Notas iniciais
Editado em 1/12/2012

Deixei o menino conversando com os amigos dele. Olhei em volta e vi Fabrícia entornando mais um copo de vodca e Daniela foi receber mais convidados que chegaram. Ergui as sobrancelhas: que coincidência, os novos convidados eram Betty, Armando e a filha do casal.

Marinho foi correndo em direção aos recém-chegados e tratei de ir para um lugar discreto, onde Betty não pudesse me ver. Fabrícia chegou até eles e levou Betty para dentro da casa, Camila se juntou à turma de Marinho e Armando ficou conversando com Daniela.

Aproximei-me. Armando jogou o aperitivo pra cima de susto. Daniela colocou a mãos nas minhas costas:

- Armando, deixo você em ótima companhia.

E saiu. Fiquei imóvel, um pouco sem lugar. Ela agiu como se eu fosse um convidado qualquer e não pude deixar de me sentir agredido.

Voltei à realidade quando senti Armando me puxando pelo braço para um quiosque mais distante:

- Calderón, homem! Eu juro que você era a última pessoa que eu esperava estar aqui!

- É, mano, seu nome também não estava nos primeiros lugares da minha lista de presença neste evento.

- Betty e eu reencontramos Fabrícia através da escola da Camila. O filho dela e nossa filha são coleguinhas de escola, daí Betty acabou ficando próxima de Fabrícia. E você, o que está fazendo aqui? Voltou com a Fabrícia? — disse gozando com a minha cara.

- E eu hein! Chuta que é macumba... É uma história muito comrpida minha chegada até aqui, embora tudo tenha começado ontem, mas o que posso dizer de antemão é que peguei a irmã da Fabrícia sem saber quem era...

- A Daniela? Calderón, seu garanhão — me deu um murrinho nas costas — que sorte! Daniela é maravilhosa!

Deixei-me levar:

- Nem te conto, mano...ela é perfeita, com aquele tipo de fogo que te derruba se você não tomar cuidado. Sem defeito!

- E você se apaixonou, foi? Tanto que já veio conhecer a família?
E riu-se.

- Ha-ha-ha — imitei-o entediado — não teve graça nenhuma. Não. Quebrei a chave da ignição do meu carro e estou esperando um guincho.

- Ah... — Armando fez uma afirmativa vagarosa com a cabeça — Já foi. Saiu assim que chegamos.Bem que a Betty achou que o carro parecido com o seu, só que mais destroçado.

Fiquei tão perplexo quando Armando disse isso que minha cabeça começou a doer. Fechei os olhos. Respirei fundo. Massageei as têmporas. Quando abri meu olhos novamente, Fabrícia estava do meu lado. Seus olhos estavam caídos, seu equilíbrio estava um tanto prejudicado. Estava realmente bêbada.

Quase pulei no colo do Armando.

Fabrícia começou a bater palmas:

- Os dois amigos inseparáveis — ela falava alto e as pessoas começaram a olhar em nossa direção — como nos velhos tempos. Que maravilha! Aposto que estão recordando as aventuras do passado! Comparando a vasta lista de mulheres de cada um e ver se alguma coincide!

Deu um giro se dirigindo às pessoas que nos olhavam:

- Talvez estivessem falando de mim, sabem, pessoal. Há sete anos cometi o ERRO de me apaixonar por este senhor, um inconseqüente que não tem a mínima noção do que aconteceu depois!

Parou de falar e notei que seus olhos se encheram de lágrimas. Ela sentou-se numa cadeira perto de nós e começou a chorar:

- Ah, Mário, por que você brincou tanto comigo? Por que você me viu apenas como uma boneca de plástico... Eu tinha sentimentos!!! — E bateu forte no peito, gritando — Eu tinha!!!... E agora...agora...

E ela soluçou tanto que não entendi mais nem uma palavra posteriormente dita.

Tanto eu quanto Armando não sabíamos onde colocar a cara. Já havíamos presenciado dezenas de situações como essa, e todas eram constragedoras cada uma à sua maneira. Nós dois colocamos a mão a fazer sombra no rosto.

Daniela e Betty vieram logo em seguida. Betty me laçou aquele olhar fulminante levando Fabrícia pra dentro e Daniela veio em meu socorro:

- O que aconteceu aqui? — Daniela disse e eu respirei aliviado por ela não ter escutado nada.

Só consegui articular:

- Eu realmente preciso ir embora.

- Ai, Mário, desculpa por tudo, Fabrícia bebeu demais! Olha, eu já mandei seu carro pro guincho. Vai no meu carro. Depois a gente combina quando eu o pego de volta. O número do meu telefone está no porta-luvas.

Se despediu de mim como se fosse outro qualquer e eu fiquei louco de raiva, mas saí dali.

Calderón, Calderón, você precisa se livrar dessas duas encrencas. Nem Daniela vale isso tudo, não...

Cheguei a casa e ela nunca me pareceu um lugar tão seguro e acolhedor quanto naquele dia. Era por volta de cinco horas da tarde, mas desliguei o interfone, telefone, celular... e fui direto pra cama até com a mesma roupa que estava. Só acordei no dia seguinte.