Calderón e o Cupido
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Daniela abriu a porta do carro:
- Ai, meu bem, machucou a mão?
- Não, não... Não sei o que houve, essa chave devia estar rachada.
- Deve ser a emoção pela minha presença... — disse Fabrícia.
- Como assim — disse Daniela?
E Fabrícia explicou que "o senhor que se encontrava ali" se tratava do "Mário" da Ecomoda. A reação de Daniela foi estranha: Ela soltou um risinho e bateu palmas:
- Ai, gente, que tudo! Finalmente eu conheci seu chefe que você não queria que eu conhecesse — E continuou sorrindo.
"Ai, gente, que tudo... "- remedei-a em pensamento, tive vontade de esganá-la. Maldito dia que essa moçoila cruzou meu caminho, e o maldito dia era só ontem! A pior maldição era ela ser linda, ter um corpaço e um cheiro maravilhoso. Pensava nisso e não conseguia ficar com tanta raiva dela assim... Ficava com mais raiva ainda de não ficar com raiva!
- É melhor você descer, Mário, vamos chamar alguém pra resolver esse problema — disse Fabrícia.
- É! — disse o menino...Hábito estranho ele começar as frases com a mesma interjeição... — E o senhor aproveita e fica na minha festa!
Confesso que não entendi a obsessão dele para que eu participasse dessa festa que já tinha tantas crianças da idade dele que era impossível contar... Tudo o que consegui fazer foi dar um sorriso pálido e descer com o "rabo entre as pernas". Esse menino me deixava desconcertado, estava começando a ter medo dele também, como se fizesse muita diferença, era só mais um nessa lista enorme que aparecera desde ontem.
Foi uma cena, no mínimo, engraçada, eu no meio das duas irmãs. Fabrícia caminhava um pouco mais distante, com seu filho, e Daniela estava de braços dados comigo. Eu continuava tenso, sem saber aonde colocar a minha cara.
Daniela me apresentou como seu amigo às pessoas, e não sei até aonde aquilo me deixou satisfeito ou magoado. Estava acostumado a ter que me impor como amigo das mulheres com que eu dormia e não o contrário. Fiquei um pouco desconfortável com aquilo, será que ela não havia gostado da nossa noite? Eu não tinha sido satisfatório? Não, aquilo não poderia ficar assim, eu ainda ia deixá-la querendo mais...
Fui interrompido nesse pensamento por Fabrícia, que tocou meu ombro:
- Vem cá, tenho uma coisa pra você.
Fiquei um tempo estacado no mesmo lugar, mas dei um arranque e acabei seguindo-a. Ela me levou até a um quarto e me jogou a minha carteira no meu colo:
- Aqui. Daniela me contou sobre o ocorrido, disse que haviam te assaltado no parque, pensei mesmo que a pessoa que roubou sua carteira poderia tê-la jogado no parque mesmo. Como estava no caminho da escola do Marinho, resolvi olhar mais atentamente e lá estava, bem no meio do caminho.
Fiquei sem entender aquilo tudo — pra que ela iria perder tempo procurando minha carteira no parque? — e só consegui murmurar um agradecimento. Percebi ali o quão engraçada eram as relações humanas, tinha visto essa mulher nua tantas vezes e naquele momento ela parecia vestir uma armadura completa, daquelas que a gente não enxerga nem os olhos da pessoa. Não tinha sequer um assunto para puxar conversa. Fiquei sentado e calado, ela ficou olhando pra mim e, de repente, saiu. Permaneci no mesmo lugar, respirei fundo. E saí também.
Daniela veio ao meu encontro e eu resolvi ligar para um guincho novamente, mandar meu carro pra uma oficina, depois colocá-lo a venda. Na verdade, se pudesse jogava-o fora...
Tinha desligado o celular quando Daniela me abraçou por trás e começou a acariciar meu pescoço. Fiquei louco:
- Daniela, não cutuca a onça com vara curta.
Ela me beijou a nuca:
- Vamos pra um lugar reservado, sim? E depois você me diz o seu segredo de ser tão irresistível... Eu estou que não posso te ver...
E deslizou a mão até a altura do meu cinto.
- Me mostra onde fica seu quarto então...
Ela agarrou minha mão e me levou correndo escadaria acima.
Entramos no quarto dela, a decoração toda em vermelho e branco me deixou mais excitado ainda. Ela pulou em cima de mim me jogando em cima da cama, me beijou intensamente e somente desabotou minha calça, me acariciou de leve pra me enlouquecer ainda mais. Levantou o vestido, tirou a calcinha, jogou em mim e não pude deixar de sorrir. Em seguida ela montou em mim, e mais uma vez perdi a noção de quem eu era, de onde estava e de tudo que vivi até ali.
Terminamos e ela deitou do meu lado, beijou meu rosto, pegou a calcinha dela de volta e foi para o banheiro se ajeitar. Eu, se pudesse, ficava ali e cochilava um pouco, mas iria pegar mal e isso seria mais que péssimo — estava na casa dela com a família toda! -. E chega de situações "mais que péssimas", elas estavam sendo uma constante na minha vida.
Daniela desceu primeiro e eu desci um pouco depois. Vi Fabrícia entornando o que parecia ser um copo de vodca, mas o tal "Marinho" me distraiu quando veio correndo até mim e agarrou na minha mão:
- Venha cá, senhor Mário, quero mostrar o senhor para uns amigos meus, eles não acreditam que temos o mesmo nome, acredita?
Respirei fundo. Fui com ele. Aproveitei para lhe fazer uma pergunta decisiva:
- Escuta, rapazinho, sua mãe te disse porque te deu esse nome?
- Sim, já te falei, ela me deu esse nome por causa do meu pai que morreu. Ele morreu quando eu nasci, então eu nuuuunca vi ele, mas a minha mãe disse que eu sou bonito como ele era. O senhor me acha bonito, senhor Mário?
Engoli seco:
- Sim, sim — disse sem graça — é uma criança muito bonita. Quantos anos está fazendo hoje?
- É, sete anos, senhor.
Um garçom passava por nós e peguei um copo de qualquer coisa. Virei, era uma batida. Não sei de que era porque não senti o gosto.
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