Calderón e o Cupido
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Tomei café e fui para a casa de Daniela com a porta do carro arrombada, mas nem me dei conta disso. Eu estava gelado, tenso, pesado... A simples possibilidade de ver Fabrícia de novo, ou melhor, a simples possiblidade de ver Fabrícia me ver de novo me fazia querer sumir de Bogotá; sentia-me como uma criança arteira fugindo do cinto.
O endereço que Daniela me deu era de um condomínio fechado e quando pediram para que me anunciasse confesso que rezei todas as orações que aprendi desde a infância para que fosse a própria Daniela que atendesse. Parece que ela foi ela mesmo. O porteiro pediu para que eu seguisse, me mostrou a direção e fui. As mãos estavam geladas e suando, tive que limpá-las umas três vezes na calça porque estavam me atrapalhando a dirigir. Avistei a casa. Quase tive um colapso nervoso. Vi balões coloridos e carros por toda parte. Havia crianças que não acabavam mais, correndo por todos os lados e gritando como se tivessem tomado algum alucinógeno. Aquilo me deu um nó no estômago tão forte que nem me vi dando manobra no carro para sair dali. Já tinha dado meia volta quando Daniela veio correndo em minha direção acenando. Estava linda como sempre, usava um vestido florido, o cabelo solto e nenhuma maquiagem. Se não estivesse tão perturbado, juro que a convidaria para um almoço e uma esticada até minha casa.
Esperei — a chegar:
- Isso tudo é medo de conhecer os meus pais, danadinho?
Fiz uma negativa nervosa com a cabeça:
- Não, lógico que não! Eu só fui pego de surpresa, por que não me disse que tinha uma festa aqui?
Ela sorriu:
- Por que senão você não vinha.
Tive de rir, não tinha outra alternativa. Mas foi um riso tão forçado que,certamente, ela percebeu.
Peguei logo o celular:
- Aqui.
- Ai, obrigada de novo. Nossa, ainda preciso chamar um monte de gente para vir aqui...
Nesse ínterim, veio um menino de uns seis, sete anos mais ou menos, chamando pela "tia" Daniela.
Ele chegou aonde estávamos e me olhou curioso:
- Oba, o senhor também veio para a minha festa?
- Não, não, rapazinho, vim só pra fazer um favor para sua tia.
Foi aí que eu fiz uma associação estranha: E se ele fosse filho da... Ergui as sobrancelhas, tive medo sequer de terminar meu pensamento... Fiquei parado, calado, de sobrancelhas erguidas parecendo um idiota. Esse meu semblante só foi substituído por outro mais rídiculo ainda quando vi pelo retrovisor que a própria Fabrícia vinha em minha direção. Num reflexo, pulei do banco e liguei a ignição do carro. Daniela se assustou:
- Já vai?
- Vou, sim, Daniela, preciso ir ao parque.
Mas Fabrícia chegou antes. Passou a mão na cabeça do menino:
- Marinho, meu anjo, você não pode largar sua própria festa de aniversário assim...
Encostei a cabeça no volante. Meu cérebro deu um curto e teve seu processamento prejudicado. Estava segurando a chave na ignição, mas girá-la e resolver uma questão de cálculo avançado estavam no mesmo nível de dificuldade.
- Não, mãe — disse o menino — é que eu vim ver o amigo da minha tia Daniela, mas ele não quer ir pra minha festa.
Ela me olhou sorrindo ironicamente:
- Ora, ora, Mário Calderón, você está ótimo...
Levantei a cabeça tentando disfarçar meu constragimento, sorrindo:
- Olá, Fabrícia, não estou melhor do que você nunca...
Ela virou-se para o menino:
- Viu, meu filho, esse senhor tem o mesmo nome que você. — e sorriu sarcasticamente de novo.
O menino sorriu:
- É! E tem o mesmo nome do meu pai também, né, mãe?
Meu nervosismo alcançou um nível tão inimaginável que quebrei a chave dentro da ignição. Levei um susto:
- Ai, droga!
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