguma coisa diferente. Disse:
— Você costumava ser mais comunicativo, Calderón.
Sorri um tanto sem graça. Só tinha o diabo de um assunto em mente.
— O que andou fazendo todo esse tempo? — ela continuou. — Soube que saiu da Ecomoda.
— É, sim, mas continuo acionista. Saí da vice-presidência por causa da Betty, sabe como é, nunca nos demos muito bem.
— Sim, eu me lembro... E Betty me disse uma vez que você lhe trazia lembranças muito tristes.
Dei de ombros:
— Isso é uma questão de ponto de vista. De acordo com o meu, por exemplo, ela e o Armando estão juntos graças a mim...
Ela franziu as sobrancelhas, sem tirar os olhos da direção:
— Sério? Nossa, um dia quero saber essa história direito.
— É uma história muito comprida. Daria um bom livro.
— Mas, e agora? Anda fazendo alguma coisa? Tem algum plano em mente?
Essa pergunta soou algo como em latim ou sânscrito. Deixou-me aturdido procurando ligar um som a outro pra formar uma palavra, e uma palavra à outra pra descobrir o sentido da frase. Demorei pra responder:
— Não, nem uma coisa, nem outra. A Ecomoda é uma ótima fonte de renda e eu adoro a minha vida!
— Mas não tem algo de que você goste de fazer?
Dessa vez respondi prontamente:
— Adoro viver minha vida sem preocupações.
Ela sorriu:
— Nesse sentido, você é idêntico à Daniela.
Contra a minha vontade, essa pergunta continuou ecoando na minha cabeça.
Fale com o autor