Notas iniciais
Editado 04/03/2013

Acordei, tomei meu banho, fui à uma cafeteria que ficava perto do meu apartamento, e saí de lá renovado. Vestia um terno, como habitualmente, e me sentia o velho Calderón de novo. Depois fui à oficina reaver meu carro e, de lá, fui direto à concessionária. Negociações à parte, troquei meu carro por um do mesmo modelo, mas do ano atual, prata. Saí duplamente satisfeito. Livrei-me do que se tornara uma praga na minha vida e saí com um carro do ano.

O que faltava naquele momento era somente ligar para Daniela, pedir para que viesse buscar o carro e dizer que tudo havia sido muito bom mas que era hora de cada um seguir o próprio caminho. Estava absolutamente decidido quando disquei o número.

Ela me atendeu muito bem humorada, me chamou de lindo, e fiquei mais animado, mas não iria me deixar levar por tão pouco. Perguntei se ela queria que lhe levasse o carro, mas ela disse que viria buscar.

- Ok, Daniela, fico te esperando.

- Beijo, meu príncipe.

- Beijo.

Deitei-me no sofá, pensando na desculpa que iria dar quando ela chegasse. Daí fiquei relembrando da nossa noite, da escapada na casa dela, naquele corpo fresco e naquele cheiro delirante... Compensava ter um momento de despedida antes de terminar tudo de vez...

Cerca de uma hora depois, o interfone tocou e o porteiro disse se tratar de uma senhorita Watson. Mandei subir.

Ela tocou a campainha e, quando abri a porta, fechei-a novamente de susto. Era Fabrícia. Pensei que estivesse louco e abri a porta novamente, mas Fabrícia continuava lá, de pé, sobrancelhas erguidas. Afrouxei a gola da camisa:

- Oi, Fabrícia. Entra!

Ela pediu licença, entrou e eu tratei de pegar logo as chaves do carro, de modo a encurtar o máximo possível esse encontro.

Ela sentou-se:

- Desculpa ter vindo sem avisar, Mário. Sei que você estava esperando a Daniela, mas eu me ofereci pra vir aqui pegar o carro e te pedir desculpas pelo ocorrido ontem, bebi demais e falei o que eu não devia.

Continuei-me de pé, com as chaves na mão, sem me mover:

- Não se preocupe, Fabrícia, talvez tenha sido bom você poder extravasar aquilo.

Ela balançou a cabeça numa negativa:

- Não foi bom, não, Calderón, o que aconteceu entre a gente foi há muito tempo e deu a entender que eu ainda penso em você e eu não penso.

"Graças a Deus" — não pude deixar de pensar.

Continuei-me de pé, com as chaves na mão, sem me mover:

- Fico feliz que tenha seguido sua vida e superado isso. Eu sinto muito pelo que aconteceu, não queria magoar você.

Ela sorriu, melancólica:

- Ai, Mário, se você não pode falar a verdade, já me contento com seu silêncio, essas baboseiras são totalmente desnecessárias...

Continuei-me de pé, com as chaves na mão, sem me mover.

- Mas...esqueçamos isso — ela continuou, — Eu vim aqui te propôr para que convivamos bem daqui pra frente, já que você está saindo com a minha irmã e a gente vai ser obrigado a se encontrar. Além do mais, o Marinho gostou tanto de você! Será por que, né? — Percebi um tom irônico na sua voz — Ele me perguntou de você ontem o tempo todo. Não vou privá-lo de considerar seu amigo por coisas que não fazem mais diferença hoje na minha vida.

Um arrepio correu pelas minhas costas quando ela disse isso.

Continuei-me de pé, com as chaves na mão, sem me mover. Ficamos calados por algum tempo, até que ela disse:

- As chaves — e estendeu a mão pra mim.

Entreguei as chaves a ela.

- Ah! A Daniela me pediu para que te chamasse para irmos ao cinema e depois lanchar. Ela está lá embaixo com uns amigos dela.

Queria ter dito 'não', mas quando vi, já estava dentro do elevador com a Fabrícia.